segunda-feira, 25 de maio de 2020

Meu caro George Orwell

Jorge Finatto

Foto do crachá de jornalista
de George Orwell, 1933. Wikipedia

Enquanto não começam a queimar livros nas praças
enquanto não sequestram o vizinho para averiguações
(e não o devolvem mais)
enquanto não invadem nossa casa em busca
de textos e canções proibidos
enquanto não nos levam à força para esclarecimentos
perante a polícia do pensamento
enquanto não suspendem o habeas corpus
enquanto não põem a tropa na rua para bater
em baderneiros que criticam o governo
enquanto não criam o índex dos subversivos
inimigos da pátria
enquanto não instauram a tortura
como instrumento de interrogatório
enquanto não fecham jornais e televisões
enquanto não espalham agentes infiltrados
em escolas e universidades
para identificar conspiradores
enquanto o parlamento permanece impassível
diante do monstro que se levanta,
lembremos que tudo isso que parece coisa do passado
pode estar mais vivo do que se imagina.
Um mundo sombrio, obcecado pela sede de poder total
que não se comove diante do sofrimento dos outros
nem diante dos cadáveres que se amontoam
em razão da peste e da indiferença
este triste mundo de perseguição e sadismo
que ergue sua imensa escuridão
e já não esconde a ânsia
de aprisionar o sol
e enterrar o futuro
________
Ao grande escritor britânico, autor do extraordinário e atual 1984.

sábado, 23 de maio de 2020

Os fascistas

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto


Os fascistas
escolhem sempre
as prisões
à BENIGNIDADE DO SOL

mas os poetas
continuarão
VIOLANDO
AS SOMBRAS


 _________________

Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
 

domingo, 17 de maio de 2020

Saudade de Vera Cruz

Jorge Finatto

detalhe do Planisfério de Cantino, nordeste brasileiro.
 
 
Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está

amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol
 
                               (Nada será como antes, Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)
 
Outono significa transformação, as mudanças tão necessárias e urgentes para a vida seguir seu curso. É o recolher das seivas, reunião de forças, introspecção, preparo e passagem para um outro tempo.

Não quero desfazer das outras estações, cada qual com seu gosto e seu agosto. O verão, por exemplo: tem muita gente que gosta. A primavera é amada por todos. Mas é no outono que eu renasço.

O outono não é um senhor decrépito, longe disso. É uma musa sensual, discreta e misteriosa, que traz o véu iridescente com mil tons, além de delicadas fragrâncias.

As manhãs da estação das folhas cadentes prometem beleza e contemplação. As nuvens são cor de açúcar queimado ao entardecer.
 
Um texto de fuga, alguém dirá, talvez com razão. A palavra há de servir, também, para a evasão do real, sempre tão necessária a fim de evitar a loucura por excesso da realidade.
 
Os dias dentro de casa, trancados para fugir do bicho ruim, pestilento, passam à velocidade da luz, e são, ao mesmo tempo, longos e intermináveis. Lá pelas tantas tudo parece um dia só. E quando se vê, foi-se uma semana, um mês.
 
São estranhos esses dias de portas fechadas e janelas pensativas. A peste corre feroz e à solta no burgo. Um cenário da Idade Média.  

A truculência verbal e a ignorância ocupam o centro das atenções hoje no Brasil. O cenário primitivo, agressivo e intolerante é tal que não podemos sequer dizer que estamos vivendo na Idade Média.

Estamos sendo catapultados direto para a escuridão das cavernas. Um país desorientado, com o povo exposto à pandemia covid-19, ao enorme desemprego e à incessante crise política gestada no interior do poder. 

Um momento extremamente duro, um futuro nebuloso. E dizer que com um mínimo de bom senso, por parte de quem tem o dever do bom senso, tudo poderia ser melhor.

Os sabiás andam calados. As aves de mau agouro ocupam o palco.
 
Saudade da Terra de Vera Cruz com sua gente lutadora, amável e criativa, saudade de suas cidades movimentadas, seus verdes mares e belas paisagens. Saudade do cotidiano civil com sua magia e seu feijão com arroz. Saudade dos pássaros e das nuvens.
 
