sábado, 21 de janeiro de 2017

A vida vale um caco

Jorge Finatto
 
photos: j.finatto

No ato trágico de morrer da xícara-mãe, os fragmentos renasceram individualmente, dando inicio a novas "vidas".
 
EXISTE BELEZA nos cacos de uma xícara quebrada.

Juntei os restos de louça espalhados no chão do escritório, acondicionei-os em folhas de jornal velho para descartar no lixo seco. Depois subi a escada Santos Dumont, retornando ao trabalho.

Enquanto labutava nesse ofício inútil que é escrever (e ninguém ler), percebi num canto do escritório uma reminiscência da xícara em forma de lasca colorida.

As cores e o formato daquele caco me chamaram atenção. Descobri que havia encanto naquilo. Fui em seguida até o lixo e resgatei os outros pedaços.

 

O objeto xícara havia se partido acidentalmente ao cair da escrivaninha (dentro havia folhas secas de erva cidreira). Deu origem a vários outros miniobjetos com formas, cores e volumes próprios.

No ato trágico de morrer da xícara-mãe, os fragmentos renasceram individualmente, dando inicio a novas "vidas". No ato de renascer, receberam a marca intransferível da solidão que caracteriza as coisas e os seres viventes.

Sei, por experiência de quem é astrônomo do farelo, observador de miudezas, que não existem outras lascas iguais a essas.

São entes novos no mundo. Estão aí com sua particular verdade, têm uma face própria, uma maneira de estar, uma sombra, ocupam certo espaço, a claridade os ilumina todas as manhãs, existem.

 

A asa da xícara-mãe ficou incólume, contudo não é mais uma asa. Aderente à superfície convexa, lembra antes uma bela orelha renascentista.

Orelha que escuta talvez uma voz ausente, que se perdeu no tempo, ou uma canção impossível.

Libertou-se, a asa, da antiga e rígida obrigação. Ninguém mais poderá tratá-la ou esperar dela que se comporte como se singela asa fosse. É uma nova entidade, um corpo mutante com uma estética própria. Perdeu a natureza acessória com que veio à existência.


De certo modo, os fragmentos estão mais vivos do que quando formavam um todo orgânico e fechado. Aproveitaram a chance, gozam agora de uma liberdade que antes não conheciam.

O que aconteceu com os cacos foi um reviver após a morte da mãe que os aprisionava. Estão soltos no mundo, rebentos recém paridos, cada um a seu jeito. Como todos os seres, correm riscos, o futuro é incerto e padecem de solidão. O preço de estar vivo.
 
Olho os restos sobre a escrivaninha. São parecidos com tudo que vive e sofre e existe apesar de tudo. Aprenderam na pele que cair um tombo, bater com a cara no chão, ficar reduzido a estilhaços, pode ser, às vezes, o caminho para um novo, jamais imaginado, venturoso recomeço.

______________

Texto revisto, publicado em 30 de abril, 2013.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Estações do inferno

Jorge Finatto

O BRASIL não consegue enfrentar temas cruciais que estão a gritar por solução todos os dias. Faz pelo menos 30 anos que não há uma política eficaz voltada ao saneamento das penitenciárias e à ressocialização dos apenados. O resultado é o que se vê nos bárbaros massacres ocorridos nos últimos dias em presídios do Amazonas, Roraima e Rio Grande do Norte, com requintes de decapitações e extrações de órgãos dos corpos, na terrível guerra das facções.
 
Estes são apenas os casos mais recentes que causaram forte impacto pelo insuportável grau de crueldade que os alimenta. Mas a violência física e psicológica é fato corriqueiro nas cadeias (destinadas a presos provisórios) e penitenciárias (para presos que cumprem pena em regime fechado). Fatos terríveis como os ocorridos são tragédias mil vezes anunciadas.

As autoridades federais e estaduais encarregadas da gestão material e da segurança dos estabelecimentos penais (leia-se Poder Executivo) têm um desempenho muito abaixo do esperado diante da crise prisional (antiga de décadas), mostrando-se às vezes confusas, resolvendo no improviso questões estruturais que demandam ação sistêmica. Não é de hoje que o Estado perdeu o controle das prisões.
 
O fato é que Estado e sociedade demonstram indiferença à dura realidade dos presídios. Não raro ouvem-se declarações estapafúrdias no sentido de que a violência entre presos é assunto de menor importância e que quanto mais se maltratarem e matarem uns aos outros melhor será. A tanto chegamos.

Acontece que os indivíduos que cometem barbáries nas casas prisionais retornam, mais cedo ou mais tarde, ao convívio social e, sem receber tratamento adequado durante a reclusão, aqui fora farão novas vítimas. Quantas pessoas mais vão morrer nessa espiral de horror?
 
A Constituição Federal não vigora no interior de boa parte de nossas prisões. Estabelece que é assegurado aos presos o respeito à sua integridade física e moral, mas não é o que se verifica. A Lei de Execução Penal é sábia e bastaria cumprir com seus princípios fundamentais para evitar o colapso em curso no país.  Nela existe, por exemplo, importante previsão de participação da sociedade no processo de execução através dos conselhos da comunidade. No entanto, o sistema faliu por força da inércia do Estado, com cadeias superlotadas e tratamento desumano aos reclusos.
 
