quinta-feira, 23 de maio de 2024

Restos de um naufrágio

                                            Jorge Finatto

                           Imagens: Clara Finatto





                           

Pela rua passa, outra vez, um rio de lembranças no bairro Menino Deus. Voltaram os chaparrões com seu aguaceiro infernal, seus relâmpagos, seus raios e trovões assustadores. É a nova rotina que já ninguém mais agüenta.

Um tempo em que a ciência nada ou quase nada explica e no qual serviços públicos não se mostram à altura dos acontecimentos.

Pela rua flutuam coisas afogadas que pessoas perderam na fuga desesperada. São restos de muitas vidas que vão se distanciando na correnteza.

Quem dorme ao ouvir o vento batendo nas portas e janelas anunciando o naufrágio iminente? Nem os mortos.

Atônitos esperamos um dia azul que nos devolva o Sol e, quem sabe com ele, a esperança.

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As imagens impressionantes feitas por Clara Finatto hoje falam dessa tragédia com rara sensibilidade.

sábado, 18 de maio de 2024

Brasil, árvore solidária

                                                              J.F.                 

photo: Clara Finatto, bairro Menino Deus, Porto Alegre, maio 2024


A árvore pau-brasil, da qual se originou o nome do país, tem muitos galhos, gera sombra generosa nos dias de Sol forte e de seca, tem linda flor e bela cor vermelha em seu interior. É  madeira nobre, cobiçada, de lei, e, devido à extração impiedosa, necessita ser protegida.

O Brasil tem, como sua árvore, muitos braços/galhos de diversidade, solidariedade, calor humano, empatia e energia para a urgente luta contra a tragédia, e valor para a reconstrução.

Então o que eu vejo é que o Rio Grande do Sul sai mais forte desse desmesurado desastre, e sai mais resiliente, mais humano e aberto ao futuro. E, sobretudo, sai mais brasileiro. 

E o Brasil, com essa enorme capacidade humanitária revelada, sai mais brasileiro também.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Querência Amada

                                                        J.F.


photo: jfinatto


Campos de Cima da Serra

um pedaço de céu na Terra.

- Dilúvio 2024 -

Essa dor vai passar.

sábado, 11 de maio de 2024

Aurora Austral

                                         Jorge Finatto


photo: Gabriel


Um fenômeno raro - mais um - está ocorrendo neste momento  na querida Ushuaia, cidadezinha argentina mais ao Sul do continente, conhecida também como Cidade do Fim do Mundo. Depois dela, o Estreito de Drake e a Antártica.


Trata-se da Aurora Austral decorrente de tempestade solar severa que está ocorrendo desde sexta-feira, podendo atrapalhar o funcionamento de redes de energia e sistemas de comunicação via satélite, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos

 

Em Ushuaia está o fim da Cordilheira dos Andes (ou o início pra quem olha de lá para o Norte). À beira do Canal de Beagle, que liga o Atlântico ao Pacífico, é um lugar único, frio o ano inteiro, que vale a pena conhecer.


Bem, nós aqui no Rio Grande do Sul não precisamos de mais um desastre natural a comprometer nossas vidas. Que Deus acalme também o Sol  e proteja a todos nós.

A photo foi enviada à minha filha Clara por seu amigo argentino Gabriel, lá residente.


quarta-feira, 8 de maio de 2024

A correnteza

                                             Jorge Finatto

photo: Clara Finatto, bairro Menino Deus, Porto Alegre.

                                                

Primeiro foi o vento, o vento, o vento cavalo doido galopando nas ruas, nas janelas e telhados

depois veio a chuva,  dilúvio sem arca, festival de relâmpagos, trovões, raios e apagamentos

depois chegou a noite, a noite vertical e imemorial do início dos tempos, noite gelada, de pedra, indevassável

saltou o grito (ninguém ouviu), e a água subiu, a água tocou a nuvem, a casa desmoronou  e tudo que ela guardava, coisas, lembranças, sentimentos, afundou

então fez-se silêncio, o silêncio noturno e ermo dos ausentes, sufocado pela correnteza cor de barro.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Querência em transe

                                             Jorge Finatto

                                    

Nunca presenciei uma situação como essa. Por força da profissão trabalhei em várias cidades do Rio Grande do Sul, algumas delas no interior profundo. Experimentei diversos ambientes e climas. Mas jamais vi tempestades em seqüência por todo o Estado como as desta semana.

Nesta sexta-feira, faz seis, sete dias que convivemos com chaparrões e sua profusão de raios, relâmpagos, trovões, enchentes, desmoronamentos, interrupção de estradas, soterramentos de casas e pessoas.  Mortes.

Também nunca tinha ficado  isolado,  sem poder ir para outras cidades em função da destruição de estradas. Mas isso neste momento é o de menos. A tristeza está no fato de ver tantas pessoas desalojadas de suas casas e muitas outras desaparecidas, feridas ou mortas. Nem vou falar do trauma psicológico.

