quinta-feira, 30 de abril de 2020

Alberta de Montecalvino

Jorge Finatto

photo: jfinatto

VENEZA é o sonho de toda Colombina.

Eu passei a vida em Passo dos Ausentes. O que é esse lugar? Um território sitiado pelo vento. A neblina, o frio e a solidão povoam a aldeia o ano inteiro.

Habito com amargura e ironia esta estação de fim de mundo.

Casei-me aos 14 anos com Dom Alberto de Montecalvino, o Solitário da Biblioteca. Contrato de gaveta. Era eu de pobre origem. Estudava as primeiras letras e ajudava no serviço de casa. A mãe, viúva de quatro filhos, lavadeira, no inverno vendíamos lenha na porta das casas.

Na época Dom Alberto contava 69 anos. Desde aquele quando, passei a viver neste austero castelo de basalto e vidro. Hoje tenho 70 anos, sou deveras viúva e, às vezes, me perco nos salões da memória. As intermitências.

Daqui de cima, na larga janela da biblioteca, avisto o Contraforte dos Capuchinhos. Gosto muito dessa visão porque por ali é que se vai embora de Passo dos Ausentes. Mas nunca passei naquela longa estrada. Dom Alberto me pediu que jamais o fizesse. Os medos. Atendi o bom homem. Passaram-se os anos.

O muito amado do meu coração é Pedrolino. Dom Alberto sempre soube, suportou, era como um pai pra mim. O meigo Pedrolino. Amoroso e fiel. Seu amor é casto e resignado. Tem as delicadezas, carrega bosques de ilusão na alma gentil.

Arlequim é o senhor das labaredas.

Inconstante e fútil. Nunca vem ao meu coração. Tem meu corpo, jamais minha alma. Com ele muito me rio, é engraçado, leviano. Incapaz de amar alguém além de si mesmo. Não tem sentimento.

O corpo tem fome e a fome, seus apetites.

Arlequim é malicioso, egoísta, por isso sabe agradar quando quer. Pedrolino é terno, quase um menino, vai direto ao assunto. Não conhece as sutilezas.

Quem pudera reunir, na mesma criatura, as gratas virtudes. Mas o mundo humano foi costurado imperfeito, eu sei. Tal felicidade ninguém merece.

Ambos os dois, Arlequim, o devasso, e Pedrolino, o amado, são a minha devoção. Cada qual no seu momento.

Sou a Senhora da Biblioteca. Viúva mui constante em negras vestes de luto. Os respeitos a Dom Alberto. Tenho a minha idade, conheço os regulamentos, mas só os cumpro à minha vontade. Cultivo a fé, no discreto. Véu de seda e missal.

Não me julguem tão depressa. Poupem-me da moral de almanaque.

De metafísica e solidão o cemitério está cheio. Conheço os reveses.

Eu vivo os enquantos.

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Texto revisto, publicado em 7/7/2011

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Volta ao mundo num barco de papel

Jorge Finatto

Arroio Tega no Moinho da Cascata, Caxias do Sul.
photo: Nereu de Almeida, ClicRBS


O Arroio Tega passava no fundo do quintal da casa onde nasci. Entre os pinheiros e a horta, me iniciei na arte da navegação em barcos de papel, que construía com folhas de caderno escolar.
 
O Tega era uma extensão do nosso pátio e um caminho de água doce que se ia pelo mundo. Nele partiam as minhas pequenas embarcações em viagem por aquelas águas ligeiras e, então, claras.

Um dos possíveis significados da palavra tega, no italiano antigo, é pragana (barba ou fios de espigas de cereais), que ondula ao vento, acepção tão em acordo com a sinuosidade da correnteza e da vida.

Lá em casa a natureza fazia parte do dia a dia. Além de bichos comuns (na época) como galinhas, cabritas, peixes, gato, cão, havia também um macaco. E uma vez apareceu também um pingüim que o avô trouxe da praia de Torres. Apareceu lá vindo das paragens da Antártida, sabe-se lá como.

O nosso pingüim deu-se muito bem no clima temperado da serra. Gostava de ir caminhando ao lado do avô até a Praça Dante Alighieri, coração da cidade. O assunto virou destaque numa matéria especial do velho jornal Correio do Povo, numa página perdida do final da década de 1950.
 
Dos barcos de papel que soltei no Tega não sei o destino. Talvez algum tenha conseguido seguir o trajeto até o Rio das Antas, depois ao Taquari, chegando mais tarde ao Guaíba, à Lagoa dos Patos e, por fim, ao oceano. 
 
Tinha eu seis anos quando chegou a hora de dizer adeus e partir das margens do Tega. Nunca mais voltei ao arroio em que me tornei navegador.

A vida me levou por águas distantes e revoltas. Às vezes fui feliz como um peixe no Tega. Outras me senti triste e só como um capitão que perdeu a bússola e se extraviou no mapa rasgado.
 
De qualquer forma, de tanto ver o arroio passar e ir ao mundo, ganhei gosto de conhecer outros lugares e gentes. E o mundo é uma viagem de onde nunca mais se retorna.
 
Ouvi dizer que o Tega, importante patrimônio ambiental da cidade, onde brincávamos e perto do qual, nos fins de semana, as famílias colocavam mesas para as refeições e encontros, está agora poluído, quase morto. Mas ouvi, também, que estão fazendo obras de tratamento de esgoto e outros efluentes para livrá-lo da morte atroz. Bem hajam!
 
Não pode morrer o arroio que fornece água boa de pura nascente rochosa, que foi cenário inesquecível das brincadeiras de meninos e meninas antigos que ali viveram talvez os melhores dias de suas vidas. 

sábado, 25 de abril de 2020

Entre todas, a mais bela estação

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

O outono é a estação mais bela. A coleção de cores, a variedade infinita de tons, a concentração das seivas. A beleza da solidão.

Saí do "distanciamento social", imposto pelo bicho medonho, e fui fazer umas fotos. Ninguém na Praça Gustavo Langsch. Sossego, passarinho, um pouco de frio.

A vida continua viva.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Onde estás, alegria?