O enfrentamento da violência começa fora dos presídios com atenção às famílias, à infância e à juventude através de creches, atendimento à saúde, escolas, centros comunitários, formação profissional, oportunidades de trabalho, etc., aquelas coisas que todos precisam para uma vida razoavelmente digna. Para que isso aconteça é necessário combater com vigor e tenacidade a corrupção e a incompetência do andar de cima, que simplesmente desaparece com o dinheiro público. Não há falta de recursos no Brasil para estas e outras obras: há corrupção e má gestão.
 
Neste momento é essencial construir penitenciárias em condições de receber vida humana lá dentro, individualizando-se a execução com separação dos presos, como manda a LEP, para que se possa falar em ressocialização por meio do trabalho, do estudo e do provimento de necessidades básicas dos detentos.

É preciso dar fim às estações do inferno. Não existe esperança para um país que aceita a trágica e cotidiana violência no interior das prisões. Todas as violações que lá ocorrem acabam voltando para as ruas. O resultado é este círculo absurdo e intolerável de violência que tomou conta das nossas cidades e das nossas vidas.
 
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul desenvolveu, no início dos anos 2000, o Projeto Trabalho para a Vida que pode servir de referência e inspiração na busca de soluções. Congregando dezenas de entidades civis e órgãos estatais, elaborou programas de ressocialização, colhendo bons resultados.

Iguais a esta existem outras iniciativas do Judiciário que podem contribuir para resolver em parte os desafios que se apresentam. Mas é necessário, antes de tudo, que a União e os Estados queiram realmente sair da improvisação e avançar nessa área que é talvez a mais esquecida e desprezada em nossa sociedade.

___________ 

Encarceramento degradante, danos morais:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/04/encarceramento-degradante-danos-morais.html
 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Último dia para ver "Olhar sobre Veneza"

Jorge Finatto

Exposição Olhar sobre Veneza. Café do Porto. photo: jfnatto
 
NESTA SEGUNDA-FEIRA encerra-se a mostra Olhar sobre Veneza no Café do Porto. Foram 14 dias de convívio das imagens com os frequentadores do charmoso café da Rua Padre Chagas.

Estive lá algumas vezes nesse período, olhando as minhas crias e o movimento, sentado à mesa perto da janela. Um bom lugar para se estar, sob a direção atenciosa de Cacaia Bestetti, que, além de arquiteta e proprietária, é incentivadora das artes.
 
Espécie de memorabilia afetiva da cidade do Adriático, a exposição nasceu por acaso, fruto das minhas digressões por seus canais e pontes, a pé ou embarcado. Veneza é um nome bom de se dizer e um lugar único no universo para se conhecer.
 
A todos que estiveram na mostra, meu agradecimento. Uma exposição só faz sentido no olhar de quem a vê. Até a próxima.
 
photo: jfinatto

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A lupa chinesa

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
 
COMPREI UMA LUPA num bazar perdido num canto do mercado público. A procura de sempre: aumentar a nitidez das coisas. Não é esta a primeira vez, nem a primeira lupa. Esta lupa, contudo - garantiu-me o vendedor -, é especial,

- fui buscá-la no laboratório de um sábio chinês, no bairro do Bixiga, em São Paulo. Instrumento especial  de primeira, sim senhor, capaz de divulgar até o invisível.

Eu ando tão precisado de claridade, tão necessitado de qualquer coisa que me ajude a decifrar os absurdos e mistérios do mundo, que não resisti à oferta, sem opor dúvida nem ressalva. Quem sabe não começo, enfim, a entender melhor o sentido da vida?

Uma dúvida, porém (sempre o maldito porém), me ocorreu. Não sabia que havia sábios chineses criando maravilhas no Bixiga. Que eu saiba, naquele tradicional bairro vivem italianos, seus descendentes e afins, além de nativos. Ao menos era assim quando por lá andei há muito tempo, envolvido com as artes do Grupo Sanguinovo e fazendo visitas ao MASP.

Se há sábio chinês estabelecido no Bixiga é coisa de eras recentes. Mas pode ser também que algum carcamano esteja se fantasiando de chinês (e de sábio) para vender quinquilharias de origem duvidosa. Mas que digo eu? Por que essa mania de duvidar e sopesar os detalhes? Por que não acreditar na humanidade simplesmente?
 
O fato é que agora estou armado com a mágica lupa do sábio chinês do Bixiga. Partirei com ela em expedição aos confins do dia, buscando desvelar enigmas e encontrar clarões em meio à densa treva. Colecionarei as revelações do universo. Sabe lá Deus as besteiras que resultarão...
 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Città del cuore

Jorge Finatto
 
Veneza. photo: jfinatto
 
Uma cidade será sempre
o que nosso coração
diz que ela é.
 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Nagai Kafu e as histórias da outra margem

Jorge Finatto
  
Nagai Kafu entre mulheres.
Kafu Nagai with strippers @ Asakusa Rokkuza, 1952
Fonte: the setting sun*
 
  
Oyuki era uma musa que ressuscitara em meu coração tão cansado imagens de um tempo  distante e saudoso. O manuscrito há tanto tempo abandonado sobre a escrivaninha, não fosse por ela ter aberto seu coração para mim - ou, ao menos, não fosse por eu ter achado que esse coração se me abrira -, já estaria há muito tempo no lixo.¹
                      Nagai Kafu
 
MAIS POR FALTA de livros traduzidos do que por outro motivo, no Brasil temos pouco conhecimento da literatura oriental.
 
