terça-feira, 18 de novembro de 2014

Os sem-leitor

Jorge Adelar Finatto 

fonte da photo: jornal Público, Portugal


Existe um ser cada vez mais raro na face do universo.

Astrônomos passam as noites em claro, mirando os telescópios para o desconhecido, na incansável busca.

No momento em que traço essas linhas, inúmeras expedições científicas partem pelo cosmo à procura dele.

É quase tão belo como a estrela da manhã. É mais luminoso que a aurora boreal. É mais precioso que o mais raro diamante.

Por causa dele, blogueiros do mundo inteiro invadem as noites oferecendo seus serviços. Impressionantes editores perdem o sono à sua menor lembrança.

O ser em questão - o misterioso - é o senhor da lista dos mais vendidos, o sonho dos famélicos e maltrapilhos fazedores de livros. Por ele, Cervantes e Thomas Mann foram às vias de fato, Dom Quixote e Hans Castorp romperam relações.

Macunaíma, Anjo Malaquias e Urutu Branco não trocam mais e-mails. É o início do fim dos tempos, ou quase isso.

Os cafés literários perderam o sentido sem a poderosa presença do desaparecido.

As livrarias estão repletas de musas e personagens desempregados. Seria cômico, não fosse o fim de uma era.

Onde andará aquele que é a razão do meu trabalho?, perguntam-se miríades de escritores e poetas, na fria solidão.

A Academia Sueca devia criar o Prêmio Nobel de Leitura, em homenagem a ele, o inefável.

As noites de autógrafos, hoje, só são bem-sucedidas quando é ele quem assina os livros, enquanto os autores esperam a vez na infinita fila.

Não vereis dele mais que o fugidio vulto esgueirando-se no labirinto dos blogs e soturnas bibliotecas.

No entardecer de ontem, cerca de 150 bardos - entre maus, razoáveis e bons - cometeram suicídio no cais de Porto Alegre. Sob o olhar aterrorizado das mães e gritos desesperados das musas, os suicidas foram ao fundo do rio com grossos volumes amarrados ao pescoço.

Mais de mil caravelas estão partindo a essa hora de Lisboa em busca de um rastro do indizível em alto mar.

O impensável está acontecendo.

Escritores enlouquecidos batem-se em sangrentos duelos nas praças e ruas da cidade.

As últimas notícias dão conta de que livros famintos estão atacando e devorando escritores. Invadem seus locais de trabalho e, com requintes de crueldade, cometem o bárbaro crime.

Aproveitam-se da solidão literária das vítimas, que começa no ato de criar e se estende até o texto sem leitor, e as destroçam.

Depois só restam folhas brancas, embebidas em sangue, espalhadas no chão.
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Texto revisto, publicado neste blog em 12 de fevereiro, 2010.

domingo, 16 de novembro de 2014

Vive-se

Jorge Adelar Finatto 

photo: j.finatto


Vive-se. Do jeito que dá. Às vezes, até mesmo sem nenhum jeito se vive.
 
Porque a única coisa realmente urgente e importante é manter-se respirando. O resto é o que vem depois. E o que vem é neblinoso, imponderável, se administra. Ou não.

Convivemos com a dor, a falta de amor, de encanto, de beleza, de dinheiro, a falta eterna de sentido das coisas. Enquanto isso, vive-se.
 
Vive-se em Porto Alegre, em Paris, em Sierre, em Lisboa, em Cacique Doble. Vive-se no silêncio de Rarogne e de Passo dos Ausentes. Vive-se à beira do Arroio Tega e nas cercanias do Castelo de Muzot.

Vive-se em toda parte. Principalmente, no fim do mundo.

Vive-se em secreto e em surdina, com raros, distantes amigos. Mas vive-se.

Vive-se apesar da corrupção que assola o Brasil e destrói tudo o que se tenta construir e até o que não se construiu como a floresta Amazônica e a Mata Atlântica.
 
