Jorge Finatto
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| Lago Lugano. Suíça. photo: jfinatto |
a vida de todos os dias, a que eu sempre quis {textos e imagens: Jorge Finatto}
Jorge Finatto
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| Lago Lugano. Suíça. photo: jfinatto |
Jorge Finatto
| Rio Guaíba. photo: jfinatto |
As lembranças mais antigas que carrego de Porto Alegre estão ligadas ao Rio Guaíba. Rio que especialistas em assuntos hídricos denominam lago.
Eu jamais cederei ao conceito científico de chamar de lago o meu amigo Guaíba. Nos conhecemos de muitas décadas pelos nomes com que fomos apresentados, na infância ainda, não tem por que mudar isso.
Quando ando perto dele, sinto no rosto a brisa ou o vento que vem de seu eterno movimento, e do mar. O aroma adocicado de suas águas impregna os barcos de madeira dos pescadores.
Os habitantes das ilhas adivinham o mau tempo pelo encrespado nervoso das ondas. Às vezes um grande navio adentra ou sai lentamente pelo canal. Chegadas e partidas do povo das águas.
O cais ensina que todos estamos de passagem.
Tinha seis anos quando viemos - os avós e eu - visitar a família em Porto Alegre. Ficamos no pequeno apartamento da Rua Washington Luiz de frente para o Guaíba.
O que era para ser uma simples viagem de passeio transformou a minha vida. A avó morreu, de repente, no sofá da sala, assistindo à televisão comigo ao lado. Nunca mais voltei para a casa serrana.
Foi ali que, com os olhos cheios de lágrimas, esperando o bonde passar, atravessei a rua e visualizei de perto, pela primeira vez, o rio, longo, largo, cheio de vida.
Os pequenos barcos, as grandes embarcações. As gaivotas, os biguás, os peixes. A solidão.
O Guaíba foi meu primeiro amigo em Porto Alegre.
Jorge Finatto
Li agora, no informativo da Ajuris, que morreu ontem José Paulo Bisol aos 92 anos. Desembargador aposentado, desenvolveu também intensa atividade como homem público na política após a aposentadoria. Lembro dele antes da política como comentarista de futebol, no século passado, acho que na TV Educativa. Teve presença marcante também na TV Gaúcha uma época. E, sobretudo, para mim, como apresentador de um comentário, às 7 da manhã, na Rádio Gaúcha, Bom Dia, Mano, se não me engano era o nome. Eu morava então numa quitinete na beira do Guaíba, trabalhava como revisor de livros e a vida era na sobrevivência, raça pura. O comentário do Bisol me ajudava a enfrentar a dureza do cotidiano. Uma escuridão tremenda ainda sob os efeitos da ditadura militar que assolou o país (1964-1985). Nunca esqueci a força, a energia, a crença no amanhã que ele passava nas palavras. Como juiz estive com ele uma única vez, quando ele era Secretário da Segurança Pública do Estado, governo Olívio Dutra, num Encontro de Execução Penal do Tribunal de Justiça. Não houve oportunidade de dizer-lhe o quanto suas lúcidas e cálidas palavras tinham sido importantes. Fica aqui o registro. Que Deus o acolha no coração.
Jorge Finatto
Em memória dos 500 mil mortos durante a pandemia covid-19 no Brasil
"A pessoa tenta puxar o ar para dentro dos pulmões mas o ar não vem. Uma, duas, três, várias vezes. Até que o ar não é mais preciso. A pessoa não está mais ali. Meu pai do céu amado!"
De um sobrevivente de UTI.
A todos aqueles que subestimaram a pandemia e negaram seu imenso poder de destruição está reservado um capítulo na história. Como se diz, a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Ninguém foge disso.
Muitos dos que debocharam e ainda hoje debocham da gravidade do que estamos vivendo, da dor e do sofrimento de milhões de pessoas, amanhã ou depois, diante de um tribunal local ou internacional, haverão de fazer-se de inocentes ou arrependidos. Mas então será tarde.
Tiveram todas as chances de perceber o que estava acontecendo e de agir de modo diferente e, no entanto, desprezaram os fatos movidos sabe-se lá por quais sentimentos.
Como se o horror de 500 mil mortos fosse o preço razoável (e necessário) a pagar pelo aumento do pib.
Como se todas essas mortes fossem inevitáveis e não fruto da mais abjeta e cultivada maldade de uns e ignorância de outros.
