quinta-feira, 16 de junho de 2016

Provisoriamente bruma

Jorge Finatto

photo: jfinatto


A hora mais deserta é a madrugada, quando Alberto Bruma das Horas só ouve a respiração das coisas e todas as pálpebras se fecharam, menos as dele.
 
Sentado no telhado, sentado no corredor, sentado no quarto (do lado da janela), sentado embaixo da claraboia, sentado no banco da estação de trem, sentado no escritório (tão perto das estantes que ouve o rumor das palavras).
 
Está provisoriamente longe dos livros (ele que sempre amou o cheiro do papel, a textura das capas e das folhas). 
 
Sofre a nostalgia da claridade perdida. Uma vaga luminosidade o habita. Não pode fotografar o mundo como antes. As folhas, as árvores, os caminhos de terra, as flores, as montanhas, os vales, os córregos: bruma.

O muro de taipa dorme na tarde fria e silenciosa de junho. Ocres e azuis renascentistas. Outono. Tudo tão distante.
 
Em meio à névoa, ele respira jasmins, camélias, orquídeas e magnólias do jardim da casa interiorana.

Ouve a conversa dos passarinhos, cantando, voando num lugar que mais parece uma pintura de Raffaello Sanzio. As nuvens brancas como algodão num profundo azul.

As pinhas arredondam nos pinheiros. De certa forma, está vendo outra vez.

O belo mundo das coisas entra pelos olhos da alma.
 

sábado, 11 de junho de 2016

Café dos Ausentes

Jorge Finatto

photo: jfinatto

Os habitantes dos Campos de Cima do Esquecimento sabem que só se vive uma vez e por isso padecem severas solitudes nesse mundo. A ideia da transitoriedade da vida se faz sentir especialmente no inverno. Tempo de dispersa solidão.
 
Passo dos Ausentes, nossa velha aldeia, tem 600 e poucas almas que penam na grelha da existência. Montanhas e brumas fizeram de nós o que somos: esse jeito calado, desconfiado, sempre ao desamparo.
 
É fácil reconhecer um ausentino na multidão. Basta olhar o abandono estampado na cara: é a marca indelével. Mas estamos aí, viventes desse mundo de Deus, sobreviventes de um tempo que se esfuma impiedosamente.

O frio polar dos últimos dias torna rara a presença humana fora das casas. A temperatura média, durante o dia, tem sido de -6 ºC. À noite desce para álgidos -12 ºC, -15 ºC. O Vale do Olhar, submerso no nevoeiro de algodão, é bonito de se admirar no Belvederezinho da Ausência, a dois mil metros de altitude. No local três troncos de pinheiro fazem as vezes de banco para os visitantes. Todo dia 15 de cada mês os Capuchinhos do Perpétuo Amanhecer ali se reúnem para ver o sol nascer.

Em silêncio e de pé, com os capelos sobre a cabeça e seus hábitos brancos enlaçados com corda na cintura, observam o vale. Depois que o sol se ergue, retiram-se em fila. Atravessam a cidade tão silenciosamente que ninguém ouve seus passos. Somem na estrada de chão batido em direção ao convento no Contraforte dos Capuchinhos.
 
Antes de começar a falar sozinho, no ermo invernal, é melhor sair de casa e ir ao encontro dos amigos, no Café dos Ausentes, na antiga estação de trem. Nas terças-feiras Juan Niebla faz ali um concerto com seu bandoneón argentino. No cardápio, músicas de Piazzolla, Francis Poulenc, Villa-Lobos e Joaquín Rodrigo, entre outros.

Nos sábados, o programa é "Conversa na Estação", bate-papo de Niebla com Don Sigofredo de Alcantis e quem mais quiser. O tema do próximo encontro será, conforme cartaz fixado na porta do café:

"O dia em que o filósofo espanhol Miguel de Unamuno desafiou a ditadura incipiente do general Franco diante de cerca de 300 soldados armados, no salão de atos da Universidade de Salamanca, da qual era reitor, durante a cerimônia de abertura do ano acadêmico, em 12 de outubro de 1936, ao proferir o célebre discurso Vencereis, mas não convencereis. De como escapou da morte certa graças à intervenção de Carmen Franco, mulher do ditador, que o retirou do local e o levou para casa dele, onde permaneceu em prisão domiciliar e perdeu suas funções".*

Nessas alturas austrais, a palavra e a música nos aproximam e nos tornam conviventes.

Solidão é quando a madeira da casa começa a estalar e ranger por causa do frio e da umidade, como um velho barco rasgando as ondas do mar.

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*Don Miguel de Unamuno:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/02/visita-don-miguel-de-unamuno.html
 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A hora do beija-flor

Jorge Finatto
 
beija-flor com névoa. photo: j.finatto
 
Observando com atenção, há um beija-flor na ponta do ramo da magnólia. Ele está pousado no galho pensador, os olhos semicerrados, pensando na sua vidinha. Um momento de pausa no seu dia. Ninguém é de ferro.

Há de ter lá os seus compromissos o beija-flor, uma casa pra voltar, filhos pra criar, contas a pagar, preocupações de quem vive neste mundo difícil.

Mas nesse momento ele precisa ficar sozinho e em silêncio. Precisa disso pra saber quem ele é. Porque, às vezes, na dura faina da sobrevivência, a gente esquece quem é.

A nossa face perde-se na multidão. Um estranho passa a viver através de nós.
 
Na maior parte da vida cumprimos deveres, tarefas, horários, saímos e chegamos apressados, dormimos sonos interrompidos por relógios e pesadelos, sonhamos um sonho alheio, corremos todo o tempo até a exaustão, e agradecemos por não perder o emprego nem levar um tiro.

