domingo, 13 de novembro de 2016

O hotelzinho de Rilke e Goethe

Jorge Finatto

Castelo de Muzot. photo: jfinatto
 
Olhai, as árvores são; as casas que habitamos, resistem. Somente nós passamos (...) 
 fragmento da Segunda Elegia. Rainer Maria Rilke ¹


NA CIDADEZINHA DE SIERRE, sul da Suíça, no Cantão  do Valais, hospedei-me num pequeno hotel 3 estrelas. Perto da estação de trem, tem comida caseira regional e bom vinho. O imóvel é do século XVIII e, segundo seus registros, recebeu no passado, como hóspedes, Goethe (1749 - 1832) e Rilke (1875 - 1926), dois grandes da literatura de língua alemã.
 
O Hôtel de la Poste passou por reformas ao longo do tempo, claro. É simples, caprichoso e as pessoas são acolhedoras. Ocupei um quarto no segundo andar, imaginando se Rilke ou Goethe teriam ficado nele alguma vez. Será que escreveram na mesinha junto da janela, atrás da cortina cor-de-rosa?

Enquanto me acomodava, a neve tecia caminhos de úmido algodão lá fora.

Hôtel de la Poste.Sierre.  photo: jfinatto
 
vista do quarto. Sierre. photo: jfinatto

A razão de minha visita à pícola cidade, cercada pelo maciço rochoso coberto de neve dos Alpes, era percorrer os passos de Rilke em seus últimos cinco anos de vida. Na região de Sierre terminou de escrever as Elegias de Duíno, iniciadas na Itália em 1912. E verteu para o francês parte de seus poemas, além de outras criações e de cultivar a extensa correspondência.
 
Rilke em Muzot. photo: Fundação Rilke²

Entre 1921 e 1926, viveu no castelo de Muzot, emprestado por alguém da aristocracia local. O imóvel situa-se mais exatamente na pequena e calma localidade de Veyras, ao lado de Sierre. Nele escreveu e recebeu muitas cartas, fez poemas, traduziu, conviveu, amou, planejou viagens, foi feliz e chorou  em silêncio sentado no banco sob a parreira do quintal.

Muzot pouco lembra um castelo, não é grande nem suntuoso. Trata-se na verdade de uma construção que lembra uma torre. Não se pode entrar no local, pois é propriedade particular. Não sei se possui objetos do poeta, não há informações a respeito. Mas o fantasma de Rilke deve perambular por seus espelhos.  
 
Em Muzot compôs o poema-epitáfio. E mandou construir seu túmulo ao lado da igrejinha que costumava freqüentar, em Rarogne, a cerca de 30 quilômetros de Sierre, engastada na encosta alpina, depois que se descobriu com leucemia, na época incurável.

Aquele lugar tinha para Rilke um sentido místico. Situado sobre uma colina, com ampla visão dos alpes a leste e oeste, a passagem do rio Ródano no meio dos vales, nos remete ao sagrado. Há algo nesta paisagem que não se explica. Uma visão mágica que inspira um forte sentimento de transcendência..

Igreja de Rarogne, ao lado da qual está enterrado Rilke. photo: jfinatto


túmulo de Rilke. Rarogne. photo: jfinatto
 
A cidade de Sierre, na qual cultivou relações, mostra interesse pela memória do poeta, a começar pela Fundação Rilke ali existente. Numa livraria, porém, os livreiros mal conheciam seu nome, o que me causou certo espanto. Talvez por ser um devoto da poesia rilkeana esperava mais. Encontrei poucos livros dele na estante, comprei seu poemas franceses.

Já escrevi no blog sobre como descobri seu túmulo solitário e coberto de neve e da emoção que senti ao ler o famoso epitáfio inscrito na rósea e gelada pedra tumular.³

epitáfio do poeta. photo: jfinatto

Rosa, ó pura contradição,
volúpia,
de ser o sono de ninguém
sob tantas
pálpebras. 4

Caminhei ao léu nas ruas solitárias e geladas de Sierre. Admirei da estrada o castelo de Muzot com seu quintal, a parreira e o banco.

Memórias de um poeta que me acompanha desde a adolescência, a quem sempre serei grato pelas lições de vida e poesia em seus livros. Cartas a um jovem poeta é um dos grande livros já produzidos pelo homem em todos os tempos. O poeta genial, humilde e cordial que nunca se cansou de desvelar os mistérios de nossa passagem pelo mundo.

_____________  

¹ Elegias de Duíno. Rainer Maria Rilke. Tradução e comentários de Dora Ferreira da Silva. Edição bilíngüe alemão-português. Editora Globo, São Paulo, 2001.