Eu ando mesmo com uma bruta saudade de um pouco de leveza, lucidez e esperança, em meio à barbárie destes dias.  
 

quarta-feira, 13 de maio de 2020

A queda de Chet Baker em direção ao infinito

Jorge Finatto

Chet Baker, 1983. foto: Michiel Hendryckx
Wikipedia

Faz hoje 32 anos que Chet Baker (1929 - 1988) morreu após despencar da janela de um quarto de hotel em Amsterdam. Nunca se esclareceu se foi suicídio ou morte acidental. Um mistério.

O que não é mistério é a enorme contribuição dele ao jazz e à música. Com seu maravilhoso trompete e sua voz cálida, quase sussurrada, inventou uma nova maneira, personalíssima, de fazer música.

Aos 58 anos perdeu a vida, uma vida atormentada que lhe pregou dolorosas peças. O envolvimento com as drogas foi um capítulo dramático em sua existência.

A música foi sua salvação. Nos palcos onde pisou, com big band ou solitário, uma aura de silêncio tomava conta quando, sentado, silhueta esguia, empunhava seu instrumento. Naquele diminuto território ele era o mágico senhor dos sons e sentimentos.

No vasto fundão do universo, imagino que, em certa noite de melancolia, Deus criou Chet para aquecer o seu coração e o coração dos homens.


Não me abandones*

                         a Chet Baker

Não me abandones
povoa a noite
com teu suprimento
de afeto

enche o deserto
com teus passos

em segredo
devolve-me
a delicadeza
daqueles dias

me dá outra vez
o diamante
da tua
presença


________

*Do livro O Habitante da Bruma, Jorge Finatto, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Leia também Chet on poetry:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/06/uma-viagem-sentimental.html

terça-feira, 12 de maio de 2020

Dádiva na tarde de outono

Jorge Finatto

photo: jfinatto, 11 maio 2020

Quando desci a Serra, aos seis anos, para visitar a mãe em Porto Alegre, não imaginava que nunca mais voltaria para a casa à beira do arroio. Não voltaria para perto dos pinheiros, das parreiras, dos caminhos de chão. Não sentiria mais o cheiro de vinho no porão. Não veria mais os amigos.

A morte repentina da avó, ao meu lado, em Porto Alegre, teve consequências desastrosas para mim e para o avô. Ela era a nossa verdadeira casa. A nossa amada querência. Sem ela, não havia para onde voltar. Não havia mais nada sem ela. Foi difícil sobreviver.

Os anos passaram como passam as nuvens no vento. Sempre alimentei no íntimo o desejo de regressar à Serra um dia. Quase quarenta anos depois isto de fato aconteceu. Não na mesma casa, não na mesma cidade, mas em outra não muito distante dela.

Reconstruí a casa desmoronada. É um lugar cálido, com horta, pinheiros, plátanos, quintal, jardim, frutíferas, pássaros. Principalmente com a querida família a quem devo esse tempo feliz, pouco importando a peste e todos os problemas.

Pensei nessas coisas enquanto caminhava nesta tarde de outono. Pisando nas folhas, agradecendo a Deus por estar vivo e poder assistir ao incrível espetáculo da natureza nessa época. Sinto que valeu a pena ter sobrevivido.

Dádiva na tarde de outono.

photo: jfinatto, 11 maio 2020

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Um homem só

Jorge Finatto

photo: jfinatto

Escutei o relato de um médico, numa entrevista de rádio, a respeito de sua experiência com pacientes da covid-19. Trabalha num hospital de Porto Alegre. Disse que um paciente com cerca de trinta anos estava internado para tratamento de um câncer agressivo. Perdera a capacidade de falar em razão disso. 

Durante a internação apresentou sintomas que o levaram ao teste do novo coronavírus. Enquanto aguardava o resultado, estava em isolamento no quarto há alguns dias.

O médico contou que, através de gestos, o homem fez um único pedido. Queria poder ver a filha. Foi-lhe dito que, naquele momento, isto não poderia ser diante do risco de contágio. De modo que teria de ficar só por enquanto.

Eu fiquei impressionado e triste com a história.  Percebi como se fosse minha a enorme solidão daquele jovem submetido a tanto sofrimento. Pensei numa palavra que pudesse levar-lhe algum conforto. Não encontrei.

Quem já passou por hospital sabe que contamos minuto após minuto o tempo que falta para melhorar e ir embora. O único consolo que nos resta é a presença das pessoas que amamos. Só esta presença e a fé podem nos fortalecer.

