quinta-feira, 14 de maio de 2015

Passos de algodão

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto. Alziro em pessoa


Depois de longa e sentida ausência, ele retornou ao convívio das tardes no escritório. Conheço meu amigo de outros outonos.

Partiu no verão sem dizer nada, tão ao seu estilo, e me deixou aqui todo esse tempo, sem poder ouvir sua voz cava, sem poder ver sua plumagem luminosa, seus olhos redondos e espertos.

Sempre sinto falta do olhar de banda e da maneira estrambótica de aterrissar num só pé na varanda do escritório.

Alziro, o tucano, tem temperamento forte e, às vezes, um certo mau humor, quando o tempo está pra chuva.
 
Ele voltou com suas cores vivas para amenizar as perdas cromáticas da estação. Eu andava mesmo precisado de sua companhia, confesso. Não que ele converse muito, é até meio calado. No fundo, nem é isso o mais importante.

A silenciosa presença do amigo, sabê-lo perto, partilhando a vida, é motivo de consolo e esperança. Homens e aves podem se entender muito bem e viver no coração uns dos outros.

Providenciei hoje a reposição de pedaços de banana no pratinho dele, fruto muito do seu gosto.

Em certos dias, Alziro deixa a cerimônia de lado, entra no escritório andando em passos de algodão. Ensaia uma pequena incursão no ambiente.

Olha o teto, os lustres, a mesa, os livros, os quadros, as plantas e relógios, tudo com silenciosa atenção. Faço que não percebo para deixá-lo à vontade.

E, do mesmo jeito que chega, ele se vai embora. Como sempre, não se despede e nem diz quando voltará. Alça o improvável voo adunco e parte rasgando o ar.

O que importa, diz meu coração, é que a velha e boa amizade está rediviva. Se tudo der certo, talvez ele retorne amanhã. Ou quem sabe outro dia. Só espero que não me falte por tão longo tempo, porque meu inventário de ausências já vai numeroso na vida.

Amar traz consigo, sempre presente, o risco de perder.

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Texto publicado em 24 de agosto, 2010.
 

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Manhãs de bruma

Jorge Adelar Finatto

Estação Hidráulica Moinhos de Vento. photo: jfinatto
 
Andamos pela vida
como seres
de pedra

habitamos as noites
de vento
as manhãs de bruma
nos acolhem
no manto líquido

trazemos
o olhar parado
em algum lugar
do passado

a memória amputada
o semblante malferido
uma rosa desfeita
povoa o peito

algo se perdeu
algo desmoronou
o coração abandonado
ficou seco

nas praças de Porto Alegre
a saudade dos encontros

o rosto pintado
os dedos finos
entrelaçados
                         na névoa

eis que do fundo turvo
surgem os primeiros
traços do sol

renascemos da treva
ressurgimos do pó

o corpo leve
agora dança
na busca de infinito

por um momento
a beleza
o encanto
a harmonia perdida

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Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

sábado, 9 de maio de 2015

As intermitências da primavera

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Clara Finatto
 
 
O amor - ou esse sentimento que aproxima pessoas solitárias e desamparadas como ele - inaugurou datas no calendário, pintou de lilás e rosa o coração.

O amor tocou músicas no som do carro e do apartamento. O amor pintou de azul e amarelo as flores do vaso da sala. O amor tornou-o uma pessoa melhor para si e para os outros.
 
Um dia, talvez, ela, que gostava tanto de gatos, regressará da nuvem onde foi habitar. Virá buscá-lo, como sempre fazia, para irem juntos ao cinema, ao café, à livraria, ao Parque Harmonia ver o pôr-do-sol na beira do Guaíba.
 
Ela foi o único ser humano que conseguiu resgatá-lo da remota ilha. Morreu há três anos de uma doença que não vale a pena lembrar, foi embora depois de sorrir e dizer que ele não devia se preocupar, tudo ia dar certo. Perdeu-a pouco antes de irem morar juntos.
 
Sente-se um morto-vivo sem aquela que o salvou da solidão de náufrago.  Ela foi a sua primavera.

Uma colega de trabalho disse-lhe que ele é muito certinho. A vida, não.
 
O fato é que, um dia, ele sonhou ser feliz para sempre. Mas a realidade disse que para sempre é tempo demais.
 
A família que, no passado, foi unida, agora vive dividida, os irmãos quase não se convivem.
 
A mãe, que em vida tecera com dedos de fada os frágeis laços do afeto familiar, também morreu antes do tempo. Ninguém a substituiu na rara arte de evitar e, sobretudo, de colar os cacos. Os cristais se partiram.
 
Ele voltou a viver no ermo distante da ilha. Tornou-se um estrangeiro em sua própria cidade. Os antigos amigos transformaram-se em conhecidos, foram casando, criando filhos, separando, mudando de rua, de bairro, cidade, país.

O seu mundo reduziu-se ao apartamento, ao trabalho, às idas ao mercado, às leituras, a uma eventual saída aos sábados e às impiedosas tardes e noites de domingo.
 
Teve poucos relacionamentos depois, coisas entediantes, sem nenhuma importância. Não consegue fazer o tipo leve, desses à vontade no mundo. Gosta de pensar, procurar sentidos. E não os encontra.
 
Sexo de ocasião nunca foi pra ele. Tem receio das pequenas e delicadas memórias que o invadem, quando a dona delas vai embora. O que para muitos é pura diversão, para ele é vertigem. Se ao menos não sentisse tanto as coisas.

O lugar onde vive - a longínqua ilha - só não é uma tapera porque a velha empregada da família aparece duas vezes por semana, dá um ar doméstico ao tugúrio. Os únicos seres vivos ali, além dele, são as hortênsias que cultiva na sala, em dois vasos, um em cada lado da janela.
 
