segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ruas da minha aldeia

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

 
Na tarde de inverno, caminho pelas ruas adormecidas de Passo dos Ausentes.

Uma garoa fina penetra até a alma. O dia amanheceu nevoento e gelado. As calçadas cobertas de folhas secas. Eu vou andando, misturo-me com elas, abro caminho na névoa.

A fumaça dos fogões a lenha sobe lentamente nas chaminés. Não me deixa esquecer quem sou: um homem que nasceu nas montanhas e que, ainda na infância, delas foi desterrado por acontecimento de morte na família.
 
Muito tempo depois, o regresso para a Serra. Mas a maior parte das pessoas e das coisas que eu amava não existia mais.  A velha casa tinha habitantes mortos. De alguma forma, tinha de aprender a conviver com os voláteis para reencontrar os seres amados.

Não sou arqueólogo do oblívio. A escavação do tempo extinto não me interessa, senão pela invenção e pela travessia do esquecimento. Não vou revirar escombros.
 
Sei lá o que resta pulsando em segredo no sótão, porão e implúvio.

A garoa insistente escorre pelos muros e paredes.  
 
Vou por aí sem desespero, como essas folhas sem peso soltas no ar.
 
O sol abraça os vivos à flor da terra. Passo diante de portas e janelas silenciosas. Sinto o aroma de pão feito em casa. O cheiro de lenha sai das chaminés sobre os telhados úmidos.

Sou passageiro eventual de um dia que se aquece ao sol tênue do inverno. Trago essa luz acalentando o coração, o chapéu e o capote.
 
Não quero a melancolia das horas findas. Ao menos não agora, ao menos não nesse momento luminoso, nessa tarde tão fria, o sol escondido atrás do alvo tecido das nuvens. 
 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Da existência de fantasmas

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

 
Nunca demonstre medo nem saia correndo de um fantasma. Tampouco se faça de corajoso. Jamais vá para o enfrentamento. Lutar com um fantasma é desafiar o vento e o relâmpago. Deixe-o quieto na sua infinita solidão.

Os fantasmas são seres desesperados e melancólicos por natureza. Habitam casas antigas que tenham sótão, escadaria e porão. Calma: não há notícia de fantasmas morando em apartamentos. Isso é realmente muito raro, para não dizer inverossímil.

Às vezes sentam na mesa da sala de jantar. Fique frio. Não demonstre espanto diante do chapéu e do capote surrados e molhados do orvalho, se masculinos, ou diante das echarpes, da maquiagem pesada e dos vestidos floridos, fora de época, se femininos. Alguns adormecem no sofá, de madrugada, diante da televisão, exaustos diante da péssima programação.
 
Apesar de não parecer, são seres sentimentais. Ficam ressentidos com a maledicência que pesa sobre eles. A quase totalidade não quer apavorar ninguém, não deseja causar medo ou incômodo. Quer apenas fazer e receber companhia. Não se iluda: se há um fantasma na sua vida, existe uma razão.
 
Se você vive perto de um fantasma, trate-o com delicadeza. Observe alguns preceitos. Por exemplo, não banque o valentão nem faça piadinhas. Nem fique arrepiado.

Se não quiser conversar, cale e passe reto. Pode até mesmo permanecer em silêncio no mesmo recinto, fazendo suas coisas. Isto, aliás, eles apreciam muito. Revela certa intimidade.

Alcance algo para entreter o volátil. Eles adoram remexer velhos álbuns de fotografia.
 
Com exceção da estirpe dos exibicionistas, que gostam de fazer barulhos pela casa em horas impróprias, empurrando móveis, arrastando correntes e batendo portas, os outros são discretos. Querem apenas estar ali.

Nada mais esperam da vida nem da morte. Só querem um pouco de companhia para amenizar a solidão e o peso das horas no mundo oco onde vagueiam. 
  

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Não esqueça de visitar um amigo morto

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 
Deixem-me caminhar
até que tropece e desapareça
na neve
                                   Matsuo Bashô*
 
A viagem ao mundo das formas e cores só me é possível através do óculos. Pra mim, a maior invenção de todos os tempos. Depois do guarda-chuva, claro, e do rádio elétrico.
 
Estou numa fase em que, sem óculos, sentar ao lado da janela é um desperdício e viajar de trem perde o encanto. Só divulgo vultos e uma neblina densa.

