domingo, 16 de agosto de 2020

Urgente primavera

Jorge Finatto

photos: jfinatto, ago. 2020


Nunca a primavera foi tão necessária. A pandemia da covid-19, no hemisfério sul, sobretudo no sul do continente americano, nos apanhou no início do outono e se estendeu por todo o inverno. Os últimos 5 meses foram extremamente difíceis. 

A primavera ainda não chegou. Mas setembro está próximo e o sentimento dela já toca o coração devastado pela realidade brasileira. Com a primavera, vêm as esperanças de que o vírus maldito comece sua retirada, afastando de nós o ímpeto assassino. Claro que, para isso, é fundamental que as pessoas sigam as orientações de combate ao contágio. 

A doença encontrou no Brasil um território fácil à propagação e à produção de vítimas. Um país desestruturado socialmente, com baixo nível de consciência comunitária e pouca capacidade de empatia.  Não é erro afirmar que parte dos mais de 106 mil mortos (até agora) se deve à negação da doença. E muita gente continua sem respeitar as medidas de prevenção.


rosas pra alegrar a alma

Nada como o distanciamento do tempo para revelar como as coisas se passaram entre nós. Que cada um responda pelos seus atos e suas omissões. Em todos os níveis, desde o cidadão comum do povo, que se negou a seguir orientações para evitar a propagação, até os mais altos ocupantes de cargos públicos, que subestimaram o alcance da tragédia e não fizeram a tempo o que precisava ser feito.

Primavera é tempo de renascimento, não de ressentimentos. Tempo de vida nova, de fim de hibernação, de seivas explodindo em energia, luz, alegria. Tempo de voltarmos a acreditar no futuro apesar de tudo. Tenho rezado pela saúde das pessoas amadas e de todos. 

Que Deus nos conceda a sobrevivência como uma nova oportunidade. Façamos  por merecê-la.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Evocação de Rilke

Jorge Finatto 

Flor de Viena. photo: jfinatto


Quem tomará a minha mão
na noite de vermes
quando o asco me derruba
feito cão pela esquina

quem de coração amigo
chegará para beber a gota
de ternura estrangulada

quem me chamará de irmão
na dor imensa
quando o medo me acerta
com suas espadas de fogo

________________

Poema do livro Claridade, Jorge Finatto. Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

A vida das coisas

Jorge Finatto

photo: jfinatto. Em memória de Helena.


A vida das coisas pende por um fio, se te calas.
                                              Helena Jobim, no poema Princípio.

Este verso da escritora e poeta Helena Jobim é de uma beleza comovente. Remete ao compromisso do poeta com seu tempo, com os seres que habitam o mundo, com a vida geral. A palavra atuando pela afirmação da vida. Olhos atentos, coração aberto, entrega e esperança. 

O texto da querida irmã do maestro Antonio Brasileiro possui atualidade permanente neste Brasil que teima em desmoronar.

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Helena Jobim:

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Terapia de jardim

Jorge Finatto

photo: jfinatto

A terapia de jardim consiste em permitir-se ir ao encontro das flores. Pode ser num jardim público ou particular, ou na natureza. Não colher nenhuma flor. Observá-las, admirá-las, amá-las em vida. Pode até tirar umas photos e levar pra casa. O resto elas sabem fazer: encantam, serenizam, despertam a mente para o silêncio, o belo e o delicado. O perfume é lembrança do paraíso.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Respiro, logo existo

Jorge Finatto

magnólia. photo: jfinatto, julho 2020


Mais de quatro meses de quarentena, reduzido a este microterritório do universo que é minha casa, a sensação é de sufoco. Não que eu não goste de ficar em casa. Sou dos viventes mais caseiros, capaz de repetir ad nauseam as rotinas domésticas. 

O que causa mais sofrimento é o afastamento do contato humano. Somos seres gregários, gerados no generoso útero feminino há milênios, sobreviventes de pragas e tempestades.  Precisamos do outro, ansiamos seu calor. O que não nos impede de sermos, às vezes, profundamente egoístas.  Contudo, neste momento, em meio à peste, devemos manter distância do semelhante.