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto


Cada um se vira como pode pra catar alegria em dias assim tão sombrios. Eu tenho me valido das crônicas do sempre lúcido, terno e lírico Rubem Braga (1913 - 1990). Em qualquer livro, qualquer crônica,  o senhor Braga nos enche a alma de felicidade e faz esquecer a peste que assola o planeta e que, infelizmente, já fez tantas vítimas.
 
Um desses livros é "50 crônicas escolhidas", de Edições BestBolso, de 2016. Pequeno, de bolso, leva-se pra qualquer lugar, mais a leveza e o encanto. Inefável alegria poder ler um autor com tanto a dizer e de um jeito único.
 
Ouvir música também é um asseio contra o mau agouro. Descobri no YouTube uma música deliciosa de Chiquinha Gonzaga e Machado Careca, de 1895: Corta-Jaca, um maxixe. Maxixe é uma dança criada, segundo o professor Google, por afrodescendentes brasileiros (caso da própria Chiquinha, compositora e maestrina extraordinária). A interpretação - cantante, dançante e belíssima - é de Lysia Condé.
 
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Corta-jaca. Lysia Condé, YouTube:

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Fanicos e farfalhas

Jorge Finatto
 
photo de joaninha: Wikipédia. Autor: Jon Sullivan (PD-PDphoto.org]


Quem viu alguma vez uma JOANINHA caminhando na página de um livro ou sobre uma folha verde sabe do que estou falando.

É o acontecimento mais importante do universo.
 
Nenhuma literatura, nenhum cinema, nenhuma filosofia do mundo valem os passos da joaninha. Só que pouca gente percebe o engenho e a arte por trás da construção e da vida da frágil joaninha.

Existem muitos outros assuntos importantes para se tratar, está bem. Um escritor-fotógrafo a sério não devia ignorar isso. Tudo bem. O fato, contudo, é que me encanto com os farelos do mundo, com a coisa pouca ou nenhuma que somos. Com um raio de sol na parede ou caído dentro de um copo dágua sobre a mesa.

As coisas pequenas me atraem, me cativam, me elevam. As outras me enfadam, quando não revoltam. Encontro beleza e claridade nos fanicos da existência.

Tudo que é breve e pequeno se parece com ser humano e com estar vivo e ser transitório, e isso me interessa sobretudo.

Os verdadeiros e últimos sentidos habitam muito além das aparências, é assim que eu vejo. E o que eu mais enxergo, quando penso profundamente na vida, é a pequenina joaninha.

O mundo silencioso das migalhas me é, por isso, muito caro e diz muito mais sobre o que nós somos - ou o que sou eu, ao menos - do que um tratado ontológico. Quando perdemos a capacidade de expressar o que sentimos, é como se perdêssemos a vida.

Deus nos livre e guarde.

Na arte, ao menos, podemos voar, sonhar, levitar acima dos mausoléus e crematórios existenciais. Mas sei também que ninguém pode viver entre nuvens. 
 
Deve haver um caminho de passagem entre as farfalhas da vida e a copa das estrelas; entre a imensidão da Via Láctea e os passos humildes e comoventes da joaninha.
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Texto revisto, publicado antes em 25/11/2012.

sábado, 18 de abril de 2020

Incidente na Praça Maurício Cardoso

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
VULTO NA PRAÇA. A luz amarela seria poética, não fosse o perigo dos assaltos. Um observador oculto espreita entre as buganvílias.

Quem vem lá? Difícil saber na escuridão sem trégua. A noite de domingo até podia ser romântica. Mas há indivíduos dormindo nos bancos da Praça Maurício Cardoso em Porto Alegre. Dois bêbados urinam sob a pérgula.

A cidade não tem piedade dos seres delicados. Mas há que vencer o mal com o bem. É essa a hora do menestrel, do cavalo fiel, da capa, da espada e do alaúde.

Eis que emerge da treva tremenda o Cavaleiro da Bandana Escarlate, montado no seu cavalo branco. Vem galopando desde muito longe, desde os Campos de Cima do Esquecimento, desde o fim do mundo.
 
Vem para a batalha final.

Atravessa a praça no garboso corcel de arado, cuidando aqui e ali pra não amassar as flores. Um cara passa correndo atrás de outro pela rua afora, gritando coisas impublicáveis.

O cavaleiro veste a capa de seda preta. A máscara negra não permite lhe descubram o segredo. Traz o antiquíssimo alaúde a tiracolo.

O mimoso instrumento pertenceu a um seu trisavô que veio fugido da Itália. Aqui se estabeleceu no ramo dos embutidos e depois mourejou em negócios obscuros.

O cavaleiro tem genealogia, portanto. Mas o que passou, passou.

Neste momento ele cruza pro outro lado da rua e estaciona o alvo eqüino (com trema, por favor) debaixo do balcão da Meiga Donzela Dionéia (com acento, por favor, não obstante o desprezível (des) acordo ortográfico).

O nosso herói saca com grande donaire o lustroso instrumento.

Dedilha então os primeiros acordes. A melodia acorda a Musa que, entre estremunhada, descabelada e furiosa, vai até a janela do balcão saber do que se trata. Não acredita no que vê.

- O que quereis, ó, Cavaleiro do Alaúde em Riste? - pergunta com voz sinistra. - Acaso não percebeis que altas horas são? Não vos dais conta do ridículo? Estamos em 2020, please!

E prossegue a Incontornável camena:

- Deixai-me dormir, ó, Misterioso Mascarado. Amanhã é dia de pegar no batente outra vez, voltar pra dureza inglória da vida. Retornai ao vosso castelo de areia e vento, ó, Romântico Senhor, poupai-me. Do contrário, obrigar-me-ei a chamar os homens da lei para vos untarem com rudes afagos, que é o que deveras mereceis.

O Cavaleiro da Bandana Escarlate silencia o mimoso instrumento. Baixa a cabeça. Parece não acreditar no que acaba de ouvir. Cavalgou durante dias por estradas cheias de perigos. Mais de uma vez viu-se forçado a jogar-se no matagal com o esbaforido e lácteo corcel por força de grosseiros caminhões.

Para não comprometer ainda mais o idílio, decide retirar-se. Num gesto de rara nobreza, joga uma rosa branca ao balcão. Depois ergue alto o alaúde na mão esquerda, empina o pangaré e grita:

- Eu voltarei na primavera, ó, Estressada Dionéia, Musa Minha Indomada. A rejeição é uma refeição que se come fria. Mas jamais esfriará este esgualepado coração.

