sábado, 22 de agosto de 2015

O amor é um invento

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

Os motivos de ser feliz são simples. Um vaso de flor sobre a mesa, o sorriso de alguém, o quarto em sossego nos fundos da casa.

O som das gotas da chuva sobre um balde no quintal. Os passarinhos livres, cantando  seus fados.

Un recuerdo del corazón...
 
Um dia ele foi feliz sentado num banco de praça, a Praça dos Açorianos, em Porto Alegre, a poucos metros do Guaíba. Ela estava ali junto com ele. Em torno do banco, os galhos de um salgueiro-chorão vinham até o chão, formando uma redoma de fios verdes sobre o casal.
 
As águas do lago passam lentamente sob os arcos da vetusta Ponte de Pedra. Era inverno, tarde de sábado, ele emprestou seu casaco a ela.

Uma nesga azul aparecia entre as nuvens.

Por que, na ampulheta de ser feliz, o tempo escorre feito cachoeira?

Estar sentado com ela, no silêncio verde da redoma de um salgueiro, na Praça dos Açorianos, fazia dele um homem feliz. Perigosamente feliz.
 
A memória daquelas tardes ficou impregnada na sua alma. Não como uma ferida: como celebração. Essa é uma das razões que o fazem pensar, nessas longas noites sem sono, que não passou pela existência em vão.

No fundo do espelho das águas do lago, a imagem do jovem casal ficou para sempre guardada. 
 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O senhor do tempo e seu labirinto

Jorge Adelar Finatto
 
o crédito da foto será dado quando conhecido o seu autor


De antigo senhor das horas, o meu velho relógio tornou-se vítima do tempo e hoje sofre com longos intervalos de ausência.

É um relógio que me acompanha desde o século passado. É um objeto austero e simples. Não existem outros como ele à venda. É um dos últimos exemplares vivos de sua geração, se não for o último.
 
Registrou com precisão a passagem do tempo durante muitos e muitos anos. Esse mesmo tempo agora volta-se contra ele.
 
O calendário numérico funciona às vezes, e o escrito perdeu-se na bruma das horas. Esquece em que dia da semana estamos, não sabe bem se é segunda, sábado ou domingo, não distingue passado e presente e o futuro simplesmente não existe.

A passagem das horas confunde-lhe o mecanismo e, por vezes, ele pára sem saber o que fazer, como alguém que perdeu a memória, de repente, na esquina de uma cidade estrangeira.
 
Em suma, o relógio que sempre me guiou, na mata sombria dos dias, precisa agora ser guiado. Já não é mais quem era. Mas eu também não sou mais quem fui e nem por isso vou me atirar no lixo.
 
Não tenho coragem de separar-me dele. Jamais o faria e me recuso a falar sequer no assunto. Contudo, sem que ele soubesse, tive outros relógios, mais funcionais e modernos. Nenhum, porém, conseguiu substituí-lo no meu afeto. 
 
Toda vez que abria a gaveta, encontrava-o calado, sem nada reclamar, olhando as paredes internas do cubículo de madeira. Ao perceber minha presença, olhava-me nos olhos como quem se coloca à disposição para o trabalho e a luta. Um companheiro valente e digno.

Resgatei-o do labirinto em que foi viver.
 
Se ele é hoje apenas a lembrança do relógio que foi um dia, por outro lado não posso negar-lhe reconhecimento pelos serviços prestados. Além disso, atravessamos momentos difíceis juntos, vivemos muitas situações complicadas e dolorosas nessa vida, coisas que atormentam o pensamento e queimam o coração. E, às vezes, fomos felizes também.
  
Carregar o tempo nas entranhas, sem medo, como ele sempre fez, segundo a segundo, ano após ano, de forma incansável, num giro interminável e monótono, é ofício dos piores.
 
Mandei-o à oficina algumas vezes, mas não resolveu o problema. Decidi poupá-lo das internações inúteis no hospital dos relógios, pois observei que esse tipo de ambiente o magoa, pelo ar de tristeza com que retorna a casa.
 
Não sou mais escravo do tempo. Eu faço o que quero do meu tempo. (Por favor, raro leitor, não se iluda: essa disponibilidade é tão sedutora quanto terrível.) 
 