Os doentes da covid-19 ficam em quartos e ambientes isolados, em casa ou nos hospitais. Quantos já morreram sem ter tido ao menos o conforto de afagar uma mão humana,  de ver o rosto querido de um parente, um amigo. Este é o lado cruel.

O que tenho feito nesses dias de pandemia? Lavar louça, passar pano no chão, tirar lixo, limpar banheiro. Não são novas habilidades. Sempre fui da turma da faxina. Aprendi com o tempo que os outros só nos valorizam (a nós, limpadores e arrumadores) quando o serviço falta. Quando está em dia, passamos invisíveis.

A primeira coisa que faço quando levanto, de manhã, é ir até a janela olhar o quintal, ver se ainda está lá. Com suas árvores, pássaros, hortaliças, flores, terra. Depois do café, é pra lá que eu vou. Respirar. Respirar é tudo que realmente importa. Tudo mais é vã literatura, inclusive esta crônica.

Ao cogito ergo sum (penso, logo existo) do filósofo francês René Descartes, acrescento este modestíssimo, porém incontornável, respiro, logo existo. Porque, nesta altura do drama, é do que mais precisamos. O resto vai ter que esperar.

sábado, 18 de julho de 2020

O Senhor não está

Jorge Finatto

cartum de Quino*


No aniversário de Quino, 88 anos completados ontem, a nossa homenagem! Feliz cumpleaños, Maestro!

NÃO, O DONO da casa não está. Saiu cedo e não disse a que horas volta. Ele foi por aí, não falou onde ia. Talvez não volte mais hoje nem nunca mais. Escafedeu-se. De fato, ele é esquisito. Vivo com ele uma vida inteira e não o conheço.

A Senhora sabe: as pessoas são estranhas. A cidade é grande, tem muito trânsito, muita livraria, muita coisa que ver, fazer, se distrair, e, sobretudo, muitos perigos. Sabe-se lá a que horas uma criatura destas retorna pra casa, se é que retorna.

Andar pelas ruas, nos dias de hoje, é uma odisseia. O Senhor gosta de olhar vitrines, até conversa com manequins, imagine; e perde horas na banca de jornal. O velhote vai ao cinema e dorme durante os filmes, acredita? É um biruta, vai pra onde leva o vento.

O quê, veio buscá-lo? Não, minha Senhora, não vale a pena ocupar-se dele, sujeito sem importância, tiozinho solitário, frugal. Gosta de viver, sim, e só isto. Teve vida difícil. Melhor deixá-lo em paz, não acha? Eu acho.

A Senhora tenha paciência, vá embora, que eu tenho mais o que fazer. Não, não posso convidá-la a entrar, não me leve a mal. Adeusinho, adeusinho.
_________
*site oficial de Quino:
http://www.quino.com.ar/  
Este post foi inspirado no cartum do genial artista argentino, "pai" de Mafalda, de quem sou grande admirador. Publicado antes em 3 de janeiro, 2018.

sábado, 11 de julho de 2020

As primeiras horas

Jorge Finatto

photo: jfinatto



Imagino o que os habitantes da Arca de Noé devem ter sentido quando as águas do Dilúvio baixaram e puderam olhar o azul do céu outra vez. Hoje, depois de muitos dias de pandemia, chuva, frio, ventania, ciclone bomba, enchentes, mortos e desabrigados, e sem poder ver uma nesga de céu claro, o dia amanheceu azulzinho. Abri a janela do escritório e respirei aquele azul.

Como tinha sede do Sol, desci a escada Santos Dumont e fui para o nosso jardim. Um pouco maltratadas com o mau tempo, as rosas estavam lá ainda. E as camélias, as magnólias, as azaleias, as flores de mel, as éricas também. Fiquei ali com elas, apanhando sol.