Como se medidas simples e universalmente aceitas não fossem capazes de evitar muitas dessas perdas, se tivessem sido adotadas tempestivamente em programa nacional de prevenção voltado para a população em todos os entes federados.
Como se a politização da pandemia, o conflito permanente, a vaidade pessoal exacerbada, a sede absurda de poder não fossem a chave do abismo. O futuro chegará e haverá julgamento para todos que usaram a pandemia para obter vantagem.
500 mil vidas perdidas serão registradas para sempre na História e permanecerão em nossos corações, nas nossas preces e na memória das gerações que virão.
Jorge Finatto
Em memória dos quase 500 mil mortos* durante a pandemia covid-19 no Brasil
"A pessoa tenta puxar o ar para dentro dos pulmões mas o ar não vem. Uma, duas, três, várias vezes. Até que o ar não é mais preciso. A pessoa não está mais ali. Meu pai do céu amado!" De um sobrevivente de UTI.
A todos aqueles que subestimaram a pandemia e negaram seu imenso poder de destruição está reservado um capítulo na história. Como se diz, a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Ninguém foge disso.
Muitos dos que debocharam e ainda hoje debocham da gravidade do que estamos vivendo, da dor e do sofrimento de milhões de pessoas, amanhã ou depois, diante de um tribunal local ou internacional, haverão de fazer-se de inocentes ou arrependidos. Mas então será tarde.
Tiveram todas as chances de perceber o que estava acontecendo e de agir de modo diferente e, no entanto, desprezaram os fatos movidos sabe-se lá por quais sentimentos.
Como se o horror de 500 mil mortos fosse o preço razoável (e necessário) a pagar para o aumento do pib.
Como se todas essas mortes fossem inevitáveis e não fruto da mais abjeta e cultivada maldade de uns e ignorância de outros.
Como se medidas simples e universalmente aceitas não fossem capazes de evitar muitas dessas perdas, se tivessem sido adotadas tempestivamente em programa nacional de prevenção voltado para a população em todos os entes federados.
Como se a politização da pandemia, o conflito permanente, a vaidade pessoal exacerbada, a sede absurda de poder não fossem a chave do abismo.
O futuro chegará e haverá julgamento para todos que usaram a pandemia para obter vantagem.
500 mil vidas perdidas serão registradas para sempre na História e permanecerão em nossos corações, nas nossas preces e na memória das gerações que virão.
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* Com 496.172 mortos, estima-se que o país atingirá, oficialmente, os 500 mil nos próximos dias. Nesta quinta (17/6) morreram 2.335 pessoas vítimas da doença, registrando média móvel de 2005. Considerando as subnotificações, crê-se que o número total já ultrapassou os 500 mil.
Mais informações jornais O Globo e Folha de S. Paulo:
https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/brasil-notifica-2335-mortes-por-covid-19-media-movel-permanece-acima-de-2-mil-1-25066096
https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/06/brasil-registra-2335-mortes-por-covid-19-e-mais-de-74-mil-casos-em-24-h.shtml
Jorge Finatto
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| saíra. photo: Ricardo Gasparin. Canela |
Esses são dias sombrios
de pouca alegria
de sofrida esperança
em meio à pandemia
mas hoje eu vi
um pequeno pássaro
pousado no galho
diante da minha janela
vestia delicadas penas
de cores várias
ficou um instante
cantarolou doce melodia
depois partiu
ele salvou o meu dia
aliviou um pouco a opressão
desse tempo de tantas mortes
e dores e medos
abriu uma fresta
de luz
dentro de mim
Jorge Finatto
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| photo: jfinatto |
Depois que tudo isso passar vou tomar banho de mar. Vou procurar amigos que não vejo há muito tempo. Vou beber cerveja da Patagônia, espessa, gelada, salutar. Está decidido. Não dá mais para esperar.
Irei ao mercado público de Porto Alegre sentir o cheiro misturado de peixe com erva mate, entre outras tantas fragrâncias daquele lugar. Pedirei salada de fruta com sorvete na Banca 40, vou me esbaldar.
Escreverei cartas depois que a peste passar. Tantas que faltarão carteiros para delas se ocupar.
Vou caminhar pelas ruas do bairro até o sapato gastar. Cumprimentarei todo mundo na rua. Os maldosos dirão que estou diferente, nem pareço o cáctus de antigamente. Falarão que estou com medo da morte, o que não deixa de sarapantar.
