quinta-feira, 11 de junho de 2015

Ler e escrever

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto. grafite de F. Pessoa no Chiado, Lisboa, 2007

Ler é uma maneira de ser feliz mesmo estando rodeado de infelicidade. O livro é o meio de transporte mais simples e portátil que existe. Com ele fazemos grandes viagens sem sair do lugar, sem passaporte, sem medo de avião.
 
Escrever é um jeito de suportar as realidades da vida e, sobretudo, uma maneira de não se matar diante das imensas adversidades e frustrações. Um modo de ir além dos ossos do cotidiano.

O processo da escrita traz em si a alegria da realização, mas traz também um bocado de angústia e sofrimento junto.

Poucas pessoas tiveram uma vida mais sem graça do que Fernando Pessoa (1888-1935), cujo 127º aniversário de nascimento se comemora neste sábado, 13 de junho. E, no entanto, está entre os grandes gênios literários da humanidade. Através da poesia viajou todo o universo sem sair de Lisboa.

A sua poesia o salvou e de alguma forma nos salva também.
 
Ele foi pobre materialmente, viveu encostado nos parentes, deparou-se com o paredão duro, cinza e desumano do mundo, mas nos deixou um legado espiritual imenso. Ele bebeu muito. Mas sua verdadeira cachaça foi sempre o escrever. Nele operou-se o milagre da palavra escrita como poucas vezes acontece.

Feliz aniversário, Fernando.
 

terça-feira, 9 de junho de 2015

Aniversário de Fernando Pessoa

 
Imagens do poeta, Casa Fernando Pessoa 
 

A seguir, informe da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, a respeito das celebrações do 127º aniversário de nascimento de Fernando Pessoa (nasceu em 13 de junho de 1888, em Lisboa, e ali faleceu em 30 de novembro de 1935).

Nos dias 12 e 13 de Junho, sexta e sábado, a Casa Fernando Pessoa celebra o aniversário de Fernando Pessoa, no espaço da CFP e na Feira do Livro de Lisboa.

Começamos o brinde no dia 12, sexta, às 17h00, com o lançamento do livro O Meu Tio Fernando Pessoa, uma antologia de textos do autor, organizados pela sobrinha Manuela Nogueira.
Dia 13, sábado, às 15h20, à hora a que, em 1888, nascia Fernando Pessoa, arranca na CFP o recital Pessoa Grande às Mais Pequenas. Ainda na CFP propomos uma visita guiada especial à casa habitada pelo autor: às 17h00, em português e com desconto de aniversário.
A celebração na Feira do Livro de Lisboa conta com a oficina para crianças e famílias, Descalçar Botas d'Elástico, às 18h00, e o regresso de Café Orpheu - Segundo Turno, às 18h00 e às 21h00, com um programa transversal a cruzar a música, a performance e a imagem.
E, em dia de aniversário, as prendas são para quem nos visita: a entrada na CFP tem um desconto de 50% e são várias as oportunidades na nossa loja-livraria.

Todos os detalhes de programação em www.casafernandopessoa.pt
Vemo-nos por cá, até breve.
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O barbeiro de Fernando Pessoa:

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Passos nas cercanias do oblívio

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto. Estação das Águas Moinhos de Vento


Uma parte dele diz que já esqueceu. Não tem lembrança de tal pessoa. Esqueceu a cor dos cabelos, dos olhos. O jeito de falar e de sorrir, quando se encontravam.

A mão não guardou a forma dos seios. Se havia doçura no beijo?, não tem memória.
 
A outra parte, porém, lembra até o perfume daquela mulher, o modo que ela tinha - só ela - de retirá-lo do poço escuro, o calor dos corpos entrelaçados.

Recorda com ternura os passeios na estação das águas, entre palmeiras imperiais, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

As vozes de ambos ainda se ouvem nas tardes longínquas.
 
Esta é talvez a parte mais doída. Mas é a mais viva. A que faz com que ele se sinta menos só na cidade abandonada.