Austeras solidões nos habitam. Rígidos papéis nos aguardam todos os dias, implacáveis, inadiáveis.

O mundo espera que ponhamos a máscara de granito ao nascer e não a retiremos nunca mais. Haja Deus!
 
No caso do beija-flor, querem que ele seja sempre e eternamente a mesma ave descrita pelos estudiosos nos tratados: apodiforme, penas pequenas, úmero robusto e cúbito curto, que se alimenta do néctar das flores e de insetos minúsculos.

Igual a milhões de outros beija-flores que vivem no planeta, também conhecidos por nomes estranhos como binga, chupa-flor, chupa-mel, cuitelo, guainumbi, pica-flor. E por aí.

O beija-flor personagem deste texto tem vida interior, seus próprios sonhos e pensamentos, não quer ser igual a nenhum outro existente no mundo.

No fundo, é um poeta o nosso beija-flor. Passa o dia procurando quintais, praças e jardins, não só para alimentar-se, mas para fugir dos predadores e da loucura das pessoas, e para ter um momentozinho de contemplação.

Sim, a nossa pequena ave interioriza-se para poder melhor observar a natureza e os seres, senti-los, talvez escrever alguma coisa.
 
Agora, calado e enovelado em si mesmo, no repousante galho da magnólia, o que o beija-flor quer é ficar só, distante, tentando reunir os fragmentos, reconstruir-se com o que sobrou (se é que ainda existem asas e cores suficientes do pássaro que um dia ele foi), longe dos olhares intrujões, das mesquinharias cotidianas e do fotógrafo abelhudo.
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Heráclito e o espelho:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/02/heraclito-e-o-espelho.html
Texto revisto, publicado antes em 27 de fevereiro, 2013.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O vendedor de picolé

Jorge Finatto
 
ilustração: Maria Machiavelli

Tinha 12 anos quando encontrei um modo de arrumar dinheiro pra comprar picolé. Foi no verão, período de férias escolares. Fiz o que os meninos pobres da rua, como eu, faziam: tornei-me vendedor de picolé. 
 
Havia uma pequena fábrica de gelados a poucas quadras de casa. O produto era bom, o negócio fez sucesso e se expandiu. A proprietária comprou um sobrado pra diversificar e aumentar a produção. 
 
A venda era feita nas ruas por vendedores ambulantes, em carrinhos refrigerados ou em caixas de isopor. Os maiores levavam os carrinhos e os menores, as caixas com tira de couro pra pendurar no ombro.
 
Esse foi o meu primeiro emprego. Caminhar horas a fio debaixo do astro-rei em pleno calor de janeiro era o de menos. O difícil era ter que dizer, bem alto, "olha o picolé", nas esquinas e na frente das casas. Fazia  isso com grande constrangimento. A timidez me atarantava.

Mas o trabalho durou só três semanas. O salário era tão miserável que desisti. Mal dava pra comprar dois ou três gelados por caixa vendida. Não compensava a sola do sapato, a sede, o suor, o cansaço.

Cheguei a ficar devendo uns trocos pra dona do negócio (sempre de cara feia, acho que sua boca nunca conheceu um sorriso). Devi porque comi picolés além da conta, durante o trabalho; e também porque vendi fiado e não me pagaram. Incauto vendedor! Pra quitar o débito com a patroa, trabalhei uma semana sem nada receber.

Não precisei de grandes teorias para aprender, a partir de então, que a vida do trabalhador é regida pela lei da selva. Os mais fortes devoram os mais fracos na relação capital e trabalho. E não há picolé que adoce essa exploração.
  

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sentimental

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

O  sentimento é a única coisa capaz de nos salvar. É tudo quanto  temos. Ninguém pode roubar. O resto é matéria bruta que mais dia, menos dia, se dissolve no ar, como a bruma.
 
Ninguém está aqui negando a razão. Nem se imagina possa haver vida humana longe dela. A razão nos mantém ativos, vigilantes e de pé desde que acordamos até a hora de dormir (ou de curtir a velha insônia).
 
O sentimento é que nos dá sentido, motivos para viver e nos justifica. Não existe riqueza maior do que sentir: as pessoas, as coisas, os outros seres, o mundo. Isso que estou dizendo é óbvio, eu sei, mas gosto de recordar o óbvio.

No sentimento é que brilham as minas de diamantes das nossas afeições. O mais é ferro velho, ilusão de poder, baita solidão. 
 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O desmemoriado António Nevoeiro

Jorge Finatto

photo: jfinatto

 
- Existem precedências e ritos a observar, disse Ângelo das Horas Findas, voando de um lado para outro na sala dos recém-chegados. Entoava uma cançoneta suave enquanto espalhava flores de maio nos vasos alinhados sobre a grande mesa que atravessava o ambiente de ponta a ponta. De acordo com a suma teologal, não podia responder às perguntas do jovem viajante.

António Nevoeiro da Tábua queria saber onde estava, que lugar estranho era aquele. Sentia como se tivesse acordado de um sono de muitos dias. Entrou no ambiente branco e silencioso numa tarde de chuva e foi recebido pelo esvoaçante angélico, que por sinal simpático e alegrão.

Um anjo de leves passos e breves assuntos, que prefere a superfície às profundezas, que não faz parte do capítulo dos ângelos escolásticos, mas dos serviçais, e adora tocar rabeca nos interstícios.

Comunicou a António Nevoeiro que não podia revelar-lhe a razão de estar ali, obedecia ordens superiores e mais não podia revelar. António resignou-se na altura, pois ninguém ousa questionar um anjo. Estava encantado com a beleza das asas do angélico, de um rosa clarinho com rendas brancas nas bordas.
 