Mas isso começa a mudar. Na medida em que editoras brasileiras investem na tradução de autores daquele lado do mundo, vamos descobrindo pérolas até aqui escondidas.
 
Ultimamente tenho folheado livros de pintura japonesa, de autores como Hokusai e Hiroshige, e lido textos de escritores japoneses. Não é pouca nem recente a admiração que sinto pela cultura do Japão.
 
Entre os autores daquele país mais conhecidos por aqui, temos Bashô (poesia) e Yasunari Kawabata (prosa, Prêmio Nobel de 1968 ). Mas existem outros de grande qualidade.
 
Acabo de ler Histórias da outra margem, do escritor Nagai Kafu (1879 - 1959), esse da foto com as moças. Trata-se de um livro de 123 páginas, que transita entre a ficção, o diário, a poesia, a crônica e as memórias do autor.

Eu não tinha mais aonde ir. As pessoas que eu queria rever estavam todas mortas.²

Nagai Kafu, 1954. photo de Ihei Kimura**

O enredo se passa na Tóquio da década de 1930. Tadasu Oe é um escritor de quase 60 anos que vive uma história de amor com uma "mulher da vida", na zona de prostituição do bairro Tamanoi, a leste do rio Sumida.

Oyuki é jovem, pobre, bela, alegre, foi gueixa antes de prostituir-se. Ao conhecer Tadasu Oe, pensa abandonar a zona e casar-se com ele. Oe, por seu turno, encontra na jovem inteligente e cheia de vida um cálido cais onde ancora sua solidão nos fins de tarde.

Ao mesmo tempo em que narra o seu romance, Oe conta detalhes do livro que está escrevendo, no qual um professor aposentado abandona a família. O desenvolvimento é surpreendente.

A história é, em vários aspectos, a história do próprio Nagai Kafu. E de muitos homens e mulheres por este mundo afora.

Histórias da outra margem é um livro com uma curiosa e envolvente construção. Nagai Kafu revela-se um excelente escritor, com uma narrativa que combina técnica esmerada e sensibilidade poética, sem cair em literatices.

Como se isso não bastasse, a obra tem ainda belas ilustrações de Shohachi Kimura (1893 - 1958). Um livro, enfim, pra se ter nas mãos.
 
___________________
 
¹,²Histórias da outra margem, pp. 109, 117. Nagai Kafu, Editora Estação Liberdade, São Paulo, 2013. Tradução do japonês e notas por Andrei Cunha.

Texto publicado originalmente no blog em 7 de abril, 2013.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Os fascistas

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto


Os fascistas
escolhem sempre
as prisões
à BENIGNIDADE DO SOL

mas os poetas
continuarão
VIOLANDO
AS SOMBRAS


 _________________

Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Ponte dei Sospiri

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto


Vamos iniciar 2017 atravessando juntos a PONTE DOS SUSPIROS.
 
Mas se houver suspiros na travessia deste tempo que agora começa, que sejam de êxtase, de alegria, jamais de tristeza ou desilusão.

photo: jfinatto

photo: jfinatto

Estão todos convidados a suspirar visitando a exposição OLHAR SOBRE VENEZA, que será inaugurada hoje no Café do Porto.

photo: jfinatto
 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Colher hibiscos

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto 1º jan. 2017

NA TARDE do primeiro dia do ano, saí para colher hibiscos. Colher com os olhos, com a lente esperta da Coruja, ex-máquina fotográfica, quase um ser humano. Nada de arrancar flores para pôr no vaso. O olhar sensível é capaz de entendê-las em seu habitat, sem qualquer ideia de posse.
 
Porque os hibiscos habitam as ruas e praças de Porto Alegre. A sua linda corola é um presente para o coração. Um lenitivo (talvez só o pessoal nascido em meados do século passado saiba ainda o que é lenitivo. Muitos já esqueceram seu significado tamanha a dureza destes tempos). Consolo nesta cidade triste e desmantelada.
 
photo: jfinatto, 1º jan.2017
 
O porto-alegrense virou uma pessoa mal-educada, grosseira e agressiva. É o que se vê no trânsito, nas lojas, dentro dos ônibus, em toda parte. Se você não faz parte deste grupo, perdoe. Mas a média da população está assim, infelizmente. Por isso eu, quando estou por aqui, busco as praças onde ainda é possível encontrar um pouco da humanidade perdida deste outrora acolhedor burgo.

photo: jfinatto, 1º jan.2017
 
Mas eu quero falar dos hibiscos. Durante caminhada para  equilibrar o esqueleto, no entardecer de 31 de dezembro, na Praça da Encol, percebi arbustos de hibiscos, alguns vermelhos, outros cor-de-rosa. Um brilho só. Voltei no dia primeiro para fotografá-los e guardá-los assim do esquecimento. Estão no auge do encanto. Façamos por merecer.

photo: jfinatto, 1º jan. 2017
 

sábado, 31 de dezembro de 2016

A luz do novo tempo

Jorge Finatto
 
photo: Clara Finatto, Ipanema, Rio de Janeiro

AS IMAGENS de Clara Finatto nos remetem a um momento de rara beleza e emoção neste último dia do ano. As fotos são da praia de Ipanema no Rio de Janeiro. As pessoas estão reunidas olhando o pôr do Sol. Ao fundo, à direita, o Morro Dois Irmãos.