Trago o velho relógio no pulso outra vez. Faço-lhe ajustes manuais com esmero e delicadeza. Quando é necessário, em razão de compromissos e viagens longas, levo um outro, no bolso ou na mala, sem que ele perceba. E assim tocamos a nossa vida.
  
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Texto revisto, publicado antes em 21 de abril, 2013.
 

domingo, 16 de agosto de 2015

Aprendendo com pássaros

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

 
Passei a tarde observando os pássaros. Eles aparecem na varanda do escritório, onde vêm comer as frutas que lhes sirvo todos os dias. Têm um especial apetite por bananas maduras, embora um mamão lhes caia muito bem ao paladar.

Voam desde as árvores e pegam o naco de fruta com o bico. Alguns comem ali mesmo, mas a maioria prefere levar pra casa. Muitos têm família e filhotes pra sustentar. A luta de sempre.
 
Uns agradecem o alimento fazendo um belo concerto a céu aberto.
 
Assim levamos nossa amizade. Às vezes, quando me canso de ser gente, viro pássaro. Fecho os olhos na escrivaninha e me lanço, abrindo as invisíveis asas. Misturo-me então a eles, fazendo parte dessa bela família.

Aprendo com os pássaros a renovar a fé na vida. Viver vale o voo. Viver vale o canto. Passeio entre as árvores e flores, respiro o azul do céu, descanso sobre velhos muros de pedra. Não quero saber de notícias. Como faz bem à alma e à saúde ignorar as notícias do mundo, os passarinhos me ensinam.
 
Nunca vi um pássaro roubar, nem mentir, nem matar, nem humilhar, nem falar mal dos outros.
 
As pessoas são boas por natureza, mas, por via das dúvidas, é sempre bom lembrar que ninguém é decente e digno por acaso. Por decente e digno entendo, antes de qualquer coisa, cultivar limites e não avançar feito fera sobre o semelhante.

Precisamos aprender com os passarinhos.

Tem de haver esforço, respeito, paciência, superação todos os dias. Senão, bem, o resultado é isto que vemos no Brasil.

Com a imagem, procuro o olhar do primeiro homem na aurora primitiva. A visão de um pássaro recém saído do ninho.

Sentir o mundo como da primeira vez.
 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Fanicos e farfalhas

Jorge Adelar Finatto
 
photo de joaninha: Wikipédia. Autor: Jon Sullivan (PD-PDphoto.org]

Quem viu alguma vez uma joaninha caminhando na página de um livro ou sobre uma folha verde sabe do que estou falando.

É o acontecimento mais importante do universo. 

Nenhuma literatura, nenhum cinema, nenhuma filosofia do mundo valem os passos da joaninha. Só que pouca gente percebe o engenho e a arte por trás da construção e da vida da frágil joaninha. 

Existem muitos outros assuntos importantes para se tratar, está bem. Um escritor-fotógrafo a sério não devia ignorar isso. Tudo bem. O fato, contudo, é que me encanto com os farelos do mundo, com a coisa pouca ou nenhuma que somos. Com um raio de sol na parede ou caído dentro de um copo dágua sobre a mesa. 

As coisas pequenas me atraem, me cativam, me elevam. As outras me enfadam, quando não revoltam. Encontro beleza e claridade nos fanicos da existência.

Tudo que é breve e pequeno se parece com ser humano e com estar vivo e ser transitório, e isso me interessa sobretudo.

Os verdadeiros e últimos sentidos habitam muito além das aparências, é assim que eu vejo. E o que eu mais enxergo, quando penso profundamente na vida, é a pequenina joaninha.
 

O mundo silencioso das migalhas me é, por isso, muito caro e diz muito mais sobre o que nós somos - ou o que sou eu, ao menos - do que um tratado ontológico. Quando perdemos a capacidade de expressar o que sentimos, é como se perdêssemos a vida.

Deus nos livre e guarde. 