Lembrava-se apenas de parte de sua vida. Tinha sido poeta de aldeia num lugar escondido dos Campos de Cima do Esquecimento. Sobrevivia do ofício de marceneiro. Olhou para as mãos e constatou os dedos grossos, a pele dura das palmas. Havia uma mulher, mas não conseguia ver-lhe a face nem sabia o nome. A sua própria idade ele desconhecia.

As poucas coisas que recordava surgiam recortadas na memória, páginas de um álbum incompleto. Havia muitas folhas em branco e outras tantas foram arrancadas. Isso o inquietava.

Quem fora ele na vida, que coisas terríveis ou boas havia feito em sua passagem?

Ângelo das Horas Findas, com pena de seu desalento, acompanhou-o sobre uma nuvem até a velha casa onde vivera. António Nevoeiro sabia que aquele lugar lhe era familiar, mas as peças estavam todas vazias. Não havia pessoa, nenhum retrato nas paredes. Nem móvel, nem lembranças. As ventanas estavam abertas e por elas entrava o aroma de um roseiral perto do portão de ferro.

Sentou-se no banco do jardim, alheio a tudo e profundamente só, como se todos os habitantes do mundo tivessem partido. Sentado no umbral da casa, com as asas fechadas, Das Horas Findas olhou-o com pesar. E já pressentia o castigo que levaria do escolástico Miguel, o Piedoso, pelo que estava fazendo, contrariando o Livro das Prédicas Angelicais.

O que eles jamais podiam imaginar era o desastre que os esperava na viagem de retorno.

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Próximo capítulo: qualquer dia.
 

sábado, 14 de maio de 2016

Caminho do sol

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto


Perdi o sono antes do amanhecer. Eu nunca perco o sono. Aí chegaram uns pensamentos escuros: realidade do Brasil com sua corrupção terrível, passagem desumana do tempo, saúde, perdas, essas coisas que afligem mais quando é noite. 

Pensei um dia que, com a chegada dos anos, tudo ia ficar mais claro, mais calmo, viveria em paz com meus fantasmas. As angústias dariam lugar à serenidade. Que ilusão! A minha sabedoria terminou entre os 18 e 25 anos, quando fui eterno e a beleza estava em quase tudo que eu via. 

Os anos não trazem sabedoria, trazem cansaço e desilusão (pensava eu no escuro). Aí disse chega. Levantei, vesti o capote, a manta, o chapéu, e coloquei os óculos (a essa altura, mais parecem um binóculo). Saí pela estrada de chão batido que conheço bem aqui na montanha. 

Era noite cerrada ainda. Vi uma coruja no velho muro de taipa. A ave noturna pareceu fazer-me um leve aceno de cabeça. Eu correspondi. 

Fui entrando na neblina enregelado (fazia dois graus), só queria caminhar, esquecer as amofinações, respirar o ar da nova manhã. 

Caminhei para encontrar o sol. Foi o que fiz, vendo-o levantar-se no Contraforte dos Capuchinhos. Depois voltei pra casa. Fui fazer café no fogão a lenha. Tudo ficou mais claro dentro de mim.

Não fico mais no escuro pensando bobagem: caminho até o sol. 
 

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Calle de los suspiros

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto. Colonia del Sacramento, Uruguai


Um dia encontrei no mapa
aquela cidade ao sul.
Um lugar que nasceu num tempo muito antigo.
Nela havia uma rua chamada Calle de los suspiros.
Fui até lá como atrás de um segredo.

A rua dos suspiros está povoada de passos perdidos.
Os fantasmas habitam as casas coloniais.

Quem mora na rua dos suspiros?

A moça da janela olha as buganvílias lilases e vermelhas nos muros.
O homem que não sai de casa vê seres incorpóreos nos telhados.
A luz das luminárias é amarelo cálido.

À noite se ouve nas pedras a batida de cascos de cavalos que não existem mais.

A rua dos suspiros é um camafeu pregado no tempo.

Os ventos se reúnem na Calle de los suspiros antes de sair a galope pelo mundo.

A dor envelheceu nesta rua.
Neste lugar, todos sofrem pra dentro.

Há um salão de baile desabitado com mesas no escuro.
A orquestra foi embora carregando a música e os casais que dançavam se dispersaram na noite.

De não ver os olhos estão vazios.
De não escutar os ouvidos estão ocos.

A rua dos suspiros é um retrato em branco e preto caído no oblívio.

Quem chora a essa hora na calle deserta?

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Texto revisto,  publicado no blog em 18/12/2010.

terça-feira, 3 de maio de 2016

O escrevinhador e o pássaro

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

Há sempre uma palavra querendo sair, porque existe sempre algo a partilhar. Por isso se escreve e se fala. Por isso escutamos e lemos a voz do outro. Somos palavra. 
 
Escrever fora da proposta comercial não tem retorno. Nem me refiro a algo material. Falo de simples troca, cumplicidade literária, espiritual. Mas a gente faz mesmo assim, por gosto mesmo. Dizem que é coisa de desocupado, mas às vezes é muito mais.
 
Certos vagabundos têm mil coisas pra dizer, como o Carlitos, do Charlie Chaplin. Mostrou-nos maravilhas sobre as coisas do coração, ao tempo do cinema mudo, sem efeitos especiais. Vale a pena ouvir este sublime vagabundo.

A escrita dá muito trabalho, ainda que não pareça. É ofício que se aprende uma vida inteira. Escrevo por prazer e por angústia. Deve ser pela mesma razão que o pássaro canta sozinho no seu galho, sem nenhuma ideia de recompensa ou plateia.

