quarta-feira, 17 de julho de 2019

Os últimos mistérios do mundo II

Filipe Penaverde

photo: jorge finatto

 
Reescrituras

Se Jorge Luis Borges reescrevia seus textos (quase sempre o fazia), por que um pobre bardo de arrabalde, em que se misturam Dante e Cabrelino da Montanha, não poderia/deveria fazê-lo para o bem de seus valorosos leitores?

Extremos 

Se há, como dizem, um renascimento da extrema direita, aqui e alhures, é porque a extrema esquerda revelou-se, no poder, inoperante e obsequiosa com a corrupção. Não existem santos nessas igrejas. Só fiéis esperando uma salvação que nunca vem.

Como se muda o mundo, sem mudar antes o coração e as próprias atitudes?

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Um alquimista João

Jorge Finatto
 
João Gilberto. photo: Tuca Vieira, São Paulo 2006.
Wikipédia.
 
 
JOÃO GILBERTO foi um artista raro. A afirmação é clichê, mas um clichê incontornável. Uma notável exceção no mundo da música. Não só pelo talento como pelo comportamento discreto, avesso a badalações, holofotes, polêmicas. Recluso, concentrado no trabalho,  guardava com esmero sua vida privada, fugindo da celebridade.
 
Um criador que deu nova dimensão à música. Com ele o samba ganhou uma graça diferente, com doses inusitadas de silêncio. Saboreava cada palavra, cada acorde. Nada de gritaria. Um dos criadores da Bossa Nova, a música brasileira que o mundo mais conhece.
 
O canto suave, quase um sussurro. O toque personalíssimo ao violão. Tratava o instrumento com a dignidade de um concertista. Com João o violão brasileiro ganha uma nova sensibilidade, conquista outras esferas, à semelhança do que acontece com Villa-Lobos. Cada qual no seu jeito e no seu quadrado.
 
Causava estranhamento ver aquele homem sério, um senhor de terno e gravata, executando peças de música popular, soberbo maestro de si mesmo.
 
Não tolerava gente barulhenta e pouco educada na plateia. Passava pitos quando o ambiente não estava à altura de sua arte. Reclamava do som ruim, do ar-condicionado que desafina instrumentos. Temperamento difícil, obsessivo, nisso parecido com outros gênios.
 
Quando tocava e cantava, João era inventor de harmonias, desbravador de caminhos sonoros, de mundos. Um alquimista no universo da música. O mais rude metal se transforma em finíssimo ouro em sua voz, em suas mãos. 
 
Com os filhos adolescentes Clara e Lorenzo, fui assisti-lo no Teatro do Sesi, em Porto Alegre, no ano 2001. Generoso, prolongou o show muito além do previsto, atendeu pedidos, conversou. Sentiu cheiro de fumaça de cigarro que vinha da parte anterior do palco, indignou-se. O fumante, que permaneceu invisível, tratou de apagar o cigarro e, com o ar limpo, João continuou.
 
Ele lembrou do Guaíba, do pôr do sol de Porto Alegre, da professora Boneca Regina que o tratou como um filhou nas várias vezes em que esteve em sua casa durante os encontros de arte que ela promovia com sua família e amigos. Era 1955, ele contava 24 anos e estava passando uma temporada em Porto Alegre. Morou oito meses no Hotel Majestic, na Rua da Praia, o mesmo onde viveu Mario Quintana, que ele admirava. O antigo hotel é hoje a Casa de Cultura Mario Quintana. 
 
João Gilberto construiu uma obra original, alcançando efeitos incríveis com mínimos recursos. Tal despojamento e excelência só os grandes conseguem. A aparente simplicidade de sua voz e seu violão esconde uma oficina incansável, rigorosa, persistente, como poucas vezes se viu.
 
Morreu João faz poucos dias, em 6 de julho, aos 88 anos, em sua casa no Rio de Janeiro. Retirou-se do palco da vida. A luz do astro apagou-se. Mas há muito ele já era eterno em nossos corações. 

 

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Os fundamentalistas

Jorge Finatto

Panos quentes no frio zero grau de Canela.
photo: jfinatto
 
 
TENHO MEDO de quem nunca duvida das próprias certezas. A rigidez de pensamento tem motivado a grande desolação em que vivemos. Questionar-se sobre o modo de ser e de fazer as coisas, repensar a vida, olhar o outro, é exercício de civilidade cada vez mais raro.