Depois fui recolher galhos e gravetos que caíram com a tempestade, para acender o fogão a lenha. Cada movimento com calma, como se o mundo estivesse começando agora. E fosse preciso viver essas primeiras horas com a delicadeza e o espanto de uma borboleta.

domingo, 5 de julho de 2020

O jeitinho brasileiro diante da tragédia

Jorge Finatto

photo: jfinatto. rosa amarela: esperança


A estimativa de que o Brasil poderá chegar a 100 mil mortos pela covid-19 nos próximos dois meses está se confirmando. O número diário de óbitos passa de mil e, seguindo assim, ultrapassará aquela projeção feita por especialistas. Uma catástrofe.

O que se percebe é uma quase indiferença em relação ao assunto. Quando a pandemia se instalou na Europa, houve comoção. Agora que está aqui, em números muito maiores, parece que não nos diz respeito. 

A falta de coesão no enfrentamento da doença é alarmante. O pouco caso de parte da população às orientações sanitárias é inacreditável. A maioria sabe o que precisa ser feito para impedir a propagação da doença. Mas muitos reagem como se se tratasse de uma gripezinha apenas, como a relativizou há algum tempo o Presidente da República. Aliás, um capítulo especial caberá a este senhor, quando for contada a história da pandemia no Brasil.

O que falta ao nosso país é amor social. Não nutrimos apreço pela vida em sociedade, a lei que vale é a famosa "quem pode mais chora menos". Não temos sentimento de coletividade. Somos capazes de atos solidários no varejo, aqui e ali, mas não alimentamos a empatia como um valor necessário e indispensável.

Claro que existem pessoas solidárias e envolvidas com o bem comum. Mas a média dos que praticam tais virtudes é insuficiente. A indiferença em relação às muitas tragédias que nos atingem pode ser observada quando olhamos para o número anual de assassinatos, para  as favelas, presídios, para a falta de saúde, educação, saneamento, moradia, para os elevados níveis de corrupção, devastação da natureza, etc.

Não formamos propriamente uma nação, mas um amontoado de gente sem direção, os "espertos" puxando brasa para o seu assado, achando que isso é o certo. O resultado é o que se vê. 

Somos uma sociedade autofágica, que não se comove com a dor do próximo. Não fomos educados para desenvolver ideia de pertencimento que reforce nossos vínculos com a comunidade na qual estamos inseridos e da qual bem ou mal dependemos. Ao contrário, o mantra desse modus vivendi é: cuide de si, leve vantagem, suba na vida, não olhe para os lados.

Uma sociedade com esse nível de desunião é incapaz de acusar o golpe ante as mais de 100 mil mortes anunciadas (hoje esse número chegou a 64.365*, sendo o primeiro óbito em março passado).

É um triste espetáculo para o mundo. Um atestado de frieza moral. Um péssimo legado para nossos filhos e netos.

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O Globo:
https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/brasil-registra-64365-mortes-por-covid-19-informa-consorcio-de-veiculos-da-imprensa-em-boletim-das-20h-24515993

terça-feira, 30 de junho de 2020

As últimas folhas

          Jorge Finatto

photo: jfinatto


Caíram as últimas folhas do outono
novelo de lã nas mãos de Maria
fogão a lenha, pinhão
conversa na noite fria

anúncio do inverno: ventania

esperança de vida
apesar do isolamento,
da pandemia
e do autoritarismo
(em progresso)
no Brasil

que Deus proteja o povo (todos nós)
da peste e da tirania

sexta-feira, 26 de junho de 2020

O visitante

Jorge Finatto

Lausanne, Suíça. photo: jfinatto


Quando o frio chega
eu saio com o bolso
cheio de pássaros
e vou até aí te visitar

tempero o inverno
no teu calor
de mulher

de manhã parto feliz
com tua luz
nas entranhas

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Do livro Claridade, coedição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