Ao proferir essas sonantes palavras, escorrega do gentil animal e estatela-se na gelada calçada, magoando a triste cabeça que a escarlate bandana - agora rasgada - antes cobria.

Aos poucos recompõe-se o Nobre Cavaleiro. Junta o alaúde, apruma-se sobre o valoroso eqüídeo (nessa altura, tanto faz como tanto fez o trema) e parte no trote.

Enquanto cruza de volta a Praça Maurício Cardoso, um insensível abre a janela num edifício próximo e manda:

- Vá tomar no seu caju (aqui é suprimida a expressão original pela fruta, a fim de manter o decoro mínimo).

Assim que, sem perder a altivez, o nosso Ilustre Menestrel Medieval desaparece na noite escura da grande cidade.

Um bêbado atira uma pedra e quebra a luminária da praça. Fim.  
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Texto revisto, publicado antes no blog em 27 de abril, 2010.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

O Brasil cara a cara

Jorge Finatto

As classes média-alta e rica do Brasil descobriram, enfim, que existem pobres no país. E que esses indivíduos fazem parte daquele contingente ao qual a filosofia, as artes, as religiões e a ciência chamam de seres humanos. Descobriram que essa gente vive em péssimas condições, sem moradia digna, sem alimento, sem água tratada, sem esgoto, sem saúde, sem escola, sem emprego. Vivem de teimosos.

Foi preciso um vírus maldito para mostrar o Brasil aos brasileiros. Maldito, sim, mas democrático, porque atinge tanto em cima como embaixo da pirâmide social. Então os "bem de vida" percebem que não adianta ter dinheiro e plano de saúde, porque não terão vagas nos hospitais nem respiradores se o contágio explodir. Nem jatinho adianta, porque não tem pra onde voar, as fronteiras do mundo estão fechadas.  

O Brasil dos abastados vê que o "fique-em-casa" não funciona pra essa gente que vive à margem de tudo e literalmente (e não literariamente) não tem o que comer, se não sair à rua pra fazer um biscate. São pessoas até há pouco invisíveis para o povo de cima. E elas têm potencial de, saindo em busca da sobrevivência, contaminar-se e passar o covid-19 adiante, fazendo o já precário sistema de saúde vir abaixo. Esses seres humanos, até há pouco ignorados, não têm celular nem notebook. Nunca poderão fazer "home office" nem chamar um "delivery" pra matar a fome. Nem assistir antigas partidas de futebol, ler bons livros ou curtir belos filmes e shows em casa.

Isto sem falar dos 13 milhões de desempregados esperando desesperadamente uma oportunidade de trabalho, uma porta que se abra para voltarem a viver.

O Brasil rico defronta-se com o Brasil dos abandonados e não sabe o que fazer, porque nunca se interessou seriamente por eles.  E repete "ad nauseam" o mantra "fique-em-casa" como se isso pudesse salvá-lo em sua arca de egoísmo. Parece não se dar conta de que, para os pobres que não têm nada, e nem a quem recorrer, o mundo explodiu faz tempo, e o coronavírus é só mais um personagem na tragédia diária de um pais sem rumo  e profundamente desumano. 

sábado, 11 de abril de 2020

Pietá com véu

Jorge Finatto
 
photo: Samuel Aranda. Prêmio World Press Photo 2011
 
 
A DOR HUMANA não tem fim.
A mulher recolhe em seus braços o corpo do homem que sofre.
Pietá moderna, o véu encobre-lhe a face, mas não esconde o gesto.
Mãos de zelo amparam o sangue e a lágrima.
Tudo explode ao redor.
Esses braços re-velam a proteção consoladora, a redenção do amor humano.
Resgate da urgente ternura, templo da compaixão.
O que essas mãos salvam está muito além do que as palavras podem.
O véu já não oculta, revela.

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Texto inspirado na fotografia do espanhol Samuel Aranda.
Aranda foi o vencedor do World Press Photo 2011. Mais importante concurso mundial de fotojornalismo, a imagem escolhida foi a de uma mulher de véu integral a abraçar homem ferido durante a revolta popular no Iêmen. O resultado foi anunciado em Amsterdam pelos organizadores do evento. A  fotografia foi escolhida entre mais de 100 mil. Na edição, foram analisados  trabalhos de 5.247 profissionais de 124 países.
Fontes: Agência Lusa e jornal Expresso, Portugal.
 
Este texto publiquei em 11 de fevereiro de 2012. Reproduzo, porque mais do que nunca a compaixão e o amor  são urgentes no mundo. Estão consagrados na Ressurreição de Cristo.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Nos ventos de Ciara

Jorge Finatto

"A força de Ciara fez pelo menos três voos comerciais entre Nova York e Londres, com vento de cauda, concluírem a viagem em menos de cinco horas. Um recorde para aeronaves normais desde que o lendário Concorde francês fez o mesmo trajeto em cerca de três horas." (Rádio França Internacional, 10.02.2020)*
 
 
Dois homens registram imagens das ondas formadas pela tempestade Ciara no Lago de Constânça, na localidade de Bregenz, na Áustria.
Dois homens registram imagens das ondas formadas pela tempestade Ciara
no Lago de Constança, na localidade de Bregenz, na Áustria.
               DIETMAR STIPLOVSEK / APA / AFP   
 

A TEMPESTADE CIARA nos apanhou de frente naquela segunda-feira, 10.02.2020. Na gare de Saint Gallen, Suíça, fomos informados de que o trem que nos levaria a Füssen, última cidade da Rota Romântica, ao sul da Alemanha, estava fora de serviço. Deveríamos pegar o próximo, duas horas mais tarde, mas não havia certeza de que chegaria à estação.
 
Izabel e eu estranhamos. Em se tratando do serviço federal de trens suíços, que prima pelo cumprimento de horário, era algo incomum. Motivo: a chegada da Tempestade Ciara com ventos de até 200 km/h afetava o noroeste europeu com inundações, falta de energia elétrica e outros estragos, atingindo aeroportos, estradas e ferrovias, além de causar feridos e mortos.
 