O fundamentalismo, seja laico, religioso ou político, não torna as pessoas mais felizes e nem melhores. Pelo contrário, espalha sofrimento, conflito, morte. O fundamentalista é dono de verdades absolutas, irrenunciáveis. Ele e o grupo a que pertence, incapazes de autocrítica, são pérolas que pairam impolutas sobre os pobres mortais.

No Brasil de hoje, à esquerda e à direita, a irracionalidade tomou conta.
 
Pôr-se no lugar das outras pessoas, ponderar suas razões e sentimentos, está fora de cogitação para o sectário. O que ele quer - ser iluminado que é - é mandar na vida alheia e no país, mostrar o caminho único da ventura e prosperidade.

O fundamentalismo passa longe da tolerância, essa atitude que, sendo menos que o respeito, é, todavia, um primeiro passo na aceitação do diferente.

Prefiro viver numa sociedade com muitas faces do que num hospício, que é para onde nos conduzem a inflexibilidade, o fanatismo, a força bruta, o aniquilamento da alteridade.

A ética da aproximação, como princípio fundamental da existência, é, ainda, a possível ponte para uma convivência razoavelmente civilizada e fraterna.
 

segunda-feira, 1 de julho de 2019

A travessia do cotidiano

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
A travessia do COTIDIANO é Odisséia.  As histórias das pessoas comuns, os verdadeiros heróis, quem as contará? Nenhum Homero jamais se debruçará sobre as pequenas memórias que constituem a existência do povo.
 
E, no entanto, não há tesouro mais bonito. São as histórias reais, mais belas e incríveis que as maiores ficções.
 
Cada um é Ulisses e Homero da própria trama. Uma pequena história numa constelação de narrativas.
 
O que resta, no fim de tudo, são histórias humanas sem fim que o vento carrega para as bibliotecas azuis das estrelas.
 

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Scrittura

Jorge Finatto

photo: jfinatto


ESCRITA rente ao sentimento e ao pensamento.
Escrita dentro do cotidiano mas aberta ao sonho e à imaginação.
Escrita sem pedir licença nem perdão.
 

sexta-feira, 21 de junho de 2019

A hora da cocota

Jorge Finatto


 fotos: jfinatto 

Na ponta de um PLÁTANO já sem folhas, na frente de casa, pousaram essas caturritas. É o primeiro dia do inverno. Ali ficaram um bom tempo observando tudo lá de cima. Podiam ver a catedral e o centrinho de Passo dos Ausentes. Talvez cansadas, no fim de tarde, antes do sol se pôr, resolveram fazer uma pausa antes de regressar aos ninhos.
 
Essas criaturas são também conhecidas como periquitos-monges, catorras ou cocotas. Seguidamente estão aqui no quintal comendo araçás e outros frutos do seu agrado. Fazem uma gritaria e andam sempre em bando. Não tenho ideia de onde elas vivem, mas parecem bem e estão sempre atentas. Juntas cuidam umas das outras. E por isso vão mais longe. Se as pessoas fizessem o mesmo no Brasil...


Neste primeiro dia de inverno deram as caras as amigas cocotas. Fiz umas fotos de recordação. Uma espécie de celebração do inverno. De retiro das almas. Completado com a audição do Concerto para Cello em Si Menor, de Dvorák.
 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A paleta do outono

Jorge Finatto

Praça Gustavo Langsch. fotos: jfinatto

 
SAÍ PELA RUA na tarde de outono pra tirar umas fotos. Uma visita à Praça Gustavo Langsch perto de casa e não precisa mais. Ali habitam todas as cores da estação.
 
Por alguma razão que desconheço, o outono custa muito a chegar nessa praça. A estação já anda madura no restante da cidade e na Langsch as folhas resistem a amarelar e cair dos galhos. O ocre demora a ocupar o lugar que lhe cabe por direito. Mas quando o outono, enfim, acontece, ela torna-se uma das praças mais bonitas de Porto Alegre.
 
 
O outono é a estação mais bela do ano. Pelas mutações biológicas na natureza, pela incrível paleta de cores que pintam o ambiente e multiplicam ao infinito os tons.
 
Outono é alumbramento, festa do olhar.
 

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Ao viajante solitário

Jorge Finatto

Canela, RS. photo: jfinatto
 
AS COISAS que não aconteceram são as que mais se afeiçoam à minha memória. A biografia que vale os veros registros: a dos não-acontecimentos, a dos impossíveis sonhos. 

O resto são pedras que se carregam dentro dos bolsos. Como os suicidas caminho do mar. Essa cidade é onde o abandono é dono.

As praças vazias onde me quedo ouvindo falecidas conversas. Ó ausências do mundo!