O mais que se faz é viver, raro leitor, apesar de tudo. De janeiro a janeiro. Com sol e com chuva. Com alhos e bugalhos. Vive-se.

Calma, a realidade não merece o teu suicídio.

Vive-se na sexta, no sábado e, eventualmente, no domingo. Segunda é um enigma que nem a filosofia, nem a poesia e muito menos a astronomia conseguiram resolver. Mas o fato é que se vive.
 
Vive-se apesar do lixo na rua, do odor nauseante de combustível na cidade, do esgoto escorrendo impune para o rio.

Vive-se em que pese o velho, malcheiroso, insuportável e persistente racismo.

Vive-se olhando os veleiros que fogem para o mar.
 
Vive-se diante do olhar atônito das crianças abandonadas.

Vive-se a nostalgia das casas sem eletricidade.
 
Vive-se sem embargo dos livros não lidos. Vive-se não obstante todos os livros lidos.

Vive-se com as folhas secas do outono nos bolsos do velho casaco e na palma das mãos.

Vive-se sem nada a perder e mesmo depois de perder tudo.
 
Vive-se sabendo que nunca mais se encontrará aquela mulher para pedir-lhe um olhar, um abraço. 
 
Vive-se de mal a pior, sem eira nem beira.

Vive-se apesar dos mortos nos olhando dos retratos, dos lugares vazios na mesa.

Vive-se a vida invisível dos anônimos, dos solitários, dos desmemoriados.

Vive-se de passagem, uma única vez, com o coração doendo entre as mãos. Mas vive-se.
 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Enquanto a morte não morre

Jorge Adelar Finatto

 
photo: j.finatto

 
Tinha que haver um jeito de trancar a morte no porão, deixá-la encerrada no escuro pra sempre, até virar pó, como ela gosta de fazer com as pessoas.
 
Prisioneira do porão, sem nenhuma fresta de luz e ar, a morte nunca mais poderia matar ninguém. 
 
Morta a morte, estaríamos livres, de uma vez por todas, do grande vexame que é morrer. Morro de pena de quem vai perder a vida, isto é, todos nós. O certo talvez é ninguém mais morrer. Mas que sei eu.

Só que pra todo mundo viver era preciso não existir a maldade que existe no ser humano.

Nenhum homem e nenhuma mulher jamais souberam explicar esse mistério que é deixar de viver. Dizem alguns que a morte dá sentido à vida, o que eu duvido muito.

A morte alimenta-se da morte alheia e não há nela sentido algum.

O que dá sentido à vida é a própria vida.
 
A morte é um buraco escuro dentro da escuridão. Às vezes um monte de cinzas que se espalham ao vento e ninguém sabe onde vão parar. 
 
Eu queria encontrar uma maneira de matar a morte. Depois passaria o resto do tempo infinito ocupado só em viver.

Morrer é um péssimo hábito que herdamos dos antepassados e do qual não conseguimos nos libertar.
 
Para os agnósticos e os céticos, depois da morte é a treva absoluta. Não creio.
 
Enquanto a morte não morre, gosto de pensar que haverá ressurreição para aqueles que não fizeram barbaridades com os outros. E vou vivendo.

Mas eu sou apenas um sujeito simplório. Alguém que acredita na claridade absoluta.
 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Cantiga de mar e vento à moda de Camões

Jorge Adelar Finatto
  
photo e barco: j.finatto

"Saudosa dor, eu bem vos entendo" *
Luís de Camões

Navegar é despedir-se um pouco cada dia.
 
No mar da terrível procela, vinha eu no meu desditoso barco, enfrentando a fúria sem compaixão do trovão, do raio, do vento e da melancolia.
 
Vinha pelejando nas altas ondas contra a dor e o pó do esquecimento.
 
Só eu e meu coração à mercê de tudo que fere a alma e endurece o tempo. 
 
A bordo da frágil nau do sonho me lancei ao mundo. Entre feros e mortais penedos, procurei descortinar-vos, Açores e Madeira, nos rigores do profundo oceano. Mas nada encontrei, só mais abismo, medo e desengano.
 