Notícias na tv da estação diziam tratar-se da maior tempestade do século em termos de países atingidos. Embarcamos no próximo trem e, algumas baldeações depois, acabamos descendo na estação de Lindau, a bela cidade-ilha dentro do grande Lago Constança (alimentado pelo Rio Reno, situa-se entre Suíça, Áustria e Alemanha). Terminou ali nossa viagem a bordo do trem, a tempestade não permitia continuar.

Duas horas depois, ao fim da tarde, apareceu um ônibus para levar os passageiros adiante. Mas o adiante não era Füssen. Numa outra cidadezinha, nos trocaram de ônibus e fomos em frente até outra localidade. Lá nos largaram numa estação de trem. A maioria das linhas fora de serviço.

Havia, porém, um trem que partiria às 21h em direção ao sul da Bavária. Embarcamos. Éramos só nós a bordo. O maquinista teve a gentileza de nos avisar que, em razão do mau tempo, só poderia ir até uma tal cidade. Lá poderíamos pegar um ônibus para Füssen.

Já era noite escura quando descemos do comboio com as duas malas em direção à estação rodoviária, localizada a uns 100 metros da ferrovia,. Estava fechada. Fazia frio, ventava e chovia. Exaustos, molhados, pensamos em desistir e procurar um hotel naquele lugar cujo nome não me lembro. Mas Deus é pai.

De repente aparecerem três mulheres e um homem. Protegeram-se da chuva sob a cobertura da plataforma, como nós. Vendo nosso estado pluvioso e a nossa cara de desamparo, se dispuseram a ajudar. Solícitos e solidários, telefonaram para o hotel em Füssen para ver se havia transporte para nos resgatar (estávamos a 80 km de distância). Não havia.

Por fim, informaram-se por telefone com um taxista sobre o valor que cobraria para nos levar ao destino. 100 euros. Aceitamos. Dali a dez minutos chegou o táxi e, enfim, à uma da madrugada entramos no hotel.

Desde que começou a função, Izabel e eu decidimos que nenhum perrengue abateria nosso ânimo. Assim foi durante aquelas 14 horas. A ajuda daqueles alemães fortaleceu a nossa fé (um tanto enfraquecida) no ser humano. Não ficaram indiferentes, não se omitiram ao ver aqueles pobres pintos molhados na noite de tempestade, estrangeiros numa plataforma vazia.
 
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* RFI

segunda-feira, 6 de abril de 2020

É preciso recomeçar tudo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto. Montreux.
 

É preciso recomeçar tudo
traçar o novo amanhecer
nas ruas da cidade

é preciso enterrar os mortos
varrer os destroços
abrir as portas para o sol
fazer seu trabalho

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Poema do livro O Fazedor de Auroras. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
 

segunda-feira, 30 de março de 2020

Desviando do vírus

Jorge Finatto
 


O desejo de visitar Arles e Saint-Remy, na Provence, nasceu em 2014. Em setembro daquele ano o Museu VAN GOGH, de Amsterdam, publicou em seu facebook o meu poema "Composição", do livro O Fazedor de Auroras, editado pelo Instituto Estadual do Livro em 1990. Fiquei muito feliz e admirado. E tinha motivo: colocaram como "ilustração" do texto a pintura "Jardin de Saint-Paul de Mausole", de Van Gogh.
 
O poema é uma homenagem a Van Gogh e uma declaração de amor à pintura. Pois bem, no início desse mês, descansando uns dias em Lisboa, depois de percorrer a Suíça, Alemanha e Áustria, tinha viagem programada a Marselha. Do aeroporto iríamos - Izabel e eu - de trem a Arles, onde o pintor realizou a culminância de sua obra. Aí incluídas as pinturas feitas no Monastério-sanatório de Saint-Paul de Mausole, em Saint-Remy, onde viveu e se tratou entre maio de 1889 e maio de 1890.
 
Ocorre que o famoso coronavírus Covid-19 tinha chegado lá antes de nós. Um dos aeroportos mais movimentados da França, resolvemos não correr o risco de ser contaminados. Desviamos a rota e acabamos nos Açores (outro sonho antigo).
 
Desistimos? Claro que não! Iremos atrás de Van Gogh depois que a tempestade passar. E vamos sentar nesse jardim onde, um dia, ele esteve com seu cavalete e criou este quadro com a paleta encantada.
 

sábado, 21 de março de 2020

Tempo de quaresmeiras em flor

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

Só agora me dou conta de que as QUARESMEIRAS explodiram em lilases, rosas e brancos, anunciando a chegada do outono e o advento da Páscoa. A nova estação chega cheia de significados
(fala de Ressurreição e de urgentes renascimentos).
 
As flores das quaresmeiras têm tudo a ver com sentimento claro, respirar limpo, passar distante da morte.
É o que eu sinto e penso nesse instante vendo-as vibrar na claridade, apesar da densa sombra que se abate sobre o Brasil e o mundo
(o bicho invisível e coroado nos remete aos confins do isolamento).
 
Estamos perplexos, temerosos, impotentes, diante da realidade que nos assola. As ruas estão vazias.
Um estranho silêncio percorre a cidade.
 
O bicho é pequeno, intocável, inodoro, inaudível, mas é suficiente para danar a minha/nossa vida. Capaz de sugar nossa alegria, nosso trabalho, nossa paz, nosso sangue, nossos sonhos.
 
Mas olhando as quaresmeiras em flor, nesta hora e neste lugar (pequeno lugar perdido no planeta: minha casa),
ao menos nesse efêmero instante,
a morte e o desespero não têm nem terão guarida.
 
As flores das quaresmeiras são o oposto da escuridão
(e do abandono)
a delicadeza dos ramos e das pétalas remete a um mundo outro.
Um mundo de recolhimento e silenciosas caminhadas por estradas interiores.
De solidária espera.
 
Um tempo de quaresma (quarentena, quadragésima).
De esperança num novo renascimento para todos.
 
Tempo de resistência
(como sempre)
de atravessar a ponte
(sobre o rio das mortes)
e chegar vivo do outro lado.
 

terça-feira, 17 de março de 2020

A peste

Jorge Finatto

Se há uma lição que se pode tirar da pandemia do novo coronavírus é a de que estamos muito atrasados em matéria de empatia. Os países, como os indivíduos, vivem longe da solidariedade, só pensam em si. É a lei do cão. Vive-se como se não houvesse outros habitantes no edifício, no bairro, na cidade, no planeta.
 