² Fundação Rilke:
  http://fondationrilke.ch/la-fondation/

³ O epitáfio de Rilke:
 http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/12/o-epitafio-de-rilke.html

4 Tradução de Manuel Bandeira, em sua Antologia Poética, Livraria José Olympio Editora, 7ª edição, Rio de Janeiro, 1974.
 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Memorial da vida breve

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto


O QUE NOS liga à vida
é um fio muito tênue

o tempo de estar
no mundo é breve

traço de luz
sopro divino

a gente nunca sabe
quando a maravilha
vai se apagar

nada nunca está completo
nenhuma vida é suficiente
o transitório é nossa medida

somos a névoa
que passa
e não volta

ave, poema

_________

Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Caminho dos ventos

Jorge Finatto

fotos: jfinatto
 
Gosto de coisas que se movimentam conforme a levada dos ventos. 

QUANDO A GENTE pensa que aprendeu alguma coisa na vida, que já sofreu o seu quinhão neste mundo de Deus, aí vem o imponderável e mostra o contrário. Tudo continua em aberto.

É por isso que eu gosto de flores, cata-ventos, pandorgas, borboletas, palmeiras, livros e gente que não é inflexível.

Estou exausto de tanta dureza e indiferença. Não precisava ser assim. A vida é um dom raro demais pra ser desperdiçado com tanta injustiça, maldade e sofrimento.

Gosto de coisas que se movimentam conforme a levada dos ventos. Construo as próprias asas no galpão de fundo de quintal da minha alma.

Quero mais humanidade, beleza e leveza no voo.
 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Os mortos, os vivos e as flores

Jorge Finatto

photo: jfinatto, 04/11/2016
 

EM MEMÓRIA dos meus mortos, saí pela estrada à procura de flores. Dizem que os mortos adoram flores. No Dia de Finados, os cemitérios das cidadezinhas mais parecem floriculturas a céu aberto.
 
Alguns acreditam que os falecidos acordam da eternidade só para ver as flores recém depositadas e depois voltam a dormir. Eu de nada duvido nesta vida.
 
Em Nova Petrópolis, passei um pedaço da tarde na Úrsula, uma impressionante casa de flores.

photo: jfinatto, 02/11/2016
  
Admiro em Deus essa capacidade de desenhar e pintar suas obras florais. Inspiradíssimo. E em muitas delas acrescenta, ainda, de lambuja, os mais finos aromas. Encontrei, por exemplo, uma flor com etéreo cheiro de chocolate.
 
Recomendam-se flores principalmente aos vivos, neste jardim cheio de espinhos que é viver. Espantam qualquer tristeza e matam saudades.
 
photo: jfinatto, 02/11/2016

 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Cais

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto
 
 
Tem dias em que saímos
com o corpo nu
para alojá-lo na primeira copa de árvore
e chorar longe dos homens

dias em que os desejos
até os mais secretos
sucumbem apagados
na penumbra

tempo de total privação
da carne e do sonho
tardes em silêncio reveladas
intervalo entre dois mundos

olhamos o céu
no quadrado da janela
esperando ver a face de Deus
procuramos Deus
no íntimo da alma e das coisas
precisamos repousar no colo de Deus
sentir suas mãos nos olhos
para amparar a lágrima quente
que por ali verte

tem dias em que estranhamos
o próprio olhar
que amanheceu mais seco
não reconhecemos a rua
onde tantas vezes inventamos o amor
na sombra dos cinamomos

as melhores viagens
ficaram sonhando no cais
enquanto navios partiam
repletos de homens decididos
em busca de cidades felizes

onde andará o menino
que nos visitava nos dias
em que tudo em volta
parecia desabar?

em que gare deserta
se perdeu o guarda-chuva melancólico
com que meu avô ia à cidade
buscar a porção diária de pão
esperança
e jornal?

tem manhãs em que apesar do sol
não habitamos o claro sentido
de existir
mal percebemos a luz
acalentando o corpo

manhãs em que o carteiro
extravia a carta que irá nos salvar
a notícia tão esperada
que nos revelará
um mundo desconhecido
onde pandorgas falam
e o arco-íris é uma escada
que nos retira do poço

não compreendemos
as mãos cansadas
a boca amarga
com que damos bom-dia aos vizinhos
cumprimentamos os superiores

tem dias em que o isolamento
é tão assombroso
que sentimos tristeza em tudo
principalmente na alegria ingênua
das velhas fotografias
uma dor inevitável
diante dos sonhos da infância

dormimos em quartos de aluguel
projetamos ataúdes de aluguel
as dívidas invadem a porta
os poros

o amanhã ficou torto
na cordilheira dos dias
sem luz

a cidade parou no escuro
sufocou nossos melhores anos
inundou o rio
com seus maus óleos
seu excremento

não merece um verso
sequer uma notícia fugidia
em página de jornal

talvez careça uma bomba
um terremoto
talvez uma flor
povoando o asfalto

estamos um pouco mais tristes
e calados
(um pouso só)

trazemos um gosto de sol
entre os dentes
um resíduo de primavera
na palma da mão
uma promessa de encontro
nos olhos

 __________________

Do livro O Fazedor de Auroras, Jorge A. Finatto, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
photo: Cais de Porto Alegre

sábado, 29 de outubro de 2016

O tempo à beira do arroio

Jorge Finatto

velas. photo: jfinatto

 
SESSENTA VELAS ao vento no meu velho barco, sessenta cidades, sessenta despedidas, sessenta portulanos, sessenta astrolábios, sessenta esperas, sessenta remorsos, sessenta naufrágios, sessenta silêncios, sessenta encontros, sessenta novembros no baú do tempo.

