sábado, 15 de dezembro de 2018

Éramos eternos e perfeitos

Jorge Finatto
photo: jfinatto


ÉRAMOS ETERNOS e perfeitos até que o previsível aconteceu: nossos arquiavós, dona Eva e seu Adão, foram convidados a retirar-se do Paraíso. 

Descumpriram o acordo, comeram do fruto da árvore do conhecimento. Foram expulsos do Jardim do Éden onde viviam com toda a mordomia. 

Graças ao mau gênio de ambos, deu no que deu, carregamos a condena até hoje. E pior pra nós: o Arquiteto dos Destinos nos fez nascer aqui no Brasil.

Vivemos com uma mão na frente, outra atrás, sem eira nem beira, nessa Tristíssima República.  Muita é a dor, e pouca é a paz. Acho que está na hora de fazer as pazes com o Criador pra ver se pelo menos diminuímos esta quizumba, que a coisa tá insuportável. 

Ninguém agüenta mais o cheiro de enxofre.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Um futuro agora para o Brasil

Jorge Finatto

photo: jfinatto

 
O EFEITO mais perverso e doloroso da crise ética que assola o Brasil é o abandono do nosso maior capital como nação: as crianças e os adolescentes. Tal se materializa na permanente falta de creches para os filhos enquanto pais e mães (principalmente) trabalham (aqueles que ainda têm onde trabalhar). E nas famílias destroçadas pelo desemprego, com suas terríveis conseqüências.
 
O que se vê são crianças sozinhas a maior parte do dia, às vezes entregues aos cuidados de irmãos "mais velhos", também eles crianças. Muitas vezes vivendo em circunstâncias onde só a mão de Deus pode livrá-las do pior.
 
A grande herança da corrupção sem limites que invadiu o país, à esquerda e à direita, são gerações de meninos e meninas atônitos, feridos, famintos por comida e atenção, desorientados, desiludidos e, o pior, sem esperança.

Essa a face mais cruel, a lágrima que não seca.
 
A reconstrução do Brasil deve começar por esses milhões de seres invisíveis. É preciso que o Estado vá às comunidades com serviços essenciais, boas creches, saúde, esportes, além de implementar por todo o país, sem mais demora, os Centros Integrados de Educação Pública, idealizados pelo antropólogo Darcy Ribeiro.

Só a partir de então poderemos falar num futuro para o Brasil. Um futuro que não pode mais esperar. 
 

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A hora do farelo

Jorge Finatto

photo: jfinatto


ENQUANTO FILÓSOFOS desvelam(?) os insondáveis mistérios da condição humana, eu espero pelo pinhão cozido na chapa do fogão a lenha. A noite de inverno pulsa ao som dos Noturnos de Chopin.

O vento roça o telhado e as janelas do velho sobrado. A estrela cadente desapareceu atrás das montanhas, eu a vi cair para os lados do vale.
 
Esta é a hora imprópria, do farelo.
 
Observo o canto inumerável da vida. O tempo é curto pra conhecer, sentir tanta coisa.
 
Existe, na revelação do farelo, o sentimento de que faltam mais encontros com os amigos, mais conversas nos cafés, caminhadas de mãos dadas. Faltam mais corações à solta. E mais tempo pra ficar com as pessoas que amamos. Há um excesso intolerável de realidade.

A calada da noite impõe austeridades. Ermos são os caminhos da hora do farelo. As folhas secas do tempo caem em volta da hora nua.
 
A beleza da vida está no voo de borboleta, no passo da joaninha.

A hora do farelo traz a vontade de visitar o ínfimo, atravessar o desconhecido.
 
Se um anjo surgisse dizendo que o meu tempo não foi em vão…
 
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Texto revisto, publicado em 8 de março de 2010.
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A biblioteca de cada um

Jorge Finatto

Hermann Hesse*
 
Um dos melhores livros que li sobre livros e leitura - talvez o melhor  deles - é este Uma biblioteca da literatura universal¹, do escritor suíço-alemão Hermann Hesse (1877-1962), Prêmio Nobel em 1946. Encontrei-o no início deste ano, em Lisboa, garimpando estantes da Livraria Fnac no bairro Amoreiras. Editado pela Cavalo de Ferro, de Portugal, com tradução de Virgilio Tenreiro Viseu, é a primeira versão em língua portuguesa.
 