Então não surpreende a maneira simplista como se fecham fronteiras ao invés de buscar soluções conjuntas. O modo pouco civilizado com que muita gente tem ido aos supermercados com sede de armazenar víveres, gerando falta de produtos. A ânsia de salvar a própria sobrevivência num momento em que a exigência é olhar para o lado, enxergar o semelhante, dar e receber ajuda.
 
A peste fere de morte a noção de civilização, esta frágil construção.
 
O noticiário maciço tratando da doença 24 horas por dia serve para informar, mas serve também para espalhar o medo. Há alarme no jeito como se trata do assunto, além do alarme imanente. E todos dizem que se deve evitar o pânico. Está bem... 
 
É difícil ficar calmo quando a ordem é: "não saia de casa, não aperte a mão, não beije, não abrace, guarde distância mínima de um metro e meio de outra pessoa, evite encontros mesmo entre familiares etc.". Há uma imposição de confinamento e solidão que se diz indispensável para quebrar a cadeia de transmissão da doença.
 
A peste mexe fundo com a emoção das criaturas e com a alegria de viver. Afasta-nos e prova que, por mais evoluídos que nos consideremos, um simples vírus bota tudo abaixo. Somos vulneráveis. Muito mais do que supõem nosso egoísmo e nossa vaidade.
 
Talvez, no fim de tudo, reaprendamos a valorizar a convivência, a importância do outro, do toque, do encontro. O inefável prazer de poder sair na rua outra vez. 

segunda-feira, 16 de março de 2020

Alhures, algures

Jorge Finatto

Fussen, Alemanha. photo: jfinatto
 
Uma das boas coisas de VIAJAR é estar entre. Entre dois continentes, entre duas cidades, entre dois quartos, entre dois mundos. Não estar em parte alguma: estar em trânsito (a única permanência).
 
Estar em vários lugares, só de passagem, olá, como vai?, até um dia, até logo, até a próxima estação. Andarilho, caminhante, vagabundo, beija-flor. Ver e ser visto ao acaso, ao relance, ao relento.

Nuvem ligeira sobre o mar.
 
80 por cento sentimento. 20 por cento matéria. Amálgama de sonho. Peregrino, passageiro, gentil viajante. Não plantar raiz, não afundar num cotidiano qualquer. Passar, passar.

Belvedere, miramar. 
 

segunda-feira, 9 de março de 2020

A lição de Codogno

Jorge Finatto

A cidadezinha de Codogno, na região da Lombardia, entrou para a história como a que registrou o paciente número 1 de coronavírus na Itália, país que ostenta a maior incidência de casos da doença na Europa neste momento. Codogno está situada na denominada zona vermelha, sujeita a severas restrições. Ninguém pode entrar ou sair sem autorização; todos os serviços estão interrompidos, exceto os essenciais; o transporte público está suspenso. Mas a vida continua, e a população descobriu coisas boas em meio às dificuldades.

Entrementes, o tratamento dado pela imprensa ao surto tem sido hiperbólico, aterrorizante, com longas e constantes inserções em todos os noticiários. Aqui em Portugal divulgam-se os novos casos hora após hora, dia após dia, um a um, com muitos detalhes como se o vírus estivesse tomando conta. No entanto, não é isso que se vê. Na última contagem os casos eram 35 e nenhuma morte. Alguns meios de comunicação tratam do assunto como se uma catástrofe sanitária de enormes proporções estivesse em expansão. 

Sabe-se ainda pouco sobre o vírus que veio da China. As entrevistas, por isso, são em geral pouco elucidativas, enfadonhas, e servem mais para assustar do que para esclarecer. Algumas autoridades demonstram despreparo no trato do tema.* Exceção feita às recomendações de cuidados a serem observados pela população, os mesmos, aliás, de qualquer gripe; e às orientações sobre locais de tratamento, telefones para tirar dúvidas, etc.

Quem assiste a programas de notícias e lê jornais fica alarmado e deprimido. Sentimo-nos fragilizados diante da ideia de uma doença que parece avançar como um monstro. E não há motivo para este enfoque, principalmente quando da China vêm informações de que o contágio e o número de casos estão diminuindo.

A superexposição midiática feita sem cuidado não apenas impõe medo como tem conseqüências econômicas. Claro que a informação é importante, mas neste caso parece estar indo além do razoável. Não se trata de culpar a imprensa pelo coronavírus, mas de evitar conteúdos alarmistas. 

Mas voltemos a Codogno. Um professor do lugar escreveu carta para um jornal de circulação nacional abordando o sofrimento diante das restrições. Relata, também, que coisas boas estão acontecendo: as pessoas estão conversando mais umas com as outras na rua, mesmo com quem não conhecem; poucas estão usando máscaras; as ciclovias têm um movimento nunca antes visto; há uma disposição de ajuda e colaboração entre os habitantes.

Então, ao invés de um desastre planetário em franca expansão, o que se vê é um aumento de solidariedade e amor social. Um outdoor foi criado na cidade e diz: " Codogno é uma doença que não nos larga mais". 

O medo paralisa. O afeto, a união e o bom senso nos levam adiante.
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- Hoje, 11 de março, entre as inúmeras manchetes sobre a doença, os jornais noticiam que Angela Merkel disse que até 70% da população da Alemanha poderão contrair o coronavírus. Convenhamos que é o tipo de declaração alarmista que em nada contribui. Vindo de líder política, causa sérias preocupações pelo modo leviano como estão tratando do tema. Aqueles que devem manter a serenidade não podem, com base em hipóteses,  semear o pânico.

- Em 04 de abril, 2020. Efetivamente, em países como Itália, Espanha, China e Estados Unidos, a catástrofe se confirma com milhares de mortes. Em outros, não. Como Portugal, por exemplo. Esperemos que o Clovid-19 não faça mais tantas vítimas em outros países.