O tempo é um mistério e uma armadilha. 30 anos passam num instante.
 

domingo, 7 de junho de 2015

Fama

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

É possível
que ele seja
o maior poeta vivo
do edifício

trata-se, claro,
de mera
probabilidade:

o prédio é muito habitado
lápis e papel todos têm
sensibilidades contidas
trabalham na calada

mas até o momento
que se saiba
nenhum vizinho
lhe retira os louros
e ele pode dormir
tranquilo

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Tratado geral das marés

Jorge Adelar Finatto 
 
photo: jfinatto


O rio noturno, povoado de estrelas, atravessa a cidadezinha em busca do mar. Na volta, traz o céu pintado de azul, conchinhas para guardar segredos e peixes para iluminar a vida.
 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Verde

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

Das minhas cinzas faço um verde
nesse verde nasce um menino
eu sou o menino que acompanha este menino

somos filhos da fome do dia
como os potros que morreram cedo
nossos irmãos

na nossa rua nenhum deus mora
eis porque choramos quando o dia acaba
ou brilhamos como duas adagas ao sol

nossa canção
a invasão dos dias
nossa matéria
o que está na sombra e não tem nome

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Do livro de poemas Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Editora Movimento, 1983.

 

domingo, 31 de maio de 2015

A rosa vermelha

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Ultimamente aquela frase não saía da cabeça de Maria Eulália:
 
A morte é um preço alto a ser pago por uma rosa vermelha.
 
Desenterrou-a, como um raro diamante, do conto A Rouxinol e a Rosa,¹ do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900).² A triste beleza dessas palavras tocou-a profundamente.
 
Algumas pessoas passam pela vida tão em silêncio que ninguém lhes presta atenção. Levam a existência tão distantes do amor que mais vegetam do que vivem. Vivem, por assim dizer, a cappella.
 
Em algum momento algo desmoronou dentro da nossa personagem. O mundo em volta foi perdendo a cor, o sabor e o sentimento. O calor humano começou a rarear.

Na ilha solitária onde foi habitar, Maria Eulália não tinha a quem oferecer e nem de quem receber uma rosa vermelha.
 
Pensou que não podia procurar alguém que não via há muitos anos para oferecer a rosa. Seria vista talvez como louca ou supercarente. Detestava a ideia de demonstrar que estava afogada em solidão.
 
Naquele dia de fim de maio, descobriu que, para algumas pessoas, o único jeito de receber uma rosa vermelha é a morte. Aí percebeu a terrível verdade escondida na frase de Wilde. E soube então, com lágrimas no coração, que ela fora escrita para gente como ela.

Nesse momento teve a certeza de que não estava disposta a pagar o preço. Secou os olhos, arrumou-se e foi até a floricultura onde comprou um buquê com doze rosas vermelhas que colocou no centro da mesa da sala de jantar.

Depois, como era sábado, prendeu o cabelo e foi limpar o apartamento. 
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¹Oscar Wilde. Contos Completos. Edição bilíngue. Editora Landmark, São Paulo, 2013.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A barbárie nossa de cada dia

Jorge Adelar Finatto

Estação Hidráulica Moinhos de Vento. P.Alegre.  photo: jfinatto
 

A barbárie invadiu nossas vidas. A sociedade brasileira se habituou ao sangue derramado.

As agressões e assassinatos acontecem a toda hora nas ruas do país. A tragédia virou rotina nas páginas dos jornais, já não causa espanto. Virou fato normal e nada se faz para dar um basta na situação.

As desculpas são sempre as mesmas: faltam recursos para o combate ao crime, para construir prisões decentes, para a saúde, para a educação, para a moradia, para as creches, para o transporte, para o saneamento, para a alimentação, para o emprego, para a cultura, para os espaços de lazer e convivência. Mas curiosamente sobram - e como sobram! - recursos para a corrupção e a gestão temerária.

Ninguém se importa verdadeiramente, enquanto não acontece com alguém próximo. Acredita-se - ou finge-se acreditar - que a desgraça deve ser enfrentada como sendo algo pessoal. Não é.
 
A nossa capacidade de indiferença ultrapassou todos os limites. Vivemos uma realidade doentiamente individualista, escondidos atrás de grades e sistemas de segurança que nada resolvem.

Cada um recolhido no seu casulo de silêncio e medo, pouco se importando com o que acontece ao vizinho. É melhor nem saber.
 
O espaço público virou território de bandidos. À solta e agindo livremente, eles são os donos das nossas cidades. São eles que, de fato, governam dentro de suas leis próprias e de seus códigos perversos.
 
Os maus exemplos de conduta, que induzem todo o processo, vêm desde os mais altos escalões da vida nacional. A inexistência de um projeto de nação responsável, humano e solidário está levando o país à autofagia. O Brasil está se destruindo assustadoramente.