Aproveitei o dia pra caminhar em direção ao Contraforte dos Capuchinhos, a fim de visitar meu amigo Claudionor, o Anacoreta, em sua caverna/observatório de estrelas incrustada na montanha.

Durante o percurso por estradas a pique e oblíquas encostas, dormi uma noite na Volta da Espera, que fica na colina do moinho abandonado. Existe ali uma pequena cabana para descanso dos viajantes.

Logo que cheguei acendi o fogo campeiro para aquecer o álgido ambiente forrado por paredes de basalto azulado. Fiz um bom café passado na água de uma sonora fonte que existe nas cercanias da cabana.

O cheiro inefável do café tomou conta. Degustei a celestial bebida na caneca de alumínio, com pão aquecido e margarina da colônia. Está bem, havia um quarto de bolo de fubá que trouxe de casa.

Depois acendi o lampião portátil e terminei a noite lendo O gosto solitário do orvalho, de Matsuo Bashô (1644-1694). Universal poeta japonês de mínimos versos!

Um vento glacial soprou a noite inteira. O vento sul que traz nos foles invisíveis acordes de bandoneón. Sim, é o gelado vento que vem da Patagônia nessa época e se aninha nos Campos de Cima do Esquecimento.

Acordei muito cedo e me fui em viagem por entre galhos secos e folhas espalhadas. O dia nublado. A mochila nas costas e, ao ombro, o velho bornal com luneta, calepino e óculos reserva.

O belo mundo aparecia diante de mim outra vez. Segui em frente, contornando os penhascos do caminho pela estrada de terra, sob o sol frio, à beira de verdes abismos com córregos ao fundo. 

No caminho colhi margaridas cor-de-rosa e lírios azuis clarinhos de inverno para fazer um agrado ao solitário Claudionor. Pressentindo a minha chegada, ele foi me esperar na estrada. Ficou tão contente com a minha presença que me ocorreu visitar meu amigo mais seguido.

Não esqueça de visitar um amigo morto no inverno.

O inverno é uma bela estação para estar com amigos.

___________

O gosto solitário do orvalho, Matsuo Bashô. Editora Assírio e Alvim, Lisboa, fevereiro de 1986. Tradução de Jorge de Sousa Braga.
 

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Iluminação pela razão e pelo sentimento

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto. os Campos de Cima do Esquecimento
 
Escrever e ler até altas horas, procurar livros na estante em busca de beleza e consolo, remexer fotografias, papéis, revistas antigas, portulanos, velhas cartas (vivas como se fosse ontem), eis a obsessão do astrônomo do farelo. Que não é outra senão querer dominar o tempo. Um esforço atroz e inútil.
 
Nenhum livro, nenhuma teoria, nenhum pensador, conseguiram até hoje explicar o tempo e a nossa miserável transitoriedade. Quem consegue segurar uma onda no mar?
 
O jornal, a fotografia, a literatura, a música, a pintura, o blog, a ciência, a dança e a arte em geral são tentativas desesperadas de se apropriar do tempo.

Ora, o tempo que vai para a página do jornal, que se deposita no fundo da ampulheta, da câmara escura na máquina fotográfica, nas linhas do livro, é só um insignificante fragmento. Um grão de pó.

Perdoem-me por isso Cervantes, Goethe, Rilke, Van Gogh, Bach, Mozart, Jobim, Unamuno, Ortega y Gasset, Juan Ramón Jiménez, Heitor Saldanha, Giovannino Guareschi, Salvador Espriu e toda a turma. Não posso nem quero ser-lhes ingrato.
 
O tempo não é uma realidade absoluta. Pelo contrário, é bastante plural e relativa (não é mesmo, Einstein?). Existem tantos tempos quantos são os seres humanos sobre a Terra.

Os calendários são meros marcadores de alguma coisa que passa ou parece passar. Einstein e outros consideram a ideia de fluxo temporal (rumo ao futuro) uma ilusão somente (para eles o tempo não passa).*

Vejo que cada pessoa carrega um tempo pessoal, único, individual, intransferível.

O meu tempo, que começou no dia, na hora, na cama e na casa em que nasci na Rua São João, é diferente de todos os outros tempos. E acabará no dia em que eu me for.

Se não existissem as pessoas, o tempo não teria o menor sentido, não existiria simplesmente. O tempo existe para nós, que somos seus solitários passageiros. O tempo só existe embaixo da nossa pele. Fora de nós, o tempo jaz frio e sem respiração.