A crise climática é um fato presente aqui e em outros lugares. A "culpa" não é da natureza, mas da conduta humana. As piores previsões estão se confirmando.

Provavelmente chegamos, no planeta, a um ponto sem retorno. Ou alguém acredita no bom senso  e nos bons sentimentos dos líderes mundiais? Mas a vida é hoje, e devemos fazer o que for possível para salvar a querência amada do Rio Grande do Sul, e nós, seus  sofridos habitantes.

domingo, 28 de abril de 2024

Antúrio para os corações

                                          Jorge Finatto


        

Em forma de coração, o Antúrio é flor que harmoniza o ambiente e a alma. 

Tê-lo em casa é uma inspiração para a beleza e os bons sentimentos. 

Quem há de resistir tamanho encanto? Só os brutos. E os desiludidos da vida (que, por ele, podem talvez voltar a viver).

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photo: jfinatto

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Façamos como as rosas

                                             Jorge Finatto


                      photo: jfinatto


"Morrer não é nada. Difícil é deixar de viver."  A frase, que cito de memória, vem de um poema de Mario Quintana. E resume o meu sentimento em relação à finitude humana. 

A morte não merece maiores considerações, acontece e fim.  Viver é, sim, a grande notícia e é o que nos resta. Só de pensar que a maravilha terá fim um dia dá um nó no peito. Façamos como as rosas. Aproveitemos o milagre de cada dia.

segunda-feira, 25 de março de 2024

domingo, 28 de janeiro de 2024

Casas velhas, almas vivas

Jorge Finatto.


jfinatto, Montevideo, 26.1.24


Mario Quintana, o nosso poeta, disse alguma vez que não apreciava a arquitetura moderna porque ela não construía casas antigas. Digo eu que mesmo casas abandonadas conservam no semblante uma humanidade que não encontramos nas modernas construções. Quantas histórias, quantas memórias  habitam entre estas paredes que o tempo desfigurou. Mas se um dia um novo morador abrir-lhes as portas cerradas, começarão tudo outra vez, povoando-se de vida desde o sótão até o porão. E outras histórias serão contadas. Precisam apenas de uma mão amiga que lhes abra as ventanas para o Sol entrar e povoar de ouro a escuridão.


domingo, 21 de janeiro de 2024

Inspiração

Jorge Finatto

photo: jfinatto


Todas as manhãs vou ao jardim ver se uma nova rosa floriu. E, quando isso acontece, me aproximo, respiro lenta e profundamente até a rosa fazer parte de mim.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Sossego

 Jorge Finatto


Longe dos fogos de artifício, sobretudo dos barulhentos, dos festejos à beira mar que cobrem a areia de lixo e poluem o mar, longe dos augúrios altissonantes e ocos de sentido, distante das gritarias e dos bêbados brindes, das falsas profecias, num lugar onde o sossego, a paz, a conversa fraterna e a natureza ainda são a melhor promessa. Cada um tem seu jeito de ser feliz (ou algo perto disso).

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photo: Canela, casa enxaimel na área do Castelinho Caracol.

domingo, 24 de dezembro de 2023

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

O amor é um invento

 Jorge Finatto

photo: jfinatto

Estar sentado com ela, no silêncio verde da redoma de um salgueiro, na Praça dos Açorianos, fazia dele um homem feliz. Perigosamente feliz.

A memória daqueles dias ficou impregnada na sua alma. Não como uma ferida: como celebração da ternura. Essa é uma das razões que o fazem pensar que não passou pela existência em vão.
No fundo do espelho das águas da Ponte de Pedra, a imagem do jovem casal ficou para sempre guardada.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Embarcadero

                                                                                                         Jorge Finatto

                           



Uma tarde no cais Embarcadero. Olhando o movimenro das pessoas e dos barcos. Depois o pôr do sol avança como um incêndio sobre o Guaíba. Aos 67 eu sinto renovada ternura por tudo isso que foi e é também o meu lugar. Muitas pessoas que podiam estar aqui comigo não estão mais. Viajaram pra outras esferas. A gente viaja mesmo sem querer. Essa a lição do cais. Mas hoje estou aqui com os pés firmes no chão olhando a cidade na beira do rio. E não há solidão que atrapalhe tanta beleza.