Depois que tudo isso passar vou sentar no café pra ler jornal, beber cappuccino, ver o movimento passar. Coisa boa assim não há.
Depois que tudo isso passar deitarei no fundo do meu barco de papel e mirarei o céu até a vista cansar. Navegarei pelo Guaíba, Lagoa dos Patos, Atlântico em alto mar. Rumarei pelo Sena até Paris.
No Quartier Latin guardarei o barquinho no bolso do capote azul marinho e me hospedarei no hotelzinho da praça da Sorbonne Velha. Andarei na mesma calçada onde caminharam Rimbaud, García Márquez e Cortázar.
Descerei a Rue Cujas, dobrarei à direita no Boulevard Saint-Michel em direção a Place Saint-Sulpice, em Saint-Germain-des-Prés. Entrarei no café, na tabacaria e sentarei no mesmo banco em que Georges Perec, durante três dias, no outono de 1974, escreveu Tentativa de esgotamento de um local parisiense*.
Tudo isso eu vou fazer quando o mundo voltar a respirar.
E prometo nunca mais fazer rima rica em ar.
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Tentativa de esgotamento de um local parisiense. Georges Perec. Tradução de Ivo Barroso. Editora G. Gili Ltda. São Paulo, 2016.
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| Festa das folhas. Outono. photo: jfinatto |
Jorge Finatto
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| photo: a meio do voo. Lugano, Suíça. jfinatto |
Uma garrafa com bilhete do náufrago, datado de 1956, um tênis enrolado em algas, um canudo de plástico, uma lágrima guardada num lenço azul de renda, uma lata de cerveja, uma boia amarela, um diário com o nome do(a) autor(a) riscado, um lápis de cor, uma anêmona desfalecida, uma flauta doce soprando uma cançoneta medieval, uma bola de borracha, um livro de Rilke que se desprendeu de uma mala do navio afundado, um pôr do sol cor de laranja, um audiobook com o livro do desassossego em mandarim, um bronzeador cheio, um barco a vela quebrado sem ninguém a bordo com um flamingo na proa, um chinelo de dedo pé direito, um coco verde, uma máscara de colombina, uma lupa da Finlândia, um guarda-sol com a inscrição philosofia à beira mar, uma concha cor-de-rosa, um búzio enorme, um chapéu de palha, uma boneca de porcelana com olhos fechados, uma cortina de tule, uma toalha com desenho de um palhaço atônito, uma tartaruga em viagem, um pingüim perdido, um grito distante de afogado, um boné de marinheiro branquinho, uma canção de ninar gente velha, um pelicano pimpão, um livro de poemas em inglês de robert frost, um óculos preto e redondo sem lentes, um canivete suíço, uma caixa de música polonesa, uma bailarina de papel machê sem uma perna, a memória de um homem sentado sozinho num café em Paris, uma mulher sentada no lado oposto deste mesmo café, um dente que caiu em 1963, o latido de um cachorro aflito atrás do dono, uma foto 3x4 em que o sujeito aparece com a mão direita tapando um olho, um piano que escorregou do convés e foi quando o baile terminou, um relógio de corda marcando 17h em ponto do dia 10 de maio do ano da peste de 2021.
Jorge Finatto
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| photo: jfinatto |
a Mauro Carboni
Jorge Finatto
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| photo: jfinatto |
Um belo pôr do sol iluminou a copa dos pinheiros, dos plátanos e dos telhados, hoje, aqui na montanha. Vermelho suave no início, depois rosicler, viva aquarela.
Uma pintura delicada num tempo desesperado. Um concerto de trompa alpina a céu aberto. Um mergulho na maravilha.
Clareira de luz em meio à treva absoluta.
Jorge Finatto
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| bergamotas. foto: jfinatto |
A tentação da carne leva os mortais a cometer loucuras. Apaixonados e obsedados, esquecem todo o resto e submergem na vertigem luxuriante dos sentidos. Estremecem, deliram, lambuzam-se. Depois, prostram-se saciados diante do prato vazio.
Eu parei de comer carne. Acolhi o mantra: não matarás do reino animal para teu sustento. Sublimei a tentação, tornei-me um ser frugal. Clorofilizei-me.
Inaugurei uma nova dieta: verdes alfaces, tenros chuchus, meigas ervilhas-tortas, nédias melancias, socados abacates, recatadas couves-flores, risonhas bergamotas. Sem esquecer o inefável melão gaúcho, as inolvidáveis morangas e as voluptuosas batatas-doces.