Clara conta que os admiradores aplaudem quando o Sol se põe. O mesmo fazem quando ele nasce lá longe sobre o mar, na linha do horizonte.

photo: Clara Finatto. Morro Dois Irmãos, Rio de Janeiro

O tempo leva tudo pela frente. Passa como o vento e não pede passagem. Atropela, arrasta a pobre criatura. Um ano não significa nada na vida de uma estrela, de uma montanha como Dois Irmãos. Mas na vida de um efêmero ser humano faz muita diferença. O que isso quer dizer? Que cada dia é um tesouro que não deve ser desperdiçado.

Olhando as imagens que a Clarinha colheu, percebo que a vida e o mundo são belos demais. Devemos agradecer sempre a oportunidade que nos foi dada.

Desejo a todos bons motivos para aplaudir o dia que se vai e o dia que nasce. Que cada um colha o que semeou em 2017. E que consigamos não levar tudo tão a sério. O riso é uma arma poderosa contra o desespero e o niilismo. Que possamos rir mais, apesar de tudo.

photo: Clara Finatto, Ipanema, RJ

Que haja mais justiça na distribuição do pão, da alegria, do amor, do bem-estar, dos bens materiais. Que todos tenham tempo para viver. E possam refazer a semeadura, caso tenham errado a mão.

Que Deus nos dê saúde para enfrentar os dias difíceis, para aproveitar os de júbilo, para repensar nossas prioridades. Possamos enxergar, ouvir e tentar entender as razões do outro (quando mais não seja, porque somos o outro do outro).

Luz pra todos.
 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Veneza no Café do Porto

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 Exposição fotográfica mostra a face pouco conhecida de Veneza, no Café do Porto, a partir de 03 de janeiro


VENEZA é uma das cidades mais visitadas e fotografadas do planeta. Uma cidade de espelhos, segredos e mistérios. Perambular sem pressa e sem itinerário por seus tortuosos caminhos (as fondamenta,  à margem dos canais) é essencial para descobrir seu corpo cheio de cálidas surpresas. 

A pé, numa gôndola ou num vaporetto (embarcação típica de Veneza, usada como meio de transporte pelos canais, com motor a diesel, e não mais a vapor como antigamente), o passeio é sempre revelador.
Não nos cansamos de admirar a arquitetura, as pontes, as paredes de tijolos à vista, as janelas com flores, os telhados, as roupas secando ao vento, as praças com pessoas de todos os lugares (talvez você dê sorte e encontre um veneziano em meio à multidão...), os longos e estreitos corredores que se perdem na bruma dos séculos.

photo: jfinatto

Veneza se deixa visitar, olhar, fotografar. Mas não se iluda o visitante: poucos terão acesso a seus aposentos interiores, à sua alma. Estes lugares não são para olhos estrangeiros. 

Recatada, a bela senhora nunca se deixa desvelar por completo. É preciso saber tocá-la com a ponta dos dedos, delicadamente. Como quem toca uma estrela muito frágil fadada a desaparecer (o aumento do nível das águas e os processos geológicos locais, embora lentos, estão levando ao afundamento da cidade).

Nesta exposição, reuni imagens que buscam mostrar o lado pouco conhecido de Veneza, longe dos clichês e do corre-corre dos turistas. Gostaria de compartilhar com você essas impressões sobre a querida República Sereníssima. São 17 painéis que estarão à mostra no acolhedor Café do Porto, a partir do dia 03 de janeiro de 2017.
 
photo: Jorge finatto


 ________ 
Mostra fotográfica OLHAR SOBRE VENEZA
Autor: Jorge Finatto
Café do Porto, de 03 a 16 de janeiro, 2017
Rua Padre Chagas, 293, bairro Moinhos de Vento
Porto Alegre
 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Cemitérios nos caminhos da Serra

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

UMA COISA que chama atenção nos cemitérios da região serrana do Rio Grande do Sul é que estão sempre enfeitados com flores. O vivo colorido torna-os menos tristes nas beiras de estrada. Às vezes, estão localizados no núcleo das cidadezinhas, misturados ao casario.

Vida e morte lado a lado, sem ataques de nervos.

São espaços que nada têm de fantasmagóricos. Última morada coisa nenhuma: lugar de passagem, transição para outra esfera.

Os pequenos territórios de ausência têm muros de pedra baixos e portões de ferro com trepadeiras enlaçadas. As sepulturas são rentes ao chão, algumas cobertas de heras; outras com vasos floridos. E há aquelas que possuem flores plantadas em volta.

Na Serra até a morte parece fazer parte da vida. Os mortos têm direito a flores o ano inteiro e ocupam um lugar cálido na memória dos que ficam.
 

sábado, 24 de dezembro de 2016

As mãos estendidas de Deus

Jorge Finatto
 
Criação de Adão. Miguel Ângelo. Capela Sistina. photo: Wikipédia

 
AOS LEITORES do blog, onde estiverem, desejo um Natal com saúde, amor no coração, paz de espírito, esperanças no peito, humildade, comunhão.

Que Deus estenda a mão, ou um dedo que seja, em nossa direção, e que, ao acolher esse gesto, sintamos que existe algo muito anterior e muito além das nossas vãs filosofias.