O tenebroso rugido da ventania arremessava as vagas contra tão despojada embarcação.  
 
Triste fado meu que fez de mim o solitário do rochedo.
 
De repente, no horror da tempestade desumana, vi surgir na polpa salgada, álgida e insana das águas o brilho marfim e rosa de um búzio. A custo recolhi-o. 
 
Escutei então aquela voz que de longe vinha.
 
Era a voz da minha amada que por encanto eu ouvia. Uma voz moça e já extinta.

Queria saber de mim, onde eu andava, com quem estava, o que fazia. Imaginava se eu ainda sorria. 
 
Disse-lhe que não fizesse cuidado do vazio em minha alma. Eu era só mais um barco seguindo em meio à solidão do grande mar, desviando a fraga imensa. Era tudo o que em mim havia.
 
Quisera nunca ter perdido do seu abraço a moradia, musa minha que partiste mal surgia a aurora em nossa vida.
 
Viver pra mim, hoje, é despedir-se um pouco todo dia.
 
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*Lírica. Luís de Camões (1524-1580). Verso do poema Cantiga (2), p. 28. Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1982.
 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A canção do efêmero

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto

 
O jardim explode em pétalas, aromas, caules, ramos e cores em novembro dos prodígios.

As flores que aparecem na capa do blog por esses dias são do jardim aqui de casa. Nessa época são muitas e variadas, de rosas a orquídeas, de belas e humildes hortênsias a ternos e sorridentes gerânios, sem falar nas primaveras, nas cerejeiras, nos copos-de-leite e tantas outras.

Nunca, como neste ano, a flora caseira esteve tão iluminada. Uma celebração de vida e de fecundidade. O jardim canta a canção do efêmero: tudo nele é transitório. Mas há, também, no seu território, um contínuo renascer.


photo: j.finatto

Sinto-me bem ao conviver com as flores, ao observá-las, fotografá-las, ao aspirar-lhes o perfume suave.

É uma espécie de terapia floral o querer bem a esses seres tão passageiros, generosos e delicados.

As flores do meu jardim renascem todos os dias com a promessa e a esperança das novas seivas. Que seja assim também em nossas vidas.

photo: j.finatto
  

sábado, 8 de novembro de 2014

Eduardo Salavisa e a viagem no quotidiano

Jorge Adelar Finatto


Eduardo Salavisa. Elevador da Glória, Lisboa
 
Eduardo Salavisa é um “desenhador do quotidiano”, conforme define o título do seu blog.¹  Descobri seu trabalho através do jornal Público², um dos mais importantes de Portugal, que reproduz a página do autor na edição da internet.
Num determinado lugar seleciona as figuras,  perscruta a luz, as cores, as formas, os tons, os significados, a vida escondida. Munido com as ferramentas de trabalho (cadernos, lápis, canetas, tintas, etc.) constrói sua arte impregnada com as coisas do dia a dia.
Um desenhador do cotidiano é alguém que habita a realidade, busca-lhe sentidos, nuances, beleza. Não se ausenta da experiência de viver, pelo contrário, vai para o ambiente físico e espiritual onde a existência acontece. Ali as pessoas vivem e tecem suas histórias.
O talento do artista leva-nos a percorrer com ele os caminhos por onde anda (que não são poucos). Seus passos desenham trajetos pelas ruas de Lisboa, a cidade natal onde vive, mas não ficam só ali, deambulam pelo planeta afora.
 