Canta simplesmente. Canta para si e para quem quiser ouvir, porque cantar é o que gosta de fazer. É o seu momento no mundo. Triste é passar pela vida sem ser ouvido.

Há felicidade na escrita como na leitura. A alegria do fazer em si mesmo, do trabalho em construção. Viajar num trem de palavras por caminhos de vales e montanhas. É bom saber que essa viagem pode ter significado para alguém.

Um dia a luz da palavra vai se apagar como acontece com tudo que respira e ilumina. Dura o tempo do vaga-lume. Porque tudo tem seu tempo. Continuamos no galho virtual a lançar signos às estrelas. Uma lanterna de mina na escuridão.
 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O homem que roubou o sol

Jorge Adelar Finatto

pintura: Maria Machiavelli

Um homem de coração triste pode entristecer a vida de muita gente.
 
O sol está preso no sótão da casa do homem sem esperança.

Em uma manhã de infinita tristeza, ele ergueu os braços, apanhou o sol com as duas mãos, como se fosse uma laranja, e o levou para o trevoso lugar. Desde então, não mais o devolveu para a rua onde mora.
 
- Nunca, nunca mais vou soltar o sol -, disse a um grupo de meninos e meninas que foram até a frente de sua porta pedir a libertação do astro-rei.

- Ninguém mais vai ver a luz nem receber calor nessa rua.
 
À noite, os vizinhos observam a estranha claridade que escapa pela janela e pela claraboia. Raios iridescentes giram entre si, perpassam o espaço e vão em direção ao vazio do universo.

Nenhum, no entanto, fica para iluminar aquele pequeno lugar mergulhado na sombra.
 
O homem triste tem uma pedra enorme, pesada e fria, no coração. Uma lápide com uma inscrição feita numa estranha, obscura língua que ninguém entende. Ele não consegue mais falar nem sentir.

O roubo do sol foi um ato de desespero, de revolta com coisas más que aconteceram na sua vida, algumas provocadas por ele próprio. Ao agir dessa maneira, privou a rua e seus habitantes de luz, calor e alegria.
 
É preciso trazer urgentemente de volta o homem triste para o convívio da rua e seus habitantes, antes que tudo em volta dele congele, antes que os corações esfriem, antes que desapareça a vida daquele lugar.
 
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Pintura: Maria Machiavelli, artista plástica em Passo dos Ausentes.
Texto revisto, publicado antes em 12 de setembro, 2011.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Paiuia

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Quando eu era criança, tinha medo-pânico de cortar o cabelo. O drama se estendeu até os cinco anos mais ou menos. Era um medo primitivo, das cavernas, pavor ancestral dos raios e do trovão.
 
Quando o avô me levava ao barbeiro, na ruazinha central de Passo dos Ausentes, aquilo era um suplício.
 
Havia na cidade um homem que vivia na rua. Vestia sempre um casacão de lã, fosse inverno ou verão, tinha longos cabelos cor de cobre, uma cara amarrotada, chupada, fustigada pelo sol e pelo vento.

Sobrevivia ele com os trocados que ganhava pelas momices e mugangas que fazia aos passantes nas calçadas, onde instalava seu escritório de saltimbanco.
 
O nome dele era Paiuia.
 
Para amenizar a sessão de tortura, o avô contratava Paiuia para distrair-me junto à cadeira do barbeiro. Ele conseguia me acalmar menos pelos trejeitos que fazia do que pela sua feiura. Eu ficava impressionado com o fato de alguém tão feio ser ao mesmo tempo tão alegre.
 
Eu já não chorava nem sofria como antes, deixava o barbeiro fazer seu trabalho. Com sua arte humilde, Paiuia me consolava no sofrimento. Acaso não será esta a sublime missão de todo artista?
 
No dias difíceis, recordo com ternura de Paiuia, que não está mais neste mundo para me dar consolo com suas momices. Hoje percebo que a beleza que ele tinha era invisível ao olhar. Ele a carregava luminosa dentro da alma e com todos compartilhava generosamente.
 

terça-feira, 19 de abril de 2016

Alguém visitou

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto

Alguém visitou
minha tristeza
soltou as gaivotas
no azul insular

não quero ser doido
desmemoriado
habitante
do penhasco

embora só
quero estar junto

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Ausência

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
 
Eu chamo teu nome
                               no escuro
no escuro meus olhos procuram
                                             procuram
até secar de tanta espera


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Poema do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.
 

terça-feira, 29 de março de 2016

Como habitar o dia sem freqüentar a morte (I)

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

Que a escrita seja sempre um ato de vida e esperança. Clara luz de uma estrela atravessando um tempo mau.

& & &
Em vez de proibir os beijos com batom (no túmulo de Oscar Wilde, Cemitério de Père-Lachaise, Paris), deviam acolher esses beijos, recebê-los como uma dádiva, como luminosa manifestação de carinho a quem, em vida, foi condenado criminalmente por amar.

Ao invés de preocupar-se em proteger a integridade fria do mausoléu, deviam dar abrigo a esses lábios amorosos, dar-lhes o aconchego que bem merecem.
Os cálidos beijos sobre a dura pedra teciam o monumento imaterial a ser preservado acima de tudo, em tempos de pouco afeto e escassa demonstração de calor humano.* 
& & &

Os pássaros tratam de viver, ao contrário de nós, ocupados demais com a morte.
Eu bem que tentei olhar a vida como eles, mas ainda não consegui. Talvez porque me faltem asas.
 