Enquanto isso, vende-se a ideia de que a vida vai melhorar com ajustes na economia, o que é uma visão distorcida das coisas. A vida do brasileiro só irá melhorar com educação que permita a construção de valores. Não é só uma questão de melhorar os números da economia, mas, antes e acima de tudo, de formar consciências.

Os bilhões e bilhões manejados pela corrupção demonstram que o problema primacial do Brasil está longe de ser a crise econômica, esta simples consequência dos desmandos. É, isto sim, a falta de competência, respeito e honestidade na administração do patrimônio público.

Reduzir os impasses do país, como se está tentando fazer, à mera questão econômica é, no mínimo, subestimar o poder de percepção, a inteligência e o sofrimento do povo.

A ausência de responsabilidade social e a indiferença pelo bem comum abriram as portas à selvageria e explodiram qualquer ideia de vida em sociedade em nosso país.

Teoricamente, vivemos todas as liberdades democráticas. Na prática, porém, nunca a vida foi tão agredida e desprezada.

Esta é a terrível herança que estamos construindo.
 

sábado, 23 de maio de 2015

Eu ia tomar o bonde amarelo

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Museu Virtual Memória Carris. Prefeitura Municipal de Porto Alegre.
Imagem de José Luís Kieling Franco

 
Eu ia tomar o bonde amarelo
e dar um giro pela cidade
mas não existe mais o bonde amarelo
nem eu tenho dez anos

me engano ou essa cidade
mudou de endereço
se não, como explicar tanta gente
desconhecida nas ruas
e os amigos perdidos nas esquinas
do tempo do bonde?


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Do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Conversa na estação

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Sou como os trilhos cobertos de hera da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes. Vive em mim o sentimento das chegadas e partidas dos trens, o vai-vem humano, o sentido da transitoriedade das coisas.

Digo sempre às magnólias do meu jardim: nunca esqueçam de mim. Me chamo Juan Niebla, músico de profissão. Meu instrumento é o bandoneón. Tenho 89 anos, sou cego desde os 16. Ditei essas linhas fugidias ao poeta Heitor dos Crepúsculos.

As sombras espalham suas sedas sobre mim. O pior cego, digo eu, é o que não consegue mais sonhar. Realidade sobeja desfaz a alma, empareda o coração.

À noite todas as coisas se dispersam. É quando o peso de existir se concentra em tons de solidão. Sozinho no escuro, altas horas, recordo minha mãe e o menino que eu fui. Eu mesmo acendo o fogo no fogão a lenha e preparo o café, que bebo fumegante com os biscoitos comprados na padaria de Mocita de La Vega.

Ligo o rádio elétrico na mesa da cozinha e fico escutando estações do Uruguai e Argentina. Nesse momento toca o Noturno nº 2 de Chopin, que eu amo. Nesses enquantos, convoco seres que povoam o território do oblívio: pais, irmãos, primos, primas, tios, tias, amigos, certa mulher, um perfume, pessoas que não estão mais aqui, mas é como se estivessem. Não quero deslembrar. Sou formado por essas criaturas.

Muitas vozes falam através de mim e do bandoneón, a voz dos ausentes. Sim.

Habito o interior de uma pintura, dentro de um lago profundo e silencioso. Ali me sento e lembro. E sonho também. E rezo nesses confins.

Vivo tão ausente que, às vezes, passo por mim e não me reconheço. Quando estou há muitos dias desaparecido, saio a me procurar, saber o que houve, por onde andei, o que fiz, com quem falei. As ausências.

Amanhece. Estou na velha estação de trem, sentado no banco de madeira, de peroba rósea, com o bandoneón ao colo. Espero o próximo comboio. Dizem que nunca mais virá. Eu tenho fé que sim, sim, um dia chegará, e quando isto acontecer estarei aqui para receber os passageiros com música.
 
Sou o músico da estação, fui contratado por concurso público em 1940, quando tinha 15 anos. Trabalho desde então na estação do trem de ferro. Atuo também na Banda Municipal e na Orquestra de Câmara de Passo dos Ausentes. Deus e os amigos sabem.
 
Sou cego e minha luz vem da música. A música é a minha claridade. O ambiente à minha volta começou a perder o foco. Um dia as formas e os contornos do mundo me abandonaram. Passei a ver borrões de luz. Até que veio a escuridão completa.