Estou rezando por aquele homem, que Deus lhe dê ânimo e forças para vencer. Que nesta hora tremenda Deus ampare os doentes espiritualmente, não os deixe esmorecer, e salve a todos.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Hermann Hesse em Montagnola

Jorge Finatto

photo: JFinatto. Museu Hermann Hesse, Montagnola, jan. 2020.

Descrevi e louvei muitas vezes tudo isso. Gastei centenas de folhas de bom papel de pintura, muitos tubos de tinta, para provar minha veneração pelas velhas casas e telhados de madeira, muros de jardim e bosque de castanheiros, montanhas próximas e distantes, com minhas aquarelas ou bico de pena. Plantei aqui muitas árvores e arbustos, um pequeno bambuzal na fímbria do bosque, e muitas flores. (Quarenta anos de Montagnola, Hermann Hesse

Em janeiro último viajei a Lugano, no cantão (estado) do Ticino, sul da Suíça (a Suíça italiana), com o objetivo principal de conhecer o lugar onde viveu e escreveu Hermann Hesse (1877-1962). O Museu Hermann Hesse, na pequena Montagnola, abriga o acervo deste que é, segundo dizem, o autor de língua alemã mais lido no mundo. Nascido em Calw, Alemanha, tornou-se cidadão suíço em 1924. Em 1946 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

photo. J.Finatto. Museu Hermann Hesse, jan. 2020

Montagnola é um lugarejo pertencente ao município de Collina D´Oro, situado nas cercanias de Lugano. Chega-se lá de ônibus (que tomei junto à estação ferroviária de Lugano) após cerca de 15 minutos de íngreme subida, vislumbrando-se, do alto, o belo Lago Lugano e suas montanhas na fronteira com a Itália.

O museu funciona na Torre Camuzzi, ao lado da Casa Camuzzi onde o poeta e escritor viveu em um apartamento entre 1919 e 1931. Foi viver em Montagnola "em busca de refúgio", sendo na época um homem "na flor da idade".²

Depois, mudou-se para a Casa Rossa, perto dali, que lhe foi oferecida por um mecenas como morada permanente - vitalícia - até sua morte, em 1962. Ambas as propriedades onde ele viveu são privadas, não podendo ser visitadas.

photo do escritor. Museu Hermann Hesse, Montagnola.

A vista desde Montagnola é belíssima. O lago, as montanhas, as videiras, jardins, quintais e demais elementos enchem os olhos. Pacifista e naturalista, Hesse ficou também conhecido pelas longas caminhadas que costumava fazer. Diz-se que, às vezes, pelado.

Antes de chegar ao museu existe um café literário com livros dele, mas não só, e com publicações de suas pinturas. O cappuccino é ótimo, assim como os doces e sanduíches. A senhora que atende no local é muito querida.

pintura de H. Hesse

Conhecer Hesse pintor (aquarelista principalmente) foi pra mim uma grata descoberta. Não conhecia este seu lado. As pinturas são muito bonitas.

Entrando no museu encontram-se objetos que marcaram sua vida e obra, como uma velha máquina de escrever, edições originais de seus livros, móveis, fotografias, quadros, correspondências, chapéus, aquarelas, etc. Alguns instrumentos lembram que ele se dedicou ao cultivo de plantas, árvores, flores, hortaliças. Foi um jardineiro amoroso do ofício.

Existe, além disso, um pequeno cinema no porão que mostra um documentário sobre a vida do escritor em italiano, alemão, inglês e francês, com audioguides (em alemão e italiano). No museu se acha um amplo programa de leituras, palestras e concertos que ocorrem ao longo do ano.

máquina de escrever de H. Hesse. photo: JFinatto

A trilha "Nos rastros de Hermann Hesse" passa por locais em que o escritor gostava de estar e contemplar a paisagem de Collina d'Oro. O ponto de chegada da caminhada de cerca de meia hora é o túmulo de Hesse no cemitério de Montagnola-Gentilino.