& & &

Aprendi com os pássaros que eles são felizes ao natural. Vivem com o que têm e sentem-se bem assim. Não querem mais do que a natureza lhes oferece. A vida é breve. Aproveitam o dom de estar vivos. 
& & & 

A volúpia de publicar muitos livros para ser reconhecido, às vezes, faz um autor se perder. Ser bom de venda e de mídia não significa ser bom escritor, embora faça bem para a vaidade, para a vida social e para o bolso. 

Mas cada um é cada qual. Ninguém deposita flores no monumento ao escritor desconhecido.
& & & 

Eu sou antes de tudo um leitor. Espero que os escritores fora de comércio continuem seu trabalho. Não desistam, resistam, sobrevivam. O resto é o que vem depois, mas isso ninguém sabe.
 _________ 

*Oscar Wilde e o beijo proibido:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/06/oscar-wilde-e-o-beijo-proibido.html

sábado, 26 de março de 2016

Ressurreição pra todos

Jorge Finatto
 
quaresmeira em flor. photo: jfinatto

Ninguém podia imaginar que, passada a ditadura, outra escuridão nos esperava - profunda, espessa e dolorosa - essa que estamos atravessando. Mas vai passar.
 
A claridade há de expulsar as trevas da corrupção, do cinismo, do desamor às pessoas, da luta rasteira pelo poder a qualquer preço.

Não é mais possível continuar desse jeito.
 
As pessoas de bem - de todas as ideologias,  partidos,  grupos e credos - haverão de colocar o Brasil acima dos interesses mesquinhos, acima da violência, acima da desesperança e do desastre.
 
A luz dos espíritos esclarecidos, o diálogo, a capacidade de reconhecer os próprios erros e de se colocar no lugar do outro acabarão por vencer os oráculos da morte.
 
Nesta Páscoa, e nos dias que virão, Feliz Ressurreição a todos!
 

domingo, 20 de março de 2016

A lágrima

Jorge Finatto

photo: jfinatto

As percas. O irremediável na vida da pessoa. Os olhos pretos, pretos. Acesos. Os negros cabelos caíam-lhe nos ombros. No então eu habitava o calabouço. Agonia em mim costumada. As esperas.

Ela surgiu um dia no abrigo, as carinhas nossas. Vestia casaco azul-marinho, lenço branco no pescoço. Quando vi aquela iluminação, meu coração saltou saltos. Pensei no vazio de mim: o que, a estrela da minha vida, essa? Nunca esqueço.

A Encantada. Os olhos dela me encontraram. Escolheu a minha frágil escondida criatura. Havia muitos outros habitantes do calabouço aguardando amanhecer. No limbo, esperando a face do milagre. Os esquecidos.

A Encantada me pegou nos braços. O meu filho, disse. Passei a ser o amoroso. Os baldos. Meu coração cavalo cego na alegria. Quem me via, falava: esse tal, o príncipe. O escolhido. A Encantada inaugurou minha vida. A estrela. Eu príncipe. Ela disse: menino agora é meu filho no rigor da lei e pessoa da minha alma. Tive outro menino, disse ela, olhando o esmo. Do meu sangue próprio. Perdi nos prelúdios, tinha quatro anos. As percas. As esfumações.

Cresci com esse invisível irmão. O finado. O sempre lembrado. Às vezes eu conversava com ele. A mãe era sozinha no mundo. A mãe tinha os momentos. As lonjuras.  Carregava o menino morto no regaço do coração. Caminhava no outro mundo com seus desaparecidos. A mãe tinha  segredos guardados. Ninguém entrava ali. Ai de quem.

O meu filho, dizia. A mãe fazia eu dormir no colo, na frente do fogão a lenha, até os seis anos. O príncipe. A mãe levava o filho vivo passear na praça. O mundo conhecesse o amoroso. A solitária da Rua São João e seu menino vivo. Eu tive, depois perdi.  O coração da mãe tinha umas ausências, sustos, sufocos. Um dia estranhei aquele sono esquecido de acordar. Fui no quarto. Ela deitada. O rosto lindo inclinado. Os olhos pretos, pretos, abertos. Havia uma lágrima transparente. Eu me vi dentro daquela lágrima. A boca parecia rir um pouquinho. Tinha eu seis anos. O escolhido.

Peguei na mão da Encantada. Fiquei dois dias sentado no chão ao lado dela, esperando ela retornar. A mão muito fria. A testa que beijei, gelada. A mãe não regressou. Os silêncios. Disse no dentro do fundo do meu coração: vou junto. Aqui não fico mais. A vida não vale, acabou. Odiei ter renascido. O escolhido. Ódio, ódios envenenados senti. Um vizinho, vizinhos, forçaram a porta, sobejaram pela casa. Os espantos. Me tiraram de lá, no forçado. Eu gritei deveras os tristes gritos. Me deixem, me deixem. O pobre, diziam, o pobre príncipe.

Nos retratos a nossa vida em família: a mãe, o sempre lembrado, eu. O príncipe partido. Sobrevivo a mim mesmo. Sou uma ausência afogado na lágrima. O frio, frios dentro em mim.

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Texto publicado em 22 de maio, 2010.

terça-feira, 15 de março de 2016

Jungfraujoch, Top of Europe

Jorge Finatto

Vista do vale em Jungfraujoch, Suíça. photo: jfinatto

Chegar à estação de trem mais alta da Europa, em Jungfraujoch, no cantão de Berna, Suíça central, requer paciência e fé. E uma alma aberta para encontrar esse tipo singular de beleza. Um pouco de jogo de cintura é importante para encarar a subida por estradas de ferro sinuosas e a pique, entre as altas e álgidas montanhas alpinas.

