domingo, 7 de fevereiro de 2016

Souvenir de inverno

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto., fev. 2016, Suíça, Alpes

 
A vida são umas quinquilharias de viagem que a gente vai guardando nas gavetas da memória. Os dias são folhas caídas do calendário que o vento leva pelo ar. Depois já não estamos à janela.
 
Mas há essa sempre presente, irrecusável esperança de um amanhecer em meio ao treva-mundo. Uma janela de mansarda aberta ao sol, numa manhã de inverno. Como agora em Lucerna.
 
Uma mulher apareceu de repente, quando eu estava parado, na Ponte da Capela. Disse-me em francês germânico, olhando-me nos olhos: eu faço desenhos, senhor, e não comi nada o dia todo. O que eu podia fazer com essa aparição trágica? Perguntou se eu compraria um desenho seu.

Sim, sim, claro. Abriu a pasta e de lá retirou alguns. Escolhi um do Lago Lucerna, bonito. Solitário e bonito. Fazer desenhos dá mesmo fome. É como fazer versos. Viver de arte é uma danação, madame. Paguei os 15 francos suíços que pediu, porque a vida por cá é muito cara.

Ela me olhou admirada, agradeceu e foi-se na neblina. Eu permaneci ali, olhando a água azul.

Essas entidades aparecem do nada e puxam assuntos obscuros. Se eu não vivesse num lugar chamado Passo dos Ausentes, habitado por fantasmas, talvez me angustiaria.

O fato é que está todo mundo precisando de um aconchego. Os que mais precisam não se dão conta e fazem sofrer os outros.

Só os abraços ficarão.
 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A Coruja caiu do ninho

Jorge Finatto

uma das últimas fotos com a Coruja, em Jungfraujoch
 

Raro leitor, uma nota melancólica. Perdi a Coruja, ex-máquina fotográfica, quase um ser humano. Foi dentro do trem, na estação de Berna, cidade onde o linguarudo Albert Einstein formulou a Teoria da Relatividade, e onde existe hoje o seu museu. Me dei conta um tempo depois, já no caminho para Zurique.
 
Companheira de muitos anos, muitas histórias e viagens, perdi a graça e continuo meio perdido, embora saiba que a vida é feita também de perdas. No caso, um objeto material, mas cheio de prosopopeias e significados. Ela era uma extensão do meu olhar e do meu sentimento. Não sei se o serviço de trens da Suíça encontrará e me devolverá a Coruja.
 
Ela deve estar profundamente desapontada comigo, e eu também estou. Sabe-se lá onde está, com quem está agora (como na letra de Chove lá Fora, do grande Tito Madi).
 
Se for pra ficar na Suíça, que seja ao menos com uma boa pessoa, é o que espero. Neste momento, não ouso sequer cogitar trocá-la por outra.
 
Faz frio e sinto saudade, olhando a neve da mansarda. A esperança continua.

uma das últimas fotos com a Coruja
 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Caminhos brancos

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
As paisagens da Suíça chegam a doer nos olhos de tão belas. Este é o país dos rios e lagos abundantes, das fontes de água potável nas cidades. O país das montanhas verticais tocando o céu, da neve espalhada no inverno, das casas em estilo relógio cuco. Da cortesia, da familiaridade. Onde as coisas públicas são feitas para funcionar para todos, e bem.

A Suíça dos trens, sim, dos trens coloridos que parecem de brinquedo, circulando em toda parte, ondulando nos alpes e vales, cruzando pontes, encostando nas nuvens. Um país simples de se percorrer, pois tudo é bem explicado, pontual e, se o cristão se atrapalha, há sempre alguém por perto para tirar a dúvida, com educação e quase sempre com simpatia.

Passei o dia fazendo um passeio à montanha de Jungfrau, onde se situa a estação de trem mais alta da Europa, Top of Europe, em Jungfraujoch (passo entre as montanhas de Mönch e Jungfrau). A elevação alpina tem mais de 4 mil metros de altura. A estação está a 3.454 metros.
 
Chega-se lá depois de pegar três trens a partir da cidade de Interlaken onde estou. Como os suíços conseguiram construir estradas de ferro na borda de abismos desta magnitude é algo que espanta. Uma maravilha tecida por mãos e mentes obstinadas. Um prova de que o querer é a arma mais poderesa que um indivíduo e uma sociedade têm a seu dispor. E um monumento ao espírito humano.
 