terça-feira, 23 de junho de 2020

O caçador

Jorge Finatto

Rosa. photo: jfinatto

O caçador de flores, na sua floral loucura, busca reter a beleza do que, por natureza, é volúvel ao tempo e perecível.
Sou amador na arte de caçar. Dedico-me ao ofício por puro prazer, sem fazer disso meio de vida. Também não nutro espírito de emulação com outros caçadores.
Lanço-me à faina, mesmo sabendo que retratos conservam apenas a aparência do que foi belo um dia, e depois deixou de ser.
Saio por aí com a Coruja, vetusta máquina fotográfica que me acompanha há séculos, e começo mais um dia de caçada.
E haja corola pra satisfazer a sanha insana.
O gesto é egoísta, típico de quem quer dar expansão ao próprio deleite estético, numa ânsia predatória de fazer arrepiarem-se as pedras.
O caçador satisfaz o cruento instinto ao capturar as imagens, escondendo-as em seguida em secreto compartimento.
Todavia, o segredo não resiste à evidência de que o belo precisa ser compartilhado pra ser admirado.
Só a exposição da caça torna completa a alegria do caçador.
Um dia as flores secam e morrem, como tudo que é vivo e respira. Alguma coisa delas permanece nas photos. Será essa, quem sabe, a possível atenuante para a conduta do caçador, no seu afã de ter consigo todas as flores que puder e mais algumas.
Na cidade grande quase não há flores. Por isso, e por não gostar de viver distante delas, quando estou longe de Passo dos Ausentes, levo comigo o baú de fotografias. Um jardim de emergência em meio ao deserto de concreto, suavizando o feio e o triste.
No lugar onde escrevo essas frágeis linhas, não faltam flores, graças a Deus. Elas crescem generosamente e a caça é abundante.
O retrato é, talvez, um modo patético de aprisionar o efêmero. Mas o que não é patético nessa tosca existência, não é mesmo, raro leitor?
Magnólia rosa. photo: jfinatto
_______ 
Texto revisto, publicado antes em 26 nov. 2013.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

A Praia do Gasômetro

Jorge Finatto

Guaíba com barco e neblina. photo: jfinatto
 

Ele precisa respirar um pouco de ar fresco, sair do calabouço. Recorda como eram bons os banhos, as caminhadas e brincadeiras que, quando criança, fazia pela orla do Guaíba.
 
Um dia distante se viu só diante do rio. A casa da serra tinha afundado.

O rio passou a ser seu único amigo na cidade grande.
 
Sai do calabouço na tarde de junho. Precisa respirar.Vai até a margem do Guaíba fazer um passeio sentimental, que é uma maneira de não deixar o vazio tomar conta.
 
A hora mais feliz do dia era pelo meio da tarde, quando mães e crianças saíam das casas e apartamentos com roupas de banho, guarda-sol, chinelo, toalha e iam para a Praia do Gasômetro, ali ao lado da alta chaminé que virou cartão-postal.
 
Era só sair de casa, esperar o bonde passar, atravessar a rua, e estavam na areia. Ser feliz era simples.
 
O Guaíba é esse espelho sobre o qual o céu se debruça todos os dias com o sol, as nuvens, o azul, e, à noite, com as estrelas.
 
No dia em que tudo o mais estiver perdido, haverá a memória do rio e nele um barco branco com vela branca para levar o menino a navegar nas águas claras e sem margens da infância.
 
A ilha ensolarada da infância.
________

Texto revisto, publicado antes em 3 de novembro, 2015.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Drummond e a máquina de costura

Jorge Finatto

Carlos Drummond de Andrade¹

Uma antologia de poesia brasileira e uma máquina de costura. Que relação têm essas coisas? Nenhuma aparentemente. Mas foi através desse inusitado encontro que li, pela primeira vez na vida, um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987).

Gosto de lembrar e contar essa história. Numa casa de gente pobre como era a nossa, livro raramente entrava, era artigo de luxo. Eu tinha 15 anos e minha mãe comprou a máquina de costurar pra cuidar das roupas da família.

Por feliz iniciativa do fabricante (ou da loja que vendia o produto, nunca soube), junto com a máquina vinham duas antologias: a de poesia brasileira e uma outra de poetas portugueses. Os dois volumes eram pequenos e grossos (trago-os até hoje na estante, são os livros que estão comigo há mais tempo).