As hortênsias acendem as manhãs de verão, iluminam a casa.
 
A janela é o ponto de referência dele no planeta.
 
Dali pode ver a praça e as pessoas nela, as árvores e a rua, o céu, os outros edifícios.
 
De qualquer parte do universo um observador pode tê-lo como objeto de estudos. Todos os dias, no fim da tarde, está na janela tomando chimarrão. Só.
 
No fundo, nunca a perdoou por tê-lo abandonado no mundo.
 
O medo de amar afeiçoou-se a ele como as heras num túmulo de cemitério do interior.
 
A solidão o faz acariciar o gato invisível, na frente da televisão, até adormecer.
 
Se fez acompanhamento psiquiátrico para esse viver tão desolado? Sim. Mas continua o mesmo homem enclausurado, estranho a si mesmo, sem saber o que fazer com as mãos quando está sozinho.

O outono chegou com um cesto florido de lembranças dela. Vive de memória.
 
Os dias chuvosos, frios, deixam as pessoas entocadas em casa.
 
A praça está vazia agora. Recorda-se dos dias em que caminhavam juntos ali.

A ausência da primavera faz o coração girar louco na ventania.
 
Se ao menos tivesse um gato de verdade. Se não houvesse essa lua enorme no céu.

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Texto revisto, publicado originalmente em 17 de fevereiro, 2010.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Heráclito e o espelho

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto. vôo sobre o Guaíba

 
Heráclito de Éfeso (540 - 480 a.C) disse que ninguém entra ou se banha no mesmo rio duas vezes. A aguda percepção de pensador, que não só pensava como vivia o pensamento, referia-se ao fato de que tudo muda incessantemente, o homem, o rio e todas as coisas.
 
Para o filósofo, tudo está em movimento. O mundo é a unidade dos opostos. Dia e noite, sol e chuva, doença e saúde, agudos e graves, macho e fêmea, inverno e verão, guerra e paz fazem parte de um todo.
 
Heráclito acredita, porém, que um pensamento sábio governa tudo. Há uma justiça no cosmos que orienta o destino dos seres e dirige a vida. Os eventos ocorrem na hora certa.
 
Nós não somos sempre os mesmos, mudamos, conforme o velho filósofo. O nosso corpo muda constantemente através das células, o pensamento ganha altura por meio da contemplação, da meditação e da ação.

No que me concerne, diante de minhas notórias limitações, espero que as mudanças me levem a ter mais sabedoria, mais esperança e mais bondade (que a maldade está sempre de prontidão e agindo em toda parte).
 
O rio não é o mesmo. O tempo escorre, eterna mutação, areia descendo na ampulheta.

Alteridade sempiterna das águas, o vôo premonitório das aves.
 
Nada é o mesmo. Não cessamos de mudar. (Só na morte não há transformação.) 
 
Às vezes, diante do espelho, pergunto quem é aquele que me observa do outro lado. Será mais feliz do que todos os que vieram antes dele? Estará mais só? Terá as mesmas dúvidas? Ainda quer mudar a vida, fazer coisas novas?

Ninguém se vê duas vezes do mesmo modo no espelho, caro Heráclito. É sempre outro que está lá.
 
Essa manhã, quando mirei o espelho, o estranho nem sequer me olhou nos olhos. Tomou café, escovou os dentes, fez a barba automaticamente, passou a mão nos cabelos, arrumou a gravata e foi por seus caminhos. Passou o dia distante de mim. Longe, longe. Um perfeito estranho mora no meu espelho.
 
Num momento em que ele se distraiu, olhei através da janela do gabinete e vi um pássaro atravessando o céu sobre as águas do Guaíba.

E vi também belas nuvens brancas cruzando o rio. À medida que passavam, sua forma, sua cor e seu interior foram mudando, até que veio a chuva. O outro sentiu desalento. Eu fiquei feliz, porque a chuva me dá felicidade.
 
É impossível deter esse rio, essas nuvens, esse pássaro, esse outro que me escapa no fundo do espelho e teima em me levar por caminhos onde não quero ir.

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Informações sobre Heráclito em Dicionário dos Filósofos. Denis Huisman. Livraria Martins Fontes Editora Ltda. São Paulo, 2004.
Clique sobre a imagem e veja mais detalhes. Texto revisto, publicado antes em 7, fev, 2013

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Recado a Tito Madi

Jorge Adelar Finatto

imagem de capa de cd
 

MEU CARO TITO. Hoje faz um daqueles frios glaciais em Passo dos Ausentes. O fogão a lenha está aceso, como da vez em que estiveste aqui, e o pinhão cozinha na chapa.

Pra completar, chove lá fora... Uma chuva intermitente, álgida, que me lembra teus versos na inesquecível Chove lá fora.
 
Com saudades do amigo, coloquei o disco a tocar tuas músicas: Balanço zona sul, Cansei de ilusões, Gauchinha bem-querer, Não diga não, Há sempre um amanhã, Dançador e tantas outras.
 
Além das belas melodias, as tuas letras (poemas musicais) respiram sentimento, harmonia, sofisticação, elegância. E a tua voz cálida e doce vibra na exata medida, entre samba-canção e bossa nova. É sempre uma maravilha te escutar.
 
A delicadeza da obra tem a ver com tua ascendência árabe (filho que és de pai libanês) e com o jeito brasileiro de ver o mundo. Nasceste em Pirajuí, interior de São Paulo, em 1929. No registro de nascimento está escrito Chauki Maddi. Mas és, de fato, o nosso Tito, Tito Madi, grande compositor e cantor do Brasil.
 
Ouvi dizer que Carlos Drummond de Andrade admirava teus escritos vertidos em letras de música. Não surpreende, diante de tanta qualidade.
 
Entre os que cantaram tuas canções, estão Agostinho dos Santos, Elizeth Cardoso, Maysa, Ivon Cury, Dolores Duran, Maria Bethânia, Wilson Simonal, Leny Andrade, Caetano Veloso, João Gilberto. Entre os parceiros, Mario Telles, Georges Henry, Paulo César Pinheiro e vários outros.

No ano 2000 (foi ontem, Tito), perguntado sobre como te sentias pelo fato de muita gente considerar Gauchinha bem-querer uma composição folclórica (é uma das mais belas músicas já escritas tendo o Rio Grande do Sul por tema), assim respondeste, em memorável entrevista ao Caderno de Literatura nº 7, da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul:
 
- A minha música, de fato, já quase virou folclore gaúcho. Fico feliz com isso. Porto Alegre me deu essa extraordinária oportunidade de homenagear o querido Estado do Rio Grande do Sul. A canção nasceu da grande paixão pelo Rio Grande e pelos grandes amigos que aí conquistei. Entre eles, os integrantes do conjunto Norberto Baldauf, Adão Pinheiro - um dos maiores pianistas do Brasil -, Salimen Júnior, Glauco e Primo Peixoto.
 
Uma pessoa generosa, discreta, amorosa. E um senhor criador. Essa a imagem que guardo do artista - e do ser humano -, daqueles encontros aqui na Serra, em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. Nada a ver com vaidade, com caras e bocas, com umbigo no centro do mundo.

Uma pessoa, enfim, de quem sinto muitas saudades (assim mesmo, no plural) e a quem mando um grande abraço. 
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sábado, 2 de maio de 2015

O sino, a solidão, o vento

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto


Lá fora canta
o sino de bambu
açoitado
pelo vento.

Aqui dentro
a solidão
toca
seu instrumento.
 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Tempo de reescrever o país

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

Aqueles que lutaram de coração aberto e sem interesses mesquinhos pela democratização do Brasil não podiam imaginar que gente inescrupulosa se valeria da democracia, duramente conquistada, para assaltar o país.

Os que roubam a nação, ou permitem que a roubem, são os maiores inimigos dos direitos do cidadão, da justiça social e da liberdade.

Se o país não tivesse a corrupção que o assola, estampada ad nauseam nos meios de comunicação, os brasileiros teriam qualidade de vida igual ou superior à das nações mais desenvolvidas. Mesmo com os atuais 200 milhões de habitantes.
 
Porque aqui se trabalha muito, se produz muito, pagam-se oceanos de impostos. Temos território, recursos naturais, miscigenação, multiculturalismo. A imensa maioria das pessoas quer estudar, realizar projetos, transformar.
 
Mas aí acontece esta tragédia que é a corrupção com dinheiro público, nunca tão escancarada. Por suas enormes dimensões e implicações, atinge e penaliza toda a sociedade.

É impressionante o que se vê. Para tentar corrigir tantos abusos e desmandos, fala-se, eufemisticamente, em ajuste fiscal. Isto é, entrega-se a conta desumana para o cidadão pagar.
  
Estou numa altura da vida em que não posso me dar ao luxo de perder a esperança. É tarde demais pra isso. Preciso acreditar que as coisas vão melhorar.

Confio, portanto, que o Brasil sairá dessa, porque o povo é sábio e não se deixará enganar por quem lhe traiu a confiança, tenha as cores que tiver, seja do partido político e da ideologia que for.
 
Está em nossas mãos construir um país mais justo, começando por dizer não à corrupção e a toda forma de desonestidade, mentira e violência. É nas pequenas atitudes de cada indivíduo que vamos mudar esta realidade.
 

domingo, 26 de abril de 2015

Momento

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto


A passagem vertiginosa do tempo está aí para provar que certas coisas não valem a pena diante da precariedade de tudo, a começar pela condição humana. Não fosse por outra razão, só isso já seria motivo para uma vida mais em harmonia consigo, com o outro, com a natureza. 
 
Sentimentos como ódio, rancor, inveja, raiva, indiferença, só atrasam nossa transitória viagem. O culto da vaidade e da posse de coisas materiais não é boa companhia. O egocentrismo apaga o outro, retira o ar do ambiente, ofende, instaura a dor.
 
Eu não aspiro da flor mais que o perfume numa praça de cidade do interior.
 
Todas as horas de todos os dias são santas. Todas as manhãs, tardes e noites, mesmo as mais escuras, são santas. Todas as madrugadas em claro, diante da janela, esperando a estrela cadente passar.
 
Não quero da branca nuvem mais que o doce algodão.

Vou saboreá-la em sentimento, aqui mesmo no chão, tão provisória e frágil contra o fundo azul.

É tempo de viver outra vez. Reconstruir um país.
 
O sol de abril ilumina os pássaros e seu livre canto no galho da árvore já sem folhas.
 
Os suicidas desistiram do gesto fatal, foram caminhar entre os pinheiros.
 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Falls

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Agora as folhas caem, Maria. Abril das passagens e dos mistérios. Ouço o ruído seco que fazem ao deslizar entre os galhos.

É bonito vê-las escorregar no ar. Elas me lembram coisas que caíram um dia no pátio do meu coração e o vento levou. Algumas tão silenciosamente que nem percebi.
 
Trago essas perdas espalhadas dentro de mim. Sou feito dessas ausências e silêncios. Vou em frente.
 
O outono carrega reminiscências em seus velhos baús de madeira. Traz um desmesurado apego aos ocres, amarelos e dourados. Essas são as cores da mutação. 
 
Eu vou sem medo pela estrada de terra, Maria. Vou olhar o caminho do sol.

O tecido de seda da tarde de outono.

Os passos andarilhos. As quedas das folhas.
 
Gosto de sentir o sol em meu peito. Ele entra no meu coração e ilumina todas as coisas. Algumas eu nem lembrava mais.
 
A luz cálida da tarde se mistura ao sangue. Então não há tristeza que faça sombra à alegria de estar vivo.

E é como se as folhas se levantassem do chão e, douradas, saíssem em bando pelo céu azul.
 

terça-feira, 21 de abril de 2015

O designer do universo

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto


Escrevi há alguns dias sobre a estranha flor que apareceu no meu quintal (essa aí da foto). Me causou intensa impressão estética. Um achado.

No encanto polifônico que me provocou, cheguei a pensar tivesse caído de uma estrela.
 
Nos dias que se seguiram, descobri que é uma flor muito nossa: nada mais, nada menos, do que a querida flor de maracujá. Era uma flor comum na minha infância. Agora anda sumida.

Como pude esquecê-la?

O tempo e o duro presente estarão apagando em mim a memória das coisas belas? Estarão secando as fontes das ternas lembranças?

Onde andará o som alegre do riacho atravessando as manhãs?

Estarei com lapsos típicos de tiozinho? Ah, não, não permita Deus.

Espero que o Grande Designer do Universo mantenha acesas as lanternas que alumiam as recordações no sótão da memória. Peço também que renove as seivas e as esperanças, e releve meus esquecimentos. E continue plantando suas raras flores no meu quintal. 
 

sábado, 18 de abril de 2015

Nos cafés da vida

Jorge Adelar Finatto

Cômoda onde Fernando Pessoa escreveu muitos de seus poemas.
Casa Fernando Pessoa, Lisboa. photo: jfinatto, 2011.
 
O que é uma boa mesa num café? É o contrário das mesas de muitos cafés parisienses no Quartier Latin e Saint-Germain-des-Prés. Algumas são tão próximas que nos obrigam a ouvir os pensamentos do vivente ao lado.

Os cafés de Paris podem até ter mais charme do que os nossos, mas aqui temos mais espaço. Eu troco o glamour por um pouco de intimidade.

Um bom café deve ter qualidade no produto e bom atendimento. A receita é simples. Além disso, acho importante que a mesa tenha claridade suficiente para leitura e que, da janela, se possa olhar a rua.  Mas, se não for bem assim, não tem problema. O que importa é estar no café.
  
Só uma coisa neste vasto mundo me tira a graça: gente grossa. Não suporto, por exemplo, esses que falam alto ao celular, como se todos em volta tivessem de compartilhar seus assuntos. Por favor, não me contem, eu não quero saber. Não gritem no meu ouvido, tenham piedade!
 
Em certo café, que visito quando estou em Porto Alegre, há um garçom intelectual. Como eu invariavelmente estou com um livro sobre a mesa, ele invariavelmente pergunta o que estou lendo. Eu aprecio o interesse.

Na semana passada, respondi que estava lendo Nada de novo no front, do escritor alemão naturalizado norte-americano Erich Maria Remarque (1898-1970). Uma obra clássica sobre a brutalidade da guerra e a desumanização, ambientada na 1ª Guerra Mundial.

Ele aprovou a minha leitura. Em seguida perguntou se eu tinha lido As benevolentes, do americano Jonathan Littell (n. 1967), cuja narrativa se passa na 2ª Guerra Mundial. O autor escreve em francês e conquistou com esse livro o importante  Prêmio Goncourt.
 
Respondi que não conhecia. Ele afirmou que isso era uma falha de leitura, eu precisava sanar. Pegou um guardanapo, retirou a caneta do avental e escreveu o título da obra, o nome do autor e me entregou resoluto. Eu elogiei a sua bonita caligrafia. De lambuja, ele falou que tinha lido o tal  livro em francês mesmo, porque considera o inglês (para o qual foi traduzido) uma língua vulgar.
 
- Se nada neste mundo é perfeito, por que a língua de Shakespeare seria?... - perguntou meu coração lacunoso.

a cômoda de FP

Ele foi atender outras pessoas. Eu fiquei ali com aquela anotação na minha frente, apontando a lacuna literária que carrego desde tempos imemoriais. Imagine se o culto garçom soubesse que há bibliotecas e hemerotecas inteiras que nunca li nem lerei.
 
Não li sequer todas as revistas em quadrinhos do Recruta Zero, uma das minhas devoções, nem as do Hagar, o horrível. Li, porém, muitas aventuras do misterioso Fantasma, o espírito que anda. Mas isso faz tanto tempo que parece que foi em outra vida.

Ao contrário dos que dizem que leram tudo - ou quase tudo - (e eu acredito sempre no que me dizem), eu li só e apenas uma parte.

Li, profissionalmente, livros de Direito a maior parte do tempo. Nas horas que restavam, sempre escassas, li menos do que gostaria. Hoje dedico-me a leituras não profissionais. O que me valeu foi que, antes de mergulhar no Direito, li muito outros livros. Isso ajudou bastante.

Sou grato às sugestões literárias. Elas são oportunidades de abrir caminhos. Mas estou um pouco crescidinho para me meter em leituras somente para preencher lacunas. Elas, aliás, são tantas que eu nunca conseguiria saná-las no tempo que me resta.

Só uma obrigação me move quando vou ler um livro: o prazer da leitura.

Não esqueço, a propósito, algo que alguém uma vez disse ou escreveu: feliz foi Marcel Proust que, para escrever e para estar em dia com a literatura universal, não precisou ler os sete volumes de Em busca do tempo perdido escritos por ... Marcel Proust.

Uma heresia, claro...
 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Eduardo Galeano

Jorge Adelar Finatto

Galeano no Café Brasilero, Montevideo, 2002. Autor: Andres Stapff, Reuters. 
 
Não levo nem uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca). E um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi.
 
                           Eduardo Galeano, in Mulher que diz tchau ¹
 
A morte de Eduardo Galeano, aos 74 anos, em Montevideo, na segunda-feira, 13/4/2015, é uma perda não só literária como afetiva para seus leitores espalhados por muitos países.

Estive duas vezes em Montevideo este ano. As viagens coincidiram com os últimos dias de José Pepe Mujica na presidência do Uruguai.
 
Um dos meus passeios preferidos em Montevideo é ir ao Café Brasilero, na Cidade Velha. Galeano era habitué do lugar. No ambiente de fins do século XIX, ele lia jornais, revistas, conversava com amigos e com estranhos que queriam conhecê-lo. Era gentil e solícito.²
 
Nas últimas vezes em que lá estive, sempre perguntava por ele ao moço ou moça que vinha me atender. As respostas eram "ele está doente, não tem aparecido" ou "ele melhorou, veio aqui na semana passada". Nunca tive ocasião de vê-lo, tampouco a este outro grande escritor uruguaio, Mario Benedetti (1920-2009), que também gostava do café. Mas era bom saber que eles costumavam ir ali.
 
Travei conhecimento com a obra de Galeano em 1977 ao ler este pequeno/grande livro de contos que é Vagamundo (96 páginas). Nos textos breves, o escritor atingiu uma intensidade poética poucas vezes alcançada no gênero. Uma obra-prima.³

É um livro que se constrói, em parte, no clima infernal das ditaduras sul-americanas (a primeira edição é de 1973, ano do golpe que instalou a ditadura civil-militar no Uruguai. A ditadura civil-militar brasileira já vinha desde 1964). Mas vai além. Há tal esmero literário e o resultado é tão elevado, que transcende as circunstâncias em que foi concebido e se afirma enquanto obra. É um trabalho artístico de rara beleza. Só um escritor no domínio do ofício e amoroso da vida consegue isso.

Depois de Vagamundo li outros livros do autor, mas aquele me marcou mais que todos.
 
Eduardo Galeano era honesto a ponto de criticar, no ano passado, seu maior sucesso, As veias abertas da América Latina, durante entrevista na 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, onde foi homenageado. Admitiu que, quando o escreveu, não estava suficientemente preparado para abordar alguns dos temas. Acrescentou que o tempo havia passado e tinha descoberto outras maneiras de se inteirar da realidade, concluindo que não gostaria de reler o livro. Além disso, considerava a linguagem de esquerda tradicional chatíssima.4 

Não é todo dia que um escritor tem essa transparência. Um homem assim generoso merece a estima e o respeito de todos. Pertencia a uma estirpe em extinção. Deve, por isso, ser lido e admirado por todas as coisas boas que pensou e escreveu, que não são poucas.
 
_____________
 
¹Vagamundo. Eduardo Galeano. Editora Paz e Terra, tradução de Eric Nepomuceno, 2ª edição, Rio de Janeiro, 1977. Com apresentação de Otto Maria Carpeaux.
²Café Brasilero:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2015/01/la-dulzura-puede-cambiar-el-mundo.html
³O testemunho dos livros:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/03/o-testemunho-dos-livros.html 
 

4Leia matéria sobre o escritor no jornal O Globo:
http://oglobo.globo.com/cultura/livros/morre-escritor-jornalista-uruguaio-eduardo-galeano-aos-74-anos-15856331
 

terça-feira, 14 de abril de 2015

O Landgrave

Jorge Adelar Finatto

designer: Deus. photo: jfinatto


A fala principial que lhe dirijo, ó, impossível leitor.

Eu, o Landgrave, me curvo diante da vossa alta ausência. Vivo no interior do ermo, habito as brumas dos Campos de Cima do Esquecimento.

Me esqueço no esconso do mundo. Meu revólver é o calepino.

Vento de julho quase me derruba.

As fraquezas do corpo. Nunca se sabe o que vem a contrapeito. Travessias a que os fados nos obrigam.

O sonho muito sonhado tinha nome: Cléria, Cléria dos meus suspiros. Invernos ao relento. A moça de papel e tinta, musa em solidão concebida, menos tida que havida. Só a conheci de vista, na janela da mansarda, quando lá embaixo ela passava. Eu poeta tímido e sufocado.

Sentimentos que teço no abismo dos dias. Dores que não têm conta.

O fosso profundo do fundo de cada um. Meu Deus.

Foi assim.

Os vazios dias, minhas tardes distantes, à beira do penedo. Hoje eu vejo tudo aqui de cima, na mansarda. Recolhido na grossa e comprida manta, atrás dos óculos de fundo de garrafa. Não vivo mais na borda dos penhascos. Saltei para dentro da lira. O consolo possível.

Esta página escrita no sótão, arrostando vento e solidão.

Fugazes as vaidades do mundo são. Mais vale um poema que um tostão. O frio glacial dessas alturas inóspitas.

Fui resgatado do evento proceloso pela mão de salvadoras prosopopeias. Eis-me de ponta cabeça no perau do texto.

São caminhos que se andam. Depois se aprende, depois se esquece. A vida.

O que não se tem se inventa. O mundo não tem bom coração. O delicado vive por teimoso e obstinado.

A humanidade enaltece a ruína, mata o humano. O que fizeram com esse texto as escuridões do mundo!

Cléria, sim, Cléria do capucho branco e do casaco azul claro. Cléria dos meus tormentos. Dos meus espantos e secretas ternuras. A que não se deixou amar. A desaparecida musa do vestido rosa com a fita lilás. Entrou e saiu do meu sonho sem saber.

Vivia lá no seu castelo, sem dar pela minha existência de bardo de arrabalde.

Eu o que quero agora é a solidão dos ventos gelados.

Meu olhar atravessando as névoas eternas.

Eu, o provedor das horas finitas, senhor de nadas, o catador de conchas de silêncio nos ares da infinita montanha.

Ela se foi pela estrada de ferro, sem dizer adeus.

Nas minhas saudades, ouço o ranger do velho trem saindo da estação.

A sintaxe é território que se conquista na dureza de batalhas cruentas. Palavras são coisas que criam asas e depois se lançam.

Agora sou o navegante. Viajor do tempo. Astrônomo de dicionários. O tal que restou com a bicicleta retorcida nas pedras.

 O sobrevivente, ridículo pierrô interiorano.

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Texto revisto, publicado antes em 13 de outubro de 2010.
 

domingo, 12 de abril de 2015

A descoberta da flor

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto, 11-4-2015
 
Caminhando pelo quintal, na tarde azul e suave do sábado de outono, eis que descobri, perto de um muro de pedra silencioso e abandonado, essa estranha flor. Nunca tinha visto nada parecido. Fiquei observando sua beleza. Terá caído de uma estrela? 
 
O mínimo que se pode dizer é que é diferente nos traços, criativa nas cores e na forma. Era para ser apenas uma singela caminhada no quintal. De repente, encontrei essa força da natureza. Quanto tempo ficará por aqui? - perguntou meu coração despetalado.
 
Então fui depressa ao escritório para apanhar a Coruja a fim de fotografar a insólita imagem. Isso foi lá pelas cinco e meia da tarde, quando o sol arrefece e os poetas românticos estalam os dedos álgidos e ansiosos, antes de ferir os primeiros versos enlouquecidos na página em branco.

Dizer que Deus estava inspirado quando a criou é pouco. Ele teve um sonho feliz.
 
Não sei o nome da bela flor que do nada brotou. Desconheço sua origem, sua família, seus caprichos, seu destino. Mas gostava que ela não saísse nunca mais do meu quintal, ficasse para sempre perto do muro de pedra em ruína, iluminando a sombra do ocaso e a minha vida.
 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A segunda chance

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Eu acho que todo mundo devia receber uma segunda chance na vida. O teatro da vida acontece em apresentação única. É muito difícil, impossível aliás, representar o papel que nos cabe sem cometer erros.
 
O que você pensa disso, raro leitor?
 
O perdão é uma grande invenção. Está aí para ser usado. É dando que se recebe, diz o velho e sábio brocardo. Quem não precisa ser perdoado de algo?

Quando era adolescente, conheci de vista um oficial alemão nazista, que lutou na 2ª Guerra Mundial. Ele veraneava numa casa ao lado daquela onde eu estava. Não tinha a menor idéia do que ele fez durante a guerra.

Só sei que todas as tardes, quando o sol baixava, ele vinha se sentar no pátio. A mulher dele sentava em sua frente e lia a Bíblia em alemão, em voz alta, por cerca de uma hora. Todo santo dia. Ela falava um pouco de português. Ele era sempre calado.

Eu via aquela cena e ficava a imaginar o que aquele homem teria feito. E me perguntava se alcançaria o perdão.

Quando falo numa segunda oportunidade, me refiro a pessoas comuns, gente que erra porque é humana e também porque é cabeçuda e arrogante, mas cujos erros não são maquinações de lesa-humanidade.

Estava indo nessa linha de pensamento quando surgiu Filipo, o papagaio incherido que me acompanha nas navegações com o veleiro Solitário, e ele veio com esta:

- Muito bonito, capitán! Mas vamos aprofundar um pouco a questão. Você considera que Hitler e outros assassinos cruéis como ele merecem outra chance?

Essa é uma típica ponderação filipense, conforme já devem ter visto em outros textos aqui no blog. Respondi, então, à ave abelhuda:

-  Nobre Filipo. Eu penso que gente como essa, a que você se refere, não merece outra chance nem nessa nem em outra existência. Com exceção daqueles que cometem barbaridades sem saber o que estão fazendo (no caso de perturbações mentais graves ou desenvolvimento mental insuficiente). Também não fazem jus ao perdão aqueles que cometem violências como tortura e outras de extrema gravidade.

- Da mesma forma não devem merecer perdão os grandes ladrões da nação, tão em voga atualmente, que roubam ou deixam roubar o patrimônio público, lesando milhões e milhões de pessoas.

Respondi essas coisas assim, mas esclareci em seguida, ao entrudo papagaio, que só quem tem a última palavra no assunto é Deus, que não erra.

Que eu nada sei. Não imagino sequer se serei perdoado pelos erros cometidos. Do alto da minha ignorância, contudo, e em causa própria, espero que sim.
  

Museu Casa Natal de Cervantes



El Museo Casa Natal de Cervantes celebra durante 2015 los 400 años de la publicación de la segunda parte del Quijote. A partir del 7 de marzo, y hasta mayo, todos los sábados tendrán lugar animaciones teatrales destinadas a todos los públicos, Quixancho encadenado. Mes a mes, los asistentes podrán adentrarse en algunos de los episodios más emblemáticos de la segunda parte del Quijote. 

En dos pases, a las 11.30 y 12.30 h., narrador y público se entremezclarán para dar vida a tres historias enlazadas cuyo protagonista, Sancho, será el hilo conductor. El inmortal escudero del Quijote, su fiel compañero, acompañará a los asistentes a torneos de caballeros, a celebrar la boda de la bella Quiteria o se asomará con ellos al misterio de la cueva de Montesinos.

Para acudir no es necesaria inscripción previa. La entrada es libre, con aforo limitado. Durante las representaciones el acceso a la casa museo permanecerá cerrado.

FECHAS:
Sábados, 11, 18 y 25 de abril; 2, 9, 16, 23 y 30 de mayo de 2015

HORARIOS:
11.30 y 12.30h 

DURACIÓN:
20 minutos

ACTIVIDAD GRATUITA

AFORO LIMITADO

Calle Mayor 48, Alcalá de Henares, Madrid
+ INFO

museocasanataldecervantes@madrid.org


Museu Casa Natal de Cervantes:
http://www.museocasanataldecervantes.org/animacion-teatral-quixancho-encadenado/

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O passarinho na amendoeira em flor de Van Gogh

Jorge Adelar Finatto

Amendoeira em flor. pintura de Van Gogh, 1890. Van Gogh Museum
 
Não sei se fui eu que desisti da literatura ou se foi ela que desistiu de mim. Só sei que faz muito tempo. O fato é que cansei de bater numa porta de sombra impossível de abrir e que, no dia em que se abriu, revelou um castelo vazio, cheio de fantasmas e esqueletos de musas atirados em soturnas escadarias.

Eu não gosto de fantasmas nem de ossadas. Meu interesse literário se resume aos velhos livros que amo, e aos novos que vou encontrando pelo caminho. Trago comigo a dor antecipada pelos livros que não terei tempo de ler. O meu sentimento é este. Diante disso, prêmios literários e exposição midiática nada significam. Escrevo na medida da minha necessidade de expressão ou apenas na esperança de olhar para o que escrevi, tempos depois, e dizer: Ah, mas isto aqui  acho que ficou bem.

Um texto dos confins da alma num momento fugaz. Para ter prazer em revelar e ser por ele revelado. Se alguém gostar, seja bem-vindo. Se não gostar, seja bem-vindo também. O que vale é a palavra e sua tentativa de comunicação entre duas pessoas: a que escreve e quem lê. O leitor, aliás, é aquele que realmente dá sentido a todo o processo.

A palavra, e nossa alegria nela desvelada. Palavra escrita no gosto do primitivo artesanato. Para o instante valer a pena. Uma espécie de memória do farelo. O resto é silêncio das cavernas oceânicas.

Solidão da folha em branco que cai da árvore do pensamento. O que muitos entendem por literatura já não me interessa. Mais vale o passarinho cantando no galho da amendoeira em flor de Van Gogh. Eu escutando.
 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A manhã expulsa a escuridão

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto

É muito triste andar só, embora a gente esteja quase sempre sozinho.

Nunca nos falte essa luz, Maria, a do espírito. Sim, essa que nos guia pelos caminhos sombrosos do treva-mundo.
 
Pode faltar o pão, mas não nos falte a luz interior. A escuridão mata, porque através dela nada podemos encontrar e já não somos encontrados.
 
A escuridão é o oposto do respirar claro, Maria, é o contrário do sol, do calor humano e da presença de Deus.
 
O que eu mais quero na vida é claridade, como a que eu sentia quando pegava na tua mão naquela hora em que tudo em volta era motivo de aflição.
 
Procuro luz para admirar as coisas do mundo, para enxergar o semelhante, para ter encanto na vida.
 
Luz pra desviar das armadilhas, dos monstros noturnos e diurnos, dos abismos.
 
Noite é bom pra conversar na varanda, olhar a luz das estrelas e da Lua. Sonhar e esperar o amanhecer.

É muito triste andar só, embora a gente esteja quase sempre sozinho.

Se tiver que caminhar no escuro um dia desses, que pelo menos os vaga-lumes apareçam. 
 
De tanta escuridão neste mundo estou bem farto.

Por favor, Maria, não deixe que anoiteça sobre mim. Mas se tiver que acontecer, me dê a tua mão na hora de apagar a luz e fechar a porta.
 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A bruma de que somos feitos

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 

Nestes tempos de Quaresma, existem muitas razões para ter esperança na vida futura, já que é esta a mensagem que está inscrita, a sangue, na trajetória luminosa de Cristo.
 
A Ressurreição, no domingo de Páscoa, é a culminância do sentimento cristão, e universal, de uma vida melhor, infinitamente melhor, do que essa que vivemos no fundão chamado mundo.
 
Quando fui juiz na cidade de Rio Grande, lá nos idos de 1991, escolhi esta passagem bíblica, que muito me encanta e faz refletir, para inscrever em cerâmica: Porque sois uma bruma que aparece por um pouco de tempo e depois desaparece. Trata-se do trecho 4:14 da belíssima Carta de Tiago, irmão de Jesus. Após, fui a um ateliê perto do foro e fiz a encomenda.
 
O trabalho foi feito com talento por uma artista local, cujo nome está escrito na parte inferior à direita (meus óculos de fundo de garrafa não conseguem decifrar). Levei a peça para o meu gabinete.
 
O tempo passou como voam os pássaros.

Jurisdicionei depois em outras comarcas. Esta bela obra de arte (e do espírito) sempre me acompanhou e acompanha até hoje. Compartilho seu conteúdo.
 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Deixai livres as crianças

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
As crianças são como anjos: podem voar por aí, correr e brincar sobre nuvens de sonho, porque carregam no coração a força da inocência e da bondade. Se para os grandes não existe salvação, para as crianças todas as portas e janelas do céu estão abertas.
 
O mundo faz tudo que pode para cortar as asas da infância. Os adultos, com seus maus modos e sua rematada ignorância afetiva e espiritual, querem a todo custo arrancar das crianças a capacidade de ser livres e de sonhar. Esse é um dos piores crimes que se perpetram contra o ser humano.
 
Mercê dessa violência, alguns que, em pequenos, foram angélicos transformam-se com os anos em seres monstruosos. Alguma dúvida? Olhemos as manchetes dos jornais. A fábrica de verdugos e assassinos está funcionando a pleno vapor.
 
Por isso, uma sugestão a todos os que foram criança um dia: não se deixem amedrontar e violentar pelos porta-vozes da escuridão e pelos emissários da morte.
 
A criança que vive em nós viverá enquanto não desistirmos dela e não permitirmos que a matem.
 
Salvemos as nossas crianças. Salvemo-nos. A resistência será a nossa salvação.
 

sábado, 28 de março de 2015

O mundo explodiu e ninguém disse adeus

Jorge Adelar Finatto

local da queda do avião, nos Alpes franceses. photo de Thomas Koehler (EFE)

Em memória dos passageiros do voo GWI 9525
que se espatifou contra os Alpes franceses
na terça-feira, 24/3/2015
                   
Não havia sobreviventes quando Deus chegou na rude e negra montanha alpina e viu de perto o que acontecera. Nenhum pra contar o que se passou quando o airbus explodiu em milhões de fragmentos repartidos no ar irrespirável.
 
Um anjo, numa solitária nuvem, olhando lá de cima, dissera antes ao Senhor: pulverizaram-se os sonhos. Não temos corpos a quem velar. Consumou-se a terrível travessia que ninguém ousara imaginar.

E, no entanto, estava tão evidente desde sempre o previsível gesto de loucura, fundado no mais primitivo egoísmo, na dureza de espírito que gera a nauseante repetição da covardia, tecedora de sórdidas mortandades. Previsível, sim, porque o mundo tornou-se um hospício geral.

Se acontecesse na África, na América do Sul ou em qualquer outro "lugar bárbaro", "estaria explicado". Mas o fato se deu no suposto centro da inteligência, da ciência, da tecnologia, da cultura e da boa educação.

Não há justiça nem existe bondade além das aparências. Ninguém está seguro em parte alguma. E não se alimentem falsas ilusões: em alguns dias tudo estará esquecido, porque assim decidem os insensíveis deuses do mercado e do poder.

Quem fez caso das crianças e de todos os passageiros que embarcaram na triste nave sem destino?

Quem se importa com a dor dos outros no mundo em que vivemos?
 
Entre as partículas havia minúsculos estilhaços vermelhos e cintilantes a correr pelo vácuo noturno (em pleno dia). Em todas as direções e sentidos eles se deslocaram na escuridão do cosmos.

Em cada um deles havia uma lembrança, uma emoção, um resto de amanhecer. Em cada mínimo fragmento, um pedaço de coração pulsando em absoluta perda, silêncio, espanto e dor.
 
Um raio brilhante de luz incandescente encontrará um lugar novo do universo para germinar. Quem sabe poderá haver vida outra vez. Quem sabe dos estilhaços vermelhos nascerá, um dia, uma vida, e depois outra e mais outra.

A luz germinará sem a porção atávica da crueldade, distante do horror, da loucura dissimulada e dos sombrios desvãos que habitam a alma humana.
 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Os passos no telhado

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
A casa estava sempre lá, no mesmo lugar, a qualquer hora a gente podia voltar. Os mais velhos eram os guardiões do templo cujo maior tesouro era o sentimento. Eles eram os troncos velhos da ponte que ligava o passado com o presente e o depois.
 
O tio Alberto retornou depois de 40 anos vivendo noutros países, noutros planetas. Trouxe baús cheios de quinquilharias e livros em línguas estranhas. Trouxe principalmente muita solidão no semblante calado. 
 
Foi habitar no sótão da casa, dizia que a mansarda era o melhor lugar pra se ver o mundo. Quase não descia de lá. Abria a porta no alto da escada estreita apenas pra receber e devolver as coisas indispensáveis.

- O mundo só é suportável aqui em cima. Vivo em solidão mas quero a companhia do andar de baixo. Amo todos vocês.

E lá ficou com seus livros velhos e uma luneta holandesa do início do século XX.

De raro em raro, quando a porta se abria, a gente corria pra ver a cabeça branca do tio Alberto. Às vezes nos abanava e voltava a se fechar no seu mundo.

Em certas noites, ouvíamos barulho de passos e vozes no telhado. A vó dizia que não precisava ter medo, era só o nosso tio esticando as pernas e conversando com seres que só ele via.
 
O aroma dos cravos (havia cravos) e das rosas perfumava o entorno da casa. Tinha também o cheiro amarelo das margaridas e o branco dos lírios.
 
Era bom dormir olhando para o teto alto de madeira, na certeza de que o dia ia amanhecer na voz do galo, e de que tudo seguiria como sempre.

No inverno as nuvens raspavam nos galhos altos dos pinheiros.

Nos dias de chuva a casa recendia a pão, doces e bolos produzidos no fogão a lenha.
 
Viver era eterno. Todos os córregos e pássaros cantavam para iluminar a nossa vida. 
 
A saudade que estou sentindo agora não é uma coisa triste.

Tudo está vivo dentro de mim.
 
Estou só na madrugada de outono. Mas escuto passos no telhado.