Bardo obscuro e tabelião de papéis perdidos em Passo dos Ausentes, eu vivo os interstícios. Os ásperos padecimentos da humana travessia. Cheio pelas orelhas de frustrações, tapas na cara, rasteiras e desejos. Quem houvera nesta vida maledeta se dignasse escutar meus ais.
 
Viver é assunto proceloso e bem noturno. Por isso estou aqui. Me contando, me inventando.

Sou o bardo barroco, ressuscitado em salvadoras prosopopéias. A obsessão pela música interior. Essa que me faço e entrego ao vento. Construo o venturoso canto. Não me interessa a realidade. Quem quiser a realidade, bem a guarde e embale.

Sou viajante de um tempo que se esfuma. O tal.

A saudade é um retrato em branco e preto na gaveta do oblívio. Os pedaços de cada um.

O meu coração habita um quarto de pensão. A pensão se chama Ao viajante solitário. Às vezes penso que o mundo é uma grande pensão. A pensão dos viajantes solitários. E viver é um fiozinho de orvalho estendido de manhã sob o sol.

Somos parceiros das nuvens e da bruma. Caminho para o lugar ermo dos esquecidos.

Eu, Landgrave dos Santos Strano, inquilino do absurdo, apresento-me ante vossa alta ausência.

Passo dos Ausentes, nos Campos de Cima do Esquecimento. Rio Grande do Sul, Brasil, Fim da Via Láctea. Dou fé e assino.

Provavelmente outono.
 

domingo, 2 de junho de 2019

A livraria e a rua

Jorge Finatto

photos: jfinatto
 
NUMA CIDADE afundada em violência, num país em que a criminalidade fugiu do controle, as pessoas evitam andar nas ruas. Só o fazem quando necessário, pois há sempre presente o risco de figurar no longo rol das vítimas da barbárie. 

Há, contudo, um movimento dos cidadãos no sentido de voltar a ocupar o espaço público. Há como que uma necessidade física e psicológica das pessoas de sair das tocas a que estão submetidas.

Desde sempre a cidade é o lugar de convivência entre os humanos.  O espaço comum, o local de interação, de trabalho, de lazer, de coexistência, de construção da vida. Não por acaso surgem agora iniciativas como a Noite dos Museus, em que uma multidão se reúne para sair pelas ruas em intensa programação cultural e comunitária.


Com alegria visitei na semana que passou uma nova livraria, a PocketStore. O bacana é que é uma livraria de rua, não de shopping. Nasce com este espírito de retorno ao espaço público, na Rua Félix da Cunha, no bairro Moinhos de Vento, cada vez mais povoado de cafés, restaurantes, sorveterias, bancas de jornal e lojas nas calçadas.

 

A PocketStore é um bom espaço, moderno e bem atendido. A única coisa que eu mudaria é o nome: por que não chamá-la Livros de Bolso, ou coisa parecida? O português é tão bonito, tão gostoso de ler e escrever. Nada contra o inglês, mas para uma livraria creio que ficaria melhor um nome no idioma de Saramago, Nelson Rodrigues e Guimarães Rosa. Mas isso é detalhe, gosto pessoal. O que importa, raro leitor, e deve ser saudado, é a oportuna iniciativa de colocar a livraria na rua.
  

domingo, 26 de maio de 2019

Limites

Jorge Finatto

photo jfinatto
 

EXISTE a necessidade urgente de pacificação dos espíritos neste Brasil tão conturbado dos últimos tempos, onde se discute muitas vezes sobre coisas sem nenhuma importância e que não levam a lugar nenhum. Há um campeonato de testosterona no país. Disputa-se pelo amor à emulação, à discórdia, para mostrar quem é o mais forte, quem tem mais razão, quem tem a verdade verdadeira, quem é o mais isso e aquilo.

Dificilmente o clima de animosidade levará a algum lugar. Até para discordar tem que ter nível, boa educação, calma. Temo pela evolução deste estado de permanente confronto entre governistas e opositores. A sociedade está cansada. Não suporta mais as injustiças e mazelas decorrentes da corrupção.
 
As necessárias mudanças precisam ser feitas com exemplos de conduta, de retidão, de oposição ao extremismo, com luta pacífica em busca de justiça e solidariedade social.
 
O ressentimento e a beligerância não conduzirão a uma realidade melhor do que esta que estamos vivendo. Acredito na disposição mental para o entendimento, para receber críticas, para dar o passo adiante, para querer o bem comum, para não querer destruir quem pensa diferente.

As mentes lúcidas não podem aceitar a violência moral ou física como forma de resolução de conflitos e de afirmação política. O limite de qualquer manifestação deve ser o respeito ao outro. Que a serenidade nos inspire e proteja.
 
 

segunda-feira, 20 de maio de 2019

O processo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto. Rio Guaíba

 
SOU habitante
da beira do rio
condenado
a não ver o rio

afundado em seco
decifro papéis
que nada me dizem

a página em branco
espera o verso
que não escreverei

o que encontro
no gabinete
a essa hora
da manhã
é não ter tempo
pra mais nada

enfrento a trama
invencível
a dor sem abrigo

a grande trituração
das almas
no processo

resta apenas
o duro ofício
que não pode
ser adiado

impossível fugir

o carteiro
envelhece
enquanto aguarda
as cartas
que não enviarei

observo por um momento
o voo branco
da gaivota
sobre o Guaíba

nesse instante
invade-me a tristeza
do prisioneiro
(a essa hora da manhã)

desapareço
na névoa

_______

Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

domingo, 12 de maio de 2019

Homem grande, coração de guri

Jorge Finatto
 
Flor de maracujá. photo: jfinatto
 

O FATO é que as datas festivas ou efemérides existem. Podem até ter um sentido comercial, buscando levar as pessoas ao consumo. Mas às vezes é difícil ignorá-las. Hoje, por exemplo, Dia das Mães. Não há como não pensar na mãe de modo mais sentimental. E quem já não tem mãe, como no meu caso, fica calado no seu canto. Disfarça, vai até a janela, sentindo um aperto no peito.
 
Lembro Dela me levando no meu primeiro dia de escola em Porto Alegre. Eu tinha sete anos e acabara de chegar do interior onde vivia com os avós. Tudo era estranho. O Guaíba com seus barcos e navios, a enorme chaminé do Gasômetro, a praça e a praia que havia onde hoje é o Parque Harmonia. A avó tinha morrido há pouco tempo.
 
Naquele dia Ela me vestiu com o uniforme engomado, camisa branca e gravatinha azul, me passou um leve perfume e, antes de eu entrar no portão, me segurou e disse "esse é teu primeiro dia, um dia muito importante. Tu serás um grande homem".
 
Hoje, olho com saudade aquele momento precioso (a esperança que ela tinha no seu menino). Olho com o coração dolorido. Ela não está mais aqui para um abraço. Pequeno, pequeno homem.
 

domingo, 5 de maio de 2019

Os meus velhotes

Jorge Finatto
Café, Museu Chaplin, Vevey, Suíça. photo: jfinatto

ELES REÚNEM-SE às quartas e sábados num café. Sempre na mesma mesa. São quatro, às vezes cinco. Não faço parte do grupo. Chamo-os de "os meus velhotes" com secreta intimidade. Nunca conversei com nenhum deles. É provável que nem deram pela minha presença.

Velhotes são carinhas passados dos 70 que insistem em viver e, ainda mais, em conviver. Na minha paisagem afetiva, essas figuras importam. Trazem a marca da resiliência, persistem na amizade e na vontade de levar o barco adiante. Eu admiro e gosto de pessoas assim.
Quando ando meio desanimado, vou ver os meus velhotes. Sento na mesa costumeira, peço o café, leio alguma coisa. Entrementes acompanho com discrição a reunião do grupo. De alguma maneira, aqueles cabelos brancos me dizem que vale a pena, que existe felicidade no fato de continuar respirando e ir ao encontro dos amigos para um bate-papo num café.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Pontos de luz

Jorge Finatto

Entardecer em Montreux, Suíça. photo: jfinatto
 

A POESIA existe principalmente fora dos livros de versos. Conseguir reter um pouco desse mistério em forma de poema é tarefa para poucos.
 
Pra quem escreve, o olhar do outro é fundamental. Só o outro pode reconhecer sentido no texto. Sem ele, não tem razão de ser. É como deixar um livro aberto sobre a mesa do quintal, exposto aos ventos, à chuva, ao sol. Os olhos do pássaro, da borboleta e da formiga jamais poderão desvelar o que está escrito. 
 
A descoberta da arte nos torna mais humanos. Os museus, salas de concerto e bibliotecas guardam fragmentos do belo. Mas a maior parte da beleza está em outros lugares, à espera de ser desvendada pela sensibilidade de cada um.

O belo é para sentir e para pensar. O belo pode ser muitas coisas. Às vezes tudo misturado. Só não pode ser a favor da morte e da desintegração do ser humano. Obras de arte são pontos de luz soltos na escuridão cósmica.