Substituí o verbo matar pelo plantar. Troquei os rebanhos pela horta; o peso pela leveza.
Jorge Finatto
Em breve estaremos todos mortos e com saúde.
Esta parece ser a lógica negacionista que renega medidas recomendadas por médicos e cientistas para enfrentar a covid-19. De tanto não fazer o que precisa ser feito, o Brasil está com transmissão e óbitos em níveis elevadíssimos. Só nas últimas 24 horas morreram 4.249 pessoas, conforme dados oficiais, alcançando o total de mais de 345 mil mortes.
Os números terríveis saem todos os dias à tarde, estragando as restantes horas do dia. E dizer que com lockdown ou, pelo menos, distanciamento social rígido por cerca de 21 dias, fornecendo às família necessitadas auxílio para manter-se em casa, milhares de vidas poderiam ser salvas, como ocorreu recentemente em Araraquara e Manaus.
Eu já vi muita estupidez na vida. Nada se compara, contudo, ao que acontece hoje no país. O mau jeito dos governantes em lidar com a crise sanitária, com poucas exceções, e a falta de união nacional em torno do combate à hecatombe produzem efeitos nefastos.
Quem ainda não perdeu um parente, um amigo ou conhecido? Quem, sendo pessoa razoável, não teme por sua família e por si? Quem não sofre com o noticiário vertiginoso dando conta de hospitais superlotados, unidades de terapia intensiva esgotadas, médicos e enfermeiros em prolongado estresse diante dos casos que são obrigados a ver e administrar todos os dias?
Quem não se sente abalado ao saber das mortes sem oxigênio, sem que o doente (isolado) tenha um familiar ou amigo a quem dar a mão?
Já se fala que o número de mortos poderá superar o de nascimentos no Brasil.
Por que a razoabilidade foi expulsa do nosso país? Por que esse bate-boca diário e infernal sobre política e temas tão mesquinhos que em nada ajudam? Em que momento nos tornamos isto, um lugar onde a morte e o sofrimento invadiram o cotidiano de forma avassaladora? O que foi feito de nós?
Que triste mensagem estamos transmitindo ao mundo! Que assustadora visão: a imensa caravana de mortos indo para os cemitérios!
A percepção negacionista da realidade e seu discurso venceram entre nós. Resta saber quantas pessoas mais perderão a vida devido ao obscurantismo. Porque hoje, no Brasil, o que mais se faz é contar e numerar cadáveres, esquecendo-os em seguida.
Jorge Finatto
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| photo: jfinatto |
Jorge Finatto
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| Nubes 2. jfinatto |
Hoje, no trem, um homem disse: "Sofro muito. Queria ir pra cama dormir e só acordar daqui a um ano". Falava por ele, mas também por mim.
Muitas madrugadas ele passa em claro. Lê no escritório desde revistas antigas até livros de arte, passando por ensaios, romances, quadrinhos, etc., numa voragem de leituras como nunca experimentou antes. É preciso domesticar a insônia, expulsar os pensamentos ruins.
Quando cansa de ler, perambula de um lado a outro da casa. Um fantasma como os que habitam os retratos nas paredes. Um deles, em especial, toca-o. Aquele em que aparece com a mãe. Devia ter 4 anos e parece tímido, mas está de bem com a vidinha.
Um dos problemas de envelhecer é que perdemos a mãe. Ele anda pela casa à espera de que os mortos saiam dos retratos para uma reunião de família. Não sabe o que a mãe diria a respeito dessa angústia. Provavelmente mandaria tomar um chá de camomila e depois dormir. "Para de te atucanar. Tudo vai passar." Que é, talvez, o melhor a fazer. Gostaria de acordar só depois que a peste fosse embora.
Medo? Falta de paciência para enfrentar o restante da terrível pandemia que, no Brasil, rivaliza com os piores desastres recentes da humanidade? Sim, isso também. Mas, acima de tudo, uma bruta exaustão, mais de ano vivendo a realidade traçada com tintas de horror.
A palavra mais falada hoje no Brasil é morte. Mas chega, já passou da hora de enriquecer o vocabulário, diz ele. Que tal substituí-la por re-viver, re-encontrar, re-abraçar, res-suscitar (estamos em plena Quaresma)? Para isso precisamos res-peitar as regras que impedem a propagação do vírus. O resto vem junto, pensa. E volta pro escritório.
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*Ese Hombre y otros papeles personales. Ediciones de La Flor. 3ª ed, pág. 266. Buenos Aires, 2012. Tradução livre do fragmento: Jorge Finatto. Palavras do escritor a propósito da morte da filha Vicki (María Victoria).
Jorge Finatto
| Livraria Miragem, São Francisco de Paula. foto: jfinatto |
ELE me empresta seu caderno de poemas às vezes. Eu não leio nada, porque tenho preguiça e não entendo muito de poesia. Mas sempre ouvi dizer que poetas são pessoas bacanas. Só que não têm dinheiro. E são sentimentais também.
Pra mim o meu amigo é poeta dos maiores do mundo. Não temos muitos aqui nos Campos de Cima do Esquecimento. Tudo que ele fala tem alguma coisa diferente e estranha a gente. E fico eu pensando nas coisas abismadas que diz. Como estas que anotei:
- Borboleta é uma coisa tão bonita que nunca devia de morrer.
- Joaninhas, como os cegos, são muito caladas mas percebem tudo ao redor.
- Nuvens parecem inofensivas mas quando ficam bravas despejam cachoeiras e raios pelas ventas.
- A mulher do vizinho pode ser muito angulosa mas é bom passar longe de sua geometria.
- O gato é vaidoso, autossuficiente e feroz (que o digam os ratos) como todo felino. Gosta de dormir no colo de seu dono como criança inocente.
- Fernando Pessoa não foi um poeta. Foi um dicionário de poetas. É um milagre da língua portuguesa e de todas as línguas.
- Os livros não têm resposta pra tudo, é verdade, nem podem nos salvar. Mas nos ajudam a viver. Abrem caminhos para o que não conhecemos, fora e dentro de nós. Nos completam e mexem com nossas certezas.
- Os escritores trabalham como um moinho que vai sentindo e meditando as coisas da vida, re-moendo os fatos e as circunstâncias, deles extraindo sentidos. O resultado são palavras que nos entregam com a suma dessa experiência e suas revelações.
Jorge Finatto
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| Lugano, Suíça. photo: jfinatto |
Os tempos, raro leitor, exigem de nós uma filosofia pé no chão. Os desígnios e propósitos das coisas, o ser-no-mundo, as cores cambiantes da aurora boreal, a origem kantiana dos ponteiros do relógio, todas essas coisas, e muitas mais, têm agora de esperar.
Faz um ano que nossas existências foram interrompidas.
Já não perguntamos se há vida depois da morte, não questionamos as páginas do invisível tentando desvendar de onde viemos, para onde vamos. Não.
As especulações ficaram, por ora, suspensas sobre a corda bamba por onde se move o trêmulo funâmbulo.
A existência precede a essência, disse Jean-Paul Sartre. Pois que seja. Comme ci, comme ça.
A indagação que se coloca, de forma inarredável, é uma só: saber se estaremos vivos amanhã.
O mais são velhas divagações daqueles distraídos dias de antes da peste. O luxo da especulação filosófica deu lugar à inadiável e urgente luta para manter-se vivo. Esperando por vacinas que tardam no interior de frios e distantes laboratórios.
A duríssima realidade, que a doença estabeleceu sem meio-termo, adiou a vida de todos, e exterminou a de muitos. Só restaram o medo, a dor, e a impostergável necessidade de recomeçar.
Queremos nossas vidas de volta. De preferência com alguns anos de acréscimo ao final para compensar o tempo perdido e o sofrimento. Viver de novo é a expressão inscrita em relevo em todas as mentes e corações.
Quantas vidas mais a morte levará até esse tempo chegar?
Não haverá nessas tolas palavras uma espécie de filosofia de arrabalde que resiste à intempérie, no limite entre O ser e o Nada, entre a vida que é e seu generoso oposto, que é o que pretendemos fazer com ela depois?
Jorge Finatto
| photo: jfinatto |
Um ano depois do início da pandemia, o Brasil avança tragicamente para os 300 mil mortos em razão da covid-19. Mais de 2 mil mortos por dia. Já se fala que, em breve, poderemos ter 3 mil mortes diárias. São números avassaladores, inimagináveis mesmo em ficções de terror.
Como chegamos a isto? Em grande parte pela falta de uma gestão federal à altura da catástrofe, que inclui desde o inacreditável negacionismo até a impressionante insensibilidade diante de tanto sofrimento.