Trata de questões que afligem leitores que, como eu, se sentem pequenos diante de intermináveis bibliotecas e da "obrigação" de ler certos livros, imposta por discutíveis cânones , "autoridades no assunto" e confrarias. Isso nada tem a ver com a paixão pelos livros e o amor pela leitura.
 
Herman Hesse nos liberta das relações de "imperdíveis", daquelas obras que "ninguém pode deixar de ler" pena de virar um asno. A sabedoria vem de um homem que lutou pelo autoconhecimento e contra as inúmeras amarras sociais que sufocam o crescimento espiritual das pessoas. Escritor abençoado pelo reconhecimento ainda em vida, escreveu livros notáveis como O lobo da estepe e O jogo das contas de vidro. Inspirou várias gerações com seu comportamento libertário.
 
"Não existem cem ou mil 'livros mais belos', há, para cada indivíduo, uma escolha particular baseada naquilo que lhe é afim e compreensível, caro e precioso. Por isso, é impossível constituir uma boa biblioteca sob encomenda; cada um de nós deve seguir as suas próprias exigências e preferências, e criar, pouco a pouco, uma coleção de livros, da mesma forma que se criam amizades. Então, uma pequena coleção poderá para o leitor significar o mundo inteiro. Os leitores verdadeiramente bons foram sempre aqueles cujas exigências se restringiram a pouquíssimos livros; uma simples camponesa, que não possui nem conhece nada além da Bíblia, leu-a mais a fundo e extraiu dela uma maior soma de saber, de conforto e de alegria do que um qualquer ricaço mimado poderá alguma vez obter da sua luxuosa biblioteca."²

A lucidez e a humildade do escritor diante do fenômeno literário nos ajudam a espantar fantasmas de autores e livros não lidos. Ele nos ensina que o que vale  é o prazer da descoberta literária e a felicidade que nos desperta.

Que livros são essenciais? Aqueles que vamos encontrando pelo caminho aqui e ali e elegemos como companheiros de viagem pelo bem que nos fazem. O afeto é o único critério que liga o leitor e o livro escolhido. Se é amor, não pode ser imposto, determinado por duvidosos "donos do saber". Não importa a quantidade de livros lidos, mas a qualidade do que nos passam e nos acrescentam em consciência.

Não existe, portanto, uma lista pronta e universal. Os cânones são referências que passam pela subjetividade, pelas necessidades, idiossincrasias e interesses de quem os elabora.

Em suma, cada um deve construir a própria biblioteca com os gostos, expectativas, desejos e informações que o orientam. Tendo-se clareza de que, qualquer que seja o caminho percorrido, jamais se poderá ler tudo que se escreveu de bom nos diversos gêneros, culturas, países e línguas. Sabendo-se, também, que haverá sempre no ato civilizado da leitura um tanto de esforço e de superação, mas sem automutilação.

O próprio Hesse, que afirma ter lido cerca de dez mil livros, sabia que muita coisa boa e valiosa tinha ficado fora de seu radar de leitor atento. Por exemplo, creio que dificilmente terá lido o nosso extraordinário Guimarães Rosa ou o uruguaio Juan José Morosoli, seja pela falta de edições disponíveis onde vivia, seja pela barreira do idioma, seja por nunca ter tido oportunidade de conhecer estes escritores.

Existe sempre um mundo de livros por descobrir.

Tratando-se de construção pessoal, íntima, e que encontra limites em nossos limites de tempo, dinheiro e outras circunstâncias existenciais, criemos com carinho nossas pequenas bibliotecas caseiras. Nelas poderão faltar muitos livros que por certo nos encantariam. Só não faltará amor.