A força viva da palavra apresentou-se diante de meus olhos quando li Cantiga de viúvo do bardo de Itabira. Algo estremeceu dentro de mim, uma porta se abriu e nunca mais fechou.

Como podia alguém escrever aquelas coisas, daquele jeito?

Havia tanto sentimento e beleza naqueles versos que me emocionei com a viuvez do poeta. Drummond tinha só 28 anos quando publicou Alguma Poesia, em 1930, seu primeiro livro, no qual está incluído o poema. Ele não era viúvo, pelo contrário, estava na flor da juventude e trilhava o caminho do conhecimento amoroso. A comovente história do poema tinha brotado da imaginação e da sensibilidade do escritor.

O texto drummondiano transmutou invenção em realidade na alma do adolescente leitor que eu era. Me tocou fundo a solidão do homem perplexo e sofrido ante a perda do seu amor.

Concluí que, se era possível dizer tais coisas com palavras tão simples, então valia a pena escrever. Despertar emoção e capacidade de sentir dor e alegria faz parte da missão dos poetas.

Fiquei para sempre com aquela impressão de força e limpeza da expressão escrita do poeta mineiro, confirmada depois de travar conhecimento com sua obra.

Drummond é uma lição perene de poesia.

Cantiga de viúvo²

A noite caiu na minh'alma,
fiquei triste sem querer.
Uma sombra veio vindo,
veio vindo, me abraçou.

Era a sombra de meu bem
que morreu há tanto tempo.

Me abraçou com tanto amor
me apertou com tanto fogo
me beijou, me consolou.

Depois riu devagarinho,
me disse adeus com a cabeça
e saiu. Fechou a porta.
Ouvi seus passos na escada.
Depois mais nada...
                                 acabou.
________________

¹Foto colhida na internet. O crédito será dado tão logo conhecido o autor.
²Poema do livro Alguma poesia, da antologia Reunião, 10 livros de poesia de CDA. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1977.

Também sobre Drummond: A memória do Coração:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/04/memoria-do-coracao.html 
__________ 

Texto republicado, editado antes em 31.10.83

sábado, 13 de junho de 2020

São estranhos esses dias

Jorge Finatto

photo: jfinatto. Canela


São estranhos esses dias 
de portas fechadas 
janelas pensativas

A peste corre feroz 
à solta no burgo. 
Um cenário da Idade Média

Os dias dentro de casa
trancados pra fugir do bicho ruim
passam à velocidade da luz
e são ao mesmo tempo 
longos e intermináveis

Lá pelas tantas 
tudo parece um dia só 
quando se vê 
foi-se uma semana, um mês, três meses

Os sabiás andam calados
as aves de mau agouro 
ocupam o palco 

Eu ando mesmo 
com uma bruta saudade 
de um pouco de leveza  
em meio à barbárie desses dias  
 __________

Trechos de Saudade de Vera Cruz, 17 de maio, 2020.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

O amor de Ofélia e Fernando

Jorge Finatto

photo: jfinatto, fev. 2018


UM DIA, em fevereiro de 2018, peguei o ELÉCTRICO 28 (o querido bonde lisboeta) e desci na frente do Cemitério dos Prazeres, uma espécie de Père-Lachaise português, onde, como em Paris, estão sepultados alguns nomes importantes das artes, literatura, política e ciência. Após descer (era o fim da linha), resolvi entrar. O atendimento na portaria é educado, um funcionário entrega um mapa ao visitante.