Lembro o arroio que passava atrás da casa lá da infância. Corria à margem da horta e do quintal. Entre mim e o arroio, as alfaces, os pintos, os pinheiros e as roupas no varal . Entre mim e o arroio, a cálida intimidade de amigos de infância, o mundo inteiro pela frente.

As águas vinham do interior profundo da terra. Nasciam em algum remanso dentro da mata, limpas, frescas. Vinham alegres, vinham cantando pelos caminhos sinuosos.

Um dia entrei no meu barco de papel e segui com o arroio em direção ao mar. Depois, bem, tudo veio depois. Mas a casa e o arroio ficaram lá, com os seres amados, guardados num lugar secreto do meu coração onde nenhuma tempestade pode entrar.
 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Não me abandones

Jorge Finatto
 a Chet Baker*
 
Chet Baker (1929-1988)

Não me abandones
povoa a noite
com teu suprimento
de afeto

enche o deserto
com teus passos

em segredo
devolve-me
a delicadeza
daqueles dias

me dá outra vez
o diamante
da tua
presença


________

*Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Leia também Chet on poetry:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/06/uma-viagem-sentimental.html

sábado, 22 de outubro de 2016

A crônica de Pedro Mexia

Jorge Finatto

 
Algumas dessas crónicas sobre mim não são de facto sobre mim. Se fossem, certamente não interessavam a ninguém (sobretudo não me interessavam a mim). Essas crónicas são também, assim o espero, sobre si, leitor. Meu atento leitor, meu semelhante, meu irmão.
   
Pedro Mexia, trecho da crônica Primeira Pessoa.(grafia de Portugal)*


Ser um bom escritor é muito mais do que uma questão de inteligência, cultura e técnica literária. É preciso antes que haja vida por trás das linhas, uma cabeça e um coração capazes de comover-se com o ser humano no difícil ato de viver. E é preciso ser duro às vezes.

Descobrir um escritor que nos faz reencontrar a ventura do texto é um acontecimento cada vez mais raro, ao menos pra mim. Quando acho um livro assim, os meus dias se enchem de uma espécie particular de alegria, algo que, se não é um pedaço do paraíso, anda perto disso.
 
Nas minhas viagens a Portugal, garimpando em alfarrabistas e livrarias, tenho encontrado autores atuais de grande talento. Não só portugueses como de países outros da comunidade lusófona.  Por uma dessas razões que escapam à compreensão, nossas literaturas estão separadas. Não se conhecem, parece até que falam línguas diferentes. Algo muito além do Atlântico nos divide.
 
O meu primeiro passeio, em qualquer cidade, é a banca de jornal e, depois, o café. Lisboa oferece ótimas estações. Foi assim que conheci dois grandes cronistas portugueses: Manuel António Pina e António Lobo Antunes, autores que escrevem também em outros gêneros. Pina, infelizmente, já morreu. Imensa falta me fazem os textos que escrevia no Jornal de Notícias. Escrevi sobre ambos nesta página elétrica.

Pois um dia desses, lendo um artigo do escritor angolano José Eduardo Agualusa, no jornal O Globo, com o título A literatura pode sobreviver sem crítica?, encontrei referência ao lisboeta Pedro Mexia.
 
Resolvi procurar na livraria, em Porto Alegre, algum título dele. E encontrei justamente o livro de crônicas Queria mais é que chovesse, que marca sua estréia no Brasil, terra de cronistas do porte de Alvaro Moreyra, Rubem Braga, Olavo Bilac, Drummond, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e José Carlos Oliveira, mestres do gênero.

Não imaginava o que me aguardava nessas páginas. Um dos melhores cronistas da atualidade, autor que areja o gênero, conferindo-lhe graça, beleza, ironia, realismo e poesia, colhidos no pátio dos dias. Uma mistura muito bem dosada, e refinada, desses ingredientes povoa seu texto.

Só os incautos podem considerar a crônica um gênero menor ou fácil.

Existem escritores belos e vazios como pavões de feltro. E há aqueles que carregamos no bolso do casaco por onde andamos. Já não podemos passar sem eles. Este é o caso de Pedro Mexia, grata revelação em tempos de tantos pavões de olhar mortiço empoleirados nas estantes.
 
__________ 

*Queria mais é que chovesse. Pedro Mexia. Editora Tinta-da-China Brasil, Rio de Janeiro, 2015.
 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O Nobel de Bob Dylan

Jorge Finatto
 
Bob Dylan *
 

BOB DYLAN (Robert Allen Zimmerman, 75 anos) é um artista inspirado e inspirador. Alguém que surgiu da obscuridade e construiu um espaço na canção mundial.

Tornou-se um músico original, intérprete criativo, pensador e poeta do nosso tempo. Toca com lirismo e fé aquela gaitinha de boca. Um autêntico menestrel viajando na Via Láctea.
 
