domingo, 29 de novembro de 2015

Voando com José "Pepe" Mujica

Jorge Adelar Finatto
 
Mujica. autor: Alejandro Arigón. fonte: semanário Brecha, Montevideo
 
E permita-me dizer: nada muda se vocês não mudarem. O agente da mudança são vocês, povo querido. Com vocês mudamos ou com vocês sucumbimos. E estamos juntos.* 
                                                                           
                                              José Mujica

Estou esperando para entrar na sanfona que conduz ao interior do avião, no aeroporto de Carrasco, Montevideo. A meu lado um senhor com uma pasta marrom. O embarque começa e o senhor anda com passo decidido e entra na sanfona. É José "Pepe" Mujica, 80 anos, ex-presidente do Uruguai e agora senador, que embarca para Porto Alegre.
 
Comporta-se como um mortal, sem privilégios. Não tem entourage. O voo transcorre em meio à turbulência na maior parte do tempo. Enquanto isso, aproveito para ler o semanário montevideano Brecha. A matéria de contracapa trata do fenômeno Pepe no Japão. Lá o ex-presidente virou uma celebridade. Só neste 2015 quatro livros foram publicados na Terra do Sol Nascente, chamando a atenção para a vida e "las palavras de José Mujica, el presidente más pobre del mundo".

O texto é escrito pelo japonês Kazunori Hamada, estudante de doutorado da Universidade de Tóquio, especializado em literatura hispano-americana. A origem em um pequeno país sul-americano, os anos tupamaros, os 14 anos de prisão ao tempo da ditadura civil-militar no Uruguai, a sua cachorrinha de três patas, ao lado de valores como simplicidade, sobriedade, austeridade e solidariedade, tudo isso impressiona os japoneses. As frases e a filosofia de Mujica ganham admiradores pelo mundo inteiro.

Mas não são só palavras vazias, são os exemplos de Mujica num planeta tão carente de pessoas íntegras em postos de poder. Sua pequena chácara em Rincón del Cerro, cercanias de Montevideo, onde vive, ele transformou num lugar de ensino agrícola. Mais: no futuro pertencerá à comunidade humilde do local com essa destinação. Ele e a mulher Lucía Topolansky, senadora no Uruguai, já formalizaram a doação.

Mujica e seu fusca. photo: Natacha Pisarenko/AP

Quando no exercício da presidência (2010 a 2015) doava cerca de 70% de seu salário, sendo parte para seu grupo político, a Frente Ampla, e outra para ajudar na construção de moradias populares. É famoso também seu apego ao fusquinha azul, ano 1987, que amigos lhe deram fazendo uma "vaquinha". Nunca deixou de utilizá-lo, mesmo no poder. Conta-se que um xeque árabe teria oferecido 1 milhão de dólares por ele, mas Don Pepe jamais aceitou desfazer-se do veículo.

Na chegada a Porto Alegre (hoje é 26/11/2015), Mujica vai para a fila da imigração, como qualquer um de nós. Após, diversos passageiros pedem para fazer fotografias a seu lado. A todos ele atende com delicadeza, conversa, sorri, abraça. Ninguém fica sem atenção. Depois ele parte com alguém que deve ser do consulado uruguaio. Um homem incomum/comum.

Não sei como os cinco anos de Mujica na presidência do Uruguai serão julgados pela história. Como ele mesmo diz, não existem anjos na política. Nem tudo que se quer se realiza. Mas uma coisa parece que está definida. O ex-presidente, homem de origem pobre, é uma das grandes novidades da politica mundial, se não for a maior delas. Não pelo discurso e pela ostentação do poder. Mas pelos gestos, os verdadeiros mestres.

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Pepe Mujica, simplesmente humano, pág. 103. Allan Percy e Prof. Leonardo Díaz. Tradução de Marcelo Barbão. Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2015.
 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Pedro Figari, artista, filósofo, homem de ação

Jorge Adelar Finatto
 
Barrio de negros, 1924. Museo Figari, photo: jfinatto
 
Minha pintura não é 'uma maneira de fazer pintura' senão um modo de ver, de pensar, de sentir e sugerir.

                                    Pedro Figari

Pedro Figari


Uma das visitas mais proveitosas que fiz, nesta viagem ao Uruguai, foi ao Museu Figari, em Montevideo. Já admirava sua obra pelo que havia visto antes, em viagens anteriores, no Museo Nacional de Artes Visuales e no Museo Juan Manuel Blanes.

Não pretendo, evidentemente, neste breve espaço, aprofundar nenhum assunto relacionado a Pedro Figari (1861-1938), senão dar uma ideia resumida e muito pessoal do que vi e senti. Entre outras razões, porque estou começando a conhecê-lo. Se da visão anterior já tinha ficado com uma forte impressão de sua obra, agora ela se enriqueceu e ampliou.

Fantasia, Museo Figari, 1922-23, photo: jfinatto

A produção abundante (cerca de 4 mil obras) e altamente qualificada do artista justifica a existência do museu. Figari foi, para além de artista plástico, jurista, escritor, filósofo, político, colaborador em periódicos, polemista e trabalhador em causas de interesse público, entre outros misteres. Um humanista que atuou na construção de um pensamento (e de um sentimento) em torno da arte e do fazer humano em geral.
 
Como diretor da Escola Nacional de Artes e Ofícios, desenvolveu a ideia de que o trabalhador pode e deve fazer de seu ofício uma arte, atuando com pensamento crítico, esmero e criatividade. Valorizou o trabalho em suas muitas expressões. A arte, para ele, era mais um dos fazeres ao alcance do indivíduo e poderia ser exercida de diferentes maneiras e em diferentes atividades.

Museo Figari. photo: jfinatto

Ao que interessa, nesta breve notícia, cumpre ressaltar o traço e as cores absolutamente singulares de suas pinturas. A composição lírica e delicada das tintas dá às pinturas uma vida única, particular.

Uma tal originalidade possui a obra figariana que nos assoma a impressão de que nada parecido foi feito antes e nem depois. Desenvolveu um modo de pintar e de elaborar a linguagem pictórica que é inaugural. E ali colocou seu sentimento e sua visão de mundo.

En la estancia, 1925. Museo Figari, photo: jfinatto

Há um jeito Pedro Figari de construção plástica. Não conheço nada parecido. Deve-se, claro, ter presente que não sou especialista na matéria, nem pretendo sê-lo. Mas também não sou um observador leviano.

A temática está muito ligada à terra uruguaia, sua gente, sua história, mas nela bate um coração universal. Há cenas campestres, familiares, bailes, situações de sofrimento e depressão, painéis da vida social, fantasias, etc.
 
Não há projeção minudente do figurativo. O artista quer mais sugerir sentimentos e ideias do que descrevê-los. As pessoas, animais e coisas são desenhados com traços sinuosos, em movimento físico e/ou emocional. Não existe preocupação excessiva com detalhes. Os olhos e rostos, por exemplo, não ganham maior destaque. Ainda assim, a composição como um todo resulta rara. Ali sempre há um sentido, nada está perdido ou solto ao acaso.

Algo que chama a atenção é a importância que dá à presença de afrodescendentes. Eles aparecem tanto como serviçais quanto vivendo sua própria vida no bairro, em suas festas e reuniões.

Há um louvável interesse de Figari pela situação destas pessoas na paisagem humana da época, cujos ancestrais vieram da África em condição de escravidão.

Não sei como será no interior do país, mas em Montevideo vejo muito baixa presença de pessoas negras atualmente. Acostumado ao Brasil, onde ela é muito significativa, aqui mostra-se reduzida, ao menos foi o que apreendi nas cinco vezes em que estive no Uruguai.

Miseria, sem data. Museo Figari, photo: jfinatto
  
Um quadro de Figari é facilmente identificável por sua força expressiva e peculiar elaboração. De muitas formas ele me encanta como um dos grandes pintores que tenho conhecido em exposições e museus. 

Penso que já é mais do que hora de levar uma exposição de Pedro Figari ao Brasil. É, sem dúvida, um dos expoentes do continente americano. Conhecer seu pensamento e sua obra é fonte de inspiração e crescimento.

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Museo Figari.  Calle Juan Carlos Gómez, 1427, Ciudad Vieja, Montevideo, Uruguay. 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Babel, rádio com alma, do Uruguai para o mundo

Jorge Adelar Finatto
 
 
Sou um bom ouvinte de rádio.  Não consigo nem quero abandonar este meio de comunicação. O rádio está na minha vida desde a infância. E na minha infância, no século passado, não havia ainda televisão lá em casa, era algo novo que só existia nas cidades grandes. Passo dos Ausentes, como sabem, fica no fim do mundo, graças a Deus.
 
Quando estou em viagem, como agora, procuro na cidade estrangeira uma rádio para ouvir no quarto de hotel. Por exemplo, em Buenos Aires descobri a Rádio Amadeus, 104.9, FM, de que gosto muito. Em casa, costumo ouvi-la no computador.
 
Em Montevideo, encontrei agora a Rádio Babel, 97.1, FM, do Ministério da Educação e Cultura do Uruguai. Já salvei o endereço no computador. Uma rádio de cultura, de boa música e boas informações nas 24h.
 
A seleção musical é de altíssima qualidade e variada, do jazz à música erudita, passando pela música local de Uruguai, Argentina e Brasil, sobretudo instrumental. Há um trabalho de pesquisa que nos remete a gratas revelações. A locução é breve e elegante.
 
De tal modo que, ao escutar esta rádio, tenho a impressão de estar vivendo num mundo melhor, mais belo e refinado, com uma alma e uma delicadeza que nos faltam no mundo real.
 
A Rádio Babel é um refúgio espiritual em meio ao caos.

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Babel FM, Uruguay
http://www.babel.com.uy/babel.html 
 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Meu fantasma predileto

Jorge Adelar Finatto

La samaritana, Juan Manuel Blanes, Museo Blanes

 
Juan Niebla me acompanhou até a minúscula estação de ônibus de Passo dos Ausentes na partida. Veio batendo bengala pela calçada. O sobretudo negro, a cabeleira branca e desgrenhada ao vento, os óculos escuros, dão-lhe, às vezes, um ar espectral. Costumo dizer-lhe que ele é o meu fantasma predileto. Ele agradece e diz, irônico, que se sente envaidecido.
 
De pé ao lado da minha janela no ônibus, disse: "Não esqueça. Existem dois tipos de pessoas: as que têm saúde e as que têm problemas de saúde. As primeiras devem aproveitar o momento e fazer o melhor que puderem. As outras precisam acreditar que tudo vai melhorar." Juan é assim.
 
Vou levar-lhe um equipamento novo para o chimarrão, de Montevideo, cuia, bombilha e garrafa térmica.
 
Sábado foi dia de visitar o Museo Juan Manuel Blanes com seu acervo de obras do grande artista uruguaio. Há também pinturas de Pedro Figari, outro expoente das artes plásticas no Uruguai.
 
O museu possui um bonito parque ao seu redor com muitas árvores e recantos. E um pátio interno encantador, onde se pode sentar a admirar as carpas coloridas no amplo tanque central. Sobre o trabalho de Blanes - sua qualidade e sua importância - já escrevi aqui no blog.

Museo Juan Manuel Blanes, Montevideo. photo: jfinatto

Para quem vem do Brasil, o Uruguai tornou-se um país muito caro, os preços são exasperantes. O problema não é o Uruguai, mas a brutal desvalorização do real em relação às outras moedas, tendo o dólar como principal parâmetro. Tudo ficou muito difícil para o brasileiro nas viagens ao exterior.

Apesar de tudo, Montevideo é uma referência literária, artística e humana importante e sempre vale a pena. Como resistir a comprar alguns livros, discos, jornais e revistas, mesmo com os preços salgados?  Não dá. Afinal, estamos na pátria de Onetti, Vilariño, Lautréamont, Zitarrosa, Juan Manuel Blanes, Pedro Figari, Galeano, Benedetti, Morosoli e tantos outros.
 
No sábado à noite, no Teatro Solís, um belo momento de jazz com o português Mário Laginha e o italiano Stefano Bollani. Antes, visita à interessante exposição de marionetes numa das salas do teatro.

Exposição de títeres, Teatro Solís, Montevideo. photo: jfinatto
 

sábado, 21 de novembro de 2015

Van Gogh na Peatonal Sarandí

Jorge Adelar Finatto
 
photo: site Galería Ciudadela, Montevideo¹

Caminhando ontem pela Peatonal (rua de pedestres) Sarandí, em Montevideo, vi uma escultura na Galería Ciudadela que, à distância, me chamou a atenção. Aproximei-me da vitrine. Já era por volta de 19h, a galeria estava fechada. Procurei o melhor ângulo para fotografar. Nesse momento me dei conta de que se tratava de uma escultura de Van Gogh (250 x 122 cm).
 
Olhando os detalhes, percebi que estava diante de uma bela obra de arte. Feita com ferro e madeira, revela uma grande maestria do escultor. Impressiona a construção dos traços e do olhar de Van Gogh, reunindo técnica e emoção.
 
photo: jfinatto, Galería Ciudadela, 20/11/15
 
É admirável como o artista conseguiu tal resultado usando materiais como pés de bancos e cadeiras, pedaços de venezianas e peças de ferro variadas, que provavelmente eram sucata que ele recolheu e transformou em arte. O refinamento do trabalho é notável.
 
De volta ao hotel, pesquisei no site da Galería Ciudadela (espaço de arte imperdível em Montevideo, localizado na Ciudad Vieja) quem era o artista. Trata-se de Javier Abdala, montevideano nascido em 1971, que é professor no Instituto Escola Nacional de Belas Artes, da Universidade da República do Uruguai. No site do artista, veem-se outras imagens de sua rica obra.²
 
Estou encaminhando este post ao Museu Van Gogh de Amsterdã. Eu, se pudesse fazer uma sugestão à direção do museu, recomendaria a aquisição desta escultura para integrar o seu acerco. Por rara, criativa, única.
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¹Galería Ciudadela:
 
² Javier Abdala
 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O escândalo

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto

 
As hortênsias resolveram embelezar a cidade. Era só o que faltava.

Em meio a tanta desilusão, tanta feiura das almas, tanta gente má e casca grossa, vêm agora as hortênsias e decidem distribuir beleza e graça.

Um negócio muito estranho.

Um verdadeiro absurdo nas ruas de Passo dos Ausentes.

Quando achava que não tinha mais jeito, quando nada mais esperava diante do triste espetáculo humano, as hortênsias surgem em silêncio, espargindo cor e delicadeza sobre cinzas.
 
O que mais nos espera? - eu pergunto - e já ninguém responde.

Tanta beleza é mesmo uma violência contra a desolação.
 
O que será feito da nossa histórica descrença no Brasil, no futuro e em nós mesmos?
 
E o que restará do nosso olhar melancólico sobre o sentido da existência? É o fim dos tempos.

Devia ser aberto, imediatamente, um inquérito contra as hortênsias por tamanho escândalo e desacato, verdadeiro atentado violento ao pudor. Onde já se viu!
 
Mas ninguém faz nada, este é realmente o tempo da impunidade.

Nem maldizer a vida em paz a gente pode agora. A ancestral tristeza é brutalmente sacudida e sufocada. Ai de nós!
 
É o fim da picada.
 
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Texto revisto, publicado originalmente em 12/12/11.

domingo, 15 de novembro de 2015

Idea Vilariño, poeta

Jorge Adelar Finatto
 
poeta Idea Vilariño na juventude
 
Uno siempre está solo

Sempre estamos sozinhos
mas
às vezes
estamos mais sozinhos.

poema de Idea Vilariño ¹ (trad. livre de Jorge Finatto)

 
Idea Vilariño(1920-2009) é uma grande poeta uruguaia. Descobri-a no início deste ano, em Montevideo, cidade onde nasceu, viveu e morreu. Estou lendo sua obra, notável em intensidade, profunda, límpida, acolhedora.
 
O leitor não precisa ser especialista em poesia para penetrar nos versos de Idea. Basta ter um coração ávido.

Os textos respiram simplicidade. Mas é o simples conquistado com muito trabalho (mais fácil é ser enrolado, difícil, beletrista). A autora fez uso concentrado e depurado da linguagem. Suas composições vão do mais íntimo da alma ao tema geral, com grande qualidade e poder de comunicação.
 
Idea dizia muito com poucas palavras. Escrevia em qualquer papel que estivesse à mão. Poesia densa, amorosa, sofrida, social, que abarca uma rica experiência humana. 
 
Travar conhecimento com os versos de Idea Vilariño foi e está sendo uma bela revelação.
 
Ela também foi professora, compositora, tradutora e crítica literária. Participou da Geração de 45, de intelectuais do Uruguai que buscaram a renovação da arte em seu país.
 
Estou dando esta breve notícia porque se trata de uma autora quase ignorada no Brasil, que precisamos conhecer melhor. Uma criadora rara, universal. Como diz Rosario Peyrou, na apresentação de Vuelo Ciego: "É impossível ler Idea Vilariño sem sair sacudido, marcado de certa forma para sempre".²
 
Este papel mi vida
 
Olvidado
perdido
não lido
não aberto
amassado e ao fogo
fugaz incandescência.³
 
                  (trad. livre de Jorge Finatto)

Para quem quiser saber mais, vale a pena assistir o documentário do link abaixo, onde ela diz alguns de seus poemas.
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¹ Vuelo Ciego, Idea Vilariño. Apresentação de Rosario Peyrou. Visor Libros, Madrid, 2004.
² idem, pág. 22.
³ idem, pág. 87.

Depoimentos sobre Idea Vilariño e leituras de poemas por ela:
https://www.youtube.com/watch?v=A7WNtYPckYE
 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Num bosque da Toscana, o psiquiatra eremita

Jorge Adelar Finatto
 
fonte: Corriere della Sera 
 
A família procurava Carlos Sánchez Ortiz de Salazar (espanhol, 46 anos), desde que fugiu de casa aos 26.  Nos últimos dias, os pais e a irmã acreditaram que, enfim, estava vivo. Da Itália receberam informação de que ele vivia como ermitão num bosque da Toscana. Todavia, uma vez descoberto, voltou a desaparecer, fazendo sofrer seus familiares, que terão de continuar a busca.
 
Carlos foi encontrado num bosque de difícil acesso, com vista para o mar, perto de Scarlino, pequena localidade da Toscana, região central da Itália. O acaso levou catadores de cogumelo ao local onde vivia numa tenda, afastado de tudo e de todos. Conforme informações divulgadas pelo jornal espanhol El País (10 nov.) e pelo italiano Corriere della Sera (7 nov.), Carlos formou-se médico psiquiatra na Universidade de Sevilha. O desaparecimento teria ocorrido após uma grave depressão.
 
Natural de Bilbao, o último domicílio do médico na Espanha foi a pequena cidade de Cazalla de la Sierra, província de Sevilha. Ao ser encontrado, revelaram os catadores de cogumelo, mostrou-lhes o cartão da biblioteca e sua identificação de estudante da faculdade de medicina. Disse na ocasião:
 
- Sou espanhol, meu nome é Carlos e vivo aqui há 20 anos. Agora terei que me mudar novamente.

Depois deste encontro, sumiu. Os pais foram à Itália assim que souberam. Visitaram o refúgio do filho. Emocionaram-se. Afirmaram que tudo que queriam era vê-lo. 
 
A associação italiana Penélope, que dá apoio a famílias de desaparecidos, está acompanhando o caso. Membros de guarda florestal e pessoas das redondezas declararam que o viram algumas vezes e que se apresentava como um homem calmo, que não queria conversar.
 
O mais incrível desta história é que o médico foi declarado oficialmente morto pela justiça espanhola devido ao tempo em que esteve desaparecido.
 
O defunto Carlos, ao que se vê, está muito vivo, e aparentemente bem. Só não quer contatos. Os colegas de profissão do ausente provavelmente terão explicações para este proceder, que escapa ao entendimento da maior parte dos mortais. Mas qual de nós não teve, alguma vez, vontade de desaparecer do mapa, apagar o vivido, reiniciar a vida longe de todos em um lugar distante?
 
O psiquiatra Carlos optou pela ausência radical, essa forma de morrer em vida. Tornou-se um morto que respira solitário nos bosques da Toscana. Seu comportamento deixa muitas interrogações.

Contudo, digo eu, considerando que vivemos numa sociedade habitada por feras capazes das piores barbaridades contra os semelhantes (a começar pela indiferença), o doloroso desaparecimento não chega a ser um completo absurdo. Absurda é a vida do modo que está.
 
Carlos escolheu talvez um jeito diferente e invisível de sobreviver aos horrores da nossa civilização.
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El País:
http://politica.elpais.com/politica/2015/11/09/actualidad/1447069875_735570.html

Corriere della Sera:
http://www.corriere.it/cronache/15_novembre_07/carlos-eremita-per-20-anni-nascosto-bosco-maremma-genitori-credevano-fosse-morto-4d5446fc-857c-11e5-aefe-2915a18071e3.shtml
 

domingo, 8 de novembro de 2015

O concerto do sabiá-laranjeira

Jorge Adelar Finatto

sabiá-laranjeira. foto de Dario Sanches, São Paulo, 2006
fonte: Wikipédia
 
O mundo está povoado de barulhos. Principalmente o mundo das cidades grandes. A incômoda orquestra de automóveis, caminhões, motos, britadeiras, máquinas, etc., é fonte de constante mal-estar. Viver no interior é uma maneira de fugir disso e de outros demônios, como estresse, poluição, violência.
 
Nas cidades pequenas vive-se melhor. Que o digam os sabiás-laranjeira. Quando vou a Porto Alegre, ouço vizinhos reclamando que os sabiás estão acordando e cantando muito cedo na nossa rua e arredores.

De fato, a cantoria inicia por volta das 2h30min. No começo se ouve o canto solitário de um, depois se junta outro e outro e mais outro, até que se forma um coro de muitas vozes em direção ao amanhecer. É bonito.
 
Um pesquisador, num programa de televisão, disse que, nas pequenas cidades, eles começam a cantar só lá pelas seis da manhã. Segundo afirmou, o canto do sabiá é uma forma de atrair a fêmea. Devido ao barulho das cidades grandes, eles se veem obrigados a cantar no inicio da madrugada, único jeito de ser ouvidos pelas companheiras.

Portanto, antes de reclamar dos pássaros, devemos fazer o mea-culpa. Nós conseguimos desregular até o horário do canto dos sabiás com nossos barulhos. E ainda reclamamos.
 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Anônimo amigo

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

 
Tem um homem desesperado
que passa há séculos
na frente da minha porta

nunca conversamos
mas nossos olhos
se entendem

algum dia marcharemos juntos
rumo aos cata-ventos do sol

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Poema do livro Claridade, Jorge Finatto, Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1983.
 

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A praia do gasômetro

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

Ele precisava respirar um pouco de ar fresco, sair do calabouço. Recordou como eram bons os banhos, as caminhadas e brincadeiras que, quando crianças, faziam pela orla do Guaíba.

Um dia distante se viu só diante do rio. A casa da serra tinha afundado. O rio passou a ser seu amigo e confidente.

Foi até a margem do Guaíba fazer um passeio sentimental, que é uma maneira de não deixar o vazio tomar conta.

A hora mais feliz do dia era pela tarde, quando saíam do apartamento com roupas de banho, chinelo, toalha e iam para a praia do gasômetro, ali ao lado da alta chaminé que virou cartão-postal da cidade. Era só sair do edifício, atravessar a rua e estavam na areia. Ser feliz era simples assim.

O Guaíba é esse espelho sobre o qual o céu se debruça todos os dias com o sol, as nuvens e o azul, e à noite com as estrelas.

No dia em que tudo o mais estiver perdido, haverá a memória do rio e nela um barco branco com vela branca para levar o menino a navegar nas águas claras e sem margens da infância.

A ilha ensolarada da infância.
 

sábado, 31 de outubro de 2015

Véspera de Finados num país que afundou

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Eu quero mais é voar pendurado num guarda-chuva grande e colorido. Voar sobre as ruas desertas do meu país, que bateu no fundo do abismo. Voar sobre as praças vazias, sobre as casas e apartamentos enovelados em silêncio, perplexidade e dor.

Eu quero tudo menos essa morte anunciada, lenta e cotidiana. Pra bem longe dessa tristeza e dessa desesperança eu quero ir. Não sei se é possível. Na verdade não é.

Será mais fácil sair voando a bordo de um guarda-chuva. Pelo menos foi isso que nos ensinou a inefável Mary Poppins. Ou até isso não passará de uma tola ilusão? Mas uma tola ilusão é necessária de vez em quando.

Não podemos é nos entregar nos braços da morte como querem seus emissários. E se nos déssemos as mãos e começássemos a varrer os destroços?
 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Fanicos & Farfalhas no Empório Canela

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
A exposição fotográfica Fanicos & Farfalhas está no Empório Canela, Rua Felisberto Soares, 258, centro da cidade, aqui na serra do Rio Grande do Sul. As imagens ficarão expostas até dezembro e são todas da região serrana, especialmente de Canela. Colhi as fotos com a amiga Coruja (ex-máquina, hoje quase um ser humano), durante as caminhadas polifônicas.
 
Não me lembro quantas vezes estive no Empório nos últimos anos. Levei a família, convidados, fiquei sozinho outras tantas.

photo: jfinatto
  
Muitas vezes estive ali na companhia de amigos como Ítalo Calvino, Ruy Belo, Vitorino Nemésio, Florbela Espanca, Drummond, Cecília, Clarice, Pessoa, Salvador Espriu, Bandeira, Antonio Tabucchi, Helena Jobim, Heitor Saldanha, Henrique do Valle, Ortega y Gasset, Cervantes, Miguel de Unamuno, Antonio Machado, Felisberto Hernández, Benedetti, entre outros. Companheiros com os quais dividi a mesa e dialoguei ao redor de taças de café, no intervalo das viagens a Passo dos Ausentes.
 
O Empório é um bom lugar para se estar só ou acompanhado.

photo: jfinatto
  
Além do café (meus dois preferidos são o de especiarias e o dolce), o Empório serve ótimos lanches e refeições, pois é restaurante, e dos bons. Pensam que é só? Também é livraria e sebo. E expõe artesanato de qualidade em vários materiais, além de objetos antigos. E tem mais coisas que fazem bem, entre elas o bom atendimento.
 
Estão todos convidados a visitar a exposição e o lugar. Vale.

photo: jfinatto
 

sábado, 24 de outubro de 2015

Os mistérios do mundo e as conchas do mar

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 
Andava eu pela rua Padre Chagas, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, quando visualizei na esquina um cartaz anunciando um Curso de Introdução ao Mundo. Era como um alerta dirigido à minha proverbial falta de fé nos oráculos. 
 
Com vagas limitadas, os encontros seriam dedicados a pessoas que cultivam assuntos filosóficos e que querem desvelar os mistérios da vida. No desenvolvimento das aulas, se trabalharia com conchas do mar, cartas de baralho, almanaques antigos e o indefectível Google. Informava-se, ainda, um telefone móvel para contatos, que deveriam ser feitos o quanto antes para encaminhar a matrícula e formas de pagamento.
 
Percebi que estava ali a grande oportunidade para entender melhor os enigmas da existência. Vislumbrei a libertação de angústias e perplexidades que carrego desde antes de chegar ao útero. No entanto, por ancestral e incorrigível desconfiança, não anotei o número do telefone.
 
No retorno a Passo dos Ausentes, contornando penhascos e já envolto em nuvens, me dei conta do que perdera. Se tivesse aproveitado o que o cartaz oferecia, provavelmente teria renovado minha visão das coisas nesses tempos tão obscuros. Alcançaria quiçá uma percepção mais generosa da existência e suas possibilidades.
 
Mas qual! Voltei, como sempre, a andar na neblina com a costumeira lanterna de mina na mão.
 
Constatei, mais uma vez, essa propensão tão minha de olhar com ironia anúncios de salvação prêt-à-porter, venham eles de onde vierem.

Levantar o escuro véu que oculta os mistérios e belezas do mundo é ofício a ser construído em silêncio, com humildade e claridade de coração. Essa a minha vã filosofia.

Porém, eu devia era levar mais a sério cursos de introdução ao mundo. Quem sabe tudo clareava de vez... Mas não. Por isso continuo aqui, mais que cinqüentenário, insistindo em coisas como o trema, e em outras que nunca levam ao paraíso.
 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Corações partidos

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Saiu do trabalho às 17h e pegou o filho na escola. Rumaram para o Cementerio de los cristianos y los otros, nome herdado dos padres jesuítas e índios guaranis que fundaram a aldeia há três séculos. Naquele dia estava fazendo 3 anos que Ana Flora tinha morrido.
 
Atravessaram a praça central sob os ipês roxos e amarelos. O sol suave de outubro dourava o ar. Manoel Henriques Soledad levava o pequeno Paulo Henriques sem pressa e em silêncio. Manoel vestia um casaco cinza com calça jeans azul-marinho e trazia na mão esquerda um arranjo de flores. O menino carregava nas costas a mochila da Escola dos Capuchinhos do Perpétuo Amanhecer.
 
Ficaram de pé diante do túmulo, olhando o retrato da falecida. A grama crescia em torno do cimento baixo.
 
Estou indo embora, Manoel Henriques. Isto aqui não é vida pra mim. Cansei desse lugar, dessa vida, de ti, de mim, não tem mais jeito. Por favor, vê se me entende. Nos últimos meses, saí com dois caras, transei com eles, sabia? É isso que queres? Vou morar com uma amiga em Porto Alegre, ela ficou de ver um emprego pra mim. Não gosto mais de transar contigo, não suporto essa casa, esse frio. Desculpa, mas é como é. Temos menos de 40 anos, podemos recomeçar a vida.
 
Mas por que isto agora, depois de 10 anos juntos? É uma crise, estás só cansada, isso vai passar. Já aconteceu antes. Vamos fazer mais coisas, viajar um pouco. Queremos um filho, uma família, lembra?

Eu quero uma vida pra mim, aventura, encontros, novos lugares. Tu és acomodado demais, vives no teu mundo, livros, emprego no correio, acampamentos com amigos. Preciso dizer outra coisa, estou grávida de três meses, não sei quem é o pai.
 
Ana Flora saiu pela porta levando duas malas. Deixou atrás de si o triste perfume da despedida. A porta ficou aberta. Um retângulo de luz iluminou as paredes e o chão do corredor. Manoel foi até o quatro, tomou 10 comprimidos pra dormir e apagou por dois dias. Acordou numa quinta-feira, de ressaca, um terrível mal-estar pelo corpo, um gosto amargo na boca. Sentou-se à mesa da sala, deitou a cabeça entre os braços. A porta ainda estava aberta. Agora chovia. Sobre a mesa havia um vaso branco com flores silvestres que ela havia arranjado.
 
Quatro anos depois, ao chegar em casa, Manoel encontrou Ana Flora sentada no sofá com uma criança no colo. Chamava-se Paulo Henriques Soledad e tinha quase quatro anos.
 
Como foi que tu entraste aqui? O que significa isso? Como pode, depois de tudo, voltar assim sem avisar, usando a chave da casa? Por favor... Eu não mereço tanto.

Não tenho muito tempo pra conversar, Manoel Henriques, estou muito mal de saúde. Vou seguir em seguida para o Hospital das Carmelitas. Cheguei ontem de Porto Alegre. No Hospital de Clínicas, disseram que seria melhor ficar num lugar tranquilo, com ar limpo. Lá não tinham mais o que fazer. Não posso passar sem morfina. Escuta, o filho é teu. Sempre foi. Tu és a única pessoa em quem confio pra cuidar do nosso filho. Estranho dizer nosso filho depois de tudo. Não era pra ser assim, era pra ser uma família. Tenho muita dor, preciso ir logo pro hospital. Vim aqui só pra te entregar o Paulinho. Desculpa pelo sofrimento que te causei. Não quero receber visitas. Toma, segura ele, cuidado. Cuidem um do outro, sejam felizes, se é que dá pra ser feliz nesse mundo. Adeus. Nunca mais se viram.
 
No dia do enterro de Ana Flora, dois meses depois, a superiora das Carmelitas entregou a Manoel um envelope. Era uma última manifestação da falecida. Pediu que ele deixasse para abrir em casa.

Manoel abriu o envelope, o coração batendo forte, a cabeça pulsando. Nunca deixou de gostar de Ana Flora.
 
Leu o documento. Foi até a janela com o papel amassado na mão.  O corpo tremia. O filho olhou para ele, chamou-o. Tudo bem, filho, tudo bem. É só o documento do túmulo da mamãe, que terei de pagar nos próximos 3 anos.  Ah, ela também disse que nos ama.
 
Diante do túmulo, Manoel arrumou o vaso com as flores singelas no centro da lápide. Fez o sinal da cruz e partiu com Paulinho. Tinham um ao outro. E o sentimento que os unia era mais forte que a desolação.
 

domingo, 18 de outubro de 2015

E se formos só nós no universo?

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 
Para alguns, é impossível não haver vida além da humana em outros lugares do universo. A imensidão do cosmos não permitiria fechar a porta para a existência de extraterrestres. Por que Deus (ou o acaso, para os não criacionistas) criaria o infinito para deleite só dos humanos? Humanos, aliás, que não têm merecimento para receber tanta bondade.

A pergunta é: e se for mesmo assim, se não houver mais ninguém em lugar nenhum? Nesse caso teremos de nos conformar e aceitar que estamos sós, os escolhidos. Seríamos, assim, o centro da vida. Os donos de tudo.

Se isso alguma vez se confirmasse, será que seríamos melhores com os outros seres vivos e com o nosso semelhante? O problema é que não podemos esperar essa resposta para adotar um comportamento digno. O mundo está se esfarelando diante de nós.

Seria altamente recomendável se cada um se levantasse amanhã mais sensível, amigável, solidário. Dotado de sentimentos capazes de fazer cessar a enorme violência com que tratamos uns aos outros e maltratamos a natureza.

Será um vexame esperar que algum alienígena do espaço venha a nos ensinar a ser melhores do que isso.

Enquanto escrevo essas inúteis linhas, faz 3 graus. Depois do dilúvio das últimas semanas, o frio polar. Acendo a lareira com restos secos de madeira recolhidos do mato. Vem calor e um cheiro bom. Fico olhando o colorido bailante das flamas. A hora é tardia. Dizer que até o fogo tem sua beleza.

Termino essa crônica domingueira com a expressão luminosa de Ítalo Calvino: do outro lado das palavras, há algo que busca sair do silêncio, busca significar por intermédio da linguagem, como dando golpes no muro de uma prisão.*

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*Mundo escrito e mundo não escrito - Artigos, conferências e entrevistas. Ítalo Calvino. pág. 114. Organização de Mario Barenghi. Tradução de Maurício Santana Dias. Companhia das Letras, São Paulo, 2015.
 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Aquarelas de vida

Jorge Adelar Finatto

Aquarela de Nathaniel Marques Guimarães, 2001

O tempo de vida de uma aquarela é pequeno, se comparado a outras técnicas de pintura. A cor e os traços vão esmaecendo aos poucos até sumir. Isso foi o que um pintor amigo me disse, referindo que se trata de uma pintura muito volúvel à passagem da bruma dos dias.

As imagens vão gradualmente desaparecendo.

As pinturas a óleo duram muito mais. Ninguém imagina, por exemplo, que a Mona Lisa, do Leonardo da Vinci, criada entre 1503 e 1517, vá se apagar um dia.

O artista que me fez essa triste revelação era um mestre aquarelista. Seu nome: Nathaniel Marques Guimarães. Falou do assunto com uma tranqüilidade que me espantou e me deu dó ao mesmo tempo. Ele amava a aquarela e a ela dedicou muitos dias de árduo trabalho. Estava conformado com o destino efêmero de sua criação. Essa humildade diante do eterno será talvez uma das virtudes dos gênios.

Acho que pressenti na sua visão a dura verdade daquilo que faço: escrever palavras em folhas de papel ou luminosa tela de computador também é trabalhar para o oblívio. As palavras vão desaparecer não por desgaste físico das letras e páginas, mas por ausência de leitores. E a posteridade, como se sabe, é uma ilusão longínqua e absurda demais para ser levada a sério.

De certa forma, fazemos aquarelas quando escrevemos. E nada devemos esperar além da alegria da criação.

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Nathaniel Marques Guimarães foi um dos grandes aquarelistas brasileiros, além de um querido amigo.
 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Que os raios não nos partam

Jorge Adelar Finatto

Imagem: site da Secretaria Nacional de Defesa Civil:
http://www.defesacivil.gov.br/desastres/recomendacoes/raio.asp
  
 
Entre os dias 7 e 9 de outubro caíram cerca de 500 mil raios no Rio Grande do Sul, conforme dados divulgados pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.* 
 
O Estado ocupa o primeiro lugar em descargas elétricas  por quilômetro quadrado no país. Isto mostra aos pessimistas que pelo menos neste tema alcançamos uma posição de destaque, não havendo razão para tanto negativismo de sua parte.
 
Trovões, chuvaradas e relâmpagos tomaram conta dos ares nas últimas duas semanas. Haja coração pra suportar tanto clarão e tanta explosão vindos dos confins dos céus. O negócio acontece de dia e de noite.

Só peço a Deus que os raios não nos partam, que passem bem longe de nossos frágeis corpos e côncavos telhados.
 
Na quinta da semana passada, estava tomando uma taça de café com leite com pão e manteiga, ao mesmo tempo em que tentava ler um livro no Café da Ausência, quando um enorme estrondo estremeceu tudo, até a mesa. O coração disparou.

Fiquei em dúvida se seria o início de uma guerra ou  de um terremoto. Felizmente, nem uma coisa nem outra. Era só um entre os 500 mil raios.
 
O tempo anda com os nervos à flor da pele.
 
Dizem os calendários que a primavera já começou neste lado do mundo. Mas não existem evidências de que isto de fato aconteceu. Na realidade, a primavera ainda não desembarcou entre nós. Resta nesta hora esconder-se dos trovões debaixo das cobertas, como na infância, e rezar.
 
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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Helena Jobim

Jorge Adelar Finatto
 
Helena Jobim

A vida das coisas pende por um fio, se te calas.
 
                                                     Helena Jobim, no poema Princípio

A morte é um negócio que não precisava nem devia existir. Pra quê? Só pra gente chorar e sofrer a perda das pessoas queridas. E passar o resto dos dias lembrando delas e sofrendo sua espessa ausência.
 
Eu carrego meus mortos num lugar secreto e luminoso dentro da alma. Ali eles estão vivos, caminham entre os campos floridos, brincam nos córregos e pontes, convivem e riem muito das bobagens da vida aqui embaixo. Agora veio juntar-se ao grupo Helena Isaura Brasileiro de Almeida Jobim, ou a Nena, como o irmão famoso a chamava. Certamente vai encantar muito a vida de todos nos Campos de Cima do Esquecimento. E reencontrará o mano Tom Jobim, que tanta falta lhe fazia.
 
Convivi por mais de 10 anos com ela e com o marido Manoel, de quem me tornei amigo também. Adorava quando eles vinham para o sul e ficavam uns dias aqui em casa. Helena tinha histórias incríveis e uma memória prodigiosa, capaz de recuperar coisas dos primeiros anos de vida. A memória dos Jobim, ela dizia.

Às vezes, à noite, ao redor da mesa e de uma garrafa de vinho, passávamos horas conversando. É claro que eu queria era escutar. Ela esteve presente em todos os momentos da vida do irmão, escutou os primeiros acordes de muitas de suas canções, como Águas de Março, no sítio da família, em Poço Fundo, região serrana do Rio de Janeiro. Viajamos, passeamos, rimos, trocamos afetos, histórias, presença.
 
Um certo dia uma doença terrível caiu sobre mim. Emocionalmente comecei a despedir-me do mundo e das pessoas. No meio da explosão, Helena ficou sabendo. Daquele dia em diante, ela e Manoel me telefonavam quase diariamente de Belo Horizonte onde viviam. Não me deixaram mais quieto e sofrido no recanto sombrio.
 
Eles me deram tanto apoio, tanto conforto, me transmitiram tamanha esperança, força e fé que eu parei de me despedir da vida. Um belo dia eu reapareci vivo na saída do longo túnel escuro.  Eles me esperavam com flores e um caloroso abraço. Muito da travessia se deveu aos dois.
 
A Helena morreu no dia 13 de setembro passado. Eu não consegui e ainda custo a encarar o fato.
 
A escritora Helena Jobim não tem o reconhecimento que merece. Escrevia com grande talento, poesia, imaginação. Além de romancista, era poeta de mão cheia (como o pai, Jorge, poeta parnasiano, amigo de Alberto de Oliveira, que lhe dedicou um poema).

Uma mulher sensível, elegante, discreta, culta, humilde, extremamente bonita. Não há rigorosamente excesso nos adjetivos. Alguém me disse que ela foi a verdadeira inspiradora da canção Garota de Ipanema. Não duvido. Nunca vi olhos como os dela, nos quais balançavam as águas azuis e claras do mar de Ipanema, do tempo em que ela e Tom eram adolescentes.
 
Pouca gente sabe das ligações dela e do irmão com o Rio Grande do Sul. O pai deles, Jorge de Oliveira Jobim, era gaúcho de São Gabriel.*
 
 "Jorge, no fim do ano vamos passar o Natal ou o Ano Novo juntos, se Deus quiser. E ele vai querer", ela me disse mais de uma vez. 

Passamos juntos festas de fim de ano e dias de inverno na serra. Deus quis que assim fosse. E foram dias de intensa claridade. Ela tinha razão, as pessoas amadas nunca desaparecem. Estão sempre no nosso coração.
 
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Republico, em memória da amiga, esta crônica.


O livro na praça
                                            Helena Jobim

Vim para Porto Alegre a convite, participar da Feira do Livro. E aqui estou, nessa terra generosa, terra de meu pai Jorge Jobim. Tornei-me filha de três cidades, e assim posso dizer que sou carioca, belo-horizontina (recebi o título com muita honra) e porto-alegrense. A Feira é uma beleza. Ocupa toda a Praça da Alfândega, onde grandes barracas brancas oferecem livros de todo o tipo. Algumas têm o teto transparente, e é muito bonito ver os jacarandás floridos enfeitarem os tetos com suas pétalas roxas.

Assim que cheguei à Feira, deparei-me com uma grande estátua do General Osório, montado a cavalo. No pedestal de pedra, uma inscrição gravada. Chamou-me muito a atenção. Tomei nota: "O dia mais feliz da minha vida seria aquele em que me dessem a notícia de que os povos civilizados comemorariam a sua confraternização queimando seus arsenais". Vem a calhar para a hora difícil que vivemos.

A Feira é uma grande festa invadindo a praça, com suas árvores antigas, gigantescas, de troncos retorcidos pelo tempo, verdadeiras esculturas. Essa paisagem, de largas sombras e bancos para descanso, sugere a leitura. O ambiente combina com reflexão e cultura. Sabiás e pardais cantam ocultos nas copas de folhagens espessas, como um pano de fundo construído de sons que nos remetem a dias felizes.

Esta é a 47ª Feira do Livro de Porto Alegre. Chegou o sol e o calor e havia tanta gente pelos largos corredores entre as barracas, que tínhamos de andar devagar, parando a cada instante para examinar os livros. Vontade de comprar tudo. Os homenageados desse evento estavam bem representados em bronze, lado a lado. Carlos Drummond de Andrade, de pé, segurando um livro como se o lesse. E bem junto dele, sentado, Mario Quintana olhava-o, absorto. Tirei retratos junto às estátuas desses dois grandes poetas, pensando em colocar depois as fotos enfeitando meu escritório.

E como foi proveitoso estar com artistas mexicanos! Escritores, roteiristas, editores. Chegavam em comitivas alegres e coloridas, representando o seu país, também homenageado este ano na Feira. Sons e imagens que nos aproximam definitivamente.

Depois de muito andar, palestrar (junto com meu amigo e poeta Jorge Finatto) e autografar "Recados da Lua", atravessei a rua e sentei-me no pequeno Café Antigo, dos anos 30, perfeitamente conservado. E nesse ambiente calmo, de frente para a praça, me dei conta de como é importante para mim o ofício de escrever.

Lá estava eu, testemunha deste importante evento, de lápis e papel na mão, registrando minhas impressões. Dentro de mim vibrava a grande festa do artista, irmanada com as pessoas mais simples que observava folheando livros de todos os tipos, de todas as cores. Poucas vezes na vida um escritor pode saborear tão de perto a avidez do leitor pelo livro, a ponto de me fazer esperançosa em prosseguir na luta com o papel em branco, na busca da sensibilidade, na entrega total aos meus leitores. E me lembro de novo de Cecília Meireles: "Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta".

Quero hoje agradecer especialmente aos e-mails de Clara e Fred. Suas palavras ajudaram-me também a acreditar na palavra escrita, como forma de melhorar o mundo.

Para se pensar:

A vida era por um momento.
Não era dada. Era emprestada.
Tudo é testamento.

Antonio Carlos Jobim


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Helena Jobim era escritora, autora, entre outros, de Antonio Carlos Jobim, Um Homem Iluminado (Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1996), Trilogia do Assombro (Editora Nova Fronteira, 1998) e Pressinto os Anjos que Me Perseguem (Editora Record, Rio de Janeiro, 2000).

Esta crônica foi escrita por Helena durante sua passagem por Porto Alegre, na Feira do Livro de 2001. Agradeço à querida amiga a autorização para publicação do texto.

Fotos: 1) Helena Jobim. Fonte: livro Antonio Carlos Jobim, Um Homem Iluminado. 2) Helena e o irmão Tom Jobim em 1945. Fonte: site oficial do Instituto Antonio Carlos Jobim: http://www.jobim.org/
Texto publicado no blog em 11 de abril, 2011.

*Maestro Antonio Brasileiro, entre o Guaíba e Ipanema:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/04/maestro-antonio-brasileiro-entre-o.html
  

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Pensar alto

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Um fato constrangedor está preocupando a intelectualidade de Passo dos Ausentes. Peidar alto, na presença de visitantes e consulentes da Biblioteca Ausentina, declarada patrimônio cultural da humanidade, é algo que o filósofo Don Sigofredo de Alcantis tem feito com desconcertante frequência, nos corredores, entre as estantes, nas saletas de estudos e entre as fileiras de mesas.
 
Como Diretor Vitalício da vetusta instituição, pelos relevantes serviços prestados ao longo de 60 anos, o pensador-mor participa assiduamente das reuniões de diretoria.  Ultimamente, durante os encontros, Don Sigofredo não se constrange em inclinar-se lateralmente na cadeira de couro, à cabeceira da mesa oblonga, emitindo uma sonora e nada agradável ventosidade que empesta o ambiente. E o faz com impressionante naturalidade.
 
Mocita de La Vega, secretária-geral da biblioteca, foi encarregada pela plêiade de intelectuais que dirigem aquela casa do saber de conversar com o Senhor Sigofredo, com a discrição e o sigilo que a situação exige, indagando-lhe coisas sobre sua alimentação, aparelho digestivo e outras questões relativas à tubulação e ao escapamento sem freio do lendário e distraído filósofo.
 
Veja, Mocita. O mínimo que um homem da minha idade e da minha condição deve se permitir é peidar sem mordaças. Ruminei as piores coisas que um ser humano pode suportar, a vida inteira, pensando ao desabrigo, a céu aberto, sem rede de proteção, em nome da filosofia e para o bem do meu semelhante; percorri largas veredas de solidão e desespero em busca de respostas que nunca encontrei. Fui movido pela sinceridade e pela vaidade.
 
Trilhei um caminho torto, inútil e pretensioso. A flatulência, a esta altura, é resultado do pensar profundo, acumulado por décadas em meu âmago. Nem isso consegui controlar com o pensamento. E nem quero. A maioria me julga sábio. Sábio...

Descarregar sem hesitações não é prova de descontrole ou fraqueza, mas de libertação. As convenções sociais não ficam bem a um homem que perseguiu a verdade e a liberdade total do ser como eu. Não as tendo encontrado, resta-me ao menos libertar, sem falsas modéstias, os ventos filosofais que me sacodem por dentro. Diga isso aos confrades. E que passem bem.
 
Diante do inusitado relato trazido por Mocita aos membros do nobre conselho, ficou decidido que, de agora em diante, as reuniões de diretoria têm de se realizar com as janelas abertas, apesar do costumeiro frio polar de Passo dos Ausentes. E Mocita foi proibida de ligar a calefação durante os encontros e conferências, pelo poder que ela tem de concentrar odores lançados inopinadamente no ar. Para evitar fatos semelhantes, ficou registrado em ata que somente Don Sigofredo de Alcantis, honorável pensador, orgulho da aldeia, tem direito ao peido ou traque, sem peias, por ocasião dos gelados eventos na casa dos livros.
 

domingo, 4 de outubro de 2015

A bússola

Jorge Adelar Finatto

photo: reprodução. o crédito será dado assim que conhecido o autor.
 
 
Um dia desses comprei uma bússola em Porto Alegre. A anterior, uma inglesa do século XIX, perdi quando o barco no qual fazia a travessia de uma corredeira, no Contraforte dos Capuchinhos, virou, e eu virei junto, perdendo vários objetos de expedição. Não me perdi no fundo das águas porque me agarrei nuns galhos de uma árvore caída  perto da margem. Deus é pai.
 
A meu lado, na loja, alguém perguntou por que eu queria uma bússola nesses tempos modernos de gps e etc. Por acaso tem medo de se perder na cidade? Nunca tinha visto a tal criatura. Tenho o inusitado dom de atrair essas entidades.
  
Depois de testar o equipamento e guardá-lo, respondi que a bússola é necessária nas minhas andanças por vales e montanhas dos Campos de Cima do Esquecimento. Sem ela, posso me perder e não encontrar o caminho de retorno, o que seria uma perda irreparável para os três leitores do blog.

Não satisfeita, a perseguinte arrematou dizendo o senhor não devia fazer essas coisas, pois não tem mais 20 anos. Cuidado para não acabar no buraco. Não tenho mais 20, cara senhora, nem 30, muito menos 40 e estou passando bem dos 50. E buraco, bem, cada um encontrará o seu um dia. Mas com a bússola eu evitei vários deles.

Em Porto Alegre também utilizo a bússola. A cidade expandiu-se. Cresceu tanto para cima, para baixo e para os lados, que já não conheço mais nada nem ninguém. Preciso do aparelho para me orientar na multidão. Isso aqui é pior do que andar no meio do mato.

Infelizmente, mesmo de bússola em punho, não encontro mais os amigos. Não tem maneira de avistar um rosto querido no turbilhão de faces anônimas. Pelo jeito, todos se mudaram de cidade. Ou fugiram, o que é mais provável, em meio à tanta violência e indiferença.

Tem dias que me sinto um fantasma por essas ruas povoadas de oblívio.