Algo estranho acontece na China onde tudo começou e o número de mortes oficial está em cerca de 3 mil, muito abaixo de outros. Ainda haverá que investigar esses números e o tratamento que aquele país deu à doença que não rapidamente se alastrou pelo mundo.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Adeus à Livraria Cotovia

Jorge Finatto

Livraria Cotovia
Foto: Livraria Cotovia. Autor: L.Cotovia

Fiz uma última visita à LIVRARIA COTOVIA no Chiado, em Lisboa. Comprei alguns livros do ótimo acervo (é, essencialmente, editora). O anúncio do fechamento da loja física foi feito há poucas semanas. Funcionava no local há 30 anos. Motivo: os altos custos das rendas (aluguéis) nessa Lisboa hoje tomada pela indústria do turismo. 

Pequenos negócios como livrarias médias e de reduzido porte estão fechando. Mas não só. Pessoas que vivem há 30 ou mais anos em regiões hoje "turísticas" (Chiado, Rossio, Alfama, Bairro Alto, etc) são forçadas pelo mercado a abandonar suas casas. Mudam-se para locais periféricos e mesmo a outras cidades. Perdem-se vizinhos de uma vida. Afetos são separados e dificilmente se recuperam.

A cidade vai adquirindo uma nova face, distanciando-se de seu perfil mais humano. Milhares de turistas percorrem as ruas todos os dias, principalmente o turista que vem atraído pelos baixos preços de alimentação e hospedagem (se comparados com outros países dentro e fora da Europa). 

Confesso meu cansaço ao caminhar pelas ruas mais centrais com interesses históricos e literários. É difícil se mexer em meio à multidão. Pra não falar que vivemos tempos de coronavírus. Dizem que o turismo é um dos principais fundamentos da economia em Portugal. Para o bem e para o mal.

A Cotovia passa a funcionar só pela internet. Não haverá mais loja física. Os livros também poderão ser encontrados em outras livrarias. Essa situação já atingiu outras lojas de livros e alfarrabistas, que encerraram em definitivo as atividades. Esse tipo de negócio está, ao que parece, com os dias contados. E os freqüentadores de livrarias rumam talvez à extinção.
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PS - Ontem, 10 de março, passei em frente à Cotovia (rua Nova da Trindade, 24) e deu um aperto no peito. As paredes de vidro cobertas com jornais, vendo-se nas frestas, lá dentro, só a sombra e nada de livros. Triste.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Eu comecei a sair da mina

Jorge Finatto

Eu comecei a sair da mina
com meus ferros retorcidos
meus tocos de vela apagados
meu alforje vazio

fazia lá fora um dia solar
desses de não se perder
eu vi um rosto bom
o jeito sereno de um homem
que me ajudou a respirar
                                          me abraçou
me desamarrou as mãos

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Poema do livro Claridade, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Lautréamont em Montevideo (L'autre à Mont)

Jorge Finatto
 
Río de La Plata entre edifícios, Montevideo. photo: jfinatto

Sí, cuál es el más profundo, el más impenetrable de los dos: el océano o el corazón humano? ¹

                           Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont
 
UMA VIAGEM só é boa quando voltamos diferentes pra casa. Quando algo bom, novo ou há muito esquecido, passa a respirar na nossa sensibilidade.
 
A arte é um tipo particular de viagem. Como as viagens reais, tem poder transformador. De um jeito ou de outro, é preciso viajar, deixar-se tocar: mudar. Tirar o coração e o pensamento do lugar-comum.
 
Em Montevideo, fiz uma expedição à rua onde viveu - até os 13 anos - o Conde de Lautréamont, nom de plume de Isidore Lucien Ducasse (1846-1870), poeta de vida obscura, futuro papa profano do Surrealismo. Ele é autor do estranhíssimo, belo e terrível Les Chants de Maldoror (Os Cantos de Maldoror). Filho de pais franceses que foram trabalhar e morar no Uruguai, nasceu em Montevideo, em 4 de abril de 1846, tendo ali vivido até o início da adolescência.

Única photo conhecida de Isidore Lucien Ducasse,
fonte Wikipédia

Uma tarde de sol, lá me fui a bordo do chapéu de palha encontrar o jovem bardo na Calle Camacuá, 544.

A rua Camacuá é pequenina. Diante dela estende-se, a perder de vista, o Río de La Plata. Fica na ciudad vieja. Chegando ao local, constatei que não existe mais a casa 544 onde ele morou. Em seu lugar apenas um edifício modernoso. Nenhuma placa alusiva ao imaginário conde. Do outro lado da rua, um terminal de ônibus e, depois dele, a Praça Espanha com suas palmeiras conversando com o vento, e logo adiante o rio.

No fim da Camacuá, bifurcam-se velhas ruas e, nelas, habitam prédios muito antigos. Por elas certamente andou o jovem Ducasse quando, aos 21 ou 22 anos, retornou a Montevideo para visitar o pai que o sustentava enquanto vivia, estudava às vezes e escrevia na França. Provavelmente nessa época já tinha concluído Les Chants. De sua vida pouco se conhece.

Eu sei muito pouco a respeito do estranho Isidore: a mãe morreu quando ele contava cerca de um ano. Ele gostava muito de ler na ampla biblioteca do pai. É certo que leu os principais autores de seu tempo. Eis o que diz dos Cantos:

Cantei o mal como fizeram Misçkiéwickz, Byron, Milton, Southey, A. de Musset, Baudelaire, etc. Naturalmente exagerei um pouco o diapasão para fazer algo novo em relação a esta literatura sublime que não canta o desespero senão para oprimir o leitor, e fazê-lo desejar o bem como remédio. (Eu cantei o mal...) ²

Era um rapaz alto, magro, vestia-se bem, carregava muitas coisas dentro da cabeça. Coisas pouco corriqueiras, de espantar. Uma revolta contra Deus, e uma náusea de viver e da humanidade que não se sabe qual a origem.

Río de La Plata. photo: jfinatto. vista da Calle Camacuá

O pseudônimo teria sido inspirado pela obra Lautréamont, de Eugène Sue; outros acreditam que significa o outro em Montevideo  (L'autre à Mont (evideo). Um mistério entre tantos.

O seu texto jorra do inconsciente.

Seriam os Cantos a antevisão literária dos tempos sombrios que vinham pela frente com suas guerras sangrentas (Primeira e Segunda Guerras Mundiais, Guerra do Vietnã), tiranias terríveis (Stalin na União Soviética, ditaduras sul-americanas) e violências rotundas contra o ser humano (todos os dias em todas as cidades do mundo)? Seriam a consciência crua e desesperançada da presença do homem na Terra? Quem sabe?