Na arte, ao menos, podemos voar, sonhar, levitar acima dos mausoléus e crematórios existenciais. Mas sei também que ninguém pode viver entre nuvens.
Deve haver um caminho de passagem entre as farfalhas da vida e a copa das estrelas; entre a imensidão da Via Láctea e os passos humildes e comoventes da joaninha.
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Texto revisto, publicado antes em 25/11/2012.

domingo, 9 de agosto de 2015

A sombra da esfinge

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 

Como ele nunca teve pai para amar, sempre lhe pareceu que a coisa mais em falta no mundo não é dinheiro, nem ouro, nem diamante, nem qualquer outra coisa, mas um abraço de pai.

Quando menino, era difícil explicar aquela ausência para os outros de sua idade. Na rua e na escola, as pessoas faziam perguntas, cara de admiração. Não ter pai era mesmo que não ter um braço ou uma perna.

A sombra da esfinge o perseguiu pela vida. No dia dos pais, aniversários, natais, páscoas, reuniões da escola, fins de semana, noites e dias sem fim. A falta projetou-se nos seus sonhos e pesadelos.

Um dia descobriu, admirado, que muitas outras casas não tinham também a figura ausente. Só que muita gente escondia isso. Estranho: escondiam um ser que na realidade não existia. Ocultavam o mito. Alguns possuíam apenas uma deprimente figura paterna, que mais atrapalha que ajuda.

Os sem pai já não eram exceção. Talvez fossem até maioria.

Ficou nele a idéia de que as mulheres, e não os homens, fazem o mundo funcionar. São pais e mães de seus filhos.

Na verdade não chegava a ser um consolo, mas a consciência de uma espécie de mutilação social. Sim, falta o pai afetivo em grande parte das famílias brasileiras. Às vezes, ele existe, mas é como se não existisse.

Por essas e por outras, uma parte da humanidade é toda seqüelada, ele pensava enquanto caminhava com o filho pela mão, na praça do bairro, na tarde de domingo.
 
Pra ele, agora, todo dia é dia dos pais.
 
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Texto revisto, publicado em 16 de maio, 2013. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Aquário

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto


No teu rosto
habitam peixes
de todas as cores

às vezes um sonho cruza
as tuas pestanas

mas é só um reflexo
foges rápido pro outro lado

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Poema do livro Viveiro. Jorge A. Finatto. Edições Sanguinovo, São Paulo, 1981.

domingo, 2 de agosto de 2015

Viver no Bom Fim

Jorge Adelar Finatto

Amantes sobre a cidade (Vitebsk), 1918. Marc Chagall.
 
Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê a minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta.
                           Marc Chagall*

Um dia eu vou viver no Bom Fim. Deixarei tudo pra trás e vou viver a vida real dos filmes, músicas, livros, pinturas, histórias e memórias do velho judeu bairro porto-alegrense.

O fim do mundo está batendo na porta todos os dias, proclamam os jornais. Está mais do que na hora de voar feliz outra vez sobre aqueles telhados, como fazia na adolescência, à semelhança dos amantes e violinistas dos quadros de Chagall.

No sábado passado, quando o céu veio abaixo, percebi que era o certo a fazer. O fim do mundo era uma questão de horas. Tomei o banho de chuva enquanto visitava sebos atrás de um livro.

Choveu tanto que lá pelas tantas comecei a retirar peixinhos que nadavam nos bolsos do meu casaco. Soltei-os na correnteza junto à calçada entre os barcos de papel que navegavam velozmente.

Vi pessoas andando e conversando sob os guarda-chuvas. Vi aqueles pequenos edifícios através das lentes ensopadas, uns grudados nos outros, parecendo jogos de armar de tijolinhos de madeira.

Em meio ao dilúvio que caía, tomei a decisão de ir viver nos cafés, livrarias, teatros, bares, fruteiras, esquinas e cinemas do Bom Fim (se é que ainda existem cinemas de rua no bairro, como os extintos Baltimore e o Bristol).

Levarei os dias a olhar as altas palmeiras da Oswaldo Aranha. Nas noites de inverno, quando a solidão bate mais fundo, sairei a caminhar com os camaradas pelas ruas do bairro.

Como no tempo da Esquina Maldita, da qual fui frequentador eventual, entre 1976 e 1980. Nenhum outro lugar da cidade tinha aquele clima de resistência à ditadura e à desesperança.