Eduardo Salavisa. Aqueduto das Águas Livres, Amoreiras, Lisboa


Ele enche cadernos e cadernos em cada saída de casa, em cada viagem. É um viajante do mundo. Leva pouca bagagem e muito olhar. O resultado deste inventário minimalista – pequenas coisas, na aparência, no seu traço ganham contornos de grandeza humana – pode ser visto nos desenhos que nos abrem a vista para o invisível, para o não manifesto, para os detalhes que revelam o coração dos seres e objetos.
Eduardo partilha sua arte e seu conhecimento através de aulas, oficinas, palestras e exposições, além dos livros que publica. Experiente no ofício, costuma ser convidado a organizar edições de obras com autores que se dedicam aos diários gráficos.
É o caso do livro "Diários de Viagem 2. Desenhadores-Viajantes", no qual ele coordena 30 viagens de vários desenhadores (pessoas de diversas profissões). Nele participa com um texto introdutório, além de um trabalho que fez sobre uma viagem à Patagônia. A obra será lançada no próximo dia 22 de novembro, em Lisboa, às 18h, no Museu Bordalo Pinheiro.
Conversei com Eduardo, por e-mail, nessa semana (em Lisboa tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente em janeiro deste ano). Fiz-lhe algumas perguntas e as respostas ilustram essa atividade que, para nós, no Brasil, ainda é uma novidade.

- Eduardo, o que é um diário gráfico e desde quando esta forma de expressão existe?
 
Eduardo Salavisa

O caderno de desenho tem uma longa tradição. Conhecemos os de Leonardo da Vinci, onde apontava as suas observações e reflectia sobre elas. Quando os jovens aristocráticos europeus faziam a viagem de iniciação, chamada “Grand Tour”, levavam sempre um caderninho para desenhar o que viam. Todos os artistas, ou pretendentes a serem-no, usam-no. Não só os das artes visuais mas também os da escrita. São suportes transportáveis que se podem usar em qualquer lugar e circunstância. Um apontamento, uma reflexão, um compasso de espera.

O nome Diário Gráfico começou a ser usado por um professor da Faculdade de Belas Artes, falecido em 2009, chamado Lagoa Henriques. Foi ele que fez a estátua de Fernando Pessoa à porta da Brasileira. Para mim ele era melhor desenhador e professor do que escultor. Ele queria que nós desenhássemos todos os dias.

Foi também por isso que comecei a usá-lo com mais frequência. Foi quando quis transmitir aos meus alunos adolescentes quão era bom desenhar. Os adolescentes não têm paciência para nada e o desenho requer alguma. E também tempo e concentração. E se aquele caderno se transformasse num diário, com desenho e escrita, e se eles relacionassem com uma viagem, uma viagem no seu quotidiano, talvez ficassem viciados na observação e no desenho. E alguns ficaram.

E o desenho, para mim, está muito relacionado com a viagem. É preciso disponibilidade mental para se desenhar. E na viagem nós temo-la.

- O que o leitor encontrará neste Diários de Viagem 2? 

Durante a longa viagem que fiz o ano passado pela América Latina desenhei muito e pensei também quais eram as diferenças que havia entre aqueles desenhos, feitos muitas vezes em más condições, e outros feitos no nosso atelier. Quando cheguei, pedi a alguns amigos meus, portugueses e espanhóis, para me descreverem uma viagem com 10 desenhos feitos em cadernos e um texto com o máximo de 1000 palavras.

Esses textos e esses desenhos ajudaram-me a estabelecer cerca de 12 características que os desenhos feitos em viagem têm. Assim, além deste pequeno texto e de 30 viagens feitos por desenhadores-viajantes, temos um outro texto escrito por uma jornalista e escritora de viagens, e de romances, que viveu no Rio de janeiro uns anos: Alexandra Lucas Coelho.

É preciso dizer ainda que dois dos autores não os conhecia pessoalmente e são, para mim, os maiores expoentes nas suas áreas e que, inesperadamente, quiseram participar: Álvaro Siza Vieira, arquitecto, e Miquel Barceló, pintor.

- Existe previsão de um diário sobre o Brasil?

Existe previsão de diários para todos os países, e para o Brasil em particular. Haja tempo e dinheiro.
 