Nem sei, raro leitor, por que, afinal, estou falando do tempo, quando, na verdade, eu queria falar de orquídeas, joaninhas e passarinhos. Só eles podem me iluminar nessa tarde coberta de chuva, neblina e muito frio em Passo dos Ausentes.

Não acredito em conhecimento concebido apenas com a razão. Sabedoria, que é conhecimento em seu mais elevado patamar, só se adquire com razão e sentimento. O resto é bomba atômica, desconsideração do outro, assassinato, mentira, todo tipo de maldade, terrorismo, sofrimento e corrupção.

Os passarinhos vêm comer frutas na varanda do escritório. Alguns eu nunca tinha visto. Apareceu hoje um lilás, azul, branco, com peito de intenso amarelo e sobre a cabeça um penachinho vermelho. Tentei fotografá-lo, mas assim que pegou o pedaço de banana sumiu para as árvores. Deve voltar.
 
E tem as orquídeas que dão o ar de sua delicada graça, iluminando tudo ao redor nos troncos do quintal.

Sei que vivemos num país e num mundo com uma talvez irrecuperável vocação para o abismo e a autodestruição. Mas as coisas belas estão aí para provar que algo melhor é possível.
  

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Amar os caminhos, os ventos

Jorge Adelar Finatto

 
photo: jfinatto


Ninguém deixa a velha casca sem sofrimento. O difícil parto de si mesmo. As verdadeiras mudanças vêm de dentro pra fora.

Ler o roteiro da nossa história para transformá-la requer reconhecer as circunstâncias, um olhar amoroso e crítico sobre a paisagem da qual fazemos parte.

Eu sou eu e minha circunstância, o ensinamento mais conhecido de Ortega y Gasset, principalmente entre os que nunca leram o filósofo.

É necessário buscar o sentido do que nos rodeia, procurar entender as suas razões, cultivar a claridade, assim nos estimula o mestre.*
 
É preciso, digo eu, secar as lágrimas, tirar o pó da roupa, conjurar os medos, não desistir.

Amar os caminhos, os ventos, seguir em viagem.

Nada como a segunda-feira pra botar o pé no mundo.

__________

*Meditações do Quixote. José Ortega y Gasset. Comentários por Julián Marías. Livro Ibero Americano Ltda. Tradução de Gilberto de Mello Kujawski. São Paulo, 1967.
 
Ortega y Gasset e as Meditações do Quixote:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/07/ortega-y-gasset-e-as-meditacoes-do.html 

  

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Somos uma irrecusável perda sob o sol

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

Não suportamos mais despedidas. Quando alguém morre ou vai-se embora, fica um buraco insuportável na paisagem.

 
Inverno. Passo dos Ausentes é um lugar perdido na Serra do Rio Grande do Sul, cercado de neblina e vento. Um resto de sol, entre nuvens, ilumina as poucas ruas. 

As folhas secas caem no chão. Passam vultos na praça, fugindo do frio e da noite próxima.

O inverno impõe um ritual próprio. Nos recolhemos cedo em torno do fogão a lenha, os pinhões assando na chapa, a água esquentando na chaleira. Pouco saímos à rua. Nos tornamos invisíveis.

Somos poucos os habitantes da velha cidade. Estamos em extinção.

A população, ao invés de aumentar, está diminuindo ao longo dos anos. Os jovens vão embora cedo, só voltam de vez em quando, em datas especiais. A falta de gente faz com que nos agarremos uns aos outros. Preservar o que resta da cidade, cuidar bem dos que ficaram, é o que nos move.

Somos poucos. A memória e o afeto são nosso escudo contra o oblívio.

Em Passo dos Ausentes, qualquer pessoa é mais do que um simples habitante, é alguém da família. Imprescindível como um amigo ou um parente a quem se quer muito.

Nesse território tão pequeno e esquecido, não podemos abrir mão de ninguém. Nos procuramos e nos reconhecemos uns nos outros. Espelhos humanos é o que somos, espelhos que não podem quebrar. Todos muito diferentes entre si, todos indispensáveis.

Somos poucos e raros.
 
Talvez por isso, mais do que em outros lugares, temos muito presente o sentido da solidão e da brevidade das coisas. As brigas aqui não podem durar mais do que um dia, sob pena de morrermos congelados.

O maestro da banda municipal, o Giocondo, morreu faz cinco anos.