Causou estranheza o fato da Academia Sueca ter-lhe concedido, na quinta passada, 13 de outubro, o Prêmio Nobel de Literatura. Normalmente concedido a escritores de livros (em poesia ou prosa), este ano fugiu do padrão. Muita gente vai às livrarias atrás de obras do agraciado com o galardão. Isto dificilmente ocorrerá com o Nobel de 2016, porque o material literário de Dylan é muito escasso e, no Brasil, quase inexistente. O interessado deverá, neste caso, dirigir-se à seção de discos.
 
Um dos livros aqui editados intitula-se Tarântula (Editora Brasiliense, 1986), de prosa poética, e o outro Crônicas - volume 1 (Editora Planeta, 2005), ambos difíceis de encontrar. Não li nenhum. Encontrei a informação de que, em novembro próximo, nos Estados Unidos, será lançado um livro com todas as letras do famoso compositor. Tenho muita vontade de conhecer um livro de pinturas dele sobre o Brasil.
 
O que chama atenção é a mudança de enfoque do prêmio, levando a questionar os limites do que se considera literatura. Será apenas aquela a que estamos acostumados, livresca, impressa ou eletrônica? Letras de música, caso de Dylan, são também literatura? Para a Academia Sueca, parece que sim.
 
Aliás, não há novidade em considerar letras um gênero dentro da literatura, havendo estudos nesse sentido. No Brasil, país de poucos leitores, os textos musicais são uma das principais formas de expressão e comunicação com o público. Através deles, os autores celebram a sensibilidade, a poesia e fazem a leitura da  nossa realidade. Temos poetas extraordinários na canção popular, como Lupicínio, Cartola, Vinicius, Tom, PC Pinheiro, Caetano, Chico, Fernando Brant, Ary Barroso, Caymmi e muitos, muitos mais.
 
Não vejo, portanto, blasfêmia na atribuição do Nobel a Dylan. Ele é, por sua arte, merecendente.
 
Penso, contudo, que o prêmio de literatura deveria ficar com os escritores de ofício, dedicados à produção de obras literárias. Não é exatamente o caso das letras de música. Estas funcionam esteticamente junto com a canção (para isso são feitas). Isoladas, nem sempre atingem um resultado artisticamente válido. O que deveria ser criado é um Prêmio Nobel de Música, contemplando-se, assim, especificamente, os criadores desta arte. 
 
Escritor é uma raça tão solitária, sofrida, esquecida, torturada e difícil de entender que merece, ao menos, ter um Nobel por ano para aliviar um pouco as dores, traumas, recalques, incompreensões e injustiças.
 
___________ 
 
* O crédito será dado assim que conhecido o autor da imagem.
 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Olhar sobre Veneza

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

Nesta quarta-feira, 19 de outubro, começa a exposição de fotos Olhar sobre Veneza. Colhi as imagens perambulando pela belíssima cidade-museu construída sobre 118 ilhas, separadas por canais e ligadas por cerca de 400 inspiradoras pontes.

Naveguei os canais a bordo de leves e deslizantes gôndolas e fiz a pé o percurso tortuoso das fondamenta (passagens à beira dos canais). Não existem automóveis, motos, ônibus, metrô, etc. Caminha-se ou navega-se em Veneza, e isso já faz a gente se sentir noutro planeta. Os detalhes vocês verão nos 17 painéis que estarão expostos no Josephina Café, em Gramado. Benvenuti a tutti!
 

photo: jfinatto

 Venezia, la bella signora:


sábado, 15 de outubro de 2016

Paixão de primavera

Jorge Finatto

photo: ipoméia azul. jfinatto, 14/10/2016

 
NINGUÉM ESTÁ IMUNE a uma paixão na primavera. Supõe-se, contudo, que um cara na minha idade tenha anticorpos suficientes para evitar recaídas e armadilhas.
 
Afinal, já levou rasteiras, deu com a cara no chão, apanhou bastante. Deve ter aprendido a não brincar com fogo. O tempo arrefece emoções violentas, vive-se mais, digamos, espiritualmente.
 
Não por outra razão inventaram a religião, a literatura, a filosofia, as palavras cruzadas e os blogs. Quireras, quireras, estimado leitor. Não passamos de uns pobres diabos. Veja o que me aconteceu.
 
Ontem, saí de Passo dos Ausentes às 7 da manhã em direção a Nova Petrópolis. Depois de 8 horas viajando serra abaixo na intrépida Linguilingui, contornando sinistros abismos, cheguei ao destino e parei para o café da tarde (costume ainda em voga entre serranos da antiga). Logo em seguida, me dirigi ao Recanto das Azaléias, floricultura local do meu agrado. Foi aí que tudo começou.

photo: ipoméia azul. jfinatto, 14/10/2016
 
Numa curva da aléia, entre vasos e flores, encontrei-a, de repente. Ela mal percebeu a minha existência. Eu não tirei mais os olhos dela. O coração acelerou. Por instantes esqueci quem eu era. Toda minha vã filosofia caiu por terra. Eu só tinha tenção pra ela. Indefeso, fiquei a admirá-la. Pura visão.
 