Eduardo Salavisa. Largo do Carmo, Lisboa

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¹desenhador do quotidiano:
http://diario-grafico.blogspot.com.br/
²Público:
http://www.publico.pt/

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Meus amigos

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 
Não esqueçam
de me visitar
nas noites
de inverno
quando o medo
cobra caro
e as feridas
não deixam mentir


insolúvel jogo
de espelhos
entre mim
e o que fui

ando bêbado
pela casa
meu coração
é operário
desempregado
com filho pra criar
mulher feia
sem crédito no armazém

me enrosco
em invenções
inúteis
pra repartir contigo
um espaço de ternura

sinto umas
coisas estranhas
caminharem atrás de mim
um cano de fuzil
um casal de velhos famintos
um câncer
e me desagrada não ser
como certos fantasmas

 
convoco o
silêncio e
suas raízes

inauguro a
manhã

não, eu não sou
uma estrela
um rio
um barco
nada se compara
ao que sinto

preciso todos
ao redor da mesa
principalmente
os desaparecidos
como certos crepúsculos
que a gente vê
fogem e nunca mais


___________
 
Poema do livro Claridade, Jorge Adelar Finatto, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Editora Movimento, Porto Alegre, 1983.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Álbum de Porto Alegre (1860 - 1930)

Jorge Adelar Finatto
 
 
Gosto de livros de fotografia. Podem ser imagens antigas ou atuais. Me interessa a representação da realidade pelo olhar do fotógrafo, pela sensibilidade na escolha dos seres e objetos, pelo que deles extrai em sentido e sentimento.
 
Num dia desses estava na livraria. Como sempre acontece comigo, alguns livros parece que têm um poder secreto de chamar minha atenção entre a multidão de volumes que enchem as estantes. Não tinha naquele dia intenção de pesquisar livros de fotografia, até o momento em que parei, sem razão aparente, diante de uma estante onde estava o Álbum de Porto Alegre - 1860 - 1930.¹
 
Uma obra bem realizada graficamente e com bom conteúdo, entremeando imagens de Porto Alegre daquele período com textos de autores importantes como Alvaro Moreyra (o grande cronista e poeta porto-alegrense, hoje pouco lembrado, que utilizava o delicioso pseudônimo de Arlequim da Silva).
 
Na ocasião não comprei o livro, pois tinha escolhido outros antes e, além disso, o preço era salgado para mim. Mas ali mesmo, de pé diante da estante, li a introdução escrita pela professora de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Sandra Jatahy Pesavento (1946 - 2009). Resumo: poucos dias depois, voltei à livraria e comprei a introdução, quero dizer, o livro.

Sandra Jatahy Pesavento²
 
O texto de apresentação (nove páginas) foi a poção mágica sobre mim, pobre leitor indefeso diante de sua beleza literária e de suas informações. A professora Pesavento transfigura-se em escritora dotada de notáveis recursos. Sintaxe e refinamento de estilo dão-se as mãos e arrastam o legente para o espaço luminoso.
 
Reúne elementos importantes sobre o advento da fotografia e sobre seu significado na vida da cidade. A imagem como registro de diversas transformações ao longo do tempo. Ouçamos por um breve momento o que nos diz a escritora:
 
 (...) a fotografia, enquanto imagem, é rastro, marca e pegada daquilo que foi um dia. (...) se a foto é imagem, e não a coisa ou ser representado, ela é obra do homem, representação do real.
 
Mas - e aqui se revela o seu lado técnico de ser impressão de luz e registro de vida - ela atesta e exibe a presença daquilo que foi, ela presentifica uma ausência. (págs. 8/9).
 
Prefácio, apresentação, introdução, como queiram, mas, acima de tudo, ensaio precioso de alta eficácia literária. A autora nos envolve sedutoramente com sua palavra bem temperada, original e criativa. Mostra-nos o papel da imagem como perpetuadora de um instante que só chegou até nós porque ela existe.
 
O milagre da fotografia a resgatar do oblívio um momento fugaz na vida de uma pessoa, de uma cidade, de um planeta.
 