Fernando Pessoa (1888 - 1935) e Ofélia Queiroz (1900 - 1991) viveram um amor que ficou para a eternidade. Amor de namorados que não chegaram a se casar, porque assim tinha de ser. A numerosa troca de cartas, postais, telegramas, desenhos e bilhetes entre os dois está registrada em livros e revistas.

photo: jfinatto, fev. 2018

Ambos discretos e reservados, os papéis vieram à edição muitos anos após a morte de Pessoa, com consentimento de Ofélia. Uma edição completa foi publicada pela Assírio & Alvim em 2012, reunindo a correspondência. O acervo reúne 185 documentos. Neles se encontram palavrinhas inventadas pelo casal.¹

Já escrevi aqui sobre a relação deles e remeto o raro leitor ao texto.²

Me dirigi ao túmulo de Ofelinha, ou Bebé, como era tratada pelo namorado poeta. Seus restos mortais foram trasladados para o local em fevereiro de 2016 por decisão do Município de Lisboa. Mas ainda não foi desta vez que haviam de ficar juntos para sempre. Os restos mortais de Fernando Pessoa foram levados do Cemitério dos Prazeres para o Mosteiro dos Jerônimos, onde se encontram alguns dos grandes vultos nacionais portugueses, em 1985.

F. Pessoa, menino e homem. Casa Fernando Pessoa.
photo: jfinatto, fev. 2018

É um túmulo pequeno, discreto, mas quanta história naqueles vestígios de uma vida. Teria sido um amor malogrado? Acho que não, pensando bem. Se tivessem casado, teriam sido felizes? Não teriam caído na inevitável rotina dos casamentos em que as relações acabam em amizade, os amantes se transformando em irmãos? Isso quando não viram inimigos em guerra aberta. Quem sabe?

Fernando Pessoa casou consigo mesmo e teve filhos na figura dos heterônimos. Foram sua família espiritual. O resto era o mundo real que não importava muito.

Na lápide de Ofelinha há registro de dois trechos das cartas.


_________

¹ Cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz. Assírio&Alvim, 2012, Lisboa.

² O casal do Elétrico 28:
https://ofazedordeauroras.blogspot.pt/search?q=O+casal+do+el%C3%A9trico+28

Texto revisado, publicado antes em 19 de fevereiro, 2018. 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Rodolfo Walsh, 43 anos desaparecido

Jorge Finatto

Rodolfo Walsh. foto de arquivo


Hoje, no trem, um homem disse: "Sofro muito. Queria ir pra cama dormir e só acordar daqui a um ano". Falava por ele, mas também por mim.
                                          Rodolfo Walsh

Detesto ditaduras de esquerda e de direita. Na minha modesta opinião, de quem passou a juventude na ditadura civil-militar do Brasil, entre 1964 e 1985, e que conhece o lado obscuro de ditaduras como as da Argentina e Cuba, não existe a figura do bom ditador. A tragédia é inevitável em qualquer caso. Ditaduras convivem com violação de direitos humanos, cadáveres, humilhações, perseguições, instauram a paranoia geral, suprimem a vida, a alegria, a criatividade e a liberdade em nome de "um futuro melhor". 

Nunca acreditei na violência como meio de resolução de conflitos, embora reconheça que, em casos extremos como o do nazismo, não há outra alternativa senão o recurso à guerra aberta para evitar a implantação do terror planetário. Barack Obama, Prêmio Nobel da Paz em 2009, tem razão a este respeito. A humanidade, contudo, ao que parece, superou aquela catástrofe (que jamais pode ser esquecida), podendo encaminhar a solução pacífica das crises.

O nosso país passa por um momento terrível do ponto de vista sanitário, indo além dos 30 mil mortos pela covid-19, e político mercê de uma crise que afronta o bom senso e a saúde mental dos cidadãos. Como a imensa maioria dos brasileiros, deploro a ideia de que tenhamos de viver uma outra ditadura.

Acredito que só o diálogo das pessoas de bem, isto é, que creem que somente o estado de direito democrático pode nos levar a uma vida saudável em sociedade, poderá nos tirar do impasse institucional. 

Independente de partidos políticos, de crenças religiosas, de ideologias, de sectarismos de toda espécie, penso que é possível e urgente haver reunião em torno de um ideal de respeito à democracia e não-violência num momento como este.

Com a palavra o Congresso Nacional, o Judiciário, o Ministério Público, as demais autoridades constituídas, organizações civis e cidadãos que se opõem à volta do obscurantismo.