O autor de O Jogo das Contas de Vidro diz muito à alma de pessoas sensíveis. Não li toda a sua obra, mas o que li foi suficiente pra saber que se trata de um grande escritor, alguém preocupado com a vida. Teve sua obra proibida na Alemanha nazista. Sua voz aproxima nosso coração das coisas simples e profundas, fugindo dos estereótipos, da mercantilização e da coisificação do ser humano. É um escritor que escolhe sempre o silêncio em meio à gritaria, a contemplação, o mergulho em viagens espirituais. Para isso contribuiu seu conhecimento de culturas como as da Índia e China.

photo: JFinatto. jan, 2020. Museu H. Hesse

Em tempos tão duros, ler Hermann Hesse, travar conhecimento com seu pensamento e com a beleza de seus escritos, é um antídoto contra a mediocridade, a grosseria, o autoritarismo, a estupidez e a falta de esperança.

Agradeço a Regina Bucher, diretora da Fondazione Hermann Hesse e do Museu, pela gentileza da atenciosa recepção.

objetos do escritor. photo: JFinatto, jan, 2020

Tanto quanto me lembro, sempre encarei a função do escritor sobretudo como memória, como não-esquecimento, como preservação do efêmero na palavra, como retorno do passado através de apelos e carinhosa descrição. (idem, ibidem) ³

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1, 2, 3  Pequenas Alegrias. Hermann Hesse. págs. 5 e 305. Tradução: Lya Luft. Editora Record, Rio de Janeiro, 1977. 

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Alberta de Montecalvino

Jorge Finatto

photo: jfinatto

VENEZA é o sonho de toda Colombina.

Eu passei a vida em Passo dos Ausentes. O que é esse lugar? Um território sitiado pelo vento. A neblina, o frio e a solidão povoam a aldeia o ano inteiro.

Habito com amargura e ironia esta estação de fim de mundo.

Casei-me aos 14 anos com Dom Alberto de Montecalvino, o Solitário da Biblioteca. Contrato de gaveta. Era eu de pobre origem. Estudava as primeiras letras e ajudava no serviço de casa. A mãe, viúva de quatro filhos, lavadeira, no inverno vendíamos lenha na porta das casas.

Na época Dom Alberto contava 69 anos. Desde aquele quando, passei a viver neste austero castelo de basalto e vidro. Hoje tenho 70 anos, sou deveras viúva e, às vezes, me perco nos salões da memória. As intermitências.

Daqui de cima, na larga janela da biblioteca, avisto o Contraforte dos Capuchinhos. Gosto muito dessa visão porque por ali é que se vai embora de Passo dos Ausentes. Mas nunca passei naquela longa estrada. Dom Alberto me pediu que jamais o fizesse. Os medos. Atendi o bom homem. Passaram-se os anos.

O muito amado do meu coração é Pedrolino. Dom Alberto sempre soube, suportou, era como um pai pra mim. O meigo Pedrolino. Amoroso e fiel. Seu amor é casto e resignado. Tem as delicadezas, carrega bosques de ilusão na alma gentil.

Arlequim é o senhor das labaredas.

Inconstante e fútil. Nunca vem ao meu coração. Tem meu corpo, jamais minha alma. Com ele muito me rio, é engraçado, leviano. Incapaz de amar alguém além de si mesmo. Não tem sentimento.

O corpo tem fome e a fome, seus apetites.

Arlequim é malicioso, egoísta, por isso sabe agradar quando quer. Pedrolino é terno, quase um menino, vai direto ao assunto. Não conhece as sutilezas.

Quem pudera reunir, na mesma criatura, as gratas virtudes. Mas o mundo humano foi costurado imperfeito, eu sei. Tal felicidade ninguém merece.

Ambos os dois, Arlequim, o devasso, e Pedrolino, o amado, são a minha devoção. Cada qual no seu momento.

Sou a Senhora da Biblioteca. Viúva mui constante em negras vestes de luto. Os respeitos a Dom Alberto. Tenho a minha idade, conheço os regulamentos, mas só os cumpro à minha vontade. Cultivo a fé, no discreto. Véu de seda e missal.

Não me julguem tão depressa. Poupem-me da moral de almanaque.

De metafísica e solidão o cemitério está cheio. Conheço os reveses.

Eu vivo os enquantos.