De qualquer forma, alguns o consideram mais importante do que Arthur Rimbaud.

Na livraria Más Puro Verso, na Peatonal Sarandí, comprei uma edição espanhola dos Cantos pra reler no hotel. Não lia Lautréamont há mais de 30 anos.

Depois de não encontrar a morada do fictício Conde, fiquei um tempo observando a expansão azul do rio. Imaginei-o caminhando pelas calçadas, à sombra de escuras paredes, sonhando em fugir da cidade, do mundo, de si mesmo. Mastigando seus desertos e sua triste poesia.

Por fim, entrei num restaurante e bebi um Medio y medio (vinho branco suave, frisante, tradicional do Uruguai), em memória do poeta Lautréamont, morto em solidão e anônimo, às 8 da manhã da quinta-feira, 24 de novembro de 1870, na rua Faubourg-Montmartre, 7, Paris, ninguém sabe de quê, aos 24 anos.
 
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¹Los Cantos de Maldoror - Poesías. Isidore-Lucien Ducasse, Conde de Lautréamont. Editorial Gredos, Madrid, 2004. Introducción por Luis A. de Villena. Trecho da pág. 59.
² idem, pág. 8, tradução livre de JA Finatto. Fragmento de Carta do poeta ao editor Verboeckhoven.
Leia também "Lautréamont y el surrealismo", por Mónica Marchesky:
http://www.monografias.com/trabajos75/lautreamont-surrealismo/lautreamont-surrealismo2.shtml  
Texto revisto, publicado antes em 14 de março de 2015.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Navegando na Livraria Pocket Store

Jorge Finatto
 
Livraria Pocket Store. photo: jfinatto
 
A Livraria Pocket Store, inaugurada em março de 2019 na rua Félix da Cunha, 1167, bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, retomou uma antiga tradição de livrarias na calçada. Um espaço de livros e, portanto, de liberdade, afirmando que devemos reconquistar o território público há muito perdido para o medo da violência nas ruas.
 
Essa livraria é um ato/fato civilizatório contra o confinamento das pessoas em shoppings (como se não houvesse mais uma cidade física querendo ser tocada e vivida). É preciso reocupar o espaço comum. Por isso, é com satisfação que vejo o meu Navegador de barco de papel em exposição e à venda nessa livraria. O lugar é bonito, merece uma visita.
 
Na rua onde se situa a Pocket Store, existem cafés com mesas na calçada e gente conversando. Gente, conversas, livros, cafés: boas razões para sair da caverna.
 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Metrópole à beira-mar

Jorge Finatto
 
 

Antes mesmo de ser lançado, reservei na Livraria Cultura, em Porto Alegre, meu exemplar de Metrópole à beira-mar. O Rio moderno dos anos 20. Da lavra do escritor e jornalista Ruy Castro, a obra oferece um precioso panorama da vida cultural, social e política da cidade do Rio de Janeiro no início do século passado.
 
É um documento rico. Além do texto que se lê com prazer, vale por tirar do esquecimento nomes importantes da arte e da literatura. Entre eles, aparecem com destaque o porto-alegrense Alvaro Moreyra e sua mulher, a mineira Eugenia, primeira repórter brasileira. A casa do casal na Rua Xavier da Silveira, 99, em Copacabana, tornou-se um importante centro de convivência e de resistência cultural e política entre 1918 e 1948.
 
Metrópole à beira-mar vai fundo na investigação, nas descobertas e no entrelaçamento de fatos e personagens. Estou lendo e impressiona a qualidade do material recolhido e o tratamento que lhe foi dado por Ruy Castro (considerado um dos maiores biógrafos brasileiros).
 
O livro não se impõe apenas pela reconstituição de uma época. É objeto de toque pela beleza gráfica, contando, também, com ótimas ilustrações. A bela capa traz uma pintura de J. Carlos, a mesma que ilustrou a capa da revista Para Todos de janeiro de 1927. A publicação era dirigida então por Alvaro Moreyra e J. Carlos. Tenho comigo uma pequena coleção dessas revistas na qual se inclui esse exemplar.
 
É gratificante ver que, entre as fontes de pesquisa utilizadas, está a biografia que escrevi sobre Alvaro Moreyra, lançada em 1985. Tantos anos depois de publicada e esquecida, recebo a referência como um reconhecimento àquele trabalho.
 
Comprei mais dois exemplares e dei de presente no Natal. Os felizardos ganhadores têm uma excelente leitura pela frente. E o Brasil ganhou uma obra notável, que nos ajuda a entender a nossa história e a valorizar a nossa cultura.
 
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Metrópole à beira-mar. O Rio moderno dos anos 20. Ruy Castro. Companhia das Letras. 2019.
Alvaro Moreyra. Jorge Adelar Finatto. Coleção Esses Gaúchos. Editora Tchê. Apoio RBS. Porto Alegre. 1985. 

sábado, 28 de dezembro de 2019

Navegações

Jorge Finatto
 
 

Não gosto de autopromoção e sou péssimo marqueteiro. Em todo caso, vai o lembrete: se alguém se interessar pelo meu recém-lançado NAVEGADOR DE BARCO DE PAPEL (seleção de crônicas, formato pocket book, bom pra ler no metrô, no ônibus, no avião ou sentado na praça), dê sinal através do e-mail do blog. 
 
Aproveito para desejar a todos ótimas leituras nesse 2020 que se anuncia com muitas esperanças (tem que acreditar que vai ser melhor). Que Deus nos proteja do governo e dos que são contra o governo. E olhe pelos de bom coração e bons gestos. E dê uma cutucada nos outros.
 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Clariceando

Jorge Finatto
 
Clarice Lispector
 

EU VINHA TORTO de leituras difíceis, arrastadas, porque livro é um troço que, às vezes, pode ser muito chato. Há livros que nos levam a um rotundo cansaço, seguido de frustração, queremos terminar a leitura o quanto antes, como quem se livra de um pesadelo. Existem outros que sequer conseguimos ler além das primeiras páginas.

Não agradam nosso paladar (paladar, como se sabe, cada um tem o seu). Nem sempre o problema é da obra, por vezes é o nosso gosto que não está bom.
 