"A venerável pinacoteca da literatura universal está aberta a todos os homens de boa vontade, ninguém se deve deixar intimidar pela sua riqueza, porque aquilo que conta não é a quantidade. Há leitores que, durante uma vida inteira, se limitam a ler uma dúzia de livros e que são, no entanto, verdadeiros leitores. E há outros que devoraram tudo e que sabem falar de tudo e, não obstante, os seus esforços foram vãos. (...) A leitura sem amor, o saber sem reverência e a cultura sem coração estão entre os piores pecados que se podem cometer contra o espírito."³
 
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¹ Uma biblioteca da literatura universal. Hermann Hesse. Editora Cavalo de Ferro, 2ª edição. Amadora, Portugal, fevereiro de 2018.
² Idem, p. 53.
³ Idem, pp. 12,13.
* O crédito será registrado assim que conhecida a autoria da foto.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O réquiem pode esperar

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

ESTAVA me preparando pra subir na esteira quando tocou o telefone. Do outro lado um indivíduo disse que gostaria de falar com o senhor Jorge.
 
- Pois não, sou eu.
- Boa tarde, tudo bem com o senhor?
- Tudo bem.
- Estou ligando pra falar sobre cremação. Temos um plano pra lhe oferecer.
- Como?
- Sim, temos ótimas condições. Eu vou lhe apresentar...
- Não, não, há um engano.
- O senhor não é o Jorge?
- Sou, mas não tenho a menor intenção de morrer, ao menos não por agora. O dia está lindo. Olhe esse céu azul de primavera de Porto Alegre. Dá ganas de viver pra sempre. Ninguém pensa em morrer. Quem foi que lhe deu meu telefone?
- Creio que um conhecido seu indicou.
- Muy amigo... Mas, de fato, não pretendo pensar em morte agora.
- Não, claro, não é isso, mas é uma coisa que pode acontecer, é bom se prevenir, deixar tudo organizado.
- Não, não, eu agradeço. O que eu quero hoje, neste instante, é fazer a minha ginástica, andar na esteira, relaxar, suar, durante uma hora ou mais. Eu quero respirar. Só isso, nada menos do que isso. Nada de antecipar a preocupação com a morte.
- Ah, sim, claro. Está bem. Conversamos em outra ocasião. Desejo-lhe muita saúde, muito obrigado. 

- É isso o que eu mais quero. Tudo de bom. Boa tarde.
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Meu sabiá

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
SÃO CINCO HORAS da manhã. Está chovendo. Escuto os pingos batendo no telhado. Estive até agora fazendo coisas, bicho da madrugada, lavei a louça da noite, depois li, fiz café, li, ouvi rádio, li, caminhei no escritório, li. Chove.
 
Sábado, 24 de novembro, 2018. Passo dos Ausentes. Vagamente iluminada pelos lampiões de luz nas esquinas mergulhados na neblina. O sabiá canta no quintal. Não sei como se defende da chuva, se é que o faz. É o meu sabiá.
 
De dia encontro-o no pátio andando com passo miúdo. É um sabiá comum e discreto. Escolheu viver no meu quintal que tem xaxins, roseiras, orquídeas, pinheiros, jasmins, flores de mel e mais.
 
Acho que ele fez ninho numa árvore perto da velha carroça no jardim. Ou talvez no desvão do sótão. É um inquilino querido. Inquilino, não. Habitante da casa e do quintal como eu. 
 
Provisórios, circunstanciais. Mas cantamos.
 

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Seco

Jorge Finatto

photo: j.finatto



SECOS PÁSSAROS dormem em ressequidos ninhos. Secas folhas de plátano se agitam contra o azul. Manhã silenciosa, bailarina morta na caixa de música, seca. Enferrujado relógio de parede, retratos na gaveta, tudo seco.

Secas lágrimas na face do vento.

Coração seco, boca seca, mãos secas. Secas palavras. Secas pétalas de camélia vermelha dispersas no chão. Secos dedos dedilham secas cordas de violino. Seco, seco.

Secos abraços unem os amantes. Secas velas movem as faluas do Tejo.

Secos olhos olham o pôr-do-sol no Guaíba. Secos, secos.

Secos homens invadiram as ruas da cidade, cometeram tristes barbaridades.

O milharal, tão seco, pegou fogo.

Sentimento e pensamento, secos. O sexo, sem ternura, seco, seco. As páginas do livro de poemas por escrever, secas, secas.

Seco olhar observa no fundo do espelho.

A esperança, um rio seco dentro do coração, talvez volte como a chuva depois do calcinado estio.
 