Em parte, também, pelo despreparo das administrações estaduais e municipais em lidar com crise tamanha, cada uma se virando de um jeito e fazendo por si na ausência da União.
E nós, população, temos também importante responsabilidade. A teimosia em não seguir as recomendações de médicos e especialistas, as aglomerações irresponsáveis, o pouco caso diante da doença, a indiferença ante o infortúnio do outro (esse estranho tão nosso igual), todos estes fatores trabalhando a favor da morte.
Explodiu o sistema de saúde, não há vagas nos hospitais e nas unidades de terapia intensiva, pessoas morrem nas filas esperando ser tratadas. Pra não falar da solidão dos que padecem nas internações, sem poder contar com a presença de um familiar ou amigo.
É o retrato de um país doente, cuja morte já não espanta nem indigna.
Por outro lado, o mundo está enfrentando o problema da falta de vacinas. Cerca de oito indústrias fabricam imunizantes mas em quantidade rigorosamente insuficiente para aplacar a crise sanitária.
Por que não há uma união entre as nações visando à rápida multiplicação da produção? Por que as farmacêuticas não transferem tecnologia para laboratórios locais com capacidade produtiva como temos no Brasil?
Não haverá uma maneira civilizada e humana de superar a incapacidade de fornecimento de vacinas? O que está em questão não são os lucros dessas indústrias mas preciosas vidas humanas afetadas em todo o planeta.
Jorge Finatto
Un petit spoir très féroce: c'est moi.*
Robert Lalonde

photo: jfinatto
Jorge Finatto
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| photo: jfinatto, grafite em Montevideo |
Clara Finatto*
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| Ilustração: Clara Finatto |
Era o começo de uma noite fria
do mês de junho e eu estava caminhando pelas ruas do bairro quando vi, ao
longe, um homem deitado na calçada bem debaixo de um poste de luz.
Ao me aproximar percebi que era
um morador de rua. Naquele chão frio, com um cobertor até o pescoço, segurava na mão
esquerda um livro aberto e, com a direita, pegava bolachas de um saco
plástico para comer - no intervalo entre uma página e outra.
Fiquei muito tocada ao ver a
cena. Custei a acreditar.
Que homem seria aquele? Mesmo diante
da pobreza extrema cultivava o hábito de ler. Como conseguia manter assim viva
a sensibilidade naquelas condições?
Chegando mais perto pude ver
que ele lia “O Fantasma de Canterville” de Oscar Wilde. Fato este que me deixou
mais emocionada, pois sou apaixonada por esse escritor.
Nada sabia sobre aquele homem,
mas me identifiquei instantaneamente com ele.
Perguntei qual era o seu nome.
Ele respondeu, com uma voz suave, que se chamava João. Quis lhe fazer mais perguntas, mas me segurei. Não queria incomodá-lo.
Na sequência questionei se
teria interesse em ler outros livros. Ele abriu um largo sorriso
e disse que sim.
Então, combinamos que eu faria
a entrega de um livro diferente a cada 10 dias, sendo a entrega feita naquele
mesmo local que chamamos de Poste da Leitura...
No dia seguinte emprestei-lhe
o primeiro livro. Escolhi “O Retrato de
Dorian Gray” do mesmo Oscar Wilde já que ambos gostávamos do autor.
Passados 10 dias fui ao Poste
da Leitura para entregar o segundo livro e para saber o que havia achado do
anterior. Ele, muito educado, agradeceu e disse que tinha gostado bastante do
livro. Assim, ele devolveu o primeiro e entreguei “Os Dragões não conhecem o
Paraíso” de Caio Fernando Abreu.
Decorridos mais 10 dias fui,
muito contente, ao encontro do meu amigo João para alcançar-lhe o terceiro
livro: “Dom Casmurro” de Machado de Assis.
Transcorrido outro período saí para a próxima troca, mas, de longe, percebi que João não estava lá. E quando
cheguei ao Poste da Leitura vi que ele havia deixado o livro entre folhagens
enrolado em um papel de pão.
Ao pegar o livro vi que ele
havia escrito um bilhete que dizia:
“ESSE
LIVRO FOI O ÚLTIMO. COM HISTÓRIAS ASSIM VOU ACABAR ME MATANDO”.
Nunca mais o vi nem tive
notícias dele. Queria muito revê-lo para pedir desculpas pela seleção que
não lhe agradara e, quem sabe, tentar outros livros.
Espero que João, onde estiver, continue com suas leituras.
______
*Advogada e artista plástica.