Vinha eu sofrido nos tortuosos caminhos de páginas secas, escarpadas, quando tive aquela iluminação que às vezes me salva: quem sabe leio ou releio alguma coisa de Clarice Lispector (1920 - 1977).

O texto clariceano jamais me deixa abandonado no meio do caminho, nunca me enfada. Salvo se enfadar tivesse algo a ver com fada. Sim, porque Clarice tem alguma coisa de fada na escrita que brota de suas mãos ternas e violentas (sua força é capaz de revolver as entranhas de um vulcão).
 
Mas então passei na livraria e lá estava A descoberta do mundo (Editora Rocco, Rio de janeiro, 1999), que reúne os textos que ela publicou no Jornal do Brasil, aos sábados, entre 1967 e  1973. São anotações, crônicas, pensamentos, pequenos contos, novelas.
 
Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. p. 137

É verdade, ao escrever para jornal, Clarice abriu portas e janelas do claro-escuro casarão de sua alma, que abriga uma multidão de outras almas nos seus misteriosos aposentos.

É preciso ter coragem e merecimento para aproximar-se da autora de A paixão segundo G.H. A escalada, tão bela quanto difícil, exige que o leitor esteja disposto a despojar-se do comodismo intelectual. Há uma estrada a percorrer e conquistar.

Além de rara escritora, uma linda mulher, que nada ficava a dever às divas do cinema e às beldades expostas nas capas de revista. Em Clarice encontram-se reunidos, como poucas vezes acontece, beleza física e talento.

A natureza esmerou-se na sua criatura.

Estou agora, nessa madrugada gelada de Passo dos Ausentes, conjugando o verbo claricear, me delicio com seu texto alto, transcendente e cotidiano, humano, em que não há sobras, não há poses, mas um rigoroso mergulho em busca da expressão, que traz à tona tesouros escondidos nas profundezas de corações e mentes de mulheres e homens (humanos).

Uma exploradora de águas profundas, Clarice consegue traduzir em palavras aquilo que dorme no mais recôndito de cada ser, e o faz com tal naturalidade que até parece uma coisa simples.

Felizes somos nós, os que podem lê-la no original em português, que presenciamos o milagre de sua criação sem necessidade de oráculos, bebendo na fonte um texto de valor universal.

Peço humildemente para existir, imploro humildemente uma alegria, uma ação de graça, peço que me permitam viver com menos sofrimento, peço para não ser tão experimentada pelas experiências ásperas, peço a homens e mulheres que me considerem um ser humano digno de algum amor e de algum respeito. Peço a bênção da vida. p. 117

Bons tempos em que escritores como  Clarice Lispector escreviam para jornal. O prazer de ir até a banca da esquina e lá encontrá-la brilhando com seu texto na página efêmera do sábado. Não existem mais grandes cronistas no Brasil, faz tempo.

Saudade da época luminosa em que também escreviam em jornal Carlos Drummond, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Carlos Oliveira, Guilhermino Cesar, Carlos Reverbel, Tarso de Castro, Joel Silveira, Mario Quintana, Caio Fernando, entre outros. Poupo o leitor de comparações com o que (não) temos atualmente, não vale a pena. Olhemos em frente com esperança.

O que importa dizer é que, sempre que reencontro Clarice, redescubro a alegria da palavra e volto a me sentir um peixe feliz no aquário da biblioteca.
 
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Texto revisado, publicado antes em 31.5.2013

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Os quatro de Bagé

Jorge Finatto

A partir da esquerda: Glênio Bianchetti, Glauco Rodrigues, Carlos Scliar,
Danúbio Gonçalves. Arquivo pessoal de Glênio Bianchetti


Visitei a exposição OS QUATRO DE BAGÉ na Fundação Iberê Camargo, no bonito edifício às margens do Guaíba. Passei duas horas entre as salas da mostra, e foi pouco, tal a diversidade e beleza dos trabalhos. Os quatro, todos já falecidos, são Danúbio Gonçalves, Glênio Bianchetti, Carlos Scliar e Glauco Rodrigues. Com exceção de Scliar, nascido em Santa Maria, os demais são naturais de Bagé, a acolhedora cidade gaúcha que faz fronteira com o Uruguai.

Tradição, passado e futuro (fragmento). Glauco Rodrigues, 1997.

Boleadeira e ferradura. Glauco Rodrigues, 1976.

A reunião e a camaradagem dos quatro começaram na década de 1940 e prolongaram-se ao longo da vida. Com forte temática social (mas não só), apontando as dificuldades e humilhações dos trabalhadores nas estâncias, charqueadas e minas de carvão, os artistas desenvolveram uma obra crítica, comprometida com o entorno. Entre as técnicas que utilizaram, a gravura teve especial lugar por facilitar a reprodução e distribuição em grande escala das obras. Nesse sentido, criaram o Clube de Gravura de Bagé e participaram do Clube de Gravura de Porto Alegre, ambos no início da década de 1950. Colaboraram em diversas publicações (como a instigante revista Horizonte, editada em Porto Alegre entre 1949 e 1956) e interagiram com intelectuais de várias áreas.

Pilão. Glênio Bianchetti, déc. 1960.

A exposição revela o alto nível de criação dos quatro. Com sua variedade de temas e técnicas, merece ser conhecida e estudada. Chama a atenção que a amizade entre eles, nascida na juventude, perdurou até a morte, não obstante os diferentes caminhos que cada um trilhou. Há uma história que os entrelaça de forma indelével. Raramente artistas (seres egocêntricos e temperamentais) convivem e se respeitam por muito tempo.Também não deixa de ser curioso o fato de o acaso (ou não) ter reunido pessoas de tanto talento numa pequena cidade interiorana.

E os tomates também. Carlos Scliar, 1975.

A exposição, que se estende até março do ano que vem, ganha notável dimensão na medida em que apresenta parte da obra do grupo ao correr de décadas. Os quatro são dignos de figurar nos melhores museus do mundo. Trata-se de uma das mais importantes exposições já realizadas pelo museu Iberê. Por sua importância, creio que deveria ser levada a diversas cidades do Rio Grande do Sul e a outros Estados.

Carvão e suor. Danúbio Gonçalves, 1956.