Assim era a Esquina: meio Sartre, meio Castor, meio Fernando Ribeiro, meio Scola, meio Caio Fernando Abreu, meio Cantos de Maldoror. Bar Alaska, Isaac, Revolução Cubana, rodas de violão, conversas, namoros. Meio fim de noite, meio começo de alguma coisa. 

Nos telhados das poucas casas que restam, talvez se possam ouvir ainda os violinistas. Casais talvez flutuem da mãos dadas pelo espaço. Personagens saídos das pinturas de Chagall habitavam os ares do Bom Fim.
 
Uma carroça carregada de flores costumava estacionar, nas noites de julho, na esquina das ruas Fernandes Vieira e Vasco da Gama. O florista - um velho judeu remanescente dos judeus que fundaram o bairro - alimentava o cavalo tirando capim de um saco. Depois saía a distribuir cestos de flores na porta das casas e no portão dos edifícios.

Antes de amanhecer, ele subia na carroça e sumia na névoa. Só se ouvia o tóc-tóc das patas do cavalo sobre as pedras em direção ao Parque da Redenção. Por causa dele uma suave fragrância se espalhava pelas ruas.

Um dia vou viver no Bom Fim. É lá que habitam, nos cinemas, bibliotecas, sótãos e calçadas, amigos espirituais como Carlitos, Ingmar Bergman, Kafka, Chagall, Samuel Rawet, Scholem Aleikhem, Fellini e muitos outros, que nos ajudam a não desistir diante do temporal.
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Um poema de Chagall (fragmento). Tradução de Manuel Bandeira. Antologia poética, 7ª ed., Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1974.
 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A fala de Arlequim

Jorge Adelar Finatto
 
Veneza, Itália. photo: jfinatto

Querer eu quero, e o querer é tudo. Cumpro os regulamentos do invisível.

De silêncio em silêncio, as difíceis passagens. Eu sinto no calado.

Os comedimentos. A pessoa sonhada tem certos jeitos. De não se deixar ver, nem tocar, nem sentir, nem sonhar. Os caprichos do ser amado.

As magnólias me doem no inverno de tão belas. Eu lírico. Os tormentos do amador. A musa é do tipo nem aí. Não sabe de mim.

Arlequim ao relento eu sou. Os rigores da lira me dilaceram. Vivo no austero das horas. Sinto no meu segredo.

Ela não me vê. Eu a vejo. Amador.
 
A musa é só o motivo. Eu sou o seu adamastor.

O que dorme no banco da praça. O que mora dentro do casaco e da manta. O do chapéu ridículo. O que fala algaravias no café. O que não suporta gritos. O que senta no cais a olhar as faluas e gaivotas.

Caminho à beira dos penhascos.
 
Ruínas são coisas que habitam no íntimo da pessoa. O que se fala e o outro não entende. Um diz aurora, a musa entende anoitecer. As palavras, tonterias.

Sentimento é o ora-veja da vida. Cultivo distância, alimento paciência. A musa e seu mistério e seu desdém.

O ser sonhado tem certos olhares. A musa vive num jardim secreto que eu mesmo inventei. A trança de linho desce pelo muro escarpado do castelo. Eu romântico.
 
A vida gira no esconso das horas cinzas.

Os trapos coloridos do meu coração ao vento.

Amador, amador. 
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Texto revisto, publicado em 30 de outubro, 2010.

domingo, 26 de julho de 2015

A porta misteriosa

Jorge Adelar Finatto
 
fotos: jfinatto

 
Um leitor observa que as fotografias aqui publicadas não mostram pessoas. Diz sentir muita solidão nas minhas imagens. O textos, bem. Dia sim, dia não, se aproveita alguma coisa, segundo ele.
 
Olhando bem, raro leitor, verá que existem pessoas, sim, nas fotos. Mas o que eu posso fazer se elas se escondem atrás de árvores, deitam-se no algodão branco das nuvens, viram pássaros, flores, estátuas, peixes? Ou simplesmente desaparecem na neblina?
 
Algumas valem-se de sutil artimanha e afundam-se em repentinos penhascos, embrenham-se em densas ramagens. Outras, talvez mais tímidas, tornam-se invisíveis sob côncavas umbelas, capelos e guarda-chuvas.
 