Celebremos o Menino Jesus, as mãos estendida de Deus. Vale o mesmo pra você que é ateu (quem não é, às vezes, em meio à esculhambação em que está o planeta!) Vamos com fé. Tudo de bom a todos.
 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A Vênus de Milo

Jorge Finatto

Vênus de Milo, Museu do Louvre, Paris. Fonte: Wikipédia.
Autor: Mattgirling
 

DE ALGUMA FORMA me reconheço nela. Somos pães da mesma fornada. Deve ser isso, ou algo assim. O tempo que nos tocou viver juntos nessa passagem terrestre. Antes de desembarcar no planeta alguém colocou o carimbo na minha testa: vai precisar viver com ela.

Ela, estrela do meu caminho. Eu precisava desesperadamente dela ao meu lado desde muito antes de aqui desembarcar. Vim nem sei de onde. Aí um dia ela surgiu, um dia, no cerne da escuridão. O dia da minha sorte.

Um sol no inverno, uma iluminação. Nunca precisei de aventuras românticas pra me justificar. Precisava dela pra me ligar ao mundo, pra respirar, pra tornar a vida possível. Só isso. Um elo de afeto, uma nesga de ternura neste mundo de barbaridades.

Ela, estrela aberta. A corda que segura o astronauta quando está fora da nave, flutuando no sombroso léu. Do contrário me pulverizava.

Você me compreende, ou talvez não, diz que sofro de mutilação do ser-no-mundo, que sou triste-fraco. A palavra da moda é resiliente. Pode ser, pode não ser. Cada um sabe onde viver lhe dói. Abismos do coração. As faltas no interior da pessoa.

A Vênus de Milo é bela e eu amo. Mas não é mais bela que essa mulher. Está escrita na alma minha.
 

sábado, 17 de dezembro de 2016

Impromptus

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
A RAZÃO DE SER da palavra escrita é trazer luz onde habita a escuridão.  
 
Existem assuntos que só podem ser considerados em profundidade na intimidade da escrita, nesse diálogo silencioso do leitor com a página. Como existem aqueles temas que só encontram compreensão possível no silêncio de um abraço.

A ideia de trabalhar na construção do texto, cujos tijolos são palavras, traz em si uma tentativa de aproximação. O texto carrega a marca da imperfeição, expressando nossa realidade de seres humanos. O que seria o texto ou a obra de arte perfeitos? Jamais alguém saberá, pois o perfeito é uma categoria a que ninguém nunca teve acesso.

Leonardo da Vinci desistiu da pintura porque encontrava imperfeições em seus quadros e não se conformava com isso. O que era imperfeito para Leonardo era genial para os mortais. Mas a obsessão pelo belo absoluto (seja lá o que for isso) não o deixou seguir adiante, privando-nos de sua grande arte. Trilhou outros caminhos nos quais seu gênio universal mostrou-se.
 
Escrever é um artesanato cotidiano, uma criação na casa simples e misteriosa dos dias. Nunca está completo nem é perfeito, é experimental, está sempre em progresso. E é belo por isso. Como nós, carece.
 
A composição é um mosaico das tantas coisas de que somos feitos e do que sonhamos. Vivemos e escrevemos de improviso. Vida e obra, nada é definitivo.

Só a morte é o círculo perfeito. Mas este remate não interessa a ninguém.
 
Obra inconclusa, vida provisória, longe da perfeição, mulheres e homens que vieram do humano barro forjado no abraço, predestinados ao sublime e à finitude.

Vida sem manual de instruções, sem ensaio prévio, sem roteiro a seguir.

Vamos na inspiração, no suor, na raça, do jeito que dá.

Impromptus: improvisos na arte como na vida.
 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

2018, ano da nossa esperança

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto


O TEMPO ajuda a ver as coisas de um modo, digamos, menos desesperado. Nesses momentos obscuros, procuro manter o desespero sob controle, embora não seja fácil. Nunca vi um quadro tão dramático na vida brasileira. Mas penso que não devemos nem podemos entregar os pontos para os corruptos que afundaram o país. É preciso resistir.
 
Durante a ditadura civil-militar (1964 a 1985), a escuridão tomou conta, mas havia vida sob os escombros. A esperança brilhava nos olhos e corações. A democracia era um sonho e uma certeza de dias melhores.

A sociedade lutou pela democracia e ela amanheceu. O que temos hoje, no entanto, é uma indigência ética nunca antes vista, vinda da esquerda e da direita, de cima e de baixo, de todos os lados. A corrupção alastrou-se como fogo sobre gasolina, explodindo a economia, abalando a vida de milhões e milhões de pessoas, além de deteriorar direitos sociais duramente conquistados (art. 6º e seguintes da Constituição Federal de 1988).
 
Para que se viva numa democracia é fundamental que as instituições funcionem. Isto significa que não podem existir cidadãos acima da lei como existem no Brasil. A baixíssima estima ao bem comum e a quase certeza da impunidade levaram muitos políticos e empresários a subtrair quantias incalculáveis de dinheiro público. O resultado é um país quebrado com 12 milhões de desempregados, serviços públicos depauperados e a conta disso tudo sendo "socializada" entre toda a população, que não aceita mais esta situação.

A realidade mostra que os três poderes da República precisam passar por uma grande renovação. Com honrosas exceções, os representantes do povo estão aquém das expectativas. O que se vê é um cenário de profundo desalento. Basta um olhar sobre os últimos acontecimentos na Câmara Federal, Senado, Presidência da República e Supremo Tribunal Federal para ver que a coisa está muito difícil.

A imprescindível mudança já está em andamento com a lava-jato. A Justiça, notadamente no primeiro grau, está fazendo seu trabalho, apurando e responsabilizando a quem de direito. É preciso ter paciência. Antecipar eleições neste momento seria um erro. Deixemos que a depuração continue e afaste do poder quem não tem condições morais mínimas para seu exercício. Depois vamos ao voto em 2018, renovando tanto quanto possível os parlamentos estaduais e federal, bem como os chefes do Poder Executivo, a nível Federal e Estadual, tirando de lá quem traiu a população  e não merece confiança.

No âmbito do Poder Judiciário, é urgente a alteração dos critérios de nomeação de ministros do STF. Não é mais possível que a indicação de seus integrantes recaia única e exclusivamente na vontade do soberano da hora (Presidente da República). A sabatina a que é submetido o candidato a ministro pelo Senado, sabe-se, é meramente formal e homologatória.

A mais alta Corte do país precisa democratizar-se e ampliar sua legitimidade. Umas das possíveis alternativas é que a escolha dos ministros parta de vários setores: do próprio Judiciário, do Congresso Nacional, da OAB, do Ministério Público, da Presidência da República. Com origem nessas cinco instituições, já haveria certa pluralidade na composição do Tribunal. Não afasto, inclusive, a possibilidade de eleições para escolha dos ministros do STF. O importante é mudar a regra atual que fixa numa única pessoa o poder de escolha. Isto não serve ao bom senso nem à democracia.

Não podemos desacreditar no futuro por mais que os fatos digam o contrário. Somos mais de 200 milhões de habitantes a viver nesta Terra de Vera Cruz. Todos merecem ter uma vida.

É tarde demais pra desistir do Brasil.
 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Todo vivente carrega

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

TODO VIVENTE carrega
seu fardo de solidão
nas entranhas

cheiros rudes no corpo
primaveras esquecidas
na caduquice
da memória

se eu prossigo
no caminho
não se iludam
é pura teimosia

__________

Poema do livro Claridade, de Jorge Finatto. Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O mistério das flores, o vento

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
O ESCRITOR japonês Haruki Murakami diz, no texto de apresentação de seu livro Ouça a canção do vento & Pinball, 1973, que certa vez encontrou na rua um bolo de dinheiro. Caminhava com a mulher tarde da noite, ambos cabisbaixos, porque não tinham dinheiro para pagar um empréstimo bancário que vencia no dia seguinte.
 
Na época, anos 1970, haviam contraído dívidas para abrir um bar com piano em Tóquio. Ele era duro de grana e não queria arrumar um emprego tradicional. Amava o jazz. Resolveu unir o útil ao agradável. Músicos das redondezas faziam pequenos shows durante a semana, ganhando um cachê baixo. O escritor fazia sanduíches, preparava coquetéis, expulsava bêbados inconvenientes.
 
Sempre que tinha um tempo livre, pegava um livro pra ler. Adorava romances russos do século XIX. Tinha vinte e tal anos e trabalhava muito junto com a companheira. A coisa não era fácil.

Com o dinheiro achado, pagam o banco. Afirma que deveriam ter entregue o achado à polícia mas, diante da difícil situação, não podiam pensar em boas ações.

Em 1978 tem uma espécie de epifania e decide ser escritor. Assim que, todas as noites, depois de terminar o trabalho do bar, senta à mesa da cozinha e começa a escrever. Ali nascia o grande autor.

photo: jfinatto
 
Eu nunca achei dinheiro na rua. Cada centavinho que ganhei foi muito chorado. Mas coisas misteriosas e boas acontecem na vida de toda gente. Tudo, na verdade, é um mistério.

Basta lembrar que não temos a mais remota ideia de como viemos parar nesse mundo (por que fomos escolhidos?) e menos ainda para onde vamos depois que tudo acabar. Mistério.
 
As flores, por exemplo. São obras de arte que se revelam graciosamente aos olhos do mundo todos os dias, e nada cobram por isso. Dão-se de boa vontade a quem quiser. São. Duram pouco, mas enquanto estão no mundo fazem o seu melhor, que é ser flor. Iluminam a vida.

Olhemos, respiremos, conversemos com as flores em tempos tão difíceis. E, como diz Murakami no título de seu belo livro, ouçamos a canção do vento.
 

__________ 

Ouça a canção do vento & Pinball, 1973. Haruki Murakami. Editora Alfaguara, Rio de Janeiro, 2016. Tradução de Rita Kohl. Trata-se de duas excelentes novelas que marcaram o início da carreira do escritor, pela primeira vez publicadas no Brasil.
 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A noite passada

Jorge Finatto
 
menino torcedor da Chapecoense. photo: Nelson Almeida/AFP
 
Passei parte da noite lendo poemas, ou pelo menos tentando. Ler poemas, numa hora de tantas crises e tragédias? - perguntará talvez o leitor. Sim, é uma maneira de sobreviver emocionalmente diante do sofrimento que assola o mundo e o Brasil.
 
Por aqui, regredimos a um estado tal de selvageria e velhacaria em alguns setores importantes da vida pública que fica difícil prever melhores dias no futuro próximo. Algo está muito errado em nosso modo de ser, de discernir e enfrentar os fatos. Com a realidade posta, estamos repetindo um passado de obscurantismo e negação do humano.

Estamos revivendo o que há de pior em nossa história: indiferença ao bem comum, individualismo doentio, indigência ética. Triste. Não é catastrofismo: é a duríssima conclusão diante do quadro de descaramento, irresponsabilidade, desmandos e criminalidade de colarinho branco. Só a consciência ativa dos cidadãos de bem e a Justiça podem nos valer.
 
Falta amor social no Brasil. Me refiro àquele afeto mínimo que deve existir entre as pessoas em sociedade, que começa com o respeito ao outro. Por isso certas figuras se sentem tão à vontade de agir como agem, à sombra, à socapa, na calada da noite, no reduto do inferno.

Existem pessoas honestas e preocupadas com o país na esfera pública. Elas não podem permitir que a turma do outro lado deixe o Brasil afundar mais do que já afundou.
 
Os colombianos deram uma demonstração extraordinária de solidariedade ao Brasil na noite de ontem. No Estádio Atanasio Girardot lotado, em Medellín, milhares de pessoas homenagearam as vítimas e abraçaram a dor dos familiares e amigos dos desaparecidos no terrível acidente com o avião que levava a Chapecoense. Era a hora em que deveria estar sendo realizada a primeira partida da final da Copa Sul-Americana entre Atlético Nacional e Chapecoense.
 
Aquelas pessoas pegaram a nossa dor como sua. Abriram os braços e o coração, sem qualquer intenção de marketing, de espetáculo ou de dar lição a quem quer que seja. Emocionante. Inesquecível. Inspirador.
 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Dor

Jorge Finatto
 
 
Homenagem a todos os que perderam a vida no trágico acidente aéreo de 29/11/2016, na Colômbia, que vitimou atletas e membros da delegação da Chapecoense, jornalistas, técnicos e tripulação. Solidariedade e força aos familiares e amigos dos desaparecidos. Deus está perto.
 
_______ 
 
Escudo em luto da Chape. Fonte: site oficial do clube:
 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A máquina de escrever

Jorge Finatto

photo: jfinatto. Livraria Miragem, S.F.de Paula, RS


A velha
máquina
de escrever
verteu
em ar fresco
o que era
calabouço

amiga
confidente
no duro ofício
de extrair
sentimento
de pedras

_________ 

Poema do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

A tristeza de Porto Alegre

Jorge Finatto

Cais, vista parcial, Porto Alegre. photo: Lorenzo Finatto
 
Eu vou escrever uma coisa triste. Quero falar de Porto Alegre, cidade do meu coração. Do medo que sinto em andar por suas ruas. Da saudade que tenho do tempo em que isto era possível. Do sentimento de isolamento que nos invade com o cerco da violência.

Difícil acreditar que Porto Alegre é, hoje, uma das capitais mais perigosas do país. Pouco saio de casa temendo assaltos, sequestros, tiros, que ocorrem nas calçadas,  nos semáforos, nos estacionamentos de shoppings, em toda parte.

É doloroso não poder caminhar como antes por suas ruas cobertas pelas copas de tantas árvores. E o que dizer de seu rio, de suas praças e parques, do cais, dos barcos e navios, de seu lindo pôr-do-sol, de sua gente acolhedora? Está tudo escondido, hibernando à espera de melhores dias.
 
Segundo dados oficiais, o número de latrocínios (roubos com morte) aumentou este ano, chegando, entre janeiro e junho, a 23 vítimas em Porto Alegre e 89 vítimas no Estado. Mata-se por um celular, um par de tênis, um relógio velho, um carro, um pacote de supermercado, muitas vezes por nada, e sem qualquer reação das vítimas. No mesmo período, os homicídios dolosos saltaram para 351 em Porto Alegre e 1.276 no Estado. Isto sem contar outros crimes.*
 
O Estado não cumpriu a obrigação de construir novas casas prisionais diante do incremento da criminalidade. A superlotação dos presídios impede o atendimento individualizado aos presos, a começar pelo indispensável acompanhamento psiquiátrico. As condições desumanas dos estabelecimentos penais e o despreparo da sociedade em receber o egresso de volta são responsáveis pelo fenômeno da reincidência criminal, que ultrapassa os 70%. Inexiste ressocialização dos apenados.

O que as pessoas não se dão conta, parece, é que tudo de horrível que acontece no interior dos presídios retorna para as ruas.

Nos anos em que atuei na execução criminal, empenhei-me junto com colegas juízes e entidades civis pela humanização dessas casas de mortos (no dizer de Dostoievski). Trabalhamos com projetos de melhoria das condições carcerárias, buscando inserção social através do trabalho, do estudo, de encontros, palestras, livros, bem como pelo envolvimento da comunidade e das famílias dos presos nas atividades de ressocialização. Os resultados foram bons, confirmando que não existe execução criminal que dê frutos sem a participação da comunidade. A Lei de Execução Penal é sábia nesse sentido.

Pois bem, Porto Alegre possui um dos piores estabelecimentos penais do Brasil, se não for o pior, o Presídio Central. É o fundo do poço.
 
Não se chegou a este estado de coisas, portanto, por acaso. São décadas de omissão e indiferença do Estado e da sociedade. Não se combate a criminalidade sem investir, lá atrás, na concretização de direitos elementares como habitação, creches, escolas, saúde, centros comunitários e de convivência, oportunidades de trabalho, etc.

Não, a pobreza não é fábrica de criminosos. A imensa maioria da população não vai para o crime. Mas o que se vive no Brasil é uma situação de indigência social e abandono. O mundo do crime sabe cooptar seus integrantes em todos as classes, inclusive entre as pessoas mais vulneráveis, em situação de alto risco e desespero.
 
Os maus governantes devem estar orgulhosos do trabalho que fizeram, assim como aqueles que se beneficiaram deste iníquo sistema de coisas. E nós, cidadãos, temos nossa parcela de responsabilidade por escolher quem escolhemos. E por cultuarmos ferozmente a filosofia do eu-sozinho, esquecendo-nos do nós.
 
O dinheiro que falta para a realização do bem comum e para uma vida mais digna  está depositado nos bolsos sequiosos e insaciáveis dos corruptos, conforme estampado nos noticiários todos os dias.
 
O colapso de Porto Alegre não é um caso isolado, é só um triste recorte do Brasil. Esta é a herança que estamos recebendo e passando adiante, construída pelas pessoas da minha geração e das que nos antecederam.  Muitos de nós  achavam que a democracia era, por si só, a panaceia para todos os males, quando na verdade é apenas o começo do caminho a ser percorrido, e só Deus sabe a que preço.
 
Estamos atravessando um dos momentos mais agônicos da história brasileira. A falta de ética na vida pública nunca foi tão evidente. Ninguém aguenta mais tamanha desfaçatez. Precisamos urgentemente de mulheres e homens que reinventem o país com base no sentimento de solidariedade social. Um novo tempo de respeito ao próximo e de intolerância a todas as formas de corrupção é a nossa esperança.
 
________
 
*Dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do RS. Informação atualizada no blog em 3/12/2016.

http://www.ssp.rs.gov.br/?model=conteudo&menu=348

Os números publicados anteriormente a 3/12/16, nesta matéria, continham erro.
 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O cavaleiro invisível

Jorge Finatto

Dibujo de Miguel de Cervantes inspirado en el retrato que le hizo Juan de Jáuregui
Autor: Hernán Cortés Moreno. Foto: Arantxa Boyero

Fonte: Museo Casa Natal de Cervantes*


UM HOMEM SÓ, caseiro, beirando os cinqüentanos, cansado da vida pequena e vazia na qual nada acontece, resolve ir ao mundo em busca de aventura, justiça e amor.

A vida que vive não é a venturosa vida dos livros, é outra, enfadonha e triste. O melancólico senhor, habitante da região de La Mancha, na Espanha, mergulhou nas histórias de cavalaria, a elas dedicou seu tempo e sua alma, de tal modo que esqueceu o mundo real.

Vendeu até mesmo parte de suas terras, que não eram tantas, para comprar volumes e mais volumes de livros de cavaleiros andantes.

Dom Quixote e Sancho Pança, por Gustave Doré (1832-1883)

O valoroso fidalgo, de modestas posses, alto e seco de carnes, revolta-se: é preciso espelhar o sonho na realidade, plantar uma flor no solo ressequido do cotidiano.

Alonso Quijano vai ao mundo à procura daquilo que mudará o imóvel destino, quer reviver em si as lendas da cavalaria, e tecer outras, delas extraindo glória, reconhecimeno e o amor de sua amada, a não menos inventada Dulcinéia del Toboso.

O que nos diz o Quixote é que a vida real é insuficiente. Falta vida à vidinha.

A figura imortal criada por Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1615)¹ é o resumo da alma humana em suas maravilhas, esperanças, desesperos, contradições e tragédias.

O Cavaleiro da Triste Figura saiu pelas estradas poeirentas e bosques da Espanha para resgatar os oprimidos, dar ânimo aos infelizes, levantar os desvalidos, socorrer os caídos, lutar contra todas as injustiças, e para salvar a si mesmo.
 
Dom Quixote, por Gustave Doré

Montado no magro Rocinante ele vai ao mundo, armado cavaleiro andante, com escudo, espada e lança, tendo por companheiro Sancho Pança, meio louco como o amo, um pouco mais sensato talvez, montado em seu jumento.

Lá vão eles pela solidão dos caminhos.

A vida tal como é não basta. É necessário inventar outra, erguer a aurora do fundo da escuridão. É preciso viver intensamente os dias que passam velozes e irrecuperáveis.

Viver com a urgência de quem se despede. Viver como quem morre.

"Eu, Sancho, nasci para viver morrendo."²

Ninguém no mundo terá jamais autoridade para censurar Dom Alonso pelo desvario e fracasso da louca odisséia. Só os secos de espírito o fariam. O Quixote sonhou e tentou; o seu tentar valeu por tudo.

Não será essa busca o anelo secreto que habita o coração de tantos homens e mulheres na difícil jornada através do mundo hostil e trevoso, sonhando e lutando por uma outra existência, que faça valer a pena ter nascido?

Há talvez um Dom Quixote adormecido e invisível em cada um de nós à espreita da hora da rebeldia.

"Cada qual é artífice de sua ventura"³, ensinou-nos o Quixote. Essa afirmação vale um tratado de filosofia. Vale uma vida.

_________________
¹ Dom Quixote de la Mancha. Miguel de Cervantes Saavedra. Edição ilustrada por Gustave Doré, três volumes. Tradução de Almir de Andrade e Milton Amado. Ediouro Publicações S.A, Rio de Janeiro, 2002.
² idem, terceiro volume, p.307.
³ idem, ibidem, p. 379.
Fonte das ilustrações, exceto Cervantes: Wikipédia.
Texto revisto, originalmente publicado em 14 de julho, 2012.
* Museo Casa Natal de Cervantes:
http://www.museocasanataldecervantes.org/