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Texto revisto, publicado em 23, maio, 2011.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Fora do poema tudo é caos

Jorge Finatto 
 
photo: j.finatto
 
 
Esta frase - FORA DO POEMA TUDO É CAOS - me saiu numa entrevista* ao jornal Zero Hora, de 1984, tendo como entrevistador o jornalista Danilo Ucha. Naquela época  ainda se entrevistavam poetas da aldeia na imprensa local.

Os meios de comunicação se expandiram, mas os espaços para divulgação de arte e literatura, fora do interesse estritamente comercial, diminuíram tanto que tenho dúvida se existem hoje entre nós.

A entrevista versava sobre o lançamento do meu livro Claridade, de poemas, selecionado para publicação dentro do Plano Editorial de 1983, da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Porto Alegre.

Consta, na abertura da matéria, que o autor era um jovem jornalista e poeta de 27 anos. Custo acreditar que já tive essa idade.

O tempo passa, a gente fica mais perdido, mas certas verdades permanecem. Está escrito que o poeta (aquele jovem poeta de 27) estava angustiado e perplexo "diante de uma realidade maluca, atrasada e violenta como a brasileira".

Também está dito que os poemas falavam de uma pessoa que "experimentou na consciência e na pele a dolorosa sensação de viver uma realidade sem perspectivas. Onde o indivíduo se sente arrastado pela opressão e sonhar é quase proibido. Onde viver se tornou a maior transgressão".

Nos poemas, apesar disso, "constata-se a convivência mais harmoniosa entre linguagem e vida. O mundo silencioso onde o real e o imaginário caminham juntos. Há uma integração profunda com a aventura humana. A palavra não salvará o homem, mas será sua projeção e seu espelho. Uma espécie de testemunha de seu próprio destino".

O poeta "trabalha com o poema numa região de luz, sem concessões ao desespero e à morte, acredita na força das coisas belas, na energia positiva das pessoas capaz de gerar zonas de intensa verdade e esperança.

"A fé na existência e no amor sobressai-se como o caminho destinado a vencer o escuro e a dor. O poder transcendente da vida sobre a morte, através da dimensão do amor, transforma e eleva".

Conclui o bardo de 27: "Nunca fiz literatura pelo simples prazer de escrever, ela surgiu na minha vida como uma necessidade inarredável, quase tão vital como respirar. Eu até preferiria viver sem escrever. O grande Manuel Bandeira disse certa vez que só se sentia seguro no chão da poesia. Eu sinto isso. Fora do poema o mundo é algo incompreensível e muitas vezes insuportável. É preciso criar tudo de novo, começar a vida das cinzas, renascer. Fora do poema tudo é caos".

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*Entrevista publicada no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 13.4.1984. A matéria foi feita pelo jornalista Danilo Ucha.
Texto publicado no blog em 18 de novembro de 2010. 
 

sábado, 10 de novembro de 2018

Jacó Guinsburg: belas páginas de vida

Jorge Finatto

Jacó Guinsburg. Divulgação
 

FICO PENSANDO: que bela vida teve Jacó Guinsburg, que nos deixou em 21 de outubro passado, em São Paulo, aos 97 anos. Nascido em 1921, em Riscani, Bessarábia, atual Moldávia, veio pequenino com a família para o Brasil, em 1924, e aqui se criou, viveu e trabalhou. De origem judaica, foi um dos nomes mais representativos da cultura e da produção editorial em nosso país nas últimas sete décadas.
 
Ralou um bocado, trabalhou muito. Construindo-se como pessoa e como profissional ajudou muitos outros a construírem-se também. Pensador, escritor, professor, tradutor, ensaísta, especialista em teatro, criou a Editora Perspectiva, das mais importantes já surgidas no cenário editorial brasileiro, com um catálogo brilhante e extenso de autores nacionais e estrangeiros, na área de humanidades.

Publicou escritores como Maiakóvski, irmãos Augusto e Haroldo de Campos, Umberto Eco, Antonio Cândido, Fernand Braudel, Décio de Almeida Prado, Scholem Aleikhem, Isaac Bashevis Singer e muitos, muitos outros.