De qualquer forma, as pessoas estão lá quando fotografo. Só que, depois, por alguma misteriosa porta, saem de cena sem avisar, passando incômoda sensação de ausência.

Os textos, bem. Não sei dizer quanto valem, se é que valem. Mas me apraz saber que, dia sim, dia não, o perspicaz e exigente leitor passa por aqui para julgá-los e, quem sabe até, de vez em quando, os absolve.
 
O importante é não perder o sentimento da coisa.
 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A vida invisível

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

O texto sobre fantasmas causou estranhamento.

Leitores questionam o fato de o autor tratar como natural a existência de assombrações em Passo dos Ausentes.

Mais que isso, não entendem como eles transitam livremente, e à luz do dia, pelas ruas, praças, telhados e calçadas da nossa pequena cidade.
 
Eu também muitas vezes me pergunto a que se deve a presença dos voláteis entre nós. Eles não se fazem de invisíveis por aqui. E isso não causa perplexidade entre os vivos. São tênues os limites entre o real e o imaginário nestas bandas dos Campos de Cima do Esquecimento. 
 
O que se vê: os fantasmas em nada interferem no dia a dia da aldeia. Vivem com discrição sua espessa solidão, sem fazer alvoroço nem assustar  ninguém. Habitam recantos de ausência e silêncio.

Segundo Heitor dos Crepúsculos, o mais conhecido volátil desse território perdido, nossa aldeia é o único lugar do mundo onde fantasmas podem viver em paz, sem causar estrépito nem escândalo. A população não lhes faz caso.

A fantasmagoria pertence à história da cidade.

Não disseram que o passado está vivo no presente? Que os mortos cada vez mais governam os vivos? Não sei se isto é assim. Acredito que a responsabilidade pelo presente é sempre, a um só tempo, individual e coletiva. E é hoje, não ontem.

Não existem roteiros pré-escritos. Tampouco abismos e perdas intransponíveis. Havemos de escrever novas e belas histórias.
 
O pouco que sei - se é que sei - é que, para além dos fantasmas, há vida silenciosa pulsando entre nós em todos os lugares do mundo.

Gente que não é notada. Gente invisível e solitária, que vive de cabeça baixa, longe de tudo e de todos. É preciso estar atento aos fantasmas-vivos que nos cercam, dar-lhes abrigo e afeto antes que morram de frio.

Nem tudo que parece invisível está, de fato, fora da realidade. 
  

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ruas da minha aldeia

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

 
Na tarde de inverno, caminho pelas ruas adormecidas de Passo dos Ausentes.

Uma garoa fina penetra até a alma. O dia amanheceu nevoento e gelado. As calçadas cobertas de folhas secas. Eu vou andando, misturo-me com elas, abro caminho na névoa.

A fumaça dos fogões a lenha sobe lentamente nas chaminés. Não me deixa esquecer quem sou: um homem que nasceu nas montanhas e que, ainda na infância, delas foi desterrado por acontecimento de morte na família.
 
Muito tempo depois, o regresso para a Serra. Mas a maior parte das pessoas e das coisas que eu amava não existia mais.  A velha casa tinha habitantes mortos. De alguma forma, tinha de aprender a conviver com os voláteis para reencontrar os seres amados.

Não sou arqueólogo do oblívio. A escavação do tempo extinto não me interessa, senão pela invenção e pela travessia do esquecimento. Não vou revirar escombros.
 
Sei lá o que resta pulsando em segredo no sótão, porão e implúvio.

A garoa insistente escorre pelos muros e paredes.  
 
Vou por aí sem desespero, como essas folhas sem peso soltas no ar.
 
O sol abraça os vivos à flor da terra. Passo diante de portas e janelas silenciosas. Sinto o aroma de pão feito em casa. O cheiro de lenha sai das chaminés sobre os telhados úmidos.

Sou passageiro eventual de um dia que se aquece ao sol tênue do inverno. Trago essa luz acalentando o coração, o chapéu e o capote.
 