O jogo democrático, por mais frustrante, sofrido e asqueroso que, às vezes, possa parecer, é ainda melhor do que jogo nenhum.

Reproduzo o texto abaixo, publicado neste blog, em 10 de junho de 2017, na esperança de que não voltemos à escuridão.

Minha vocação despertou cedo: aos oito anos decidi ser aviador. Por uma dessas confusões, quem a realizou foi meu irmão. Acho que a partir de então fiquei sem vocação e tive muitos ofícios. O mais espetacular: limpador de janelas; o mais humilhante: lavador de pratos; o mais burguês: comerciante de antiguidades; o mais secreto: criptógrafo em Cuba.¹
Rodolfo Walsh

Eu tinha ouvido falar do escritor e jornalista argentino RODOLFO WALSH (1927 - 1977), mas nunca tinha lido nada dele. Nenhuma informação tinha de sua vida. Caminhando pela Avenida San Martín, na tarde gelada de Ushuaia, as montanhas nevadas da Cordilheira dos Andes debruçadas sobre a cidade, me vi diante de um retrato do autor pintado na parede da Rádio Nacional. A legenda diz que desapareceu em 25 de março de 1977. Isto é, um ano e um dia após o início da ditadura militar na Argentina (1976 - 1983).

Na livraria Boutique del Libro comprei alguns livros dele. Tomei conhecimento de que vivia na clandestinidade quando "foi desaparecido" e fazia parte do grupo Montoneros, de luta armada, atuando na área de comunicação. No ano anterior havia perdido a filha María Victoria, também integrante do Montoneros, em confronto com forças militares. Ela escolheu suicidar-se a entregar-se com vida aos militares.

Walsh (amigo de Gabriel García Márquez, que o admirava como escritor, e um dos criadores da agência de notícias cubana Prensa Latina) faz parte da terrível relação de desaparecidos durante a ditadura. Grupos de direitos humanos estimam em 30 mil pessoas. No entanto, dados levantados nos últimos anos apontam cerca de 9 mil vítimas, entre mortos e desaparecidos. No Brasil, este número é de 434 pessoas, segundo informe da Comissão da Verdade de 2014.²

A diferença, contudo, é que na Argentina alguns dos responsáveis pela ditadura foram julgados e condenados à pena de prisão perpétua, como o general Jorge Rafael Videla, que morreu preso em 2013.  Um, dez, cem, vinte mil desaparecidos, é tudo uma tragédia. Não se trata apenas de um número frio, mas de pessoas.

photo: jfinatto, Ushuaia, maio 2017.

No dia de seu assassinato, presumivelmente ocorrido em 25/3/77, por membros da repressão, andava na rua, em Buenos Aires, após encaminhar pelo correio cópias da Carta aberta de um escritor à junta militar,³ na qual fez vigorosa denúncia da ilegitimidade e truculência do regime militar, apontando violação de direitos humanos, métodos hediondos de tortura e extermínio, número de vítimas, além de graves prejuízos à sociedade.

Dirigiu o documento a órgãos da imprensa argentina e a correspondentes estrangeiros. A carta, datada de 24/3/1977, dia em que a ditadura completava um ano, foi seu último texto. Difundida no exterior, não logrou o mesmo nos órgãos de imprensa de seu país submetidos à censura e controle.

últimos dias do escritor (clicar). photo. jfinatto

Do que tenho lido de Rodolfo Walsh, chama atenção a sua busca constante da verdade, a pesquisa das informações e o compromisso que se impôs de dar testemunho de seu tempo. É considerado o criador do gênero literário não-ficcional que trabalha com fatos reais; jornalismo com técnicas literárias. Literatura e realidade. Impressiona, ao lado da coragem, a qualidade de seus textos, sejam jornalísticos ou literários, ou ambos integrados.

Basta ler Operação Massacre,4 que conta uma história real, para ver o alto nível dessa prosa. No apêndice deste livro encontra-se a Carta aberta acima referida.