Existe, nestas alturas solitárias, na imponência destas montanhas tapadas de chantili, uma ideia de que homem e natureza devem conviver e respeitar-se. E que ambos perdem o sentido quando rompem o pacto.
 

sábado, 30 de janeiro de 2016

Lucerna, für dich

Jorge Finatto

photo. jfinatto, 30/1/2016. Ponte da Capela
 
Lucerna é uma luz transparente se derramando no ar, é a velha Ponte da Capela (Kapellbrücke, de 1332), de madeira, atravessando o lago, com a Torre da Água ao lado, são as montanhas cobertas de neve no entorno azul e branco que emoldura a cidade.

Uma passagem de luz (como diz seu nome), um presente para os olhos e o coração. Um pedaço. Como dizem por aqui, onde se fala o alemão, um lugar für dich (para você).
 
No meio da tarde, ouço uns batuques de tambor e alguns instrumentos de sopro. Vou ver. É um pessoal jovem fazendo seu carnaval na rua. Carnaval de suíço, discretíssimo. Mas as fantasias são ótimas. 

photo: jfinatto, Lucerna, 31/1/2016
 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Viagem a Jungfrau (e a uma cidade secreta)

Jorge Finatto
 
montanha e vale de Jungfrau, Suíça*
 
Como em toda véspera de viagem, há uma ansiedade diante do desconhecido, embora a mala esteja pronta e tudo ou quase tudo esteja planejado. A sequência dos movimentos, como em uma sinfonia, ou num bom samba, está descrita nas páginas brancas do calepino. Mas há espaço para o inesperado e algum improviso.
 
Há algo que escapa ao controle numa viagem, felizmente. Na verdade, o controle é mais ilusório que real. E nisso muitas vezes residem as descobertas e alegrias do viajante. O avião levanta voo à noite. Depois de 11h35min pousa em Zurique. Zurique do Cabaret Voltaire onde nasceu o Dadaísmo há 100 anos, movimento artístico que hoje retorna.
 
Então fui ontem à livraria buscar leitura para as horas entre nuvens até a Suíça. Resolvi comprar outro livro de Oliver Sacks, tal a impressão que me causou seu Gratidão aqui comentado esses dias. Desta vez pesquei da estante O homem que confundiu sua mulher com um chapéu. Relatos de casos curiosíssimos envolvendo o cérebro humano. Nos ensaios o autor transcende o fato médico, dando-lhe feição literária. Acima de tudo, uma visão humana de pacientes e seus dramas. Para Sacks, o doente é sempre um ser humano e não uma coisa.
 
Levo também Como curar um fanático, de Amós Oz. E a indefectível Coruja (ex-máquina fotográfica, quase um ser humano).
 
No caminho uma parada na montanha de Jungfrau, perto da cidade de Interlaken, onde se situa a mais alta estação ferroviária da Europa Ocidental, a 3.571 metros de altitude.
 
E a visita a um amigo que vive numa cidadezinha alpina quase secreta, cuja população é de 156 almas! Ele me pergunta se eu viveria num lugar assim. Mas é claro. Nada de muito diferente para quem vive em Passo dos Ausentes.
 
Carrego na bagagem olhos de observador ávido e um coração disposto a sentir. Deus vai junto, claro.
 
___________ 
 
*site da photo:
 

sábado, 23 de janeiro de 2016

O salto no perau

Jorge Finatto

photo: jfinatto

A história de voar pendurado num guarda-chuva é muito antiga nos Campos de Cima do Esquecimento. Começou muito antes do livro e do filme de Mary Poppins.

Criou-se entre nós uma modalidade de voo que só existe nessa região do mundo: o salto de guarda-chuva no perau. Acontece há séculos no mês de novembro, com a chegada dos ventos de Finados com sua capacidade de sustentação de objetos voadores.

Os praticantes do salto não são poucos. Dirigem-se ao Belvedere da Ausência com suas umbrelas construídas por mestres na arte de fazer guarda-chuvas flutuantes.