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Texto revisto, publicado em 7/7/2011

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Volta ao mundo num barco de papel

Jorge Finatto

Arroio Tega no Moinho da Cascata, Caxias do Sul.
photo: Nereu de Almeida, ClicRBS


O Arroio Tega passava no fundo do quintal da casa onde nasci. Entre os pinheiros e a horta, me iniciei na arte da navegação em barcos de papel, que construía com folhas de caderno escolar.
 
O Tega era uma extensão do nosso pátio e um caminho de água doce que se ia pelo mundo. Nele partiam as minhas pequenas embarcações em viagem por aquelas águas ligeiras e, então, claras.

Um dos possíveis significados da palavra tega, no italiano antigo, é pragana (barba ou fios de espigas de cereais), que ondula ao vento, acepção tão em acordo com a sinuosidade da correnteza e da vida.

Lá em casa a natureza fazia parte do dia a dia. Além de bichos comuns (na época) como galinhas, cabritas, peixes, gato, cão, havia também um macaco. E uma vez apareceu também um pingüim que o avô trouxe da praia de Torres. Apareceu lá vindo das paragens da Antártida, sabe-se lá como.

O nosso pingüim deu-se muito bem no clima temperado da serra. Gostava de ir caminhando ao lado do avô até a Praça Dante Alighieri, coração da cidade. O assunto virou destaque numa matéria especial do velho jornal Correio do Povo, numa página perdida do final da década de 1950.
 
Dos barcos de papel que soltei no Tega não sei o destino. Talvez algum tenha conseguido seguir o trajeto até o Rio das Antas, depois ao Taquari, chegando mais tarde ao Guaíba, à Lagoa dos Patos e, por fim, ao oceano. 
 
Tinha eu seis anos quando chegou a hora de dizer adeus e partir das margens do Tega. Nunca mais voltei ao arroio em que me tornei navegador.

A vida me levou por águas distantes e revoltas. Às vezes fui feliz como um peixe no Tega. Outras me senti triste e só como um capitão que perdeu a bússola e se extraviou no mapa rasgado.
 
De qualquer forma, de tanto ver o arroio passar e ir ao mundo, ganhei gosto de conhecer outros lugares e gentes. E o mundo é uma viagem de onde nunca mais se retorna.
 
Ouvi dizer que o Tega, importante patrimônio ambiental da cidade, onde brincávamos e perto do qual, nos fins de semana, as famílias colocavam mesas para as refeições e encontros, está agora poluído, quase morto. Mas ouvi, também, que estão fazendo obras de tratamento de esgoto e outros efluentes para livrá-lo da morte atroz. Bem hajam!
 
Não pode morrer o arroio que fornece água boa de pura nascente rochosa, que foi cenário inesquecível das brincadeiras de meninos e meninas antigos que ali viveram talvez os melhores dias de suas vidas. 

sábado, 25 de abril de 2020

Entre todas, a mais bela estação

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

O outono é a estação mais bela. A coleção de cores, a variedade infinita de tons, a concentração das seivas. A beleza da solidão.

Saí do "distanciamento social", imposto pelo bicho medonho, e fui fazer umas fotos. Ninguém na Praça Gustavo Langsch. Sossego, passarinho, um pouco de frio.

A vida continua viva.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Onde estás, alegria?

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto


Cada um se vira como pode pra catar alegria em dias assim tão sombrios. Eu tenho me valido das crônicas do sempre lúcido, terno e lírico Rubem Braga (1913 - 1990). Em qualquer livro, qualquer crônica,  o senhor Braga nos enche a alma de felicidade e faz esquecer a peste que assola o planeta e que, infelizmente, já fez tantas vítimas.
 
Um desses livros é "50 crônicas escolhidas", de Edições BestBolso, de 2016. Pequeno, de bolso, leva-se pra qualquer lugar, mais a leveza e o encanto. Inefável alegria poder ler um autor com tanto a dizer e de um jeito único.
 
Ouvir música também é um asseio contra o mau agouro. Descobri no YouTube uma música deliciosa de Chiquinha Gonzaga e Machado Careca, de 1895: Corta-Jaca, um maxixe. Maxixe é uma dança criada, segundo o professor Google, por afrodescendentes brasileiros (caso da própria Chiquinha, compositora e maestrina extraordinária). A interpretação - cantante, dançante e belíssima - é de Lysia Condé.
 