Apaixonei-me, em suma. Seu nome, de remoto sabor grego: Ipoméia. Todo Quixote encontra um dia sua Dulcinéia. Intrépido, levei-a pra casa.

Ao anoitecer, a divina donzela enclausurou-se em si mesma, recolhendo-se em seus secretos aposentos. Ao amanhecer, inaugurou o suave e delicado tecido das inefáveis flores. Sentimento azul.
 
Não podia imaginar que Deus me reservava essa beleza, que eu não mereço, em plena secura do tempo. Mas aconteceu.
 
Ipoméia azul, minha paixão de primavera.

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Escrito sob a boa grafia antiga, vigorante antes do (des) acordo ortográfico.
 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A boneca de trapo

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto
 
ERA UMA DESSAS TARDES que antecedem o outono em Passo dos Ausentes. O ar outonal nos deixa mais sensíveis diante das mudanças nas cores e das primeiras quedas de folhas. As seivas concentram as forças, evitando qualquer desperdício. Em dias assim, é uma sorte estar vivo.
 
Enquanto atravessava a Praça da Ausência, encontrei uma boneca de trapo caída no chão. Era feita de velhos panos coloridos. Os olhos eram dois botões verdes.
 
Os cabelos, fios de lã repartidos em duas tranças. A boca, um pequeno risco vermelho e sorria.
 
Apesar de perdida, a boneca não parecia muito triste. Apenas carregava um toque de melancolia no semblante, que desapareceu quando a levantei.  Acomodei-a no banco da praça, embaixo de um salgueiro, ao lado do lago.

Fui embora, não sem alguma dor. No início quis levá-la comigo, dar-lhe novo lar. Mas desisti ao pensar que quem a perdeu (uma criança tudo leva a crer) voltaria para buscá-la. Seria de cortar o coração não encontrar a sua boneca de trapo.

Viver tem dessas coisas. Nem sempre (ou quase nunca) podemos ter o que nos encanta. Nem sempre, como no outono, a vida se exalta em delicadas mutações.
 
Num dia, o céu azul nos ilumina, habitado aqui e ali por nuvens cor-de-rosa, o coração bate harmonioso. Noutro, pensamentos escuros, pesados, se espalham e a gente só imagina besteira.

A boneca de trapo me lembrou coisas que perdi na vida. Perdi e me conformei. Porque nada, absolutamente nada, nos pertence nesse mundo.
 
Tudo que temos é emprestado, a começar pela vida. Um dia teremos de devolver. Nada é nosso.

Salvo, talvez, o meigo sorriso de uma boneca de trapo.

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Boneca artesanal da região serrana do Rio Grande do Sul. Texto revisto, publicado em 16 de março de 2011.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O morto-vivo

Jorge Finatto

photo: jfinatto


UM FANTASMA que lê, escreve, caminha invisível pela estrada de terra na encosta escorregadia da montanha.

Aquele que morreu e anda por aí, que teima em acordar, tomar banho, trabalhar, comer, dormir, ter pesadelo, ir ao cinema, ler jornal e livro, beber café.
 
O que espera pelo próximo livro de Guillermo Cabrera Infante, que infelizmente não virá mais.
 
Uma assombração que passa em silêncio em direção à mesa de trabalho e o trabalho é uma expansão de solidão entre nuvens.
 
O morto-vivo, coração pulsante, que resiste escrever o próprio epitáfio.
 
Viver lhe parece pouco, irmão leitor? Querias taça de champanha com uvas graúdas em mesa de toalha de linho, sob pérgula, no jardim das delícias?
 
O meio-vivo, meio-morto, no claro-escuro, ternura impossível, esta cidade gemente.
 
Há um boneco de ventríloco sentado na sua esquerda perna, anotando algaravias que ele pensa e já sonha, quando imagina que ainda vive.
 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O padeiro feliz

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, Rio Guaíba, Porto Alegre


NUM TEMPO difícil, por volta dos vinte e seis anos, com excesso de trabalho, escassez de salário e pouco prazer na vida, encontrei uma maneira curiosa de me acalmar e tocar o barco em frente: comecei a fazer pão em casa nas horas livres. Ao invés de me amofinar, vestia o avental e me enfiava na cozinha.

Produzia pães doces e salgados, com variadas especiarias e frutas, numa média de dez por semana. Inventava sabores e formas (uns lembravam um submarino, outros, uma estrela, um peixe, uma borboleta, um avião, um tijolo, etc).
 
Uma padaria artesanal e austera, feita no diminuto forno do fogão a gás. Buscava naqueles pães um pouco de inspiração, de fertilidade em meio à grande secura das coisas. Sentia-me feliz com o ofício de fazedor de pães, deliciava-me com o cheiro que impregnava o apartamento. Embrulhava-os com todo cuidado. Dava para pessoas da família e amigos.