Desde então, não apareceu ninguém como ele pra tomar conta do nobre conjunto. Os músicos tocam as mesmas músicas, fazem  seu trabalho com esforço. Mas não é a mesma coisa. Falta o Giocondo com seu talento, criatividade, sua cabeça branca, no coreto da praça, regendo os componentes da banda, entusiasmando o público do modo como só ele sabia fazer.

Sem a presença do nosso maestro, a banda toca. Mas não encanta.

Os moradores de Passo dos Ausentes são livros vivos, depositários da memória comum. As histórias que cada um traz, as lembranças, os sentimentos, esse acervo é de todos, nada pode ser desperdiçado.

O frio, a garoa, a névoa, a chuva, o vento e a neve não dão trégua. Resta o olhar ao longe através do Contraforte dos Capuchinhos.

O inverno cultiva sentidos extraviados.

Coisas que para outros não têm importância, para nós são essenciais: o rumor do riacho acordando o dia, o som das asas de uma borboleta cruzando o jardim, o canto dos pássaros nos quintais, o ar saturado de oxigênio na mata em volta da cidade, os ramos floridos das buganvílias subindo nos portões, as cartas e retratos antigos no fundo das gavetas.

Em Passo dos Ausentes, as pessoas ruminam tudo o tempo todo. Vasculham o voo das nuvens e das andorinhas azuis, escutam o silêncio das constelações, andam absortas na beira dos penhascos que nos cercam.

Os detalhes das coisas importam. Não estamos à vontade no mundo. Vivemos num tempo mínimo.

Viver nos pesa muito, muito.

Somos uma irrecusável perda sob o sol. Viajantes audazes a navegar contra o mar do esquecimento. Não suportamos mais despedidas.

Quando alguém morre ou vai-se embora, fica um buraco insuportável na paisagem.
 
Os fantasmas costumam encontrar-se na estação de trem abandonada. Ali Juan Niebla, o bandoneonista cego, executa seus concertos todas as terças e quintas, às cinco da tarde, esperando os passageiros do trem que nunca chega.

No banco da gare vazia, com o grosso capote e os óculos escuros, seus dedos deslizam rapidamente, às vezes suavemente, sobre o teclado branco e preto, enquanto movimenta a cabeça para os lados, para trás, para frente. 

Sempre em silêncio, com suas grossas mantas e casacos de lã, os fantasmas sentam perto dos trilhos cobertos de hera,  ouvem o concerto de Niebla. 

O relógio redondo e preto, na entrada da estação, está parado desde a metade do século passado.

Diante da evasão das pessoas em busca de outros sonhos e horizontes, e do avanço do oblívio nas ruas e casas, precisamos urgentemente reconstruir a cidade do afeto, da memória  e do encontro. Será que conseguiremos?

Habitamos os Campos de Cima do Esquecimento.

No austero silêncio das nuvens, essa página de busca-vida.
 
_____________
 
Histórias de Passo dos Ausentes. Registro na Biblioteca Nacional, Ministério da Cultura, Escritório de Direitos Autorais, Rio de Janeiro, nº 663.190.

Texto  revisto, publicado antes  em 26 de julho de 2010.
 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A hora de silenciar

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto


A arte será sempre para poucos. Só para os que se deixam tocar pela emoção. Aqueles que enfrentam o medo do desconhecido e não fogem do encontro.  Um pássaro prestes a alçar voo.
 
Os que se fecham não participam do rico universo cognitivo e sensitivo que a arte proporciona. Trancam-se dentro de si mesmos e só têm olhos para o que vai na superfície das coisas, não querem ver o que há do outro lado.
 
Não raro vivenciamos os dois estados de alma, principalmente o de querer fechar-nos para a vida, numa atitude de proteção. Se eu não sentir, não me envolvo com nada e não sofro.
 
Só que o preço que se paga para este não sofrer é muito mais alto do que aquele de abrir-se para o sentimento. Na arte como na vida.
 
O que não significa jogar-se dentro do abismo só para ver o que tem lá dentro. Ninguém pode andar por aí pela selva do mundo sem bússola e sem equipamento de sobrevivência.
 
As obras de arte não substituem o viver. Apenas realçam sua beleza, chamam a  atenção para sua grandeza, sua dignidade, destacam seu irrecusável valor e sua raridade.
 
O espírito de Deus repousa na natureza e, principalmente, nos seres humanos. O artista consegue apreender um pouco desse espírito no trabalho que realiza, tornando-o sensível para nós.
 