Os umbreleiros verificam então as varetas, a lubrificação das junções, a higidez do material, o tecido e a segurança da estrutura. É necessário apresentar também um atestado de saúde. Uma vez aprovados piloto e objeto, segue-se a  apresentação ao supervisor de rampa para o pulo.

Depois, é só aguardar a autorização e lançar-se no espaço com as duas mãos seguras ao cabo. A flutuação é pra ser suave e dura cerca de 20 minutos até o Campo dos Girassóis no Vale do Olhar. No transcurso o piloto percorre 1,5 km precipício abaixo. Dizem - eu nunca experimentei, não sou louco - dizem que  a visão de quem faz o trajeto é maravilhosa, inesquecível.

Numa aldeia com poucas opções de lazer como a nossa, o salto no perau é certamente uma das atividades mais cultivadas. Além disso, é imemorial o apreço dos ausentinos pelos chapéus-de-chuva. 
 
Entre nós, um guarda-chuva fechado é sinônimo de mau agouro. É como uma pintura de Van Gogh virada contra a parede. É a Gioconda, de Leonardo, sem o famoso sorriso. É Dom Quixote indo sozinho pela estrada sem o Sancho.
 
Ninguém deve andar pela vida sem a proteção física e filosófica de uma umbrela. Nos dias de chuva e tristeza, porque chove e estamos tristes; nos de sol, porque faz sol e viver é o melhor que existe.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Gratidão

Jorge Adelar Finatto
 
Oliver Sacks. photo: Jurgen Frank/Corbis. The Guardian¹ 

Não consigo fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Amei e fui amado, recebi muito e dei algo em troca, li, viajei, pensei, escrevi. Tive meu intercurso com o mundo, o intercurso especial dos escritores e leitores.
 
Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal que pensa, neste belo planeta, e só isso já é um enorme privilégio e uma aventura.²
                                
                                          Oliver Sacks
 
A descoberta do escritor e médico neurologista britânico Oliver Sacks (Londres, 1933 - Nova Yorque, 2015) aconteceu na semana passada. Estava na livraria quando vi na estante seu livro Gratidão. Comecei gostando do título e de sua capa branca, enlaçada com uma linda ilustração em forma de cinta.
 
O formato delicado e as letras de bom tamanho (para quem usa lentes de fundo de garrafa é uma bênção) fizeram com que abrisse e lesse algumas linhas. Foi o quanto bastou para lê-lo de um só fôlego nos dias seguintes, sorvendo cada palavra com calma e meditação. Como passei tanto tempo sem conhecer este autor?
 
Continua em seguida (agora vou sair e dar uma caminhada neste fim de tarde).

Voltei. A obra compõe-se de quatro ensaios publicados originalmente no jornal The New York Times, entre 2013 e 2015, ano de sua morte, em 30 de agosto. Escritos nos últimos dois anos de sua vida, Oliver Sacks reflete sobre a vida, a velhice, a doença terminal e a morte. E o faz com sentimento, lucidez e generosidade, sabendo que estava próximo da maior perda que um ser humano pode experimentar, a própria finitude.
 
Não há melodrama nestas linhas, nem vulgar apelo à emoção do leitor. Mas o autor tampouco sonega seus sentimentos, não tem vergonha deles. Escreve com naturalidade, sinceridade, como se estivesse conversando com as pessoas no sofá de sua casa, a bela casa de sua alma.

São pensamentos de quem sabe que se despede da vida e que, tudo somado, só tem gratidão em suas derradeiras palavras. Não omite a dureza do vivido, mas sente que, acima de tudo, houve troca, gentileza, amor e dádivas recíprocas com seus semelhantes. Viveu e viver valeu a pena.

Com várias obras publicadas, professor emérito em sua especialidade, este cientista-poeta abriu caminhos. O livro Tempo de despertar, de 1973, inspirou o filme homônimo com Robert De Niro e Robin Williams (fazendo o papel do Dr. Sacks num hospital, história real e extraordinária).

A luz que dimana das páginas de Gratidão é daquela espécie que nos faz bem, que nos sereniza, que nos faz querer ser o nosso melhor, sabendo que cada um é único em sua passagem pela vida e tem uma contribuição importante a dar.