Uma das melhores coisas que li nos últimos tempos este ensaio da saudosa professora Sandra Jatahy Pesavento, de quem fui aluno quando cursava Sociologia na UFRGS, no final dos anos 1970.
 
Um bom trabalho literário merece leitura e divulgação. Às vezes, como neste caso, uma introdução vale um livro. Saio agora desta crônica e vou continuar apreciando as belas imagens e os outros textos do Álbum.
______________
 
¹Álbum de Porto Alegre (1860 - 1930). Organização: Marcos Lindenmayer. Editora Nova Roma, Porto Alegre, 2007.
²Foto do site Fronteiras do Pensamento.

domingo, 2 de novembro de 2014

Visão

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto


Eu olho as velas brancas
dos barcos que cruzam
as águas escuras do rio

Sentado no banco do parque
eu observo o indescritível
declínio da tarde
sobre o Guaíba

Aqui embaixo do eucalipto
o sangue escorrendo nas veias
os pés firmes na terra
eu acompanho o lento movimento
das águas e do planeta

Estou condenado ao continente
ao monótono traçado das ruas
à intromissão do tédio e do medo

Mas o rio é um caminho
onde a emoção navega
 
_________
 
Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

sábado, 1 de novembro de 2014

Escutar o outro

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto. 31-10-2014


Escutar o outro é, talvez, a forma mais elevada de sensibilidade.

O mundo está povoado de seres falantes, que só escutam as próprias razões, num monólogo ensurdecedor. Cada vez tem menos gente disposta a ouvir e a refletir, de coração aberto, sobre o que o outro tem a dizer.

O respeito, a empatia, para essas pessoas, não têm voz nem vez. O que vale é ter razão sempre, impor a própria vontade, não importa a que custo.

Somos inquilinos de um tempo que não nos pertence.

Existimos por um momento e depois vamos habitar a memória de Deus (aqueles que creem) ou simplesmente nos esfarelamos e não se fala mais nisso (os que em nada acreditam). A transitoriedade da vida é comum a uns e outros.

Há aqueles, contudo, que vivem como se fossem eternos, como se não tivessem de devolver um dia o seu quinhão de vida. Sentem-se livres e legitimados a executar os próprios desejos e torpezas. O mundo é seu brinquedo.
 
A todos querem submeter e devorar com a urgência dos vampiros (tão em voga, hoje, nas telas). Vivem sem qualquer noção de limite, nenhuma ideia de bondade com o semelhante (e, menos ainda, em relação ao diferente).

Como viver em meio tão hostil e infenso a valores humanos?

De minha parte, estou empenhado em arrumar a casa do ser. Sonho e trabalho, de sol a sol, para mantê-la limpa, com ar fresco e o claro aroma das manhãs. Espero que as pessoas se sintam acolhidas nessa casa simples, com flores da estação na janela.

Sei que é possível ser solidário com o próximo, ainda que o espaço para generosidades esteja cada vez menor.

Todos estamos envolvidos na árdua tarefa da sobrevivência. Mas isso não justifica a violência que vemos no dia a dia, explícita ou dissimulada.

O sofrimento é filho da prepotência, da vaidade exacerbada, da indiferença e da arrogância. Todo exercício arbitrário de poder sobre os outros é perverso.

Podemos viver ao lado das pessoas e não contra elas. Amorosamente.

Enquanto estamos vivos, temos essa bela oportunidade. Não vamos desperdiçá-la.

_________
 
Texto revisto, publicado antes em 29, junho, 2011.
 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Drummond 112

Jorge Adelar Finatto
 
Carlos Drummond de Andrade¹
 
                             
                            Mundo mundo vasto mundo,
                            se eu me chamasse Raimundo
                            seria uma rima, não seria uma solução.
                            Mundo mundo vasto mundo
                            mais vasto é meu coração.²
                                                   
                                             Carlos Drummond de Andrade
                                              
 
31 de outubro de 1902, Itabira, Minas Gerais. Nascia Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta brasileiro do século XX.  Nos deixou em 1987.
 