Em 2012, ao ler a obra Tévye, o leiteiro, de Scholem Aleikhem, com tradução do ídiche, organização e notas de J. Guinsburg, escrevi uma resenha. A leitura deste livro extraordinário (vertido para o cinema com o título Um violinista no telhado, vencedor de três Oscar) fez com que mantivesse com ele contatos por e-mail. Revelou-se pessoa interessada, generosa e disposta ao diálogo. Para minha honra, a resenha foi publicada no site da Perspectiva.

J. Guinsburg foi um bem para o Brasil.  Semeou livros, ideias, saberes e beleza. Construiu numeroso patrimônio espiritual, levantando pontes entre culturas. Deixou-nos um legado e um exemplo luminosos. Escreveu belas páginas de vida.
 

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A fala de Pedrolino

Jorge Finatto

photo: j.finatto. Venezia. Os mascarados

 
PERTENÇO À ORDEM dos amorosos sem camélia.

Os que amaram e se pensaram amados sem o ser. Os que saíram cedo da festa. Os quase.
 
A dama. Meu coração perdido no infinito tabuleiro. O mundo é lugar de barbaridades. Dor, dores.
 
Chamava-se Alberta, Alberta de Montecalvino. Pertencia à nobre estirpe dos Albertos, de Passo dos Ausentes. Foi quando a vida aconteceu.
 
O sol brilhou entre as nuvens. Iluminou a escuridão da vida minha. O triste que eu sou.

A Commedia dell'Arte invadiu a minha existência. Pedrolino, Pierrô.
 
Estava na janela da mansarda, como sempre, olhando a vida passar.

Então ela atravessou a rua. Trazia a sombrinha vermelha, o vestido branco, laço azul na cintura. Os sapatinhos amarelos. Olhou pra mim e sorriu. Rasgou minha solidão.
 
Bailei no ar como folha de plátano no outono, lentamente fui cair a seus pés. Desci correndo, pulando os degraus da escada em espiral. Segui o inefável perfume. Enfim, alcancei a dama.
 
Perguntei se podia fazê-la feliz. Sim, sim. 

photo: j.finatto. Venezia
As iluminações.

Passamos a freqüentar a Praça da Ausência, nas tardes ocres daquele outono. Um dia peguei-lhe na mão. Meu coração cavalo louco. Não dormi durante três dias e três noites.
 
Alberta meu sentimento. Camafeu cravado em minhalma. Ela me deu o lencinho branco perfumado, a letra A bordada em lilás. Guardei-o num lugar secreto, bem no fundo de mim.
 
Aqueles eram dias de ora-veja.
 
A dama, o tabuleiro, eu nunca aprendi a jogar.

Não canto outros amores, que não os tive, e, se os tivesse, silenciaria.
 
Então Arlequim apareceu. Os ódios pularam dentro de mim.

Arlequim e seus guizos, seus versos de algibeira, sua palavra sem valia, seu alaúde. Ser miserável. Animal sem coração.
 
Arlequim disse coisas, deitou falas, expandiu-se em canções. Antes calasse.

Bazófias.
 
Arlequim se espalha no mundo. Faz ares. Blasona. Explorador de amores, ladrão de musas. Arrebatou o coração de Alberta, os suspiros. Até o corpo de violino, que eu nunca toquei, ele possuiu.
 
Eu calado sonhador do fim do mundo. Os devaneios da alma. Voltei só pra mansarda. Nem acreditei.
 
Quem me visse, a face esculpida da dor. Veio o inverno. Invernos.
 
O vero solitário da rua triste. O habitante da mansarda. O que olha a vida da janela. O que foi quase feliz.
 
O sem camélia.
 
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Texto publicado em 09 de junho, 2010.
Do livro Calado observador do fim do mundo. Editora Vésper, 2010, Passo dos Ausentes.
 

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Alvaro Moreyra e Drummond

Jorge Finatto

Alvaro Moreyra

Pareço-me com ampolas de injeção de bismuto. Tenho em mim as coisas necessárias. Mas preciso ser sacudido para que se misturem.
                                                      Alvaro Moreyra

ESCREVI uma biografia, talvez melhor dizer reportagem biográfica, do cronista, poeta e autor de teatro porto-alegrense Alvaro Moreyra (1888-1964), publicada em 1985.* Fiz o trabalho movido pela admiração que sentia pelo escritor e pelo ser humano Alvinho, como era carinhosamente chamado.
 