É preciso esforço para aproximar-se desse espírito e da beleza. O brutamontes está condenado à escuridão. Nunca experimentará a claridade no coração. Nunca saberá a diferença entre uma escultura de Rodin e um manequim de gesso abandonado numa vitrine qualquer.
 
Pensando nessas coisas, pergunto que pessoas ainda se emocionam lendo um livro, num tempo em que as palavras perderam o sentido?
 
Que raros leitores lerão as linhas desta página de internet?
 
Escrevo porque encontro ainda um certo encanto e uma esperança irracional no ato de escrever. No dia em que isso acabar, será então a hora de silenciar.
 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Por uma cidade viva

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto


Como viver com alegria em Porto Alegre? Está cada dia mais difícil conciliar um pouco de leveza com tanta violência, tanto ódio, tanta indiferença, tantas mortes nas ruas da nossa cidade.

Impossível abstrair o entorno e andar por aí como se não se vivesse no purgatório (se é que já não estamos na estação do inferno). É necessário um grande esforço de transcendência e superação para descobrir o lado humano das coisas.
Passei os últimos 45 dias em Porto Alegre.  Foi um período muito duro. Já não reconheço a cidade. A boa educação, a cordialidade, a hospitalidade, o cuidado com o outro são raros. Percebi como nunca a péssima qualidade da administração municipal.

Um reflexo das péssimas administrações do Estado e da União. Não existe rua sem buraco, não existe segurança, não há lugar sem filas e, por toda parte, caras amarradas e descortesia. Nada restou da cidade acolhedora. 

A grossura e o medo tomaram conta. Presenciei selvagerias de envergonhar. As pessoas se odeiam no geral e, no trânsito, em particular, a guerra é total. Ódio visceral de quem que não aceita qualquer negociação. Pobres das crianças que assistem apavoradas a cenas de hostilidade e discussões entre motoristas. As mulheres estão dirigindo agressivamente como os homens.
Inaceitável, por outro lado, que um Estado com a história e a cultura do Rio Grande do Sul mantenha, na capital, uma estrutura desumana e medieval como o Presídio Central, onde amontoam-se homens em ambiente sórdido e insalubre com todo tipo de sofrimento e humilhação.

O presos pagam pelo que fizeram e, principalmente, pelo que não fizeram, através das "penas acessórias", isto é, todos os males não previstos em lei que lhes são infligidos, tais como doenças e submissão violenta a outros presos. O que se pode esperar dos indivíduos que saem de lá, senão a desconsideração da vida depois que voltam para as ruas? O que a sociedade tem feito para mudar isso? 
A corrupção nos altos escalões da República, com mensalões, petrolões e mais o que não se sabe, estoura inevitavelmente na vida do cidadão. O dinheiro público indispensável para melhorar o país (e a cidade) foge, literalmente, pelo ladrão.

As pessoas honestas temem por suas vidas e pela vida de seus familiares, temem por seus empregos e pelo dia de amanhã. Não sabem o que fazer e nem a quem recorrer. Para amenizar os absurdos cometidos pela gestão temerária e pela corrupção, transferem-se as incontáveis perdas e desvios para a conta da população.

Não há economia que suporte este círculo infernal no qual uns poucos espertos se apropriam do país em seu benefício. 
Só sei que é preciso lutar contra a barbárie e trazer a vida de volta para o nosso dia-a-dia. A começar pelo direito de viver com um mínimo de alegria. Penso que isto só é possível a partir de compromissos claros com a justiça, com o respeito ao outro e com a dignidade da vida de todos. 

Necessitamos urgentemente de ações concretas e coletivas de reconquista da cidade para, com ela, recuperar a alegria de viver. Vamos enfrentar a escuridão com a luz das palavras e com a força humanizadora dos gestos de libertação. Sejamos todos criadores desta obra.
 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Racismo continua fazendo vítimas. Até quando?

Jorge Adelar Finatto
 
Plínio Marcos*
 
 
O racismo é um fuzilamento a priori.  Às vezes o fuzilamento é moral, outras é tragicamente real. Pretende-se eliminar o outro pela cor da pele, pelo tipo de cabelo, pela forma do nariz  e dos lábios, pela circuncisão, pela religião, pela cultura, pela origem, por coisas que nada têm a ver com o interior e com os valores da pessoa.

Certa vez, conversando com Plínio Marcos (1935-1999) - o grande dramaturgo brasileiro - ouvi-o dizer que, no Brasil, a discriminação não é dirigida somente contra o negro, o índio, mas contra os "encardidos" de modo geral.