Os 112 anos de seu nascimento hoje lembramos.
 
A Drummond a nossa sentimental recordação no seu dia, último de outubro. O nosso reconhecimento pelo notável cidadão que soube ser ao lado do poeta e escritor imensos.
 
A nossa gratidão pela obra imortal que legou à língua portuguesa e a todas as línguas do mundo.

_________

¹O crédito da foto será registrado tão logo conhecido o autor.
²Poema de Sete Faces, fragmento. In Reunião: 10 livros de poesia. Carlos Drummond de Andrade.   Livraria José Olympio Editora S.A., Rio de Janeiro, 1977.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Mãos dadas após a morte

Jorge Adelar Finatto
 
photo: divulgação
 
Um casal de esqueletos, enterrado há mais de 700 anos, foi descoberto de mãos dadas na sepultura. O achado, anunciado em setembro último por arqueólogos da Universidade de Leicester, ocorreu na aldeia de Hallaton, na Inglaterra.
 
As ossadas pertencem a um homem e a uma mulher de idades semelhantes e fazem parte de um acervo de outros nove esqueletos encontrados ao longo de quatro anos de escavações. No local havia um cemitério da pequena Capela de St. Morrel, construída no século XIV, época em que o casal foi sepultado.
 
Segundo a arqueóloga responsável pelos trabalhos, Vicky Score, a capela teria sido erigida sobre uma vetusta edificação romana existente ali há mais de 2 mil anos.
 
Eu já vi muitas coisas na minha passagem pelo planeta, raro leitor, mas é a primeira vez que vejo um casal de mãos dadas depois da morte.
 
O comum é as mãos separarem-se ainda em vida. Em casos raros, ficam unidas até o dia em que a morte as separa.
 
Na situação dos esqueletos não foi assim. O afeto que os uniu foi muito além da matéria extinta, prolongou-se numa espécie de união espiritual que atravessou sete séculos e chegou até nós.
 
Há algo tocante e nobre nesse gesto. Hoje as relações terminam mal começam, tão logo brotam as primeiras diferenças e ferem-se suscetibilidades e egoísmos pueris.

Os tempos são de tolerância zero em namoros e casamentos (como se o outro tivesse vindo ao mundo para adivinhar-nos os pensamentos, caprichos e desejos e devesse satisfazer-nos em coisas as quais nem ao menos sabemos bem o que são).

São os tempos em que "a fila anda". Não existe mais a menor paciência diante de defeitos e contrariedades que, com alguma boa vontade e persistência, poderiam ser superados.
 
Em suma, os relacionamentos andam uma merda (desculpem, escapou).
 
O casal de esqueletos, na sua existência post-mortem, mostra-nos uma realidade diferente. Dão um testemunho amoroso. Lembram que talvez exista esperança para o sentimento humano, para além das vaidades, mesquinharias e maldades cotidianas. Partilham um carinho que entrelaça os dedos depois da morte.
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Crônica escrita a partir de notícia publicada no jornal Público, de Portugal, edição de 19 de setembro, 2014, 17h40min.
 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Solidão na montanha: furdunço na aldeia

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto

O solitário da montanha eu sou, às vezes. Mas gosto de percorrer o furdunço da aldeia, caminhar pelas vielas entre as bancas de peixe, frutas, flores e verduras.

Gosto de ouvir o alarido das conversas, os músicos, os contadores de histórias, as bailarinas, os saltimbancos.

Tem horas que me refugio na torre do silêncio. Preciso parar, sentir, pensar, digerir o vivido, imaginar, construir pontes, atravessar.

Agora estou aqui com os passarinhos na varanda do escritório. Eles na vidinha deles (que também não é fácil) e eu na minha. Nos reconhecemos pelo olhar e pelo gosto de voar. Eles comem as frutas nos potes, voltam para as árvores, para o seu canto.

Carregamos no coração uma esperança, Íntima e visceral, como o perfume de uma rosa num dia de tristeza.