A admiração nasceu de uma crônica de Carlos Drummond de  Andrade (1902-1987), na qual o poeta de Itabira (MG) revelou que foi Alvaro, entre os autores nacionais, aquele que mais o influenciou nos anos de formação.

Ao ler os livros de Alvinho na Biblioteca Pública do Estado, ali na Rua Riachuelo, fiquei encantado. A elegância, sutileza, humanidade e ironia do seu texto vinham temperadas na experiência do homem vivido, cozido e recozido pela vida. Um belo escritor.
 
Fiz o trabalho de pesquisa em bibliotecas e hemerotecas. Não havia reedições de seus livros. Conversei com parentes dele em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. Entrevistei escritores como Jorge Amado e Guilhermino Cesar, entre outros.

Eu trabalhava nas horas vagas, no pouco tempo que sobrava depois da rotina diária como jornalista e funcionário público. Entrava pelas noites, madrugadas, fins de semana. Fui ambicioso, queria um livro abrangente do ponto de vista histórico-cultural e, ao mesmo tempo, próximo da vida rica em acontecimentos e realizações do biografado. 
 
Quando reli o livro depois de publicado, identifiquei algumas falhas de informação e erros de revisão. Embora não comprometam, na essência, o conteúdo, pois no fundamental o livro está correto, me incomodam. Queria a perfeição mas o resultado não foi bem esse. Fiquei um tanto decepcionado. O tempo e a experiência me ensinaram a ser mais humilde. O fato é que, às vezes, essas coisas acontecem. Fazem parte do processo. O negócio é corrigir os erros, aprender com eles, tocar em frente. Se um dia houver uma reedição, espero poder corrigir os erros, ou que outros corrijam por mim.

Carlos Drummond de Andrade
 
O produto final entregue aos leitores serviu ao objetivo de chamar a atenção sobre sua obra e figura humana. Tempos mais tarde recebi carta de Carlos Drummond de Andrade, que guardo como relíquia, na qual ele diz que o livro fez justiça ao Alvinho e teve o mérito de lembrá-lo às novas gerações. Acrescentou tratar-se de um escritor e um amigo de quem sentia grande saudade, e que o trazia na memória do coração. Só por este reconhecimento creio que valeu a pena.
 
Com este breve recuerdo quero homenagear, além de Alvaro Moreyra, o grande poeta Drummond pelos 116 anos de seu nascimento completados hoje.
 
Um abraço para além do tempo, com afeto e gratidão de leitor, a ambos.
 
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*Alvaro Moreyra. Coleção Esses Gaúchos. Editora Tchê!, Porto Alegre, 1985.
O crédito das fotos será dado quando conhecidos os autores.
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Os livros e a diáspora

Jorge Finatto
 
 

Fui buscar na LIVRARIA TRAÇA dois livros do escritor maranhense Josué Montello (1917-2006). Nunca tinha lido nada dele. Há muitos anos um amigo me falou bem desse autor e agora resolvi ir atrás. A Traça situa-se na Av. Osvaldo Aranha, bairro Bom Fim, em Porto Alegre, tendo em frente algumas das velhas e altas palmeiras que acompanham o longo traçado daquela avenida. Entre elas, no passado, corriam os bondes. 
 
Perguntei ao livreiro se o negócio de livros sofreu muito os efeitos da crise (econômica, política e ética) que assola o país. Ele respondeu que livrarias fecharam ali no Bom Fim (antigo bairro judeu) nos últimos tempos. Observou, ainda, que aumentou o número de pessoas que vendem suas bibliotecas. A Traça trabalha com novos e usados.
 
O incremento da venda de bibliotecas caseiras está relacionado a mudanças de endereço por razões econômicas. As pessoas vendem imóveis maiores para ir morar em menores. Não podem levar junto seus livros. As mudanças ocorrem dentro da própria cidade, em geral. Mas cresceu o número dos que vão embora do Brasil. 
 
Há uma espécie de diáspora brasileira que vem aumentando a cada ano. Muita gente busca fugir da crise e da falta de perspectivas, situação a que chegamos após muitos anos de má gestão e intensa corrupção. Quem parte para outros países não pode levar livros. Doloroso. Os livros são patrimônio espiritual dos indivíduos e dizem muito sobre quem eles são e como foram se construindo no tempo.