Não quero a melancolia das horas findas. Ao menos não agora, ao menos não nesse momento luminoso, nessa tarde tão fria, o sol escondido atrás do alvo tecido das nuvens. 
 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Da existência de fantasmas

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

 
Nunca demonstre medo nem saia correndo de um fantasma. Tampouco se faça de corajoso. Jamais vá para o enfrentamento. Lutar com um fantasma é desafiar o vento e o relâmpago. Deixe-o quieto na sua infinita solidão.

Os fantasmas são seres desesperados e melancólicos por natureza. Habitam casas antigas que tenham sótão, escadaria e porão. Calma: não há notícia de fantasmas morando em apartamentos. Isso é realmente muito raro, para não dizer inverossímil.

Às vezes sentam na mesa da sala de jantar. Fique frio. Não demonstre espanto diante do chapéu e do capote surrados e molhados do orvalho, se masculinos, ou diante das echarpes, da maquiagem pesada e dos vestidos floridos, fora de época, se femininos. Alguns adormecem no sofá, de madrugada, diante da televisão, exaustos diante da péssima programação.
 
Apesar de não parecer, são seres sentimentais. Ficam ressentidos com a maledicência que pesa sobre eles. A quase totalidade não quer apavorar ninguém, não deseja causar medo ou incômodo. Quer apenas fazer e receber companhia. Não se iluda: se há um fantasma na sua vida, existe uma razão.
 
Se você vive perto de um fantasma, trate-o com delicadeza. Observe alguns preceitos. Por exemplo, não banque o valentão nem faça piadinhas. Nem fique arrepiado.

Se não quiser conversar, cale e passe reto. Pode até mesmo permanecer em silêncio no mesmo recinto, fazendo suas coisas. Isto, aliás, eles apreciam muito. Revela certa intimidade.

Alcance algo para entreter o volátil. Eles adoram remexer velhos álbuns de fotografia.
 
Com exceção da estirpe dos exibicionistas, que gostam de fazer barulhos pela casa em horas impróprias, empurrando móveis, arrastando correntes e batendo portas, os outros são discretos. Querem apenas estar ali.

Nada mais esperam da vida nem da morte. Só querem um pouco de companhia para amenizar a solidão e o peso das horas no mundo oco onde vagueiam. 
  

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Não esqueça de visitar um amigo morto

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 
Deixem-me caminhar
até que tropece e desapareça
na neve
                                   Matsuo Bashô*
 
A viagem ao mundo das formas e cores só me é possível através do óculos. Pra mim, a maior invenção de todos os tempos. Depois do guarda-chuva, claro, e do rádio elétrico.
 
Estou numa fase em que, sem óculos, sentar ao lado da janela é um desperdício e viajar de trem perde o encanto. Só divulgo vultos e uma neblina densa.

Aproveitei o dia pra caminhar em direção ao Contraforte dos Capuchinhos, a fim de visitar meu amigo Claudionor, o Anacoreta, em sua caverna/observatório de estrelas incrustada na montanha.

Durante o percurso por estradas a pique e oblíquas encostas, dormi uma noite na Volta da Espera, que fica na colina do moinho abandonado. Existe ali uma pequena cabana para descanso dos viajantes.

Logo que cheguei acendi o fogo campeiro para aquecer o álgido ambiente forrado por paredes de basalto azulado. Fiz um bom café passado na água de uma sonora fonte que existe nas cercanias da cabana.

O cheiro inefável do café tomou conta. Degustei a celestial bebida na caneca de alumínio, com pão aquecido e margarina da colônia. Está bem, havia um quarto de bolo de fubá que trouxe de casa.

Depois acendi o lampião portátil e terminei a noite lendo O gosto solitário do orvalho, de Matsuo Bashô (1644-1694). Universal poeta japonês de mínimos versos!

Um vento glacial soprou a noite inteira. O vento sul que traz nos foles invisíveis acordes de bandoneón. Sim, é o gelado vento que vem da Patagônia nessa época e se aninha nos Campos de Cima do Esquecimento.

Acordei muito cedo e me fui em viagem por entre galhos secos e folhas espalhadas. O dia nublado. A mochila nas costas e, ao ombro, o velho bornal com luneta, calepino e óculos reserva.