A faina padeira durou cerca de um ano. Sublimei sofrimentos, recalques, frustrações e impotências, que assavam no forno junto com a massa. Cada pão era um ato de resistência. Quanto mais bonito e saboroso, melhor eu me sentia. De onde veio tudo isso? Sei lá. Mas funcionou.
 
Não fui um boulanger de mão cheia, longe disso. Mas também não fui um completo impostor na arte de fazer pães. Vi que servia para alguma coisa além de manusear códigos e livros de direito. Constatei que não morreria de fome se não passasse no concurso para juiz. O pão caseiro, ao menos, estava garantido...
 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Meu encontro com Walt Whitman

Jorge Finatto

photo: Walt Whitman, em 1887 . Autor: George C. Cox.
Fonte: Wikipédia.


 
Faz muitos anos morei numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. O lugar se resumia a uma igreja católica e outra protestante, duas escolas, um hospital, algumas ruas e casas e pouca coisa mais. Em volta, a natureza. Em certas tardes, eu saía a andar por estradas de terra, solitárias e com aroma silvestre.
 
Caminhar assim é como andar dentro de si mesmo.

Num dia de sol e frio, eu percorria um desses caminhos. Um córrego prateado corria na margem. Numa curva em frente, entre os altos plátanos que se erguiam nos dois lados da estrada, apareceu um homem. Quando nos cruzamos, ele me cumprimentou, em silêncio, fazendo um aceno de cabeça, que eu retribuí.

Ele tinha uma barba branca abundante, uns olhos pequenos muito azuis, o cabelo na altura dos ombros. Usava um chapéu escuro com largas abas, a face um tanto rosada. Vestia um velho casaco, a camisa abotoada até o pescoço. Trazia um livro na mão esquerda.

Eu tive certeza de que se tratava do poeta norte-americano Walt Whitman (1819 – 1892).

Fiquei orgulhoso e feliz de estar ali, pisando o mesmo chão que o grande Walt.

Seria o espectro do poeta aquele homem que eu vira? Seria alguém muito parecido?

Encontrei-o em outras duas caminhadas. Como da primeira vez, éramos só nós, a estrada verde, a brisa e o rumor do córrego. Fiquei observando o poeta. Ele entrou num desvio lateral da estrada, subiu uns cinquenta metros em direção a uma pequena casa de madeira.

A casa era muito branca e delicada. Sozinha, lá no alto, mostrava cortinas azuis nas janelas abertas, e flores, muitas flores da estação no breve jardim em volta.

Walt entrou pela porta dos fundos e desapareceu.

Uma chaminé de alumínio saía pelo telhado, soltando minúsculos círculos de fumaça.

Pensei em conversar com o poeta da última vez em que o encontrei. Talvez ele parasse um momento num remanso, conversasse um pouco comigo e até dissesse alguns versos de Folhas da Relva, sua obra-prima. Mas não. Achei melhor não incomodar. Afinal, os poetas trabalham enquanto caminham em silêncio por estradas de chão.

Um dia chegou a minha hora de ir embora da cidade pequena.

A vida seguiu, muitos caminhos eu percorri depois. Mas nunca esqueci que, em certas tardes, numa cidadezinha do interior, eu caminhei na mesma estrada por onde andava Walt Whitman.

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Transbordante de Vida
                                                      Walt Whitman

Agora, transbordante de vida, sólido, visível,
No ano quarenta de minha existência, no ano oitenta e três dos Estados,
A alguém que viverá dentro de um século, ou em qualquer número de séculos,
A vós, que ainda não haveis nascido, dedico estes cantos, esforço-me por
alcançar-vos.
Quando lerdes, eu que sou agora visível, hei-de ter-me tornado invisível; então sereis vós, denso e visível, quem lerá os meus poemas, quem se esforçará por compreendê-los,
A imaginar quão felizes seríeis se me fora dado estar ao vosso lado e converter-me em vosso camarada;
Que seja, pois, como se eu estivesse. (Não duvideis demasiadamente que não esteja então ao vosso lado).

Poema extraído de O Livro de Ouro da Poesia dos Estados Unidos, coletânea de poemas organizada por Oswaldino Marques, edição bilíngue, Ediouro, tradução de Manuel Ferreira Santos.
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Texto revisto, publicado no blog em 17, abril, 2010.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Notícias do mundo do farelo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, 27/9/2016
 

UM PASSEIO no jardim pode trazer belas revelações. Resolvi levar comigo a Coruja, ex-máquina fotográfica, quase um ser humano, companheira de andanças e descobertas.
 
Setembro é mês deveras frio em Passo dos Ausentes. Apesar disso, as cores e seivas da primavera não se escondem. Rosas vermelhas, bromélias cor-de-rosa, éricas, orquídeas, agapantos azuis, cerejeiras-do-japão, etc., dão o ar da invulgar beleza.

O ipê-amarelo está lindo de ver. Comecei a fazer algumas fotos dele. Lá pelas tantas, percebi a presença, no seu entorno, do verde colibri. Mas assim como vi, desvi, porque os olhos não andam lá essas coisas e o bichinho voa muito depressa. Quando paira no ar, são restos de segundos.