Trago recordações felizes de quando enxergava. A nossa casa entre as árvores na margem do Lago da Ausência. A face da minha mãe me olhando e rindo enquanto estendia roupa no varal.

Os pássaros e os peixes, mil cores. Lembro com clareza o azul e o branco.

O frio nesta época é excessivo. Recolho-me cedo da tarde ao Café dos Ausentes, que fica na estação. Passo horas conversando com o dono do estabelecimento, Nefelindo Acquaviva. Danado inventor de aparelhos voadores, seguidamente se espatifa no chão com seus inventos. É um milagre que ainda esteja vivo. Coisas voam sem parar na cabeça do meu amigo.

Ultimamente, Nefelindo anda mais contemplativo que de costume. Eu conheço esse silêncio. Nesse estado de espírito, limita-se a navegar pelos céus de Passo dos Ausentes no seu dirigível que pode carregar até três pessoas. Eu sou um dos costumeiros e raros passageiros.

Ninguém quer pôr a vida em risco numa geringonça voadora qualquer. Eu não ligo. Embarco no pássaro-invenção do amigo. Gosto de sentir o vento batendo na cara quando sobrevoamos o Vale do Olhar em direção ao Contraforte dos Capuchinhos. Um dia ainda vamos atravessar o oceano, ele promete. Eu acredito.

Converso muito, também, com o fantasma de Heitor dos Crepúsculos, suicida arrependido que perambula pela ruas e praças de Passo dos Ausentes. Um bom sujeito, uma das tantas almas perdidas que vagam pelos Campos de Cima do Esquecimento.

No cair da noite, volto pra casa com meu capote de lã azul-marinho, meu chapéu de aba, os óculo escuros, o bandoneón que levo nas costas como mochila e a bengala de bambu cor de açúcar queimado, construída especialmente para mim pelo honorável Akira Munefusa, sensível artista e poeta que vive numa cabana na beira do Lago da Ausência.

Anoiteço outra vez.

Vou tomar café com meus fantasmas.
 
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Do livro Histórias de Passo dos Ausentes. Registro na Biblioteca Nacional, Escritório de Direitos Autorais, nº 663.190, livro 1.277, f.. 316.

domingo, 17 de maio de 2015

Viajar entre as estrelas

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Solidão é quando cada um se encontra com seu cada qual. No ermo de si mesmo.

Uma travessia sobre o vazio sem rede de proteção.
 
A noite gira a esfera cheia de coisas em movimento, salpicando o espaço com pontos luminosos.
 
Há sempre um trem atravessando a escuridão com um passageiro insone dentro.

O trem divaga sobre montanhas arranhando as alturas. Seu destino é a pequena estação de Passo dos Ausentes.
 
O passageiro levou a solidão pra viajar no cosmos. Anseia por voltar e abrir as janelas da casa da infância outra vez. O sonho.
 
Estes são dias de grande silêncio, exceto pelo ruído espesso do trem cortando o vento.
 
Às vezes o céu noturno está tão perto, claro e límpido, que parece que o trem navega entre as estrelas.
 
Nessas horas dá para ouvir a respiração de Deus.
 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Passos de algodão

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto. Alziro em pessoa


Depois de longa e sentida ausência, ele retornou ao convívio das tardes no escritório. Conheço meu amigo de outros outonos.

Partiu no verão sem dizer nada, tão ao seu estilo, e me deixou aqui todo esse tempo, sem poder ouvir sua voz cava, sem poder ver sua plumagem luminosa, seus olhos redondos e espertos.

Sempre sinto falta do olhar de banda e da maneira estrambótica de aterrissar num só pé na varanda do escritório.

Alziro, o tucano, tem temperamento forte e, às vezes, um certo mau humor, quando o tempo está pra chuva.
 
Ele voltou com suas cores vivas para amenizar as perdas cromáticas da estação. Eu andava mesmo precisado de sua companhia, confesso. Não que ele converse muito, é até meio calado. No fundo, nem é isso o mais importante.

A silenciosa presença do amigo, sabê-lo perto, partilhando a vida, é motivo de consolo e esperança. Homens e aves podem se entender muito bem e viver no coração uns dos outros.

Providenciei hoje a reposição de pedaços de banana no pratinho dele, fruto muito do seu gosto.

Em certos dias, Alziro deixa a cerimônia de lado, entra no escritório andando em passos de algodão. Ensaia uma pequena incursão no ambiente.