O belo mundo aparecia diante de mim outra vez. Segui em frente, contornando os penhascos do caminho pela estrada de terra, sob o sol frio, à beira de verdes abismos com córregos ao fundo. 

No caminho colhi margaridas cor-de-rosa e lírios azuis clarinhos de inverno para fazer um agrado ao solitário Claudionor. Pressentindo a minha chegada, ele foi me esperar na estrada. Ficou tão contente com a minha presença que me ocorreu visitar meu amigo mais seguido.

Não esqueça de visitar um amigo morto no inverno.

O inverno é uma bela estação para estar com amigos.

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O gosto solitário do orvalho, Matsuo Bashô. Editora Assírio e Alvim, Lisboa, fevereiro de 1986. Tradução de Jorge de Sousa Braga.
 

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Iluminação pela razão e pelo sentimento

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto. os Campos de Cima do Esquecimento
 
Escrever e ler até altas horas, procurar livros na estante em busca de beleza e consolo, remexer fotografias, papéis, revistas antigas, portulanos, velhas cartas (vivas como se fosse ontem), eis a obsessão do astrônomo do farelo. Que não é outra senão querer dominar o tempo. Um esforço atroz e inútil.
 
Nenhum livro, nenhuma teoria, nenhum pensador, conseguiram até hoje explicar o tempo e a nossa miserável transitoriedade. Quem consegue segurar uma onda no mar?
 
O jornal, a fotografia, a literatura, a música, a pintura, o blog, a ciência, a dança e a arte em geral são tentativas desesperadas de se apropriar do tempo.

Ora, o tempo que vai para a página do jornal, que se deposita no fundo da ampulheta, da câmara escura na máquina fotográfica, nas linhas do livro, é só um insignificante fragmento. Um grão de pó.

Perdoem-me por isso Cervantes, Goethe, Rilke, Van Gogh, Bach, Mozart, Jobim, Unamuno, Ortega y Gasset, Juan Ramón Jiménez, Heitor Saldanha, Giovannino Guareschi, Salvador Espriu e toda a turma. Não posso nem quero ser-lhes ingrato.
 
O tempo não é uma realidade absoluta. Pelo contrário, é bastante plural e relativa (não é mesmo, Einstein?). Existem tantos tempos quantos são os seres humanos sobre a Terra.

Os calendários são meros marcadores de alguma coisa que passa ou parece passar. Einstein e outros consideram a ideia de fluxo temporal (rumo ao futuro) uma ilusão somente (para eles o tempo não passa).*

Vejo que cada pessoa carrega um tempo pessoal, único, individual, intransferível.

O meu tempo, que começou no dia, na hora, na cama e na casa em que nasci na Rua São João, é diferente de todos os outros tempos. E acabará no dia em que eu me for.

Se não existissem as pessoas, o tempo não teria o menor sentido, não existiria simplesmente. O tempo existe para nós, que somos seus solitários passageiros. O tempo só existe embaixo da nossa pele. Fora de nós, o tempo jaz frio e sem respiração.

Nem sei, raro leitor, por que, afinal, estou falando do tempo, quando, na verdade, eu queria falar de orquídeas, joaninhas e passarinhos. Só eles podem me iluminar nessa tarde coberta de chuva, neblina e muito frio em Passo dos Ausentes.

Não acredito em conhecimento concebido apenas com a razão. Sabedoria, que é conhecimento em seu mais elevado patamar, só se adquire com razão e sentimento. O resto é bomba atômica, desconsideração do outro, assassinato, mentira, todo tipo de maldade, terrorismo, sofrimento e corrupção.

Os passarinhos vêm comer frutas na varanda do escritório. Alguns eu nunca tinha visto. Apareceu hoje um lilás, azul, branco, com peito de intenso amarelo e sobre a cabeça um penachinho vermelho. Tentei fotografá-lo, mas assim que pegou o pedaço de banana sumiu para as árvores. Deve voltar.
 
E tem as orquídeas que dão o ar de sua delicada graça, iluminando tudo ao redor nos troncos do quintal.

Sei que vivemos num país e num mundo com uma talvez irrecuperável vocação para o abismo e a autodestruição. Mas as coisas belas estão aí para provar que algo melhor é possível.