Só mais tarde constatei que tinha conseguido pescá-lo numa imagem. Pura revelação. Nada é mais importante do que o beija-flor em sua conversa com o ipê.

As coisas aparentemente insignificantes encerram as grandezas do universo. O raro mundo do farelo.
 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A guardiã da alma e do tempo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

A máquina de escrever é a verdadeira máquina do tempo.*
Guillermo Cabrera Infante

 
Contigo aprendi a escutar a chuva.

Foi o que fiz, Maria, ontem, na madrugada de insônia. E me lembrei das tardes antigas em que, no inverno, me contavas histórias na velha casa de madeira e eu adormecia ouvindo a tua voz misturada à voz do vento.

No fundo do pátio, entre os plátanos, passava o arroio, levando o céu e as nuvens no seu espelho, fazendo rumor sobre os seixos, conversando com os canteiros da horta.

O arroio rompia desde o interior verde da mata e levava mundo afora meus barcos de papel e as folhas das árvores.

Nas águas claras a nossa vida se refletia, misturada ao azul do infinito e à cor luminosa dos peixes.

O mundo era cálido e suave como ninho de passarinho.

A casa se enchia com aroma de cravo, mel, açúcar queimado e canela. Quando acordava, sobre a mesa da cozinha estavam os doces que tinhas feito.

Nunca houve um mundo mais terno do que aquele que construíste ao meu redor. Nem existiu abraço mais consolador e verdadeiro ao teu menino.

Tecias com tuas mãos delicadas o ofício de guardiã do tempo e da minha alma.

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* A Ninfa Inconstante, Guillermo Cabrera Infante, p. 16. Coleção Literatura Ibero-Americana, Folha de São Paulo, 2012.
  Texto revisto, publicado no blog, pela primeira vez, em 25 de agosto, 2012.

sábado, 24 de setembro de 2016

A palavra viva de Carlinhos Oliveira

Jorge Finatto

caricatura de José Carlos Oliveira, por Amarildo Lima¹
 
Artistas e intelectuais: é justamente a minha família. Somos uma raça que se destaca em qualquer parte do mundo pela pobreza sem drama, pelo desleixo e pelas pupilas ardentes de curiosidade. Em solidão somos sombrios, sempre ruminando um ódio qualquer ou uma insatisfação que é quase um alimento, mas reunidos somos alegres, informais, carentes de afeto e generosos. (trecho da crônica O lar dos artistas)²                                                     
                                                            José Carlos Oliveira


TENHO COMPRADO livros em sebos (alfarrabistas como se diz em Portugal). Livros que, em geral, estão fora de catálogo ou são de difícil acesso. O que me chama atenção é o bom estado dos volumes que adquiri. Em nenhum deles encontrei uma assinatura, um risco, uma sublinha ou garafunha. As páginas estão limpas como se tivessem saído ontem da gráfica.

Tão diferente dos meus livros, nos quais faço notas a caneta nas páginas, sublinho, coloco a data e o local onde os comprei, se estava chovendo, o meu sentimento naquele quando. Os meus são livros cheios de rastros.

Quero falar de um em especial, dos vários bons livros que encontrei nos sebos. Trata-se de Flanando em Paris, do escritor José Carlos Oliveira (1934-1986). Natural de Vitória, Estado do Espírito Santo, publicou suas crônicas durante muitos anos na imprensa e foi um dos grandes do gênero no Brasil. Pois este livro tem sido um dos meus melhores companheiros ultimamente.

Impressiona como o autor está vivo nestas linhas. A intimidade que estabelece com o leitor, nunca forçada, é admirável. É um diálogo espiritual entre pessoas que estão à vontade numa mesa de café, olhando a vida em volta, com tempo para sentir e conversar.

Vejo, engulo, assimilo, transformo: quando a digestão se completa, estou mais rico. Mas a digestão é lenta, são necessários anos de ruminação. (trecho da crônica O artista sem fome - 1)³

O texto encantador de Carlinhos Oliveira é cálido, cúmplice, convivente. Acompanha o leitor em sua árdua jornada pelo dia, na dura faina de viver. Instiga-o a olhar o mundo e refletir, sem perder a poesia do cotidiano.

Flanando não é um livro de impressões de um turista qualquer pelas ruas de Paris, cidade que amava e onde esteve algumas vezes. São cartões-postais da alma de um artista da palavra de profunda e abrangente sensibilidade.

Pequeno na estatura, vespertino e notívago, escasso em recursos financeiros, mas com enorme poder de observação e registro do humano, escreveu estas páginas memoráveis.

São crônicas solidárias com as pessoas, seus conflitos, alegrias e sofrimentos. O escritor não se conforma com a desumanização e não se dá por vencido, apesar da dureza da existência.

Os textos espelham o olhar de um poeta, filósofo, jornalista, arqueólogo do espírito, antropólogo das esquinas e cafés parisienses. Um observador profundamente brasileiro e ao mesmo tempo universal.