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segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Um jeito de ser feliz

 Jorge Finatto

Ontem, domingo, acompanhei meu filho caçula, Lucas, até o Parque Harmonia onde participou da maratona de Porto Alegre. A corrida se deu à margem do Guaíba, percorrendo a orla. Havia mais de 4 mil pessoas. Entre tanta gente, consegui ver o filho no momento da partida e na chegada sentindo a emoção de pai coruja.
Conforme entendimento do Lucas, pouco importa a classificação. Importa estar lá, participar, correr, ser feliz ao lado de outras pessoas às 8 horas da manhã de um domingo azul.
Me chamou a atenção ver vários pais levando filhos com deficiência participar da maratona empurrando-os em carrinhos adaptados. Na face daqueles pais e seus filhos vi um momento de grande felicidade. Vê-los assim me emocionou.
Um senhor que aparentava ter mais de 70 anos estava desistindo da prova, não conseguia ir adiante. Nisso aproximaram-se dois corredores, um de cada lado, e devagar o auxiliaram a continuar. Ele foi em frente e os três ultrapassaram a linha de chegada juntos...
Diante de tanta humanidade, o pódio é o que menos interessou. Todas aquelas pessoas eram vencedoras pelos simples fato de estarem ali. No final, abracei forte o meu Lucas.
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terça-feira, 7 de novembro de 2023

Solitudes na Feira do livro



"Este livro trata da solidão e do isolamento. O tema é abordado de forma delicada a partir de motivos simples do cotidiano, e o autor busca, através deles, a espiritualidade que emana dessa condição incontornável da vida humana. Se por um lado a solidão nos acompanha desde que nascemos, por outro necessitamos de proximidade para viver e realizar nossa humanidade. Quando reconhecemos nossa solidão, podemos caminhar de modo mais inteiro em direção ao outro."

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Photo de Bruna Gomes

Pedidos para:

acasadachuva@hotmail.com


quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Solitudes, o livro

                                                                                                                


No próximo dia 31 de outubro, a partir das 18h, estarei recebendo amigos e leitores no Z Café para a apresentação do meu livro Solitudes. O volume tem ilustrações de minha filha Clara Finatto. O endereço do Z é: av. Nilópolis, 543, em frente à Praça da Encol aqui em Porto Alegre. Venha para um copo e um abraço.


quarta-feira, 4 de outubro de 2023

domingo, 1 de outubro de 2023

Feira do Livro de Gramado 2023

                                                 J.F. 

            



[Amigos, devido a dificuldades inesperadas, não poderei, infelizmente, estar presente na Feira de Gramado. Desejo aos organizadores e autores sucesso no evento. Abraços.]

  



Poucas coisas me fazem descer os 1800 metros de altitude de Passo dos Ausentes. Não me agrada sair da querência.

Juan Niebla, regente cego da nossa orquestra de câmara, e Don Sigofredo de Alcantis, filósofo-mor da aldeia, estimularam-me a participar da Feira do Livro de Gramado.  

Por essa razão, enfrentando geada, trovoadas e aguaceiro, estamos viajando por estradas de chão a bordo da inefável Pajero Full em direção à cidade do cinema. 

Levamos camas de campanha, lampiões, lonas, uma cozinha compacta e saleta de madeira de armar para o mate, o chá e a charla.

Ficaremos acampados no Parque do Caracol, imediações do Arroio Tiririca, em Canela, onde receberemos companheiros de estrada, até o dia do autógrafo no belo casarão do Centro Municipal de Cultura.

Abraços.


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Cantar de amores

 Jorge Finatto

                             



Em tempo de afetos ligeiros, não é comum ouvir alguém cantar de amores.  Fala-se no fim do amor romântico. Não se anda mais com os pés em nuvens, não se voa entre estrelas com cata-vento ao chapéu. 

Nada de emoções fortes que amolecem as pernas, apressam a respiração e ofusquem o pensamento. Dirá o poeta que roubaram da primavera as flores e, das naus, o vento cálido rumo à ilha desconhecida. O tempo não está para poemas desbragados cantando o amor.

Mas nem tudo são pedras. Ouça a canção “Chico” da cantora e compositora Luísa Sonza. Ela tem 25 anos e é natural da cidade de Tuparendi, no Rio Grande do Sul, nosso Estado tão devastado por ciclones nos últimos dias. A música do álbum “Escândalo Íntimo” é uma suave notícia em meio às inumeráveis tragédias que assolam a nós e ao planeta.

Ao embalo melódico da Bossa Nova, "Chico" é uma declaração de amor como não se usa mais. Arranca emoção mesmo dos corações mais desiludidos. Num mundo em que se perdeu a capacidade de amar o amor romântico, por medo de entregar o coração ou por qualquer outra coisa, ouvir “Chico” é um tapa na cara da indiferença.

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photo: jfinatto

sábado, 9 de setembro de 2023

Viajando na fotografia

                                               Jorge Finatto 

 

photo: Lago Lugano, Suíça, jfinatto

Gosto de entrar na fotografia. E de viajar nela. Caminho na beira do lago. As gaivotas voam sobre as árvores e os bancos. Pouca gente no lugar. Início do outono. 

Só penso em andar, mais nada. Em respirar, mais nada. Os dois pés no momento. O que não for agora não interessa nessa hora. Andar assim é sempre bom. 

Depois sento no banco. Do outro lado é a Itália. Mais abaixo, a África. O mundo é mesmo um só quintal. Guardo o livro sobre o colo. Fecho os olhos, respiro fundo. 

Habito o instante. Quero que todos fiquem bem.