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Corta-jaca. Lysia Condé, YouTube:

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Fanicos e farfalhas

Jorge Finatto
 
photo de joaninha: Wikipédia. Autor: Jon Sullivan (PD-PDphoto.org]


Quem viu alguma vez uma JOANINHA caminhando na página de um livro ou sobre uma folha verde sabe do que estou falando.

É o acontecimento mais importante do universo.
 
Nenhuma literatura, nenhum cinema, nenhuma filosofia do mundo valem os passos da joaninha. Só que pouca gente percebe o engenho e a arte por trás da construção e da vida da frágil joaninha.

Existem muitos outros assuntos importantes para se tratar, está bem. Um escritor-fotógrafo a sério não devia ignorar isso. Tudo bem. O fato, contudo, é que me encanto com os farelos do mundo, com a coisa pouca ou nenhuma que somos. Com um raio de sol na parede ou caído dentro de um copo dágua sobre a mesa.

As coisas pequenas me atraem, me cativam, me elevam. As outras me enfadam, quando não revoltam. Encontro beleza e claridade nos fanicos da existência.

Tudo que é breve e pequeno se parece com ser humano e com estar vivo e ser transitório, e isso me interessa sobretudo.

Os verdadeiros e últimos sentidos habitam muito além das aparências, é assim que eu vejo. E o que eu mais enxergo, quando penso profundamente na vida, é a pequenina joaninha.

O mundo silencioso das migalhas me é, por isso, muito caro e diz muito mais sobre o que nós somos - ou o que sou eu, ao menos - do que um tratado ontológico. Quando perdemos a capacidade de expressar o que sentimos, é como se perdêssemos a vida.

Deus nos livre e guarde.

Na arte, ao menos, podemos voar, sonhar, levitar acima dos mausoléus e crematórios existenciais. Mas sei também que ninguém pode viver entre nuvens. 
 
Deve haver um caminho de passagem entre as farfalhas da vida e a copa das estrelas; entre a imensidão da Via Láctea e os passos humildes e comoventes da joaninha.
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Texto revisto, publicado antes em 25/11/2012.

sábado, 18 de abril de 2020

Incidente na Praça Maurício Cardoso

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
VULTO NA PRAÇA. A luz amarela seria poética, não fosse o perigo dos assaltos. Um observador oculto espreita entre as buganvílias.

Quem vem lá? Difícil saber na escuridão sem trégua. A noite de domingo até podia ser romântica. Mas há indivíduos dormindo nos bancos da Praça Maurício Cardoso em Porto Alegre. Dois bêbados urinam sob a pérgula.

A cidade não tem piedade dos seres delicados. Mas há que vencer o mal com o bem. É essa a hora do menestrel, do cavalo fiel, da capa, da espada e do alaúde.

Eis que emerge da treva tremenda o Cavaleiro da Bandana Escarlate, montado no seu cavalo branco. Vem galopando desde muito longe, desde os Campos de Cima do Esquecimento, desde o fim do mundo.
 
Vem para a batalha final.

Atravessa a praça no garboso corcel de arado, cuidando aqui e ali pra não amassar as flores. Um cara passa correndo atrás de outro pela rua afora, gritando coisas impublicáveis.

O cavaleiro veste a capa de seda preta. A máscara negra não permite lhe descubram o segredo. Traz o antiquíssimo alaúde a tiracolo.

O mimoso instrumento pertenceu a um seu trisavô que veio fugido da Itália. Aqui se estabeleceu no ramo dos embutidos e depois mourejou em negócios obscuros.

O cavaleiro tem genealogia, portanto. Mas o que passou, passou.

Neste momento ele cruza pro outro lado da rua e estaciona o alvo eqüino (com trema, por favor) debaixo do balcão da Meiga Donzela Dionéia (com acento, por favor, não obstante o desprezível (des) acordo ortográfico).

O nosso herói saca com grande donaire o lustroso instrumento.

Dedilha então os primeiros acordes. A melodia acorda a Musa que, entre estremunhada, descabelada e furiosa, vai até a janela do balcão saber do que se trata. Não acredita no que vê.

- O que quereis, ó, Cavaleiro do Alaúde em Riste? - pergunta com voz sinistra. - Acaso não percebeis que altas horas são? Não vos dais conta do ridículo? Estamos em 2020, please!