Só posso dizer que é uma leitura venturosa. Flanando em Paris é um coração pulsante e belo no corpo da língua portuguesa.


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¹Blog do Amarildo:
https://amarildocharge.wordpress.com/2011/07/30/jose-carlos-oliveira-caricatura/ 
²Flanando em Paris. José Carlos Oliveira. Seleção, organização e notas por Jason Tércio. Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2005.
³idem.
 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Noites austrais

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
 
O planeta girava em lentos círculos. Aquela rua de chão batido era um grão à deriva no universo. Em certas noites geladas de junho, a conversa avançava pela madrugada. Na cozinha, em volta do fogão a lenha que ardia, cada um contava uma história, um caso real ou inventado. As notícias eram poucas. O rádio, quando pegava alguma estação, fazia  zumbido de mil abelhas. A luz elétrica de tão fraca era uma claridade escura. O menino tinha  vindo ao mundo há cinco, seis anos. Estava vivo contra todas as expectativas devido à saúde frágil. Era bom adormecer no colo da avó ouvindo vozes na velha casa de madeira de pinheiro. Era bom fazer parte daquele retrato perdido no tempo.  Era uma dádiva estar vivo no labirinto. Riscos de estrelas atravessavam o céu, caíam num lugar misterioso ali perto. Sobreviventes na longa noite austral, as pessoas observavam a geada encobrindo a escuridão lá fora. Águas subterrâneas corriam limpas debaixo das casas, afloravam nos poços, encanamentos, regavam secos sentimentos, derrubavam muros de ódio, lavavam a sujeira dos corpos, das almas. Para onde foram aquelas vozes? - pergunta o coração do menino - para onde correram aquelas águas?
 
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Texto revisto, publicado antes em 26 out. 2010.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A primeira manhã

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

Porque há hibiscos
                                 na rua
e a primavera
quase sempre
é sentimento
te ofereço esta manhã

como fantasma
não faço mais
que transitar
nessa obscura rota
do adeus

como se fossem meus
colho teus segredos
que o vento carrega
para onde eu não sei

te ofereço esta manhã
a primeira manhã do mundo
para não esqueceres
o bem que te quero

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Do livro Memorial da vida breve, Jorge Finatto. Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Veneza, la bella signora

Jorge Finatto

photo: jfinatto. Veneza
 
Exposição fotográfica sobre Veneza, no Café Josephina, em Gramado, a partir de 19 de outubro
 
VENEZA é uma mulher madura e encantadora. Não esconde a idade, pelo contrário. O tempo é seu amigo e com ele troca confidências à beira dos canais e do casario antiquíssimo.

 Os anos não lhe roubaram a beleza nem o poder de sedução. Os seus traços inesquecíveis, a sua luz de brilhantes multicoloridos que caem do céu e cobrem as águas. É impossível imaginar o mundo sem ela.

Olhando a vetusta cidade com olhos do coração, o visitante conhecerá um pouco de sua alma luminosa. 
 
Veneza é um das cidades mais visitadas e fotografadas do planeta. Uma cidade de espelhos, segredos e mistérios. Perambular sem pressa e sem itinerário certo por seus tortuosos caminhos (as fondamenta),  à margem dos canais, é essencial para descobrir seu corpo cheio de cálidas surpresas.
 
A pé, numa gôndola ou num vaporetto¹, o passeio é sempre revelador. Não nos cansamos de admirar a arquitetura, as pontes, as paredes de tijolos à vista, as janelas com flores, os telhados, as roupas a secar ao vento, as praças com pessoas de todos os lugares (talvez você dê sorte e encontre um veneziano em meio à multidão...), os longos e estreitos corredores que se perdem nos séculos.

Veneza, Ponte de Rialto (1591). photo: jfinatto
 
Veneza se deixa visitar, olhar, fotografar. Mas não se iluda o viajante: poucos terão acesso a seus aposentos interiores, à sua alma. Estes lugares não são para olhos estrangeiros.
 
Recatada, a bela senhora nunca se deixa desvelar por completo. É preciso saber tocá-la com o olhar, delicadamente. Com a ponta dos dedos da sensibilidade. Como quem toca uma estrela muito frágil fadada a desaparecer (o aumento do nível das águas, embora lento, estaria levando ao afundamento da cidade).

Reuni fotos que fiz em Veneza e organizei uma exposição com o objetivo de compartilhar minhas impressões sobre a querida República Sereníssima. São 17 painéis que estarão à mostra no aconchegante Josephina Café², no coração da cidade de Gramado, a partir do dia 19 de outubro (quarta-feira). Estão todos convidados.


Josephina Café, Gramado

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¹Embarcação típica de Veneza, usada como meio de transporte pelos canais, com motor a diesel, e não mais a vapor como antigamente.
²Josephina Café:
http://www.josephinacafe.com.br/
 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Da fugaz eternidade

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

Antigamente, 
tudo conspirava
a favor da eternidade.

Agora, não tiro
os olhos do prazo
de validade...