Olha o teto, os lustres, a mesa, os livros, os quadros, as plantas e relógios, tudo com silenciosa atenção. Faço que não percebo para deixá-lo à vontade.

E, do mesmo jeito que chega, ele se vai embora. Como sempre, não se despede e nem diz quando voltará. Alça o improvável voo adunco e parte rasgando o ar.

O que importa, diz meu coração, é que a velha e boa amizade está rediviva. Se tudo der certo, talvez ele retorne amanhã. Ou quem sabe outro dia. Só espero que não me falte por tão longo tempo, porque meu inventário de ausências já vai numeroso na vida.

Amar traz consigo, sempre presente, o risco de perder.

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Texto publicado em 24 de agosto, 2010.
 

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Manhãs de bruma

Jorge Adelar Finatto

Estação Hidráulica Moinhos de Vento. photo: jfinatto
 
Andamos pela vida
como seres
de pedra

habitamos as noites
de vento
as manhãs de bruma
nos acolhem
no manto líquido

trazemos
o olhar parado
em algum lugar
do passado

a memória amputada
o semblante malferido
uma rosa desfeita
povoa o peito

algo se perdeu
algo desmoronou
o coração abandonado
ficou seco

nas praças de Porto Alegre
a saudade dos encontros

o rosto pintado
os dedos finos
entrelaçados
                         na névoa

eis que do fundo turvo
surgem os primeiros
traços do sol

renascemos da treva
ressurgimos do pó

o corpo leve
agora dança
na busca de infinito

por um momento
a beleza
o encanto
a harmonia perdida

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Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

sábado, 9 de maio de 2015

As intermitências da primavera

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Clara Finatto
 
 
O amor - ou esse sentimento que aproxima pessoas solitárias e desamparadas como ele - inaugurou datas no calendário, pintou de lilás e rosa o coração.

O amor tocou músicas no som do carro e do apartamento. O amor pintou de azul e amarelo as flores do vaso da sala. O amor tornou-o uma pessoa melhor para si e para os outros.
 
Um dia, talvez, ela, que gostava tanto de gatos, regressará da nuvem onde foi habitar. Virá buscá-lo, como sempre fazia, para irem juntos ao cinema, ao café, à livraria, ao Parque Harmonia ver o pôr-do-sol na beira do Guaíba.
 
Ela foi o único ser humano que conseguiu resgatá-lo da remota ilha. Morreu há três anos de uma doença que não vale a pena lembrar, foi embora depois de sorrir e dizer que ele não devia se preocupar, tudo ia dar certo. Perdeu-a pouco antes de irem morar juntos.
 
Sente-se um morto-vivo sem aquela que o salvou da solidão de náufrago.  Ela foi a sua primavera.

Uma colega de trabalho disse-lhe que ele é muito certinho. A vida, não.
 
O fato é que, um dia, ele sonhou ser feliz para sempre. Mas a realidade disse que para sempre é tempo demais.
 
A família que, no passado, foi unida, agora vive dividida, os irmãos quase não se convivem.
 
A mãe, que em vida tecera com dedos de fada os frágeis laços do afeto familiar, também morreu antes do tempo. Ninguém a substituiu na rara arte de evitar e, sobretudo, de colar os cacos. Os cristais se partiram.
 
Ele voltou a viver no ermo distante da ilha. Tornou-se um estrangeiro em sua própria cidade. Os antigos amigos transformaram-se em conhecidos, foram casando, criando filhos, separando, mudando de rua, de bairro, cidade, país.

O seu mundo reduziu-se ao apartamento, ao trabalho, às idas ao mercado, às leituras, a uma eventual saída aos sábados e às impiedosas tardes e noites de domingo.
 
Teve poucos relacionamentos depois, coisas entediantes, sem nenhuma importância. Não consegue fazer o tipo leve, desses à vontade no mundo. Gosta de pensar, procurar sentidos. E não os encontra.
 
Sexo de ocasião nunca foi pra ele. Tem receio das pequenas e delicadas memórias que o invadem, quando a dona delas vai embora. O que para muitos é pura diversão, para ele é vertigem. Se ao menos não sentisse tanto as coisas.

O lugar onde vive - a longínqua ilha - só não é uma tapera porque a velha empregada da família aparece duas vezes por semana, dá um ar doméstico ao tugúrio. Os únicos seres vivos ali, além dele, são as hortênsias que cultiva na sala, em dois vasos, um em cada lado da janela.
 