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¹ The Guardian
 
² Gratidão. Oliver Sacks. Tradução de Laura Teixeira Motta. pág. 30. Companhia das Letras. São Paulo, 2015.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Coração e vento

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

Para onde vão esses ventos andarilhos?

Depois do mergulho no Contraforte dos Capuchinhos e das subidas vertiginosas pelos paredões de basalto, onde se aninham esses pobres ventos desamparados?

Os sonhos que sonhamos, nos aposentos secretos da noite, e que, ao amanhecer, nos deixam, onde vão habitar?

E a página do caderno antigo onde escrevemos o mais puro verso, em que perdida gaveta se escondeu?

Em que caverna dormem as estrelas cadentes, depois que sua luz e seu calor desaparecem?

Para onde vai meu coração quando não estás mais aqui, quando as luzes da rua se apagam e não consigo mais sonhar?
 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Tresloucadas umbrelas

Jorge Finatto

Série Umbrelas. Jorge Finatto

O guarda-chuva é o melhor amigo do homem, junto com o cão. Ambos vêm depois, claro, do ser humano, este sim o primeiro e verdadeiro melhor amigo do homem, embora alguns tenham dúvida sobre isto.
 
Um sujeito desamparado e solitário encontrará sempre no guarda-chuva um companheiro valente e leal nas intempéries da vida.
 
Aqui em Passo dos Ausentes, as umbrelas são tão consideradas que ganharam uma grande escultura na Praça da Ausência, a mais importante (e única, aliás) da cidade.
 
Lembro, a propósito, que Oscar Wilde esteve em nossa aldeia esquecida especialmente para encomendar guarda-chuvas de nossos mestres umbeleiros. Veio para ficar poucos dias, e demorou-se por 40 amanheceres!

Os guarda-chuvas que levou (Wilde era colecionador), com suas iniciais marcadas no cabo de osso de anta âmbar, o acompanharam até o triste fim de seus dias, num pobre quarto de hotel, na Rue des Beaux Arts, 13, em Paris, não distante do Sena. Tão pobre que o teria levado a dizer, pouco antes de morrer: ou sai esse papel (horrível) de parede ou saio eu. Deixou muitas saudades, carinhos e bilhetes entre nós.
 
Objetos antiquíssimos, os chapéus de chuva têm uma dimensão onírica e simbólica. Podem significar proteção durante a travessia das dificuldades que a existência nos impõe. E um voo sobre os abismos da indiferença e da solidão. Além, é claro, da função primordial de abrigar-nos da chuva, da bruma líquida e do sol forte.
 
Tenho por eles, como todo ausentino, um afeto imemorial que remonta aos tempos do Dilúvio e que chegou até nós atravessando gerações.
 
No Café do Porto, em janeiro de 2016, expus a minha série Umbrelas, ao lado da outra, Visões da Serra. Duas em uma. Vejam o que disse, por e-mail, o poeta e amigo Ricardo Mainieri, após visitar a exposição:
 
Uma coisa chamou-me, logo, a atenção: as cores. Seja nas paisagens serranas, onde existem nuances de meios-tons, seja nas expressivas "umbrelas" tresloucadamente voando no céu.
Também é visível uma atmosfera de solidão e transcendência nas imagens da Serra e uma discreta alegria nas sombrinhas voadoras.
Pessoalmente, gostei mais das paisagens solitárias de nosso bioma interior. Elas me evocam um momento de reflexão e espiritualidade. Parabéns pela exposição.
 
O que pretendo com minhas fotografias? Passar um pouco de beleza e, talvez, felicidade para as pessoas, num momento tão difícil como o que vivemos. Um instante de leveza, luz natural, cor, ar fresco e poesia, elementos que habitam as coisas simples, os Fanicos & Farfalhas do mundo.

__________ 

Oscar Wilde em Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/03/oscar-wilde-em-passo-dos-ausentes.html 
 

domingo, 10 de janeiro de 2016

Café do Porto

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

Na próxima terça-feira, 12 de janeiro, inicia no Café do Porto (Rua Padre Chagas, 293, bairro Moinhos de Vento, Porto Alegre) a exposição fotográfica Fanicos & Farfalhas. Vai até o dia 02 de fevereiro. É a primeira vez que exponho minhas fotos em Porto Alegre.

Desci a serra levando 17 quadros divididos em duas séries: Visões da Serra e Umbrelas, com imagens que captei nos últimos tempos em Gramado, Canela, São Francisco de Paula, Cambará do Sul e Passo dos Ausentes.
 
Imagens colhidas com esmero e silêncio. Pássaros, céus, flores, lagos, plátanos, guarda-chuvas, bandeirinhas e mais o que habita o invisível. Se algum mérito há no trabalho, não é por certo deste interiorano fotógrafo, mero intermediário. O grande artista é quem criou tudo isto: Deus.

Fotografar é uma coisa que faço com grande prazer. Escrever é muito mais dilacerante que fazer fotografia. A fotografia, como a escrita, faz parte da vã tentativa de parar o tempo e aprisionar o transitório. A arte é uma busca de eternidade (isso de que somos carentes) e um jeito de reinventar a vida (insuficiente em sua rotina).

photo: jfinatto

A brevidade da vida é  algo assustador e não está de acordo com nossa ânsia de permanência, perceptível em tudo que fazemos.

Colhi as fotos com a amiga Coruja (ex-máquina, quase um ser humano), durante as caminhadas polifônicas. Se valeu a pena? Vi muitas coisas bonitas, respirei ar limpo, ouvi pássaros, encontrei animais (de gatos do mato a simpáticos quatis e tucanos, sem esquecer veados e o rugido de pumas em esconsas cavernas), conversei com gente. Vocês avaliarão o resultado.

Estão todos convidados.

Café do Porto. photo: jfinatto
 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Celebro a vida que virá

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto

Un petit espoir très féroce:
c’est moi!*
                                               Robert Lalonde

Ainda não nasci
sequer faço parte da paisagem
escuto uns gritos do outro lado: não estou

a sombra é apenas o começo
do previsível caminho
que vai dar na aurora

ainda não nasci
no entanto, é para breve

celebro a vida que virá
rompendo a escuridão
explodindo em alegria
como a primavera depois do inverno

sei onde isso terminará:
flor no extremo do ramo
beleza enchendo o vazio

faço do silêncio
um grande bosque
onde borboletas passeiam
pássaros inventam a claridade
com seu canto

imagina uma faísca que, súbito, paira no ar
uma palavra procurando um oco de boca
uma pequena luz que cresce: sou eu


_________

Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
*Uma pequena esperança muito feroz: sou eu. Da obra Une belle journée d'avance. Éditions du Seuil, Paris. 1986. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Le Havre, o porto do coração

Jorge Adelar Finatto
 
Marcel e Idrissa. photo: divulgação

 
Acabei de assistir ao filme Le Havre (O Porto), de 2011, 93 min, escrito e dirigido pelo finlandês Aki Kaurismäki (1957). Posso dizer que lavou a minha alma que anda desiludida com a raça humana. Está entre os melhores filmes que vi nos últimos anos.
 
A história se passa na cidade portuária francesa de Le Havre, à beira do Canal da Mancha, na Normandia, noroeste francês. Em grande parte destruída durante a 2ª Guerra Mundial, Le Havre renasceu, sendo um dos principais portos da Europa. Possui, além disso, a segunda mais importante  coleção de pinturas impressionistas, no Museu de Arte Moderna André Malraux (MuMa*), estando a primeira no Museu D'Orsay, em Paris. É também em Le Havre que o Rio Sena desemboca no mar.
 
Breve resumo: Marcel Marx, interpretado pelo excelente André Wilms, é um escritor conhecido mais pela vida boêmia do que por sua literatura. Um dia decide mudar radicalmente. Transfere-se para Le Havre onde se torna engraxate. Passa a levar uma vida muito pobre, que beira a miséria, mas digna e tranqüila, numa casinha humilde, numa rua obscura, ao lado da mulher Arletty (vivida pela atriz Kati Outinen). A vida transcorre sem sobressaltos, não obstante algumas situações humilhantes para o escritor-engraxate.
 
Um dia ele se depara com um imigrante africano ilegal, que faz parte de um grupo que viaja escondido a bordo de um container, num navio, em direção a Londres. No porto de Le Havre, os clandestinos são descobertos e presos pela polícia de imigração francesa. O adolescente negro Idrissa, interpretado por Blondin Miguel, consegue fugir.
 
Marcel acolhe o jovem e tenta protegê-lo da truculência das autoridades. Ao mesmo tempo, tem de lidar com a doença grave que acomete Arletty.
 
Idrissa e a cadela Laika, de Marcel. photo: divulgação
 
Não imagino de onde Aki Kaurismäki pescou o enredo, mas a história é de uma humanidade e de uma beleza raramente vistas. A rede de solidariedade que se forma entre Marcel e outras pessoas pobres do bairro para proteger Idrissa é de uma grandeza capaz de resgatar a fé na natureza humana. Mostra que o problema dos imigrantes da África e Oriente Médio na Europa vem de longa data, e quase sempre mal resolvido (lembremos que atingiu proporções terríveis em 2015). 
 
O filme comove, toca mesmo um coração de pedra. E faz refletir, mostrando que, apesar da brutalidade do mundo de exclusão em que vivemos, ainda há esperança. Tudo isso longe do clichê e do sentimentalismo barato. O desempenho de Jean-Pierre Darroussin, como comissário de polícia, é brilhante, assim como o dos outros atores.
 
Coisa digna também de admiração é a técnica de filmagem. Os enquadramentos originais e luminosos, entre closes, planos médios e longos, mais a seqüência sem ruídos e sem passagens toscas e bruscas, transportam o espectador para dentro da tela. O filme ganhou o Grande Prêmio da Crítica do Festival de Cannes em 2011. É uma obra de arte que recomendo vivamente.
 
 
_________

MuMa:
http://www.muma-lehavre.fr/
 

sábado, 2 de janeiro de 2016

De Mário de Sá-Carneiro para Fernando Pessoa


poeta Mário de Sá-Carneiro. fonte: jornal Público

Artigo do jornal Público, de Portugal, aborda o lançamento do livro Em Ouro e Alma, edição crítica e ricamente documentada da correspondência de Mário de Sá-Carneiro para o amigo Fernando Pessoa. A obra antecipa os eventos que marcarão a passagem do centenário do suicídio do poeta Sá-Carneiro, em Paris, aos 25 anos, em 26 abril de 1916. Pelas revelações que contém, esperamos que não tarde a ser editada no Brasil. O artigo, intitulado O suicida acidental, é de autoria de Luís Miguel Queirós.
 
"Este Em Ouro e Alma, que inclui ainda em anexo as poucas cartas de Pessoa a Sá-Carneiro que se conhecem e outra correspondência relacionada com os últimos dias do poeta em Paris, é apenas o volume inaugural de uma nova colecção, dirigida por Ricardo Vasconcelos, que a Tinta-da-China dedicará a Mário de Sá-Carneiro. Para o ano do centenário estão já previstos mais dois lançamentos: uma edição crítica da poesia, que deverá sair em Abril, e outra da prosa, prevista para o final de 2016."
 
O suicida acidental:
 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2016, coração mole, cabeça forte!

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

 
Raro leitor: eu não tenho ideia de quem são as pessoas que visitam diariamente o blog. Com exceção dos amigos da página, identificados na coluna ao lado, os demais são um grande mistério. Ainda que invisíveis, estão presentes como os outros. Isso que importa.

A você (visível ou invisível) agradeço a generosa companhia.
 
Desejo que todos vivam claros, bons e produtivos dias em 2016. Que tenham saúde física e espiritual. Que a alegria de viver e compartilhar esteja sempre presente ao longo do novo ano.
 
Não acredito em mudanças que não comecem pelo coração e pela mente de cada um. Aí que tudo se define. Se eu não mudo, a realidade não muda. O resto é parolagem de quem não se esforça por melhorar.
 
Que em 2016 a gente construa lindos momentos e belas memórias!
 
Um grande abraço.
 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A pintura do entardecer

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto, 30/12/2015


Estava chegando no escritório, depois de subir a íngreme escada Santos Dumont, quando o espetáculo do entardecer se anunciou pelas janelas, emoldurado a sul e oeste. Uma aquarela finíssima e delicada.
 
Bela pintura, imemorial e primitiva, criada para embelezar a vida de quem habita o planeta. Saí à varanda e comecei a fotografar com a emoção provocada pelo deleite estético.
 
O fotógrafo é um imitador. Nada faz além de registrar aquilo que outro criou. Neste caso, o autor é Deus. A Ele se devem todos os direitos autorais. E um grande agradecimento, nestas últimas horas do ano.
 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O apito do trem noturno

Jorge Adelar Finatto
 
trem da extinta Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Canela. photo: jfinatto
 
O trem noturno passava altas horas. A casa toda tremia. A casa da tia ficava perto dos trilhos. No pátio havia os cinamomos em flor. E o seu perfume iluminava as noites de novembro.
 
O noturno soltava o apito de aviso, "limpa trilho", porque havia naquela altura uma passagem cruzando a estrada de ferro. Onde aquele trem ia parar ao amanhecer? eu me perguntava. Em São Borja, em Santa Maria, em São Francisco de Paula? Ou quem sabe na gare distante da estrela Antares? O certo, porém, é que vinha das bandas de Porto Alegre.
 
Às vezes, de uma janela acesa alguém olhava em direção à casa da tia, verde, larga e comprida, no alto da colina. O observador era um passageiro que perdeu o sono talvez. O que veria? Nada além das poucas luzes dos postes. A cidadezinha inteira dormia. Nela não havia sequer estação de trem.
 
Eu ficava acordado até a hora do noturno passar. Os outros habitantes da casa ressonavam.

Viajar de trem pelo meu país foi um dos meus sonhos de guri. Mas o governo acabou com os trens de passageiros no Brasil. Uma entre tantas decisões inexplicáveis, à luz do bom senso, que atrasaram por décadas a Terra de Vera Cruz.

Acredite: este país continental não tem trens de passageiros. As poucas exceções são os metropolitanos, muito ruins por sinal e de itinerário reduzido, nas cercanias de algumas capitais.

Um dia, para amenizar a saudade, embarquei num comboio em Lisboa. Era por volta de 16h de um dia de inverno. Ao anoitecer ele ingressou na Espanha. Não dormi a noite toda. Da minha janela acesa, não queria perder nenhuma das estações.

Uma mistura de melancolia e ternura eu senti ao atravessar de madrugada as pequenas cidades. Ao amanhecer, na fronteira com a França, houve troca de trem em direção a Paris, onde desembarquei em torno de 15h.

Foi uma viagem sentimental por cidadezinhas esquecidas no mapa. Como aquela da casa da tia, por onde passavam trens que nunca paravam.
 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Navegações

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto


Não existem chegadas
e partidas definitivas
rijos itinerários nascidos
na rota turbulenta
dos abismos


o que há é esta
necessidade de navegar
que começa não sei
em que rio
ou fundão
e depois se expande


um dia toda busca
cristaliza
e se pode, enfim,
recolher as velas
no porto do outro
mundo


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Poema do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990. 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal do sentimento

Jorge Adelar Finatto
 
Nasceu Jesus. pintura do holandês
Geertgen Tot Sint Jans (1460-1490).
  fonte: casa.abril.com.br *


A felicidade do Natal está no sentimento que este dia traz, não nos presentes. 
 
O espírito humano não se contenta com coisas materiais. Para uma pessoa que não despreza sua espiritualidade, cada dia é uma procura incessante de sentidos para a vida.
 
A felicidade do Natal está em trazer à memória, de forma muito viva, a figura de Cristo. O que ele trouxe de revolucionário, simples e verdadeiro.
 
Eu lhes dou um novo mandamento: Amem uns aos outros; assim como eu amei vocês, amem também uns aos outros. (João 13:34)
 
O Natal traz a lição do amor ao outro.
 
A lição da compreensão, da redenção pelo perdão. Perdoar, ser perdoado. Não humilhar, não destruir, não matar, não roubar. E ter presente a existência de Deus.
 
A tristeza do Natal, na vida de muitos, vem da ausência de pessoas com quem compartilhar.

O amor humano, de que tanto o planeta está carente, é o que mais falta nos faz.
 
Cristo nos aponta o caminho do afeto para construir o mundo. Não encontrei até hoje, em nenhum sábio, poeta ou filósofo, síntese ética mais reveladora e profunda.
 
Que tenhamos amor suficiente neste Natal. E consolo para os tempos difíceis. Afeto para encher o coração triste. Para acolher e sermos acolhidos.
 
A respeito de quem é realmente o nosso próximo, vale a pena ler a breve e transcendente passagem de Lucas 10:29-37.
 
Feliz Natal a você, Feliz Natal a todos!
 
_________

*site casa.abril.com.br: Natal: o nascimento de Jesus segundo grandes pintores
http://casa.abril.com.br/materia/natal-nascimento-de-jesus-pinturas#6

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A vida é bela

Jorge Adelar Finatto

Paulo Corrêa Lopes. Bico de pena de Alice Soares
 
                             
                              Conselho
 
                              Quando fores pela estrada
                              anda com cuidado
                              para não matares as formigas.
 
                              A vida é tão bonita! 
                                                        Paulo Corrêa Lopes ¹
 

Às vezes penso que não existem mais poetas no Brasil. (Poetas são essas estranhas criaturas que traduzem em palavras a poesia existente no mundo, desde a criação.) O fato é que não encontro bons livros de poemas nas livrarias. Pode ser que haja príncipes poetas escrevendo a essa hora para as gavetas, sem ocasião nem lugar para divulgar seus versos. Quem sabe? A poesia, afinal, não desapareceu.
 
Contudo, os tempos não estão para escrever versos. A realidade é dura, triste. Estamos partidos, estilhaçados em meio à dor, mergulhados em preocupação e medo. Basta olhar o Brasil e seu grande desastre ético, econômico e político. Os efeitos mal começam a ser percebidos. A esculhambação é tamanha que, em 2016, haverá talvez imensas saudades de 2015.

A violência estrutural da sociedade brasileira começa lá no alto, no último andar, e desce escada abaixo. O que será amanhã? Ninguém sabe.  O certo é que não será um tempo de amenidades e, provavelmente, não será de justiça. De qualquer forma, a vida é sempre bela e viver é uma imposição que não admite adiamentos nem recusas.

Mas eu estava então no escritório à procura de algum poeta do passado. Vasculhava as estantes onde estão os livros que me acompanham desde a adolescência. Aquele tempo em que eu era muito só e muito pobre. De vez em quando conseguia juntar uns trocados para comprar um livro em alfarrabista.
 
                               Na luz daquela estrela
 
                               Deus estava na luz daquela estrela,
                               nas águas daquele rio,
                               no sonho daquela flor,
                               e tu passaste tão distraído
                               que não viste Deus.
                                                                       PCL ² 
 
Aí encontrei a Obra Poética de Paulo Corrêa Lopes (1898-1957), gaúcho natural de Itaqui (fronteira com Argentina). Reli alguns dos seus poemas, nos quais fluem esmero, economia verbal, simplicidade, engenho e poder de comunicação. Lidos hoje, não causam desconforto ao leitor, quer pela forma, quer pelo conteúdo.

O estranhamento está na impressionante atualidade de sua linguagem. Dele diz Guilhermino Cesar na apresentação: Submeteu-se a uma disciplina de poupança, podando e repodando os seus versos, para livrá-los do acidental e do acessório. ³

As composições de PCL não sofrem o desgaste do tempo. Atravessam os anos com a mesma frescura de quando foram escritas. Talvez porque digam muito de perto e de forma certeira ao nosso coração. Nelas não vemos pose de poeta, nem saltos ornamentais, nem vontade incontida de agradar aos ouvidos do distinto público. O seu canto nasce de profundas e cálidas fontes, aflorando em água límpida e vitalizante.
 
                              Vida
 
                              Não sei nada da vida
                              canto apenas a hora que foge.
                              Deve haver qualquer coisa de pássaro e de rio
                              no meu destino...
                                                                PCL 4
                                  
Ninguém fala mais nele, nenhum jornal ou revista põe atenção nos seus poemas. É pena. Estão privando muita gente da arte dele e de muitos outros. Os poetas, entre eles Paulo Corrêa Lopes, são guardiões de uma poesia essencial que teima - felizmente para nós - em não morrer.


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¹,²,³, 4 Obra poética. Paulo Corrêa Lopes. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1958. A bela capa é obra do artista Glênio Bianchetti.