O encardido, segundo entendi, é o pobre que luta arduamente para não morrer de fome a cada dia, cuja aparência sofrida, em razão dos maus tratos da vida, da exposição a toda sorte de humilhações e dificuldades, nas ruas banhadas de sol ou molhadas de chuva, acaba sendo comum a todos na sua situação. Na visão de Plínio, há uma forte discriminação social contra os oprimidos.

A vítima de racismo é agredida porque é negra, judia, indígena, árabe, asiática, cigana, etc., tudo isso agravado quando é portadora de deficiência física. O racista quer destruí-la porque é diferente. Não tolera a diversidade no modo de ser, no pensamento e nos traços. Recusa-se a conviver por várias razões, inclusive por temer disputas no mercado de trabalho e no acesso a serviços de bem-estar social. Como se os discriminados fossem párias sociais, e não trabalhadores e geradores de riqueza.

O ódio advém de uma raiva ancestral a quem é diferente. A prepotência está de tal forma arraigada que alguns só saciam sua sede de vingança com sangue derramado. É difícil precisar de onde vem esse sentimento monstruoso. Mas sabe-se que muitas vezes tem origem no interior de famílias refratárias ao afeto e ao conhecimento.

Na noite de 17 de junho passado, mais uma vez teve lugar o horror, nos Estados Unidos. Um jovem branco matou nove pessoas no interior de uma igreja tradicional da comunidade negra da cidade de Charleston, na Carolina do Sul. As pessoas estavam reunidas para fazer estudo bíblico quando o homem começou a atirar.

A governadora da Carolina do Sul, Nikki Haley, disse: "Enquanto ainda ignoramos os detalhes, sabemos que jamais entenderemos o que motiva uma pessoa a entrar em um dos nossos locais de oração e tirar a vida de outros". ¹ De fato, não há compreensão possível para semelhante barbárie. Foge completamente a qualquer entendimento.

No Brasil, este tipo de assassinato não costuma acontecer desta maneira. Mas os jovens negros continuam sendo maioria entre as vítimas de violência. ²

Existem, como se sabe, inúmeras formas de racismo. A maior parte delas é velada entre nós. O racismo à brasileira é ardiloso. Como racismo é crime inafiançável e imprescritível, o racista não passa recibo. Mas se manifesta na hora de negar "sutilmente" a vaga no emprego, ao prejudicar o acesso a um direito, ao agir com desprezo, indiferença e má educação.³ 

Só a aplicação rigorosa da lei e a educação poderão mudar este quadro, no Brasil e em toda parte. Sem esquecer, por óbvio, as ações afirmativas já em curso como quotas para negros e índios em instituições de ensino e carreiras públicas.

Não nos iludamos: o racismo é algo ainda muito presente. É assombroso falar em racismo numa nação caracterizada como das mais mestiças do planeta.

A diversidade é a identidade por excelência do Brasil e é a melhor contribuição que podemos dar ao mundo. 

_________

¹ globo.com:
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/06/atirador-de-charleston-sentou-com-fieis-na-igreja-diz-policia.html
² Inesc:
http://www.inesc.org.br/noticias/noticias-gerais/2015/maio/indicador-inedito-mostra-que-jovens-negros-sao-principais-vitimas-da-violencia-no-brasil
³Racismo à brasileira
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2013/05/racismo-brasileira.html
 *O crédito da foto de Plínio Marcos será registrado assim  que conhecido.

domingo, 21 de junho de 2015

Refúgio

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 

Tudo tão frágil na vida
o mundo inteiro cabe num abraço

Medos povoam a insônia
a chuva lá fora é a infância
com seus tesouros submersos
no navio sem leme nem capitão
do tempo

Melhor me refugiar no teu corpo
fingir que tudo está tranquilo
arranjado e bom
como no útero

_______
 
Poema do livro O Fazedor de Auroras, J.Finatto. Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1.990.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A harpa do outono

Jorge Adelar Finatto
 
flores de magnólia. photo: jfinatto

 
Se tivesse estudado música, seria talvez um violonista razoável, desses que dão concertos caseiros em sonolentas tardes de domingo, quando todos cochilam depois do almoço. Apresentaria peças de Villa-Lobos, Jobim e Gnattali e isso acalentaria seu coração. Não precisava mais pra ser feliz.
 
Mas quando ganhou o primeiro e único violão, percebeu logo que entre ele e as cordas não havia nenhuma intimidade. O simples dedilhar, contudo, produzia sons encantatórios aos seus ouvidos, mas aquilo não era música.
 
Não podia ser violonista. Porém a música nunca o abandonou. Era uma das melhores coisas que havia em sua vida.
 
Aos dez anos decidiu que começaria a escrever. Passou a dedilhar o lápis sobre as linhas do caderno escolar. Era uma forma diversa de música, silenciosa, melancólica e solitária. Um concerto íntimo. Coisas que falavam de perto ao coração. Escreveu muito durante anos, publicou pouco em livro.
 
O blog virou uma sala de convivência, com exposição de fotografias, trabalho de escrita, divulgação de outros autores, conversas sobre gente, música, pintura, lugares.

Uma memorabília do tempo.

As folhas da magnólia dedilham, no outono, a harpa do vento. 
 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Notas do insólito peregrino

Jorge Adelar Finatto

voo de cegonha. Salamanca, Espanha. photo: jfinatto


Um dia ganhei de presente uma caneta suíça de marca famosa. Fiquei muito contente pela lembrança e pela demonstração de afeto. E também porque é um objeto bonito e eu gosto de canetas que fazem companhia aos calepinos que estão sempre comigo.

Mas tem um problema: a caneta é cara. A alegria inicial fez-se receio: e se eu (que ando sempre com uma caneta enfiada no bolso da camisa) esquecer ou perder essa jóia em algum café, livraria ou na rua, como vai ser? Uma coisa tão valiosa.
 
Só de pensar nisso desisti de utilizar a nova caneta no meu dia-a-dia. Guardei-a no estojo e lá ficou quieta na escrivaninha do escritório. Quer dizer, não faz parte da minha realidade.

Não costumo andar atrás de objetos valiosos de grifes da moda. Não tenho temperamento nem disponho de dinheiro pra isso, pelo contrário.
 
Sinto-me no meu habitat no meio das coisas simples.
 
Cultivo, como a maioria, algumas fantasias. Uma delas é fazer viagens por mapas, livros e revistas de viagem. Viajo sem gastar um tostão. Foi nessa condição que fiz certa vez o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. As solas das minhas botas ainda conservam a terra daqueles passos andarilhos.
 
Em certos dias olho para as minhas botas e é como se estivesse lá outra vez. Encho os pulmões com a aragem dos campos e pomares da Galícia, revejo amigos peregrinos que encontrei pelo caminho. Pego a caneta do bolso (uma bem comum) e tomo notas no caderno de viajero, sentado num tronco caído na beira da estrada.
 
O fato de não ter trilhado, de verdade, os Caminhos de Santiago de Compostela não torna menos bela a minha viagem nem menos reveladoras as minhas anotações. Essa é a ventura de viajar no pensamento.  
 
E fico feliz toda vez que escuto o som inaudível das minhas botas pisando aquelas estradas de chão batido.
 
Essas botas invisíveis são a prova de que posso andar, quando quiser, por caminhos nunca antes navegados. Sou peregrino de espírito.

Os melhores caminhos dessa vida são os que trilhamos com a imaginação.
 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Ler e escrever

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto. grafite de F. Pessoa no Chiado, Lisboa, 2007

Ler é uma maneira de ser feliz mesmo estando rodeado de infelicidade. O livro é o meio de transporte mais simples e portátil que existe. Com ele fazemos grandes viagens sem sair do lugar, sem passaporte, sem medo de avião.
 
Escrever é um jeito de suportar as realidades da vida e, sobretudo, uma maneira de não se matar diante das imensas adversidades e frustrações. Um modo de ir além dos ossos do cotidiano.

O processo da escrita traz em si a alegria da realização, mas traz também um bocado de angústia e sofrimento junto.

Poucas pessoas tiveram uma vida mais sem graça do que Fernando Pessoa (1888-1935), cujo 127º aniversário de nascimento se comemora neste sábado, 13 de junho. E, no entanto, está entre os grandes gênios literários da humanidade. Através da poesia viajou todo o universo sem sair de Lisboa.

A sua poesia o salvou e de alguma forma nos salva também.
 
Ele foi pobre materialmente, viveu encostado nos parentes, deparou-se com o paredão duro, cinza e desumano do mundo, mas nos deixou um legado espiritual imenso. Ele bebeu muito. Mas sua verdadeira cachaça foi sempre o escrever. Nele operou-se o milagre da palavra escrita como poucas vezes acontece.

Feliz aniversário, Fernando.
 

terça-feira, 9 de junho de 2015

Aniversário de Fernando Pessoa

 
Imagens do poeta, Casa Fernando Pessoa 
 

A seguir, informe da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, a respeito das celebrações do 127º aniversário de nascimento de Fernando Pessoa (nasceu em 13 de junho de 1888, em Lisboa, e ali faleceu em 30 de novembro de 1935).

Nos dias 12 e 13 de Junho, sexta e sábado, a Casa Fernando Pessoa celebra o aniversário de Fernando Pessoa, no espaço da CFP e na Feira do Livro de Lisboa.

Começamos o brinde no dia 12, sexta, às 17h00, com o lançamento do livro O Meu Tio Fernando Pessoa, uma antologia de textos do autor, organizados pela sobrinha Manuela Nogueira.
Dia 13, sábado, às 15h20, à hora a que, em 1888, nascia Fernando Pessoa, arranca na CFP o recital Pessoa Grande às Mais Pequenas. Ainda na CFP propomos uma visita guiada especial à casa habitada pelo autor: às 17h00, em português e com desconto de aniversário.
A celebração na Feira do Livro de Lisboa conta com a oficina para crianças e famílias, Descalçar Botas d'Elástico, às 18h00, e o regresso de Café Orpheu - Segundo Turno, às 18h00 e às 21h00, com um programa transversal a cruzar a música, a performance e a imagem.
E, em dia de aniversário, as prendas são para quem nos visita: a entrada na CFP tem um desconto de 50% e são várias as oportunidades na nossa loja-livraria.

Todos os detalhes de programação em www.casafernandopessoa.pt
Vemo-nos por cá, até breve.
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O barbeiro de Fernando Pessoa:

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Passos nas cercanias do oblívio

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto. Estação das Águas Moinhos de Vento


Uma parte dele diz que já esqueceu. Não tem lembrança de tal pessoa. Esqueceu a cor dos cabelos, dos olhos. O jeito de falar e de sorrir, quando se encontravam.

A mão não guardou a forma dos seios. Se havia doçura no beijo?, não tem memória.
 
A outra parte, porém, lembra até o perfume daquela mulher, o modo que ela tinha - só ela - de retirá-lo do poço escuro, o calor dos corpos entrelaçados.

Recorda com ternura os passeios na estação das águas, entre palmeiras imperiais, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

As vozes de ambos ainda se ouvem nas tardes longínquas.
 
Esta é talvez a parte mais doída. Mas é a mais viva. A que faz com que ele se sinta menos só na cidade abandonada.

O tempo é um mistério e uma armadilha. 30 anos passam num instante.
 

domingo, 7 de junho de 2015

Fama

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

É possível
que ele seja
o maior poeta vivo
do edifício

trata-se, claro,
de mera
probabilidade:

o prédio é muito habitado
lápis e papel todos têm
sensibilidades contidas
trabalham na calada

mas até o momento
que se saiba
nenhum vizinho
lhe retira os louros
e ele pode dormir
tranquilo

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Do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Tratado geral das marés

Jorge Adelar Finatto 
 
photo: jfinatto


O rio noturno, povoado de estrelas, atravessa a cidadezinha em busca do mar. Na volta, traz o céu pintado de azul, conchinhas para guardar segredos e peixes para iluminar a vida.
 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Verde

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

Das minhas cinzas faço um verde
nesse verde nasce um menino
eu sou o menino que acompanha este menino

somos filhos da fome do dia
como os potros que morreram cedo
nossos irmãos

na nossa rua nenhum deus mora
eis porque choramos quando o dia acaba
ou brilhamos como duas adagas ao sol

nossa canção
a invasão dos dias
nossa matéria
o que está na sombra e não tem nome

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Do livro de poemas Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Editora Movimento, 1983.

 

domingo, 31 de maio de 2015

A rosa vermelha

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Ultimamente aquela frase não saía da cabeça de Maria Eulália:
 
A morte é um preço alto a ser pago por uma rosa vermelha.
 
Desenterrou-a, como um raro diamante, do conto A Rouxinol e a Rosa,¹ do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900).² A triste beleza dessas palavras tocou-a profundamente.
 
Algumas pessoas passam pela vida tão em silêncio que ninguém lhes presta atenção. Levