domingo, 17 de outubro de 2010

O Tega

Jorge Adelar Finatto


O arroio Tega
era um som
um toque
um fio ligeiro
de água limpa
escorrendo mundo afora
no fundo das casas
da gente humilde

certo dia
emparedaram
o Tega

um pedaço
da minha vida
afundou junto

agora flui invisível
no subterrâneo

carrega na sombra
as tardes que se foram
perdidos barcos de papel
os sonhos do menino

em rumo cego
segue o velho Tega

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Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
Foto: J. Finatto

sábado, 16 de outubro de 2010

Lições do deserto

Jorge Adelar Finatto



O resgate de 33 mineiros do fundo de uma mina, a 700 metros de profundidade, no deserto de Atacama, no Chile, mostrou ao mundo, e a cada um de nós, o que podem a boa vontade, a união e a fé das pessoas. Dos 69 dias que passaram lá embaixo, 17 deles foram incomunicáveis. Na escuridão completa ou  na semiescuridão, durante todo o período, encerrado no último dia 13 de outubro, os mineiros nos deram uma demonstração de solidariedade, de crença em algo melhor, de obstinada determinação em seguir vivendo, contra toda adversidade.

Quantas vezes nos sentimos irremediavelmente solitários, incapazes de mudar qualquer coisa ao nosso redor e em nossas vidas? Pois aqueles 33 homens do povo - não havia nenhum com pós-graduação, mestrado, doutorado ou pós-doutorado - nos ensinaram coisas esquecidas em tempos de louco egoísmo, consumo, cinismo e total falta de limites na busca de bens materiais e do prazer a qualquer preço.

Havia vários tipos humanos no interior daquele terrível poço. Líderes com incrível capacidade de lidar com a crise, indivíduos amorosos com a família e com os amigos, alguns religiosos,  outros mais sensíveis, uns mais otimistas e determinados, um ou outro mais triste, quem sabe até algum desesperado. Mas fizeram uma opção inarredável de continuar lado a lado, lutando até o fim, fosse qual fosse o desfecho.  

O ser solidário não significa a eliminação da individualidade. Pelo contrário, é essa rica afirmação de sensibilidades, inteligências e jeitos de ser que nos mantém  vivos sobre o planeta ao longo dos seis milênios em que nele habitamos. Mas não podemos  nunca perder de vista a importância do com-viver, da empatia, da capacidade de se comover com o nosso semelhante. 

A vida só faz sentido na partilha do pão, do sentimento, da esperança. Só assim podemos vencer o medo. 

Do fundo da mina, em pleno deserto, o espírito humano  demonstrou que pode ser mais forte do que a morte, que juntos somos capazes de sobreviver e ir além. 

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Foto: Resgate do último mineiro. Fonte: Ap (copiada do site ultimosegundo.ig.com.br)


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ilha de San Michele, ilha dos mortos

Jorge Adelar Finatto




A Ilha de San Michele repousa serena diante de Veneza.

Não devemos perturbar o sossego de seus habitantes. Na gôndola em que navegamos em torno desse território calado, nada deve ser ouvido além do remo na água verde-safira. Entre os altos muros de ocres tijolos, à sombra de ciprestes, os mortos descansam na antiquíssima ínsula.

San Michele é um pequeno pedaço de terra no Mar Adriático, mas é, acima de tudo, uma metáfora.

A ilha dos mortos tem o olhar voltado desde o exílio para a República Sereníssima.

A ilha-cemitério é um testemunho da brevidade humana e um alerta contra as vaidades do mundo.

Façamos silêncio, portanto, nessa viagem pelas cercanias de lugar tão despojado.

A ísola oberva, ao largo, o frêmito dos vivos. Silenciosa mirada. O espelho das águas recolhe o espírito e as cores da cidade que se assenta sobre as cerca de 120 ilhas que formam Veneza. A história veneziana remonta aos primeiros anos da era cristã.


Os habitantes de San Michele conhecem a vocação da Sereníssima para o abismo da beleza e das paixões. Ninguém consegue ficar indiferente ao seu brilho e mistério. Veneza é cruel com os deserdados da sensibilidade, e com a bondade desprovida de malícia. Não é um lugar para onde devam ir os desiludidos da vida. Acolherá bem os amantes, sobretudo os que souberem amar seus labirintos ao longo dos canais tortuosos que se perdem na neblina do tempo.

Os mortos habitam a ilha já sem pecado, distantes do ruído e do encanto da cidade amada.

Veneza chegou àquele ponto turvo da civilização em que os falecidos não têm mais para onde ir. A cidade não pode crescer. Espaço para mais um morador é coisa rara em San Michele. Os defuntos que conseguem um lugar vão para lá de barco. O cortejo e a pompa (para alguns existe pompa até na morte) dependem das posses do viajante.

Entre a sombra e a luminosidade, Veneza recebe o coração ávido de memória e arte.

A silhueta negra e esguia das gôndolas desliza lentamente.


As máscaras do carnaval observam de noturnas vitrines.

La Serenissima pertence às águas, ao ruído do vento nos telhados e pontes, aos cavalos de névoa que invadem a Praça São Marcos. Os vetustos casarões, as galerias de arte, os vaporettos e palácios mergulham no fundo espectral dos canais.

As cores são fortes como a música das igrejas ao entardecer, os concertos na via pública, o traço febril de Tintoretto no Palácio Ducal.

Estamos de passagem no mundo. Devastados pelo desejo e pela beleza.

A metáfora de San Michele.

Se temos de ser ilhas, que pelo menos formemos arquipélagos com pontes e canais a nos unir, como em Veneza.

O resto são ostras e segredos na bruma dos corações.

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Fotos: J.Finatto
Publicado neste blog em 27-01-2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

«Sê plural como o universo!» Fernando Pessoa

Inês Pedrosa
  Escritora, Diretora da Casa Fernando Pessoa*


Lançamento do site da biblioteca particular de Fernando Pessoa, dia 21 de outubro próximo, às 18h, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa

A Casa Fernando Pessoa possui um tesouro único no mundo: a biblioteca particular desta figura maior da literatura. É muito raro conseguir-se encontrar a biblioteca inteira de um escritor com a dimensão universal de Pessoa. Os livros tendem a mover-se muito depressa: emprestam-se, perdem-se, vendem-se. Pessoa também vendeu alguns – mas deixou-nos 1140 volumes, de todos os géneros e em vários idiomas, densamente anotados e manuscritos.

Entendemos que uma biblioteca desta importância devia tornar-se património da humanidade – e não apenas dos que podem deslocar-se a esta Casa onde Fernando Pessoa viveu os últimos quinze anos da sua vida.

Graças à dedicação de uma equipa internacional de investigadores coordenada por Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari foi possível digitalizar, na íntegra, toda a biblioteca. Graças ao apoio da Fundação Vodafone Portugal foi possível colocar online cada uma das páginas digitalizadas. Deste encontro de entusiasmos generosos resultou a disponibilização gratuita da preciosa biblioteca do autor de Livro do Desassossego, que agora pertence aos leitores em qualquer parte do globo. Procurámos tornar acessível e simples a compreensão da biblioteca no seu todo – que está classificada por categorias temáticas – e a consulta de cada livro. Destacámos as páginas que incluem manuscritos do próprio Pessoa – ensaios e poemas escritos nas páginas de guarda dos livros.

Trata-se de uma biblioteca aberta ao infinito da interpretação – bela, surpreendente e instigante, como tudo o que Fernando Pessoa criou. Usufruam-na.

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*Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt

Notícia extraída do site da CFP.
A grafia é a de Portugal.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O Landgrave

Jorge Adelar Finatto


A fala principial que lhe dirijo, oh, impossível leitor.

Eu, o Landgrave, me curvo diante da vossa alta ausência. Vivo no interior do ermo, habito as águas profundas do meu calepino. No esconso do mundo. Vento de outubro quase me derruba. As fraquezas do corpo. Nunca se sabe o que vem a contrapeito. Travessia a que o fado nos obriga.

O sonho afagado tinha nome: Cléria, Cléria dos meus suspiros e invernos ao relento. A moça de papel e tinta, musa na solidão concebida. Sentimentos que se tecem no abismo das horas. Dores não se evitam.

Os fossos profundos no dentro de cada um.

Os vazios dias, as tardes no penedo. Hoje eu vejo tudo aqui de cima, na mansarda. Recolhido na grossa e comprida manta. O frio glacial dessas alturas sul-americanas ao sul. Esta página escrita na face do vento.

Fugazes as vaidades do mundo são. Mais vale um barco pronto pra partir. Fui resgatado do evento proceloso pela mão de salvadoras prosopopeias. De ponta cabeça no perau. São caminhos que se andam. Depois se aprende, depois se esquece.

O que não se sabe se inventa. O mundo não tem bom coração. O delicado vive por teimoso e obstinado. A humanidade enaltece a ruína e mata o humano. O que fizeram com esse texto as escuridões da vida.

Cléria, sim, Cléria dos meus tormentos. A que não se deixou amar. A desaparecida musa do vestido azul com a fita branca. Entrou e saiu do meu sonho sem saber. Vivia lá no seu castelo, sem dar pela minha existência de bardo de arrabalde.

Eu, o provedor das horas finitas, senhor de nadas, o catador de conchas na praia deserta. Ela se foi pela estrada sem dizer adeus.

Nas minhas lonjuras, ouço  o ranger de velhos barcos no cais.

A sintaxe é território conquistado no coração dos ais. Palavras são sentimentos que criam asas.

Agora sou o navegante. Viajor da aurora. Astrônomo de dicionários. O tal que restou com o barco retorcido nas pedras.  O sobrevivente. Esse quê.

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Foto: J. Finatto

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Gentileza

Jorge Adelar Finatto


A vida é assim. As mãos que plantam nem sempre são as que colhem. O semeador cultiva o alimento e a beleza que muitos vão aproveitar. Quantos se beneficiam do aroma das flores que mãos anônimas semearam na via pública? E quantos matam a fome graças ao trabalho imenso dos que  vão ao campo deitar sementes à terra?

Os anônimos fazem o moinho do mundo girar.

Na minha rua, por exemplo, alguém teve a  grande gentileza de plantar primaveras.  Nesta época, os arbustos cobrem-se de pequenas flores azuis e brancas, exalam o denso perfume que faz a felicidade de quem caminha na calçada.


Na mesma minha rua, existem também palmeiras. E buganvílias, sim, buganvílias.

Agora o vento chega do rio. Traz notícia de barcos e peixes em movimento. Carrega junto a vontade de viajar e esquecer, que às vezes aparece como sol entre nuvens.

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Fotos: J. Finatto

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A feira

José Saramago


Este ano não irei à Feira do Livro de Lisboa. Que não é como a de Frankfurt, ou a de Guadalajara, no México, nem sequer como a de Madrid, mas que é a nossa e está num lugar bonito, onde antes havia uma colina e agora menos, porque a fúria urbanística reduziu encostas, mas ainda assim vê-se o rio ao fundo, e há uma bela imagem da cidade pombalina, a que ia ser moderna e racional e o foi, basta passear por ela para ver que a razão esteve presente quando se desenhou, embora logo tivessem vindo outros que preferiram o obscurantismo às luzes e quase deram cabo dela.

Dizem-me que faz bom tempo e que a Feira este ano está mais animada, como se por esse mundo fora não lavrassem coisas terríveis, crise, pobreza, depressão. Diz-se que em épocas de crise se lê mais, e parece que os contabilistas comprovam esta afirmação. A mim agrada-me pensar que em épocas de crise as pessoas querem saber por que chegámos a isto e acercam-se aos livros como se estes fossem fontes de água fresca e os leitores gente sedenta.

Gosto da Feira do Livro. Gosto de estar horas sentado assinando exemplares de pessoas que chegam com um recado, em geral discreto. Gosto de levantar os olhos e ver as pessoas circulando entre os pavilhões, talvez procurando o ser humano que os livros levam dentro. Gosto do calor da primeira parte da tarde e da frescura que virá depois, sinto que certo lirismo me percorre o corpo, em mim que não sou lírico, mas sentimental. E penso que os livros são bons para a saúde, e também para o espírito, e que nos levam a ser poetas ou a ser cientistas, a entender de estrelas ou encontrá-las no interior da vontade de certas personagens, essas que às vezes, algumas tardes, se escapam das páginas e vão passear entre os humanos, talvez mais humanas elas.

Sinto muito não poder estar este ano em Lisboa, na Feira do Livro.
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Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Postado originalmente em 08 de maio, 2009.
A grafia é a de Portugal.


Foto de José Saramago (1922 - 2010) : Acervo da FJS