Os livros que adquiri na Traça são Diário da Tarde (1987) e Diário do Entardecer(1991), páginas de diários de Josué Montello. Comecei a leitura do Diário da Tarde e fiquei bastante impressionado com a qualidade do texto (conteúdo e forma) e com a ampla e generosa visão do escritor em relação à vida e à cultura.

Estou deixando para logo mais a leitura de Os Tambores de São Luís (1985), romance que trata da escravidão no Brasil, desde o cativeiro até após a abolição, que localizei em outro sebo. Dizem que é sua obra-prima. Não encontrei seus livros em edições recentes. Lembro que o autor foi bastante conhecido em vida, sendo inclusive membro da Academia Brasileira de Letras (o que, para muitos, é coisa importante; eu acho bastante duvidoso).
 
Um detalhe, um regalo. Diário da Tarde contém uma dedicatória. Não consegui entender direito o que está escrito, a letra é difícil e meus olhos não ajudam muito. Supus que era um livro dado de presente a alguém. Pesquisando informes sobre o escritor no Wikipédia, encontrei por acaso um seu autógrafo. Para minha surpresa, constatei que a dedicatória foi assinada pelo próprio autor.

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Os três livros mencionados são da Editora Nova Fronteira.
 

domingo, 21 de outubro de 2018

Outubro

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

É OUTUBRO. O jardim está florido outra vez. Respira cor, perfume. Uma ilha de delicadeza em meio a um país calcinado pelo ódio, violência, cinismo, corrupção.

Mas é outubro e o jardim floriu outra vez.  Vida que continua, apesar do medo que assola as cabeças, as casas, as ruas.
 
Não há de ser o fim do mundo (o mundo acabou faz tempo). Nem o fim da esperança (ela teima em não apagar entre as cinzas do estúpido incêndio).

É apenas mais um incêndio no meio do caminho. Mas o que é isso pra quem já superou outros e sobreviveu?

O verbo do Brasil continua a ser: sobreviver. Sobreviver aos tiros, aos socos na cara, às facadas, às ofensas à inteligência e à sensibilidade. Sobreviver às mentiras cuspidas todos os dias na cara da gente.
 
O ipê é amarelo, o céu é azul. Cada pessoa é parte de Deus, uma cor no belo arco-íris da criação. Mas é preciso merecer isso. Viver e seguir seu caminho é direito de todos. Só não pode querer, como muitos querem,  apagar a cor do outro.

Todos têm direito à sua luz.
 

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O medo

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

MEU medo
é adormecer um dia
de repente
e não te encontrar
nunca mais
Maria Izabel

entrar no bosque
álgido da bruma
profunda
varado
de tua ausência

se ao menos
tivesse
tua mão
amorosa
outra vez
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Montevideo: despacito suave suavecito

Jorge Finatto

charla en la Rambla. photo: jfinatto
 

GOSTO DE MONTEVIDEO. Me sinto bem caminhando por suas ruas de plátanos, praças, visitando seus cafés, livrarias, museus. Ando pela Rambla como um nativo do lugar, sem compromisso, sem paranoia, com o vento me empurrando feito um barco. 
 
Gosto de vagabundear sem medo pelas calles, onde em cada esquina se descobre um café, uma banca de jornal, pessoas conversando. Gosto de ver os velhos andando despacito, suave, suavecito, em qualquer hora do dia ou da noite, nas calçadas, entrando em restaurantes, sozinhos ou acompanhados, senhores de si.

Os criminosos cessaram aqui suas atividades e foram para outro lugar. Talvez para o Brasil.

Cafe Misiones. photo: jfinatto

Gosto de ler Galeano, Benedetti, Juan José Morosoli, Juan Carlos Onetti, Idea Vilariño, Felisberto Hernández, Mario Arregui. De passear pelas páginas terríveis dos Cantos de Maldoror, do famoso Conde de Lautréamont, o mais misterioso, espantoso, impressionante e cruel escritor do universo. Montevideano, claro.
 
Gosto de regressar ao quarto de hotel, echar una siesta, mientras escucho la Radio Babel. Con la lluvia en la ventana

Librería El Más Puro Verso. photo: jfinatto
 
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Radio Babel: