terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

A boneca de trapo

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto *
 
ERA UMA DESSAS TARDES que antecedem o outono em Passo dos Ausentes. O ar outonal nos deixa mais sensíveis. Talvez pela mudança das cores na natureza e pela queda das folhas. As seivas concentram forças, evitando qualquer desperdício. Em dias assim, é uma sorte estar vivo.
 
Enquanto atravessava a Praça da Ausência, encontrei uma boneca de trapo caída no chão. Era feita de velhos panos coloridos. Os olhos eram dois botões verdes.
 
Os cabelos, fios de lã repartidos em duas tranças. A boca, um pequeno risco vermelho, e sorria.
 
Apesar de perdida, a boneca não parecia muito triste. Carregava um leve toque de melancolia no semblante, que desapareceu quando a levantei.  Acomodei-a no banco da praça, embaixo de um salgueiro, ao lado do lago.
 
Fui embora, não sem alguma dor. No início quis levá-la comigo, dar-lhe novo lar. Mas desisti ao pensar que quem a perdeu (uma criança tudo leva a crer) voltaria para buscá-la. Seria de cortar o coração não encontrar a sua boneca de trapo.
 
Viver tem dessas coisas. Nem sempre podemos ter o que nos encanta. Nem sempre, como no outono, a vida se exalta em delicadas mutações.
 
Num dia, o céu azul nos ilumina, habitado aqui e ali por nuvens cor-de-rosa, o coração bate harmonioso. Noutro, pensamentos escuros, pesados, se espalham e a gente só imagina besteira.
 
A boneca de trapo me lembrou coisas que perdi na vida. Perdi e me conformei. Porque nada, absolutamente nada, nos pertence nesse mundo.
 
Tudo que temos é emprestado, a começar pela vida. Um dia teremos de devolver. Nada é verdadeiramente nosso.

Salvo, talvez, o meigo sorriso de uma boneca de trapo.
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*Boneca artesanal da região serrana do Rio Grande do Sul.
Texto revisto, publicado em 16 de março de 2011.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Graciliano, tanto mar

Jorge Finatto
 
Estátua de Graciliano Ramos.
Maceió. photo: jfinatto
 
PASSEI uns dias em Alagoas, quase todos na Praia do Francês. Descobri o mar mais lindo que vi até hoje. No início, achei o pessoal introvertido. Mas aos poucos, puxando conversa aqui e ali, descobri pessoas afáveis, gentis, educadas, mais reservadas que expansivas. Um lugar que pretendo voltar.
 
Entre outros motivos (além de rever o mar morno, verde e hialino), para conhecer o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga. Território de resistência e de afirmação do povo que veio da África na maldição dos navios negreiros e que aqui fundou um país. O Brasil profundo é criação do negro.
 
photo: jfinatto
 
Um dia fui até a Livraria Leitura, no Parque Shopping, em Maceió. Estava na terra do grande Graciliano Ramos e não podia deixar de comprar um livro dele. Escolhi Alexandre e outros heróis, livro de causos alagoanos contados por Graciliano. Textos escritos depois de publicados seus romances fundamentais. Obra de excelência, portanto. Graciliano, autor de Vidas Secas,  está entre os autores que mais li.
 
Em Maceió o carro percorreu a avenida à beira-mar ao longo da qual estão as belas praias da capital. Foi lá que pedi ao motorista para parar a fim de eu fotografar a estátua de Graciliano Ramos. O escritor diante do mar verde-azulado sem fim. Sem fim como o espírito, o engenho e a arte do velho Graça.
 
 photo: jfinatto
 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Saudade do mar

Jorge Finatto
 
Praia do Francês. photo: jfinatto
 
O MAR, sempre ele, leva o pensamento longe, muito longe, muito além da África que está em frente, basta seguir sobre uma linha reta e ela nos levará direto para uma praia africana. Aqui da Praia do Francês, em Alagoas, esta proximidade da Mãe Terra África é ainda maior do que no Rio Grande do Sul.
 
O azul desse mar que ora é verde chega a doer nos olhos. Caminhando, vemos os peixes e a areia a nossos pés, tudo muito claro, ensolarado. Água morna e transparente,  boa de se deitar nela e ficar olhando o céu, uns poucos brancos retalhos de nuvem sobre o azul.
 
Praia do Francês. photo: jfinatto
 
Infinito lá e cá no mar. Parece que esses momentos nunca terão fim. Decerto nunca terão. Porque isso tudo foi feito para viver e brilhar. Para deleite de Deus e nosso.
 
Daqui alguns dias virá outra viagem, frio, neve, caminhos molhados, mala nas costas, trem. Perambular noutras querências. De querência em querência, a vida pulsando, mundo grande, maior do que os nossos sonhos. Coração batendo diante de tanta beleza.
 
Praia do Francês. photo: jfinatto
 
photo: jfinatto
 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

La donna è cieca, lei vede tutto

Jorge Finatto
 
 

A MULHER é cega, ela vê tudo. Com visão diferente: se o mundo das aparências lhe foge, ela toca o chão com a bengala e apalpa os corpos e objetos para decifrá-los. Contudo, o mundo abissal dos corações lhe é familiar. Ela transita pela intimidade das coisas.

Estou falando de Emma, personagem do belo filme italiano A cor escondida das coisas (Il colore nascosto delle cose), que no Brasil levou o título Emma e as cores da vida, de 2017, dirigido por Silvio Soldini. Com excelentes desempenhos de Valeria Golino (Emma) e Adriano Giannini (Teo).

Nada é fácil na vida de Emma. A duras penas teve de orientar-se no mundo sem luz, desde que, ainda menina, perdeu a visão. Habitou grandes soledades, desenvolveu com paciência e obstinação a ciência de resolver-se sozinha. Multiplicou-se em intuição e percepção. É osteopata de ofício.

Teo e Emma

Mas é sobretudo vidente, do tipo que vê com o cérebro e com o coração. Sim, desse tipo de gente de que o planeta está quase vazio. Por estar aberta ao encontro e ao amor, acaba por encontrá-lo. Justo no seu caso.

Comovente ver sua disposição em direção à amizade, ao afeto, à beleza, sem coitadismo. Ela quer, mas sem desespero, sem que o outro entre na sua vida e faça o que bem quiser. Ela quer, ela pode ser independente contra todas as dificuldades que sua condição impõe.

Com simplicidade e sabedoria, Emma abre portas e janelas na escuridão de todos os dias. Para si e para os outros.
 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Borges e Rilke

Jorge Finatto
 
cidadezinha de Sierre, Suíça. photo: jfinatto
 
Nossos nadas pouco diferem; é trivial e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios, e eu seu redator.* 
   Jorge Luis Borges
 
Faz algum tempo estive em Sierre, no Cantão do Valais, Suíça, para visitar o pequeno Castelo de Muzot onde viveu o poeta Rainer Maria Rilke entre 1921 e 1926. Nele o poeta concluiu as Elegias de Duíno, além de construir a parte final de sua obra.
 
Visitei também a fundação que leva seu nome na cidade. Depois fui a Rarogne à procura do túmulo do poeta. Uma visita afetiva como quem procura um velho parente a quem só se conhece em fotografia. Esse parentesco espiritual que se estabelece entre poetas e leitores. Já escrevi sobre detalhes curiosos desta visita aqui no blog.
 
Em ambos os lugares não havia viv'alma além de mim. Em Rarogne, além das ruas vazias e do silêncio,  nevava. Quase dava para ouvir os flocos escorregando no ar, caindo sobre a tarde. Na metade da montanha alpina, estava o túmulo, no chão, solitariamente posicionado ao lado de uma igreja, distante dos outros túmulos do cemitério interiorano.
 
Dali se avista o vale entre as enormes montanhas cobertas de neve em direção a um infinito horizonte cósmico. Não por acaso o próprio Rilke escolheu aquele lugar para última morada quando descobriu que estava com leucemia.
 
Em Genebra pensei visitar o Cimetière Plainpalais onde se encontra o túmulo de Borges.  Mas desisti. Creio que esgotei minha capacidade de ir a cemitérios-museus depois do Père-Lachaise, em Paris, do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, e desse pequenino de Rarogne.
 
Talvez porque Borges esteja ainda muito vivo na sua Buenos Aires, e é fácil encontrá-lo nas calles e bibliotecas do mundo.
 
O fato é que ambos estão demasiado vivos nos livros que escreveram. Nenhum deles poderá queixar-se da posteridade que parece tratá-los muito bem, obrigado, dispensando-lhes carinho semelhante aos que possuem Dante, Shakespeare, Pessoa, Eliot, Bandeira, Frost, Bashô, Drummond e outros mortos imortais.
 
Quanto a mim, acho que já estou um pouco gasto pelo tempo para ficar visitando cemitérios, sendo recomendável deles manter esperta distância. Atento à máxima que nos diz: "quem não é visto não é lembrado".
 
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Primeira poesia. Jorge Luis Borges. pág. 15. Tradução de Josely Vianna Baptista. Companhia das Letras, São Paulo, 2007.
 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Hay vida antes de la muerte?

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto
 
 
EM MONTEVIDÉU, os grafites, em geral, têm espírito. As inscrições, desenhos e pinturas em muros e fachadas das ruas montevideanas não perdoam a superficialidade. Uma vez lidos, não deixam o caminhante em paz.
 
Pressentindo que seria um absurdo virar as costas e seguir indiferente, resolvi fotografar e trazer comigo alguns. Na ocasião, eu andava caminhando nas cercanias do Teatro Solis.

Vejam este: Hay vida antes de la muerte?

A pergunta me acompanha desde então, veio com a bagagem de volta a Passo dos Ausentes.
 
Não bastassem as perplexidades e angústias de sempre, acrescentei mais esta ao meu baú de assombros.

Afinal, haverá mesmo vida antes da morte ou seremos apenas tristes fantoches com a boca colorida e olhos opacos, às voltas com o sofrimento, a indiferença, o desamparo, o desamor e a solidão?

O que sei é que há dias em que me sinto muito vivo. Parece que a morte ainda não foi inventada. Em outros, contudo, viver parece não valer um caco.

Hay vida antes de la muerte?
 
Sí, sí, sí. Pero, hay días que es mejor olvidar....
 
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Texto atualizado, publicado antes em 14 de junho, 2011.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A dureza da lei e o intérprete juiz

Jorge Finatto
 
Dura lei, mas lei. Este brocardo é curto, mas em compensação não presta. A vida em si mesma já é tão dura que eu acho um exagero de mau gosto fazê-la ainda mais dura com a dureza da lei.¹
            
ESTA FRASE é da crônica "Crime de casar", escrita por Rubem Braga (1913-1990) para o jornal Folha da Tarde, de Porto Alegre, em 1939. Penso que todo juiz, ou candidato a, devia lê-la. Suscita questões importantes em torno da aplicação da lei. É uma reflexão construtiva, sutil, bem-humorada, irônica, que vem em proveito da difícil arte de julgar.
 
Acredito, como o notável cronista de Cachoeiro de Itapemirim, que a aplicação fria da lei mais escurece do que ilumina. O que é a aplicação fria? É a desconsideração do fator humano.
 
O julgador precisa considerar as circunstâncias pessoais do indivíduo e do meio que o cerca. Estamos falando de processos onde isso tem relevância, não em demandas em que a realidade objetiva se sobrepõe, como quando se discute, por exemplo, matéria técnica de natureza tributária.
 
Mas nas ações que envolvem sentimentos, o estudo e a decisão devem ir além da obviedade da regra jurídica. É necessário aprofundar o exame daquilo que a aparência muitas vezes esconde. Evidente que há uma zona cinzenta em que não é fácil fazer esta avaliação. O desafio é justamente não desistir.

Lá em cima, além, muito além da estratosfera, como diria Alencar, na região puríssima da moral absoluta, faz frio demais, e falta pressão: falta pressão sentimental. A vida humana não é possível sem uma certa pressão.²
  
A aplicação humana da lei é pressuposto essencial para fazer justiça no caso concreto, o que contribui para o aperfeiçoamento da vida em sociedade. Ninguém vive no interior de um laboratório asséptico livre de vicissitudes e imperfeições. Não significa negar validade à norma (salvo quando inaplicável ou inconstitucional), mas operar com lucidez sobre o tecido dos fatos.

A lei deve vir ao mundo real, freqüentar o ambiente humano.

A lei é uma moldura indispensável para a convivência social. O trabalho do juiz consiste em temperar a dureza da lei, sua abstração ideal, com os matizes da vida.

Na verdade, sinto que fiz muito bem em não querer ser juiz. Como simples cidadão, sou respeitador das leis: se fosse juiz, num caso desses, eu a desrespeitaria. E antes ser um bom sujeito que um mau juiz, penso eu.³
 
Se julgar fosse tão só aplicar glacialmente o regramento legal, não precisaria haver juiz. Um computador poderia fazer melhor o serviço e de forma infinitamente mais rápida e barata. Mas isto, por óbvio, não seria fazer justiça.
 
O que se espera do juiz, no ato de julgar, é que concilie conhecimento jurídico e técnica com sensibilidade e humanismo. Diante disso, discordo do mestre Rubem Braga: creio que teria sido um grande juiz.
________
 
¹ Morro do Isolamento. Rubem Braga. Crônica "Crime de casar", pp. 55/57. Global Editora, 7ª edição. São Paulo, 2018.
² idem, p. 56.
³ idem, p. 57.
 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Notícia do jardim

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

O FATO DIGNO de humilde celebração, neste último dia de 2018, é que sou um homem que tem um jardim. Um jardim que explodiu em flores.
 
O sol de primavera e início de verão foi gentil. Não secou as flores como em anos anteriores. Nunca vi as hortênsias tão cheias de vida e cor. E também as rosas, os jasmins, as flores de mel, as buganvílias, as bolas azuis, e até umas magnólias fora de época, além de outras cujos nomes não sei.
 
Ver o jardim com este vigor anima a alma. À tardinha sento no banco de madeira e fico a admirar as criaturas florais. Respiro seus aromas, cores e pétalas.
 
Caminho entre xaxins e araucárias, cedros, caneleiras, plátanos, palmeiras e uma linda e tenra bananeira que me lembra o poeta Bashô. E quando o sol começa cair atrás das montanhas, os primeiros vagalumes salpicam o ar com suas lanternas de lume intermitente.
 
Para não dizer que não falei augúrio, espero que venham muitas luzes em 2019. E que, ao lado de assuntos sérios e aborrecidos, nosso espírito encontre ocasião de falar de flores, jardins e vagalumes. E, acima de tudo, tenhamos tempo para cultivar amor com nossas famílias e amigos. Deus seja com todos.
 

sábado, 29 de dezembro de 2018

Vive-se

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

VIVE-SE. Do jeito que dá. Às vezes, até mesmo sem nenhum jeito.
 
Porque a única coisa realmente urgente e importante é manter-se respirando. O resto é o que vem depois. E o que vem é neblinoso, se administra. Ou não.
 
Convivemos com a dor, com a falta de amor, de encanto, de beleza, de dinheiro, com a eterna falta de sentido da existência. Enquanto isso, vive-se.
 
Vive-se em Porto Alegre, em Paris, em Sierre, em Lisboa, em Cacique Doble. Vive-se no silêncio de Rarogne e de Passo dos Ausentes. Vive-se à beira do Arroio Tega e nas cercanias do Castelo de Muzot.

Vive-se em toda parte. Principalmente, no fim do mundo.

Vive-se em secreto e em surdina, com raros, impossíveis amigos. Mas vive-se.

Vive-se apesar da corrupção que assola o Brasil e destrói tudo o que se tenta construir e até o que não se construiu, como a floresta Amazônica e a Mata Atlântica.
 
O mais que se faz é viver. De janeiro a janeiro. Com sol e com chuva. Com alhos e bugalhos. Vive-se.

Fique calmo, a realidade não merece o teu suicídio.

Vive-se na sexta, no sábado e, eventualmente, no domingo. Segunda é um enigma que nem a filosofia, nem a poesia, nem a astrologia e muito menos a quiromancia conseguem resolver. Mas o fato é que se vive.
 
Vive-se apesar do lixo nas ruas, do odor nauseante de combustível queimado, do esgoto escorrendo impune para o rio.

Vive-se em que pese o triste, insuportável e persistente racismo.

Vive-se olhando os navios que fogem para o mar.
 
Vive-se diante do olhar atônito das crianças abandonadas.

Vive-se a nostalgia das casas sem eletricidade.
 
Vive-se sem embargo dos livros não lidos. Vive-se não obstante todos os livros lidos.

Vive-se com as folhas secas do outono nos bolsos do antigo casaco.

Vive-se sem nada a perder e mesmo depois de perder tudo.
 
Vive-se sabendo que nunca mais se encontrará aquela mulher para pedir-lhe um olhar, um abraço.
 
Vive-se de mal a pior, sem eira nem beira.

Vive-se apesar dos mortos nos olhando dos velhos retratos, e dos lugares vazios à mesa.

Vive-se a vida invisível dos anônimos, dos solitários, dos desmemoriados.

Vive-se de improviso, sem ensaio, uma única vez, com o coração doendo no peito. Mas vive-se.
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Texto revisto, publicado antes em 16 de novembro, 2014.
 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Um certo Terêncio Horto

Jorge Finatto

O escritor Terêncio Horto.* Autor: André Dahmer


O ESCRITOR DESCONHECIDO, frustrado, amargurado e massacrado pela indiferença em torno de seu trabalho certamente encontrará um aliado na figura incansável e batalhadora de Terêncio Horto. Ele é a prova viva de que um autor não deve desistir jamais da luta diante da folha em branco e do pouco caso de editores e leitores.
 
Nós, esforçadas criaturas que escrevem em solitários cubículos, formamos uma invisível e numerosa família. Com poucas exceções, vivemos confinados na caverna do anonimato. Mas somos teimosos, nada de desespero. Pelejamos mesmo nas piores condições. A dura lida nos constrói.

Olhemos o exemplo do irmão Terêncio. Lá na sua clausura, qual isolado monge sentado diante da velha máquina de datilografia, ele não se entrega ao fracasso; luta de sol a sol, nuvem a nuvem, quadrinho após quadrinho, para dar ao mundo os frutos suculentos do seu duro ofício.

O Senhor Horto e seu amigo imaginário. Autor: André Dahmer
 
Terêncio Horto é desses assinalados pelas musas e pela tragédia de escolher a escrita num ambiente grosseiro e de poucas luzes como o nosso. Alcançou algum reconhecimento, mas não perdeu a rebeldia. Faz parte de uma geração de escritores em vias de extinção. A esmagadora maioria deles passou a vida sem ser notada pelos leitores, pela crítica, pela mídia e pelos vizinhos dos prédios onde moram. Nunca receberão jabutis, quatis, sagüis, sambaquis e outros importantes galardões literários nacionais. Entanto, lutam a terrível luta de trazer à luz as páginas fadadas ao fundo sombrio de injustas gavetas. 
 
Não apenas escreve bem o Senhor Horto; possui notável poder de observação (notaram o ponto-e-vírgula ali atrás? isto é estilo, senhores!). A sua visão de mundo está impregnada do caos da vida com seus intervalos (raros) de poesia e humanismo. Os temas são os mais diversos, desde remotas (e dolorosas) memórias de infância até intrincadas questões de fundo filosófico e outras, não menos tormentosas, inerentes às relações humanas. Nada escapa de sua pluma corajosa e vertical: internet, brigas de família, humilhações, desilusões, sexo, cultura, cinismo, encontros marcantes e alguns nem tanto, amizade, amor, cumplicidade, arte, literatura.
 
O Senhor Horto. Autor: André Dahmer
 
Horto não poupa a si nem ao restante da humanidade de sua ironia e de seu humor corrosivo. Porém, não perde de vista certa dose de ternura e empatia diante da tragicomédia da existência.

O escritor Horto. Autor: André Dahmer
 
Li com prazer e sentimento de vingança este Vida e Obra de Terêncio Horto, e me reconheci em muitas de suas páginas. O livro já faz parte do meu manual de sobrevivência na selva literária. De forma direta injeta ar fresco e claridade no ambiente de boçalidade do mundo das letras e das artes, além de aliviar a barra pesadíssima do cotidiano. Só resta agradecer ao quadrinista e escritor André Dahmer por nos ter revelado esse grande autor e pensador brasileiro. Com especial destaque, também, para as ótimas ilustrações.

O escritor Horto. Autor: André Dahmer
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*Vida e obra de Terêncio Horto. André Dahmer. Ilustrações do autor. Editora Schwarcz S.A., São Paulo, 2014.
 
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Texto revisto, publicado antes em 16.10.2017
 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

O nascimento da Luz

Jorge Finatto
 
Madonna and Child. Maria e Jesus.
Autor: Rafael Sanzio, 1508
 
 
DESEJO AOS AMIGOS do blog um Natal em paz com a família, os amigos e entre os estranhos caso estejam longe de casa. Aos que estão sós e tristes, que não se deixem levar pela solidão e pela tristeza, que o Natal é o nascimento da Grande Luz que nos fala de irmandade, bondade, perdão, solidariedade e alegria de viver. Tudo isto nos trouxe Jesus Cristo com seu nascimento. Saúde a todos. 
 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Partir ou ficar

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

2018 foi um dos anos mais difíceis. Acredito que a maioria dos brasileiros está exausta com tudo que se passou de ruim nos últimos tempos. Milhares foram embora e tantos outros continuam indo todos os dias em busca de uma vida melhor em outro país.

A sensação que se tem é de que não há saída nessa escuridão. E a vida não acontece no futuro, mas hoje, agora. É preciso tomar decisões, comer, vestir, sustentar filhos, buscar um lugar ao sol, ser um pouco feliz. E o nosso país, infelizmente, só tem produzido sombra na vida das pessoas.
 
Ninguém mais suporta notícias de corrupção e gestão ruinosa. O Brasil virou o país do não, principalmente do não à esperança. Há um imenso cansaço.
 
Seu eu fosse jovem, possivelmente buscaria outros horizontes. Entendo a busca dessas pessoas. Mas mudar de país não deixa de ser um salto no escuro. O mundo todo está em convulsão. As crises humanitárias ocorrem em diferentes partes, são milhões à procura de um lar, de um trabalho, de paz para viver. Por outro lado, aumenta a xenofobia nas nações mais desenvolvidas.
 
Seja como for, nem todos podem recorrer ao aeroporto para resolver suas vidas. A maior parte da população terá de tentar melhorar as coisas aqui mesmo, cobrando honestidade, competência e medidas concretas daqueles que assumirão o governo a partir de 1º de janeiro de 2019.

Se o novo governo for honesto como se espera, os problemas mais graves serão resolvidos. Mas mudar o Brasil não é tarefa para um só homem ou para um só governo.
 
Tornar o país um lugar para todos e não para poucos privilegiados é trabalho enorme pela frente. Começa pela cabeça de cada um, pelo próprio coração. Mudando maus hábitos e maus sentimentos. Respeitar as leis, cumprir as obrigações, sem "jeitinho" ou embustes, olhar o próximo como irmão e não como inimigo... Quem sabe não é assim que construiremos um lugar decente para viver. 
  

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Os últimos mistérios do mundo

Filipe Penaverde

túmulo de Rilke em Rarogne, Suíça. photo: jfinatto

Iniciamos hoje a publicação da coluna "Os últimos mistérios do mundo" do senhor Filipe Penaverde. O blog não se responsabiliza por opiniões estapafúrdias do escritor ausentino.


EU TAMBÉM já fui escritor mimoso, eu também já fui candidato ao Prêmio Nobel. Os meus dois leitores amontoavam-se com sofreguidão na porta da única livraria de Passo dos Ausentes, disputando cada novo livro de versos com meu nome estampado na capa.

Naqueles quandos eu tinha de reservar um dia inteiro na semana para atender a insaciáveis jornalistas do Correio Ausentino e da Rádio Ausência.

Esgotado com a faina literária, viajava a Paris. Da janela do meu humilde estúdio, avistava os barcos que iam e vinham pelo Sena enquanto centenas de flashes fustigavam meus olhos exaustos de tanto frenesi em torno de minha obra.

Os sinos de Notre-Dame feriam de melancolia meus moucos ouvidos.

Os convites para jantares e palestras pseudo artístico-intelectuais acumulavam-se sobre minha escrivaninha sem que pudesse atendê-los. A vida social e cultural de um escritor bem sucedido é fatigante na Cidade Luz.

Um dia cansei da celebridade. Retirei oficialmente a candidatura a Nobel de Literatura. Dizem que houve frisson na Academia Sueca. Esses suecos sempre tão suscetíveis.

Hoje vivo na pasmaceira de Passo dos Ausentes. Ninguém me procura e, se procura, não me acha. Desisti da vida literária. Só me importam os livros e os versos que construo em surdina. Passo maior parte do tempo na mansarda. Vivo esse entrementes na casa do entretanto.

Converso com meus fantasmas conversas de antigamente. Falares de tempos mortos.

O que mais sinto é falta de Cléria, não vou negar. Ela sumiu no mundo cansada de me esperar das noitadas de autógrafos. Dizem que foi viver em Rarogne, aquilo sim um fim de mundo onde o gato perdeu as botas. Dizem que passa as tardes lendo poemas de Rilke, sepultado ali ao pé da igrejinha.

Eu aqui, em osso e carne, nesses confins, sem Nobel, sem Paris, olhando a vida da mansarda. Esperando a volta de Cléria. Enquanto ela me trai com o fantasma sedutor de Rilke.

A vida é uma esculhambação.
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Filipe Penaverde é poeta e secretário da Sociedade Literária, Filosófica, Artística, Histórica, Geográfica, Astronômica, Antropológica, Musical e Antropofágica de Passo dos Ausentes. Ex-candidato ao Prêmio Nobel.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Éramos eternos e perfeitos

Jorge Finatto
photo: jfinatto


ÉRAMOS ETERNOS e perfeitos até que o previsível aconteceu: nossos arquiavós, dona Eva e seu Adão, foram convidados a retirar-se do Paraíso. 

Descumpriram o acordo, comeram do fruto da árvore do conhecimento. Foram expulsos do Jardim do Éden onde viviam com toda a mordomia. 

Graças ao mau gênio de ambos, deu no que deu, carregamos a condena até hoje. E pior pra nós: o Arquiteto dos Destinos nos fez nascer aqui no Brasil.

Vivemos com uma mão na frente, outra atrás, sem eira nem beira, nessa Tristíssima República.  Muita é a dor, e pouca é a paz. Acho que está na hora de fazer as pazes com o Criador pra ver se pelo menos diminuímos esta quizumba, que a coisa tá insuportável. 

Ninguém agüenta mais o cheiro de enxofre.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Um futuro agora para o Brasil

Jorge Finatto

photo: jfinatto

 
O EFEITO mais perverso e doloroso da crise ética que assola o Brasil é o abandono do nosso maior capital como nação: as crianças e os adolescentes. Tal se materializa na permanente falta de creches para os filhos enquanto pais e mães (principalmente) trabalham (aqueles que ainda têm onde trabalhar). E nas famílias destroçadas pelo desemprego, com suas terríveis conseqüências.
 
O que se vê são crianças sozinhas a maior parte do dia, às vezes entregues aos cuidados de irmãos "mais velhos", também eles crianças. Muitas vezes vivendo em circunstâncias onde só a mão de Deus pode livrá-las do pior.
 
A grande herança da corrupção sem limites que invadiu o país, à esquerda e à direita, são gerações de meninos e meninas atônitos, feridos, famintos por comida e atenção, desorientados, desiludidos e, o pior, sem esperança.

Essa a face mais cruel, a lágrima que não seca.
 
A reconstrução do Brasil deve começar por esses milhões de seres invisíveis. É preciso que o Estado vá às comunidades com serviços essenciais, boas creches, saúde, esportes, além de implementar por todo o país, sem mais demora, os Centros Integrados de Educação Pública, idealizados pelo antropólogo Darcy Ribeiro.

Só a partir de então poderemos falar num futuro para o Brasil. Um futuro que não pode mais esperar. 
 

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A hora do farelo

Jorge Finatto

photo: jfinatto


ENQUANTO FILÓSOFOS desvelam(?) os insondáveis mistérios da condição humana, eu espero pelo pinhão cozido na chapa do fogão a lenha. A noite de inverno pulsa ao som dos Noturnos de Chopin.

O vento roça o telhado e as janelas do velho sobrado. A estrela cadente desapareceu atrás das montanhas, eu a vi cair para os lados do vale.
 
Esta é a hora imprópria, do farelo.
 
Observo o canto inumerável da vida. O tempo é curto pra conhecer, sentir tanta coisa.
 
Existe, na revelação do farelo, o sentimento de que faltam mais encontros com os amigos, mais conversas nos cafés, caminhadas de mãos dadas. Faltam mais corações à solta. E mais tempo pra ficar com as pessoas que amamos. Há um excesso intolerável de realidade.

A calada da noite impõe austeridades. Ermos são os caminhos da hora do farelo. As folhas secas do tempo caem em volta da hora nua.
 
A beleza da vida está no voo de borboleta, no passo da joaninha.

A hora do farelo traz a vontade de visitar o ínfimo, atravessar o desconhecido.
 
Se um anjo surgisse dizendo que o meu tempo não foi em vão…
 
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Texto revisto, publicado em 8 de março de 2010.
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A biblioteca de cada um

Jorge Finatto

Hermann Hesse*
 
Um dos melhores livros que li sobre livros e leitura - talvez o melhor  deles - é este Uma biblioteca da literatura universal¹, do escritor suíço-alemão Hermann Hesse (1877-1962), Prêmio Nobel em 1946. Encontrei-o no início deste ano, em Lisboa, garimpando estantes da Livraria Fnac no bairro Amoreiras. Editado pela Cavalo de Ferro, de Portugal, com tradução de Virgilio Tenreiro Viseu, é a primeira versão em língua portuguesa.
 
Trata de questões que afligem leitores que, como eu, se sentem pequenos diante de intermináveis bibliotecas e da "obrigação" de ler certos livros, imposta por discutíveis cânones , "autoridades no assunto" e confrarias. Isso nada tem a ver com a paixão pelos livros e o amor pela leitura.
 
Herman Hesse nos liberta das relações de "imperdíveis", daquelas obras que "ninguém pode deixar de ler" pena de virar um asno. A sabedoria vem de um homem que lutou pelo autoconhecimento e contra as inúmeras amarras sociais que sufocam o crescimento espiritual das pessoas. Escritor abençoado pelo reconhecimento ainda em vida, escreveu livros notáveis como O lobo da estepe e O jogo das contas de vidro. Inspirou várias gerações com seu comportamento libertário.
 
"Não existem cem ou mil 'livros mais belos', há, para cada indivíduo, uma escolha particular baseada naquilo que lhe é afim e compreensível, caro e precioso. Por isso, é impossível constituir uma boa biblioteca sob encomenda; cada um de nós deve seguir as suas próprias exigências e preferências, e criar, pouco a pouco, uma coleção de livros, da mesma forma que se criam amizades. Então, uma pequena coleção poderá para o leitor significar o mundo inteiro. Os leitores verdadeiramente bons foram sempre aqueles cujas exigências se restringiram a pouquíssimos livros; uma simples camponesa, que não possui nem conhece nada além da Bíblia, leu-a mais a fundo e extraiu dela uma maior soma de saber, de conforto e de alegria do que um qualquer ricaço mimado poderá alguma vez obter da sua luxuosa biblioteca."²

A lucidez e a humildade do escritor diante do fenômeno literário nos ajudam a espantar fantasmas de autores e livros não lidos. Ele nos ensina que o que vale  é o prazer da descoberta literária e a felicidade que nos desperta.

Que livros são essenciais? Aqueles que vamos encontrando pelo caminho aqui e ali e elegemos como companheiros de viagem pelo bem que nos fazem. O afeto é o único critério que liga o leitor e o livro escolhido. Se é amor, não pode ser imposto, determinado por duvidosos "donos do saber". Não importa a quantidade de livros lidos, mas a qualidade do que nos passam e nos acrescentam em consciência.

Não existe, portanto, uma lista pronta e universal. Os cânones são referências que passam pela subjetividade, pelas necessidades, idiossincrasias e interesses de quem os elabora.

Em suma, cada um deve construir a própria biblioteca com os gostos, expectativas, desejos e informações que o orientam. Tendo-se clareza de que, qualquer que seja o caminho percorrido, jamais se poderá ler tudo que se escreveu de bom nos diversos gêneros, culturas, países e línguas. Sabendo-se, também, que haverá sempre no ato civilizado da leitura um tanto de esforço e de superação, mas sem automutilação.

O próprio Hesse, que afirma ter lido cerca de dez mil livros, sabia que muita coisa boa e valiosa tinha ficado fora de seu radar de leitor atento. Por exemplo, creio que dificilmente terá lido o nosso extraordinário Guimarães Rosa ou o uruguaio Juan José Morosoli, seja pela falta de edições disponíveis onde vivia, seja pela barreira do idioma, seja por nunca ter tido oportunidade de conhecer estes escritores.

Existe sempre um mundo de livros por descobrir.

Tratando-se de construção pessoal, íntima, e que encontra limites em nossos limites de tempo, dinheiro e outras circunstâncias existenciais, criemos com carinho nossas pequenas bibliotecas caseiras. Nelas poderão faltar muitos livros que por certo nos encantariam. Só não faltará amor.

"A venerável pinacoteca da literatura universal está aberta a todos os homens de boa vontade, ninguém se deve deixar intimidar pela sua riqueza, porque aquilo que conta não é a quantidade. Há leitores que, durante uma vida inteira, se limitam a ler uma dúzia de livros e que são, no entanto, verdadeiros leitores. E há outros que devoraram tudo e que sabem falar de tudo e, não obstante, os seus esforços foram vãos. (...) A leitura sem amor, o saber sem reverência e a cultura sem coração estão entre os piores pecados que se podem cometer contra o espírito."³
 
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¹ Uma biblioteca da literatura universal. Hermann Hesse. Editora Cavalo de Ferro, 2ª edição. Amadora, Portugal, fevereiro de 2018.
² Idem, p. 53.
³ Idem, pp. 12,13.
* O crédito será registrado assim que conhecida a autoria da foto.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O réquiem pode esperar

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 

ESTAVA me preparando pra subir na esteira quando tocou o telefone. Do outro lado um indivíduo disse que gostaria de falar com o senhor Jorge.
 
- Pois não, sou eu.
- Boa tarde, tudo bem com o senhor?
- Tudo bem.
- Estou ligando pra falar sobre cremação. Temos um plano pra lhe oferecer.
- Como?
- Sim, temos ótimas condições. Eu vou lhe apresentar...
- Não, não, há um engano.
- O senhor não é o Jorge?
- Sou, mas não tenho a menor intenção de morrer, ao menos não por agora. O dia está lindo. Olhe esse céu azul de primavera de Porto Alegre. Dá ganas de viver pra sempre. Ninguém pensa em morrer. Quem foi que lhe deu meu telefone?
- Creio que um conhecido seu indicou.
- Muy amigo... Mas, de fato, não pretendo pensar em morte agora.
- Não, claro, não é isso, mas é uma coisa que pode acontecer, é bom se prevenir, deixar tudo organizado.
- Não, não, eu agradeço. O que eu quero hoje, neste instante, é fazer a minha ginástica, andar na esteira, relaxar, suar, durante uma hora ou mais. Eu quero respirar. Só isso, nada menos do que isso. Nada de antecipar a preocupação com a morte.
- Ah, sim, claro. Está bem. Conversamos em outra ocasião. Desejo-lhe muita saúde, muito obrigado. 

- É isso o que eu mais quero. Tudo de bom. Boa tarde.
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Meu sabiá

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

 
SÃO CINCO HORAS da manhã. Está chovendo. Escuto os pingos batendo no telhado. Estive até agora fazendo coisas, bicho da madrugada, lavei a louça da noite, depois li, fiz café, li, ouvi rádio, li, caminhei no escritório, li. Chove.
 
Sábado, 24 de novembro, 2018. Passo dos Ausentes. Vagamente iluminada pelos lampiões de luz nas esquinas mergulhados na neblina. O sabiá canta no quintal. Não sei como se defende da chuva, se é que o faz. É o meu sabiá.
 
De dia encontro-o no pátio andando com passo miúdo. É um sabiá comum e discreto. Escolheu viver no meu quintal que tem xaxins, roseiras, orquídeas, pinheiros, jasmins, flores de mel e mais.
 
Acho que ele fez ninho numa árvore perto da velha carroça no jardim. Ou talvez no desvão do sótão. É um inquilino querido. Inquilino, não. Habitante da casa e do quintal como eu. 
 
Provisórios, circunstanciais. Mas cantamos.
 

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Seco

Jorge Finatto

photo: j.finatto



SECOS PÁSSAROS dormem em ressequidos ninhos. Secas folhas de plátano se agitam contra o azul. Manhã silenciosa, bailarina morta na caixa de música, seca. Enferrujado relógio de parede, retratos na gaveta, tudo seco.

Secas lágrimas na face do vento.

Coração seco, boca seca, mãos secas. Secas palavras. Secas pétalas de camélia vermelha dispersas no chão. Secos dedos dedilham secas cordas de violino. Seco, seco.

Secos abraços unem os amantes. Secas velas movem as faluas do Tejo.

Secos olhos olham o pôr-do-sol no Guaíba. Secos, secos.

Secos homens invadiram as ruas da cidade, cometeram tristes barbaridades.

O milharal, tão seco, pegou fogo.

Sentimento e pensamento, secos. O sexo, sem ternura, seco, seco. As páginas do livro de poemas por escrever, secas, secas.

Seco olhar observa no fundo do espelho.

A esperança, um rio seco dentro do coração, talvez volte como a chuva depois do calcinado estio.
 
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Texto revisto, publicado em 23, maio, 2011.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Fora do poema tudo é caos

Jorge Finatto 
 
photo: j.finatto
 
 
Esta frase - FORA DO POEMA TUDO É CAOS - me saiu numa entrevista* ao jornal Zero Hora, de 1984, tendo como entrevistador o jornalista Danilo Ucha. Naquela época  ainda se entrevistavam poetas da aldeia na imprensa local.

Os meios de comunicação se expandiram, mas os espaços para divulgação de arte e literatura, fora do interesse estritamente comercial, diminuíram tanto que tenho dúvida se existem hoje entre nós.

A entrevista versava sobre o lançamento do meu livro Claridade, de poemas, selecionado para publicação dentro do Plano Editorial de 1983, da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Porto Alegre.

Consta, na abertura da matéria, que o autor era um jovem jornalista e poeta de 27 anos. Custo acreditar que já tive essa idade.

O tempo passa, a gente fica mais perdido, mas certas verdades permanecem. Está escrito que o poeta (aquele jovem poeta de 27) estava angustiado e perplexo "diante de uma realidade maluca, atrasada e violenta como a brasileira".

Também está dito que os poemas falavam de uma pessoa que "experimentou na consciência e na pele a dolorosa sensação de viver uma realidade sem perspectivas. Onde o indivíduo se sente arrastado pela opressão e sonhar é quase proibido. Onde viver se tornou a maior transgressão".

Nos poemas, apesar disso, "constata-se a convivência mais harmoniosa entre linguagem e vida. O mundo silencioso onde o real e o imaginário caminham juntos. Há uma integração profunda com a aventura humana. A palavra não salvará o homem, mas será sua projeção e seu espelho. Uma espécie de testemunha de seu próprio destino".

O poeta "trabalha com o poema numa região de luz, sem concessões ao desespero e à morte, acredita na força das coisas belas, na energia positiva das pessoas capaz de gerar zonas de intensa verdade e esperança.

"A fé na existência e no amor sobressai-se como o caminho destinado a vencer o escuro e a dor. O poder transcendente da vida sobre a morte, através da dimensão do amor, transforma e eleva".

Conclui o bardo de 27: "Nunca fiz literatura pelo simples prazer de escrever, ela surgiu na minha vida como uma necessidade inarredável, quase tão vital como respirar. Eu até preferiria viver sem escrever. O grande Manuel Bandeira disse certa vez que só se sentia seguro no chão da poesia. Eu sinto isso. Fora do poema o mundo é algo incompreensível e muitas vezes insuportável. É preciso criar tudo de novo, começar a vida das cinzas, renascer. Fora do poema tudo é caos".

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*Entrevista publicada no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 13.4.1984. A matéria foi feita pelo jornalista Danilo Ucha.
Texto publicado no blog em 18 de novembro de 2010. 
 

sábado, 10 de novembro de 2018

Jacó Guinsburg: belas páginas de vida

Jorge Finatto

Jacó Guinsburg. Divulgação
 

FICO PENSANDO: que bela vida teve Jacó Guinsburg, que nos deixou em 21 de outubro passado, em São Paulo, aos 97 anos. Nascido em 1921, em Riscani, Bessarábia, atual Moldávia, veio pequenino com a família para o Brasil, em 1924, e aqui se criou, viveu e trabalhou. De origem judaica, foi um dos nomes mais representativos da cultura e da produção editorial em nosso país nas últimas sete décadas.
 
Ralou um bocado, trabalhou muito. Construindo-se como pessoa e como profissional ajudou muitos outros a construírem-se também. Pensador, escritor, professor, tradutor, ensaísta, especialista em teatro, criou a Editora Perspectiva, das mais importantes já surgidas no cenário editorial brasileiro, com um catálogo brilhante e extenso de autores nacionais e estrangeiros, na área de humanidades.

Publicou escritores como Maiakóvski, irmãos Augusto e Haroldo de Campos, Umberto Eco, Antonio Cândido, Fernand Braudel, Décio de Almeida Prado, Scholem Aleikhem, Isaac Bashevis Singer e muitos, muitos outros.

Em 2012, ao ler a obra Tévye, o leiteiro, de Scholem Aleikhem, com tradução do ídiche, organização e notas de J. Guinsburg, escrevi uma resenha. A leitura deste livro extraordinário (vertido para o cinema com o título Um violinista no telhado, vencedor de três Oscar) fez com que mantivesse com ele contatos por e-mail. Revelou-se pessoa interessada, generosa e disposta ao diálogo. Para minha honra, a resenha foi publicada no site da Perspectiva.

J. Guinsburg foi um bem para o Brasil.  Semeou livros, ideias, saberes e beleza. Construiu numeroso patrimônio espiritual, levantando pontes entre culturas. Deixou-nos um legado e um exemplo luminosos. Escreveu belas páginas de vida.
 

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A fala de Pedrolino

Jorge Finatto

photo: j.finatto. Venezia. Os mascarados

 
PERTENÇO À ORDEM dos amorosos sem camélia.

Os que amaram e se pensaram amados sem o ser. Os que saíram cedo da festa. Os quase.
 
A dama. Meu coração perdido no infinito tabuleiro. O mundo é lugar de barbaridades. Dor, dores.
 
Chamava-se Alberta, Alberta de Montecalvino. Pertencia à nobre estirpe dos Albertos, de Passo dos Ausentes. Foi quando a vida aconteceu.
 
O sol brilhou entre as nuvens. Iluminou a escuridão da vida minha. O triste que eu sou.

A Commedia dell'Arte invadiu a minha existência. Pedrolino, Pierrô.
 
Estava na janela da mansarda, como sempre, olhando a vida passar.

Então ela atravessou a rua. Trazia a sombrinha vermelha, o vestido branco, laço azul na cintura. Os sapatinhos amarelos. Olhou pra mim e sorriu. Rasgou minha solidão.
 
Bailei no ar como folha de plátano no outono, lentamente fui cair a seus pés. Desci correndo, pulando os degraus da escada em espiral. Segui o inefável perfume. Enfim, alcancei a dama.
 
Perguntei se podia fazê-la feliz. Sim, sim. 

photo: j.finatto. Venezia
As iluminações.

Passamos a freqüentar a Praça da Ausência, nas tardes ocres daquele outono. Um dia peguei-lhe na mão. Meu coração cavalo louco. Não dormi durante três dias e três noites.
 
Alberta meu sentimento. Camafeu cravado em minhalma. Ela me deu o lencinho branco perfumado, a letra A bordada em lilás. Guardei-o num lugar secreto, bem no fundo de mim.
 
Aqueles eram dias de ora-veja.
 
A dama, o tabuleiro, eu nunca aprendi a jogar.

Não canto outros amores, que não os tive, e, se os tivesse, silenciaria.
 
Então Arlequim apareceu. Os ódios pularam dentro de mim.

Arlequim e seus guizos, seus versos de algibeira, sua palavra sem valia, seu alaúde. Ser miserável. Animal sem coração.
 
Arlequim disse coisas, deitou falas, expandiu-se em canções. Antes calasse.

Bazófias.
 
Arlequim se espalha no mundo. Faz ares. Blasona. Explorador de amores, ladrão de musas. Arrebatou o coração de Alberta, os suspiros. Até o corpo de violino, que eu nunca toquei, ele possuiu.
 
Eu calado sonhador do fim do mundo. Os devaneios da alma. Voltei só pra mansarda. Nem acreditei.
 
Quem me visse, a face esculpida da dor. Veio o inverno. Invernos.
 
O vero solitário da rua triste. O habitante da mansarda. O que olha a vida da janela. O que foi quase feliz.
 
O sem camélia.
 
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Texto publicado em 09 de junho, 2010.
Do livro Calado observador do fim do mundo. Editora Vésper, 2010, Passo dos Ausentes.