As hortênsias acendem as manhãs de verão, iluminam a casa.
 
A janela é o ponto de referência dele no planeta.
 
Dali pode ver a praça e as pessoas nela, as árvores e a rua, o céu, os outros edifícios.
 
De qualquer parte do universo um observador pode tê-lo como objeto de estudos. Todos os dias, no fim da tarde, está na janela tomando chimarrão. Só.
 
No fundo, nunca a perdoou por tê-lo abandonado no mundo.
 
O medo de amar afeiçoou-se a ele como as heras num túmulo de cemitério do interior.
 
A solidão o faz acariciar o gato invisível, na frente da televisão, até adormecer.
 
Se fez acompanhamento psiquiátrico para esse viver tão desolado? Sim. Mas continua o mesmo homem enclausurado, estranho a si mesmo, sem saber o que fazer com as mãos quando está sozinho.

O outono chegou com um cesto florido de lembranças dela. Vive de memória.
 
Os dias chuvosos, frios, deixam as pessoas entocadas em casa.
 
A praça está vazia agora. Recorda-se dos dias em que caminhavam juntos ali.

A ausência da primavera faz o coração girar louco na ventania.
 
Se ao menos tivesse um gato de verdade. Se não houvesse essa lua enorme no céu.

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Texto revisto, publicado originalmente em 17 de fevereiro, 2010.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Heráclito e o espelho

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto. vôo sobre o Guaíba

 
Heráclito de Éfeso (540 - 480 a.C) disse que ninguém entra ou se banha no mesmo rio duas vezes. A aguda percepção de pensador, que não só pensava como vivia o pensamento, referia-se ao fato de que tudo muda incessantemente, o homem, o rio e todas as coisas.
 
Para o filósofo, tudo está em movimento. O mundo é a unidade dos opostos. Dia e noite, sol e chuva, doença e saúde, agudos e graves, macho e fêmea, inverno e verão, guerra e paz fazem parte de um todo.
 
Heráclito acredita, porém, que um pensamento sábio governa tudo. Há uma justiça no cosmos que orienta o destino dos seres e dirige a vida. Os eventos ocorrem na hora certa.
 
Nós não somos sempre os mesmos, mudamos, conforme o velho filósofo. O nosso corpo muda constantemente através das células, o pensamento ganha altura por meio da contemplação, da meditação e da ação.

No que me concerne, diante de minhas notórias limitações, espero que as mudanças me levem a ter mais sabedoria, mais esperança e mais bondade (que a maldade está sempre de prontidão e agindo em toda parte).
 
O rio não é o mesmo. O tempo escorre, eterna mutação, areia descendo na ampulheta.

Alteridade sempiterna das águas, o vôo premonitório das aves.
 
Nada é o mesmo. Não cessamos de mudar. (Só na morte não há transformação.) 
 
Às vezes, diante do espelho, pergunto quem é aquele que me observa do outro lado. Será mais feliz do que todos os que vieram antes dele? Estará mais só? Terá as mesmas dúvidas? Ainda quer mudar a vida, fazer coisas novas?

Ninguém se vê duas vezes do mesmo modo no espelho, caro Heráclito. É sempre outro que está lá.
 
Essa manhã, quando mirei o espelho, o estranho nem sequer me olhou nos olhos. Tomou café, escovou os dentes, fez a barba automaticamente, passou a mão nos cabelos, arrumou a gravata e foi por seus caminhos. Passou o dia distante de mim. Longe, longe. Um perfeito estranho mora no meu espelho.
 
Num momento em que ele se distraiu, olhei através da janela do gabinete e vi um pássaro atravessando o céu sobre as águas do Guaíba.

E vi também belas nuvens brancas cruzando o rio. À medida que passavam, sua forma, sua cor e seu interior foram mudando, até que veio a chuva. O outro sentiu desalento. Eu fiquei feliz, porque a chuva me dá felicidade.
 
É impossível deter esse rio, essas nuvens, esse pássaro, esse outro que me escapa no fundo do espelho e teima em me levar por caminhos onde não quero ir.

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Informações sobre Heráclito em Dicionário dos Filósofos. Denis Huisman. Livraria Martins Fontes Editora Ltda. São Paulo, 2004.
Clique sobre a imagem e veja mais detalhes. Texto revisto, publicado antes em 7, fev, 2013