E prossegue a Incontornável camena:

- Deixai-me dormir, ó, Misterioso Mascarado. Amanhã é dia de pegar no batente outra vez, voltar pra dureza inglória da vida. Retornai ao vosso castelo de areia e vento, ó, Romântico Senhor, poupai-me. Do contrário, obrigar-me-ei a chamar os homens da lei para vos untarem com rudes afagos, que é o que deveras mereceis.

O Cavaleiro da Bandana Escarlate silencia o mimoso instrumento. Baixa a cabeça. Parece não acreditar no que acaba de ouvir. Cavalgou durante dias por estradas cheias de perigos. Mais de uma vez viu-se forçado a jogar-se no matagal com o esbaforido e lácteo corcel por força de grosseiros caminhões.

Para não comprometer ainda mais o idílio, decide retirar-se. Num gesto de rara nobreza, joga uma rosa branca ao balcão. Depois ergue alto o alaúde na mão esquerda, empina o pangaré e grita:

- Eu voltarei na primavera, ó, Estressada Dionéia, Musa Minha Indomada. A rejeição é uma refeição que se come fria. Mas jamais esfriará este esgualepado coração.

Ao proferir essas sonantes palavras, escorrega do gentil animal e estatela-se na gelada calçada, magoando a triste cabeça que a escarlate bandana - agora rasgada - antes cobria.

Aos poucos recompõe-se o Nobre Cavaleiro. Junta o alaúde, apruma-se sobre o valoroso eqüídeo (nessa altura, tanto faz como tanto fez o trema) e parte no trote.

Enquanto cruza de volta a Praça Maurício Cardoso, um insensível abre a janela num edifício próximo e manda:

- Vá tomar no seu caju (aqui é suprimida a expressão original pela fruta, a fim de manter o decoro mínimo).

Assim que, sem perder a altivez, o nosso Ilustre Menestrel Medieval desaparece na noite escura da grande cidade.

Um bêbado atira uma pedra e quebra a luminária da praça. Fim.  
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Texto revisto, publicado antes no blog em 27 de abril, 2010.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

O Brasil cara a cara

Jorge Finatto

As classes média-alta e rica do Brasil descobriram, enfim, que existem pobres no país. E que esses indivíduos fazem parte daquele contingente ao qual a filosofia, as artes, as religiões e a ciência chamam de seres humanos. Descobriram que essa gente vive em péssimas condições, sem moradia digna, sem alimento, sem água tratada, sem esgoto, sem saúde, sem escola, sem emprego. Vivem de teimosos.

Foi preciso um vírus maldito para mostrar o Brasil aos brasileiros. Maldito, sim, mas democrático, porque atinge tanto em cima como embaixo da pirâmide social. Então os "bem de vida" percebem que não adianta ter dinheiro e plano de saúde, porque não terão vagas nos hospitais nem respiradores se o contágio explodir. Nem jatinho adianta, porque não tem pra onde voar, as fronteiras do mundo estão fechadas.  

O Brasil dos abastados vê que o "fique-em-casa" não funciona pra essa gente que vive à margem de tudo e literalmente (e não literariamente) não tem o que comer, se não sair à rua pra fazer um biscate. São pessoas até há pouco invisíveis para o povo de cima. E elas têm potencial de, saindo em busca da sobrevivência, contaminar-se e passar o covid-19 adiante, fazendo o já precário sistema de saúde vir abaixo. Esses seres humanos, até há pouco ignorados, não têm celular nem notebook. Nunca poderão fazer "home office" nem chamar um "delivery" pra matar a fome. Nem assistir antigas partidas de futebol, ler bons livros ou curtir belos filmes e shows em casa.

Isto sem falar dos 13 milhões de desempregados esperando desesperadamente uma oportunidade de trabalho, uma porta que se abra para voltarem a viver.

O Brasil rico defronta-se com o Brasil dos abandonados e não sabe o que fazer, porque nunca se interessou seriamente por eles.  E repete "ad nauseam" o mantra "fique-em-casa" como se isso pudesse salvá-lo em sua arca de egoísmo. Parece não se dar conta de que, para os pobres que não têm nada, e nem a quem recorrer, o mundo explodiu faz tempo, e o coronavírus é só mais um personagem na tragédia diária de um pais sem rumo  e profundamente desumano.