Um velho e bom capote é indispensável. Este item, aliás, não é problema para quem vem de Passo dos Ausentes, como eu, terra de grossos e impermeáveis casacões de lã, tecidos na mais que secular manufatura local. Os tradicionais agasalhos ausentinos são imprescindíveis para enfrentar os furiosos ventos austrais que nos assolam naquela boa terra, assim como as chuvas, as geadas, os nevoeiros e nevascas.

photo: www.swisstravelsystem.com/pt
 
Encasacado e a bordo do vetusto chapéu azul-marinho, saí do hotel e fui até a estação de trem da pacata Interlaken (pouco mais de 5 mil habitantes). São necessários 3 trens para chegar a Jungfraujoch.

Embarquei no primeiro que vai escarpas acima até Lauterbrunnen. Aí pega-se outro que nos leva a Kleine Scheidegg. Por fim, o terceiro comboio se dirige a Jungfraujoch, passo entre as montanhas de Jungfrau e Mönch, onde está a estação de trem do topo da Europa.

Visão a partir de Jungfraujoch. photo: jfinatto

Para subir os 3.454 metros de altitude, é necessário trem de cremalheira, isto é, com roda dentada central para engrenar no trilho dentado no meio dos trilhos, única maneira de vencer a íngreme subida. Do contrário, a composição voltaria para trás ou simplesmente não iria adiante.

Observatório de Sphinx em Jungfraujoch. photo: jfinatto

No meio do caminho, há paradas em locais de ampla visão para fazer fotos. Lá enfim chegando, me aventurei a sair da estação e enfrentar a neve e o gelo escorregadio naquelas alturas. Fazia um frio de 26ºC negativos e ventava. Fiz algumas fotos, em poucos minutos, e retornei para tomar um chocolate quente.

Esperei, retomei o fôlego e saí novamente. Fiquei mais alguns momentos catando imagens, olhando as montanhas a perder de vista, nos quatro cantos, cobertas de níveo chantili. Só não é mais bonito do que os paredões dos Campos de Cima do Esquecimento.

As mãos e o rosto congelados, voltei à estação de onde não mais saí, enovelado dentro do capote ausentino, esperando o trem de retorno. Uma linda moça oriental perguntou se eu queria que ela fizesse uma foto minha diante da janela (onde eu estava sentado) que dá para o vale gelado. Concordei, claro. Por um desses mistérios que nunca entendi, não apareço em fotos nem em retratos (sou invisível talvez). Mas isso também não importa. Importa é a vista do lugar desenhada em finos e inspirados traços por Deus.

Subida a Jungfrau. photo: jfinatto
 

domingo, 13 de março de 2016

O poema

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

De tudo restou o poema
espelho de muitas faces
solitário como um bicho
resfolegando no silêncio
da página
  
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Poema do livro Claridade, Jorge Finatto. Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.

segunda-feira, 7 de março de 2016

O casal do Elétrico 28

Jorge Finatto

e-book, editora Assírio & Alvim, Portugal
 
Estou levando livros na bagagem, além de revistas e jornais. Publicações que não existem no Brasil. Há uma estantezinha lilás na mansarda, em Lucerna, onde acomodei, provisoriamente, o material. Mas logo vão ter que entrar na mala e enfrentar o Atlântico, nas asas do grande pássaro metálico, durante 12 horas de voo desde Zurique.
 
Na hora de entrar na mala os livros parecem feitos não de papel mas de pedra. Mas se para mim viajar é caminhar, conhecer, conversar, fotografar, ler jornais e revistas, escutar rádios da cidade e  comprar livros, o que fazer? O que é de gosto regala a vida, diz a sabedoria do povo.
 
Mas o que eu quero dizer é outra coisa. Estava lendo o jornal Expresso, de Portugal, edição de 13 de fevereiro que trouxe de Lisboa (ler jornais velhos é uma das alegrias possíveis nesses tempo terríveis, porque as desgraças que estavam por acontecer ainda não tinham ocorrido).

Refiro-me à notícia do traslado dos restos mortais de Ofélia Queiroz (1900-1991), a eterna namorada de Fernando Pessoa (1888-1935), para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, ocorrido no dia 12 de fevereiro.¹

Nesse cemitério o poeta esteve enterrado até 1985, quando o que sobrou de seu corpo foi levado para o Mosteiro dos Jerônimos, onde está ao lado de Camões e Vasco da Gama.

Em frente ao Cemitério dos Prazeres, numa parte alta da cidade, situa-se uma estação do Elétrico 28, bonde que Ofélia e Fernando seguidamente tomavam em seus namoros secretos pela cidade.

Maria da Graça Queiroz, sobrinha-neta de Ofélia, no traslado dos restos mortais
foto: Tiago Miranda

A transferência dos ossos de Ofélia foi obra da Câmara Municipal de Lisboa. Ao que se sabe, Ofelinha (como a chamava carinhosamente Fernando) foi a única namorada do poeta. Namoro de duas pessoas discretas e sensíveis, que tudo fizeram por não tornar pública a relação (essencialmente por decisão dele).

Fernando Pessoa decidiu que não poderia se casar (a sua precária condição financeira de tradutor freelancer não lhe permitia oferecer a ela uma boa condição de vida). Essa decisão (escondida num véu de indecisão) contrariou o desejo ardente de Ofelinha. Mais que tudo, a obra literária era e sempre foi a prioridade das prioridades na vida de Pessoa.

No íntimo, o poeta talvez cogitasse que o casamento o distrairia do "destino" de tornar-se o super Camões (que de fato se tornou). Provavelmente se enganou, o casamento poderia numa certa altura melhorar e prolongar sua existência, dar-lhe alguma alegria além da escrita e do álcool - que consumia deveras - , e dos 80 cigarros diários.

Fernando Pessoa

"Gosto muito, mesmo muito, da Ofelinha. Aprecio muito, muitíssimo, a sua índole e o seu caráter. Se casar não casarei senão consigo.", escreveu Fernando Pessoa. Respondeu Ofélia: "Agradeço muito os teus beijos e envio-te também muitíssimos e muitos chi-corações apertados. Da tua, sempre mesmo muito tua, Ofélia." Trechos de cartas trocadas entre eles, inscritos agora na lápide de Ofélia no Cemitério dos Prazeres.

Trocaram inúmeras cartas, bilhetes, postais, recadinhos, desenhos, palavras inventadas, que muitos anos depois foram publicados em livro. Ofélia não se conformou com o rompimento. Sofreu em sigilo e em silêncio. Só veio a casar-se três anos depois da morte dele. Não teve filhos com o marido e este, felizmente,  não colocou nenhum obstáculo para que ela guardasse as cartas e demais documentos do ex-namorado.

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
                     Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)²

A ironia reside no fato de que, mais uma vez, os fados separam Ofelinha e Fernando. O jazigo onde os restos dela foram inumados fica próximo daquele onde estava o poeta antes de ir para os Jerônimos. Mais um desencontro.

A Câmara Municipal de Lisboa perdeu, talvez, a última oportunidade de reunir, ao menos simbolicamente, o que a vida separou. Poderia ter trasladado os restos de Ofelinha para o Mosteiro dos Jerônimos, aproximando-os, post-mortem, aos do poeta. Faz muito dó que não tenha sido assim.

Se é verdade que Pessoa foi um gênio literário, não é menos verdade que Ofélia foi uma mulher admirável em sua inteligência, discrição, sensibilidade e caráter, tendo influenciado positivamente a vida de Fernando, como comprova a extensa correspondência.

Ofelinha está para Fernando como Inês está para Pedro, no Mosteiro de Alcobaça.³ Será despropósito? São quatro personagens centrais na vida emocional de Portugal. São duas histórias de amor que não vingaram.

A reunião de Ofélia e Fernando pelo menos faria a alegria dos fantasmas dos antigos namorados. E de alguns românticos como eu que olham com ternura para aquele homem e aquela mulher singulares que sonharam um amor que nunca se realizou. O casal-que-não-foi entrou para a história dos grandes amores impossíveis. Como tantos e tantos no mundo.

O casal do Elétrico 28.
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¹O último desencontro entre Ofélia e Fernando Pessoa (excelente texto de Cristina Figueiredo):
 http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-02-14-O-ultimo-desencontro-entre-Ofelia-e-Fernando-Pessoa 

²Poesia completa de Álvaro de Campos, p. 225. Fernando Pessoa, Companhia das Letras, São Paulo, 2007.

³Pedro e Inês:
http://www.mosteiroalcobaca.pt/pt/index.php?s=white&pid=235
 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Pegadas na neve

Jorge Finatto 

photo: jfinatto

Na tarde a neve cai mansamente na ruazinha. Espalho a cortina sobre as vidraças da mansarda. Desço a escada de madeira escura e entrego a chave na portaria da pousada. Uma lareira com chamas ocre-alaranjadas ilumina o ambiente. 
 
A senhora de cabelo branco, um pouco sonolenta, recebe-a e deseja um bom dia. Saio pelas vielas de Lucerna, ruminando névoa.

A tosse seca dos últimos dias amenizou. É preciso caminhar. Os flocos brancos se depositam sobre o capote e o chapéu.

Eu tenho amor pelos que partiram. Olho as pegadas no caminho. Nunca esqueço. Não fui feito para o esquecimento. Ninguém foi. Várias pessoas amadas morreram. Alguns amigos e amigas se dispersaram na nuvem dos dias. O sentimento ficou. Todos estão comigo. Somos como a bruma.¹
 
Se o pássaro imagina que é seu último voo, não vai sair do ninho. Se alguém pensa que é o último abraço, vai hesitar. Então é melhor viver o momento como se fosse eterno. Será que não é? E se Einstein estiver certo e a noção de passado, presente e futuro for só uma ilusão? E se, como querem os eternalistas, os três existirem simultaneamente?²
 
Na dúvida, devemos viver como se a morte fosse uma hipótese remota. Como se o fim já não existisse, pelo menos não agora. Como se viver dia após dia fosse tudo que nos resta. E seguir andando.

Caminhamos deixando pegadas na neve. 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Castelo dos Mouros, Palácio da Pena, Glauber Rocha, Café Saudade

Jorge Finatto
 
Palácio da Pena (fragmento). photo com celular: jfinatto, fev. 2016
 
Um passeio à cidade de Sintra, cercanias de Lisboa, poucos dias antes de voltar à Suíça. Levei o filho adolescente para conhecer o Palácio da Pena. Ele, depois, insistiu em me levar a subir as escadas escarpadas das muralhas do Castelo dos Mouros, coisa que nunca havia feito em visitas anteriores.
 
Resquício e testemunho da rica presença árabe na Península Ibérica, do castelo, construído no século IX, restaram as ruínas do que foi. Ruínas bem cuidadas, com espaços restaurados e história resgatada. Virou Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.

É o que sobrou depois de tantos séculos em que, além da vida cotidiana no escorrer da ampulheta, ocorreram batalhas e desastres naturais no local. Escavações arqueológicas identificaram objetos da Idade do Bronze, da Idade do Ferro e do Neolítico, entre eles um vaso cerâmico completo do 5º milênio a.C..

Judeus viveram no local, no século XV, até sua expulsão de Portugal.
 
Na metade da subida, pensei em desistir. É muito íngreme e é preciso ter sobra de fôlego paga chegar até a parte mais elevada das muralhas. Ao descansar entre as ameias, percorrendo o caminho das torres, procurei não olhar para baixo.

Castelo dos Mouros. photo com celular: jfinatto, fev. 2016
 
Mas Deus é pai e não abandonou este seu pobre servo. Deu-me forças para seguir adiante. Seria um vexame ficar cá embaixo vendo o filho subir sozinho às alturas (na minha cabeça, os filhos estão sempre necessitando de nós, embora isso não seja verdade). Por fim, a visão que se tem no alto compensa o esforço.

photo com celular: jfinatto, fev. 2016
 
O Palácio Nacional da Pena, construído no século XIX pelo rei Fernando II, é uma obra arquitetônica notável, no alto da Serra de Sintra. Vale a visita, mostrando como viviam os nobres. O lugar é rico em equipamentos, alguns avançados para a época. Os espaços são generosos e requintados. Um luxo. A realeza nunca passa mal, ao contrário do povo. A desgraça de sempre.

Palácio da Pena. photo com celular: jfinatto, fev. 2016
 
Um grande cineasta brasileiro viveu em Sintra seus últimos dias, Glauber Rocha. Imagino que ele talvez tenha feito imagens da bela pequena cidade. Se o fez, devem ser muito interessantes.
 
Na volta, paramos no Café Saudade, perto da estação de comboios. O lugar é perfeito para provar as iguarias locais, doces ou salgadas; tem conforto, o atendimento é bom e os preços são bem razoáveis. E, como diz o nome, deixa saudade.

Café Saudade, fachada. photo: Saudade.pt*

Sintra vale o olhar. Com sua gente, vielas, casario, monumentos e palácios, além da serra, donde se avista o mar. Fica a um pulo de Lisboa, passeio de trem. Uma viagem no tempo e na beleza.

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*Café Saudade:
http://saudade.pt/en/contact_us/
 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Coruja: o retorno ao ninho

Jorge Finatto

trem suíço. fonte: swisstravelsystem*
 
Pois fui ao escritório dos Caminhos de Ferro Suíços, no aeroporto de Zurique, conforme e-mail que me mandaram, a fim de buscar a Coruja, ex-máquina fotográfica, quase um ser humano.

Tinha perdido dentro de um trem em Berna, conforme já aqui relatado. Dentro do estojo tinha canetas, carregador, cabo usb, um calepino.

Estava tudo como quando perdi. Paguei 20 francos suíços, cumprimentei-os pelo trabalho e fui comemorar com um café ao lado, feliz da vida. Agora ando com a Coruja a tiracolo. A partir de hoje paro de fotografar com o celular.

Viver numa sociedade regrada pelo princípio da confiança e da solidariedade social faz toda a diferença. E como faz bem ao coração.

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Swisstravelsystem:
http://www.swisstravelsystem.com/pt/highlights-pt/rotas-panoramicas.html
 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Outros olhares

Jorge Finatto
 
photo com celular: jfinatto. Alpes suíços, fev. 2016
 
É preciso ver além do olhar. Há algo nisso tudo (gente, natureza, coisas) que só se enxerga com a lente do sentimento. São os olhos interiores, as visões subjacentes, aquilo que só a intuição desvela. Olhos invisíveis, olhos de dentro.
 
Como disse Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe, pela boca da sábia raposa: "Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos".
 
Lisboa, manhã de sol. Sol frio, depois de vários dias de chuva, vento e neblina. Uma luz azulada toca os telhados ocres, as paredes, as ruas. Do quarto de hotel, avisto o Tejo.
 
Após o pequeno almoço (café da manhã), vou ao shopping Amoreiras comprar dois livros que ficaram faltando durante esta passagem por Portugal. São eles: Lisboa by sketchers, desenhos de vários autores do coletivo Urban Sketchers Portugal, e Lisboa, modos de habitar, poemas de Domingos Lobo.

Há três boas livrarias no Amoreiras, além de bancas de jornais e revistas: Bulhosa, Bertrand e Fnac. Fiz meu farnel de livros nelas, na Casa Fernando Pessoa, na Livros Cotovia e na Livraria Sá da Costa, da Rua Garrett, no Chiado, hoje um alfarrabista.

Livraria Sá da Costa. photo: jfinatto
 
No aeroporto, tomo um café no Starbucks. Lá escuto uma música que me passa profunda doçura. Pergunto quem canta. Um dos atendentes (todos muito gentis) vai lá dentro e traz por escrito:  conjunto The Stylistics, disco Round 2, 1972, e a música é You're as right as rain* (de Thom Bell e Linda Creed, na interpretação maravilhosa de Russell Thompkins Jr. A letra fala num encontro em que a pessoa amada é tão certa, tão suave (faz tão bem) como a chuva num dia de verão).
 
O avião aproxima-se de Zurique. Pela janela vejo a majestade do Matterhorn tapado de neve e com os últimos raios de sol do entardecer.

Uma pintura inesquecível. Retorno à mansarda na álgida montanha. Vou beber um vinho, ler um pouco diante do fogo.

Felicidade é um abraço cálido (e o resto não importa).  
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You're as right as rain:
 

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Um passeio de coche

Jorge Finatto
 
Museu Nacional dos Coches, Lisboa. photo com celular: jfinatto, fev.2016
 
Eis algumas fotos de carruagens do Museu Nacional dos Coches, em Lisboa. Fiz com o celular depois que perdi a Coruja num trem em Berna. Boa viagem!
 
photo com celular. jfinatto, fev. 2016
 
photo com celular: jfinatto, fev. 2016
 
photo com celular: jfinatto, fev. 2016