O contista, assim como o autor de não-ficção e o jornalista, é brilhante. A elevada qualidade de suas linhas engrandece a literatura da Argentina, colocando-o ao lado de nomes como Roberto Arlt, Cortázar, Borges, Sábato.

Biblioteca Nacional Mariano Moreno. photo: jfinatto

Neste ano 40 do seu brutal desaparecimento, a Biblioteca Nacional da Argentina, em Buenos Aires, está promovendo a exposição literária Los oficios de la palabra. É uma boa oportunidade para conhecer um pouco de sua história e de sua obra. O texto de apresentação da mostra (clicar sobre ele) é do escritor Alberto Manguel, atual diretor da biblioteca.

Hoje no trem um homem disse: "Sofro muito. Queria ir pra cama dormir e só acordar daqui a um ano". Falava por ele, mas também por mim.

Este início de contato com Rodolfo Walsh tem sido enriquecedor do ponto de vista humano e literário. E nos leva à perplexidade de constatar que, tanto tempo depois, não se tem nenhuma notícia sobre o paradeiro de seu corpo e sobre as circunstâncias em que seus algozes (quem foram, onde estão?) lhe deram sumiço. O mesmo trágico destino teve o poeta García Lorca, em Granada, cujo corpo, fuzilado em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, até hoje não foi encontrado. Um horror.

ambiente da exposição. photo: jfinatto


apresentação da mostra Walsh por Alberto Manguel. photo: jfinatto

__________ 

¹ Ese Hombre y otros papeles personales. Ediciones de La Flor. 3ª ed, pág. 13. Buenos Aires, 2012. Tradução livre do fragmento: Jorge Finatto.
² Argentina ainda discute quantas foram as vítimas (Folha de São Paulo):
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/02/1735938-argentina-ainda-discute-quantas-foram-as-vitimas-da-ultima-ditadura-militar.shtml
³ Carta aberta de um escritor à junta militar:
http://www.jus.gob.ar/media/2940367/carta_rw_espa_ol_web.pdf
4 Operação Massacre. Rodolfo Walsh. Tradução de Hugo Mader. Companhia das Letras. São Paulo, 2010.
Ese Hombre y otros papeles personales. Ediciones de La Flor. 3ª ed, pág. 266. Buenos Aires, 2012. Tradução livre do fragmento: Jorge Finatto. Palavras do escritor a propósito da morte da filha Vicki (María Victoria).


segunda-feira, 25 de maio de 2020

Meu caro George Orwell

Jorge Finatto

Foto do crachá de jornalista
de George Orwell, 1933. Wikipedia

Enquanto não começam a queimar livros nas praças
enquanto não sequestram o vizinho para averiguações
(e não o devolvem mais)
enquanto não invadem nossa casa em busca
de textos e canções proibidos
enquanto não nos levam à força para esclarecimentos
perante a polícia do pensamento
enquanto não suspendem o habeas corpus
enquanto não põem a tropa na rua para bater
em baderneiros que criticam o governo
enquanto não criam o índex dos subversivos
inimigos da pátria
enquanto não instauram a tortura
como instrumento de interrogatório
enquanto não fecham jornais e televisões
enquanto não espalham agentes infiltrados
em escolas e universidades
para identificar conspiradores
enquanto o parlamento permanece impassível
diante do monstro que se levanta,
lembremos que tudo isso que parece coisa do passado
pode estar mais vivo do que se imagina.
Um mundo sombrio, obcecado pela sede de poder total
que não se comove diante do sofrimento dos outros
nem diante dos cadáveres que se amontoam
em razão da peste e da indiferença
este triste mundo de perseguição e sadismo
que ergue sua imensa escuridão
e já não esconde a ânsia
de aprisionar o sol
e enterrar o futuro
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Ao grande escritor britânico, autor do extraordinário e atual 1984.

sábado, 23 de maio de 2020

Os fascistas

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto


Os fascistas
escolhem sempre
as prisões
à BENIGNIDADE DO SOL

mas os poetas
continuarão
VIOLANDO
AS SOMBRAS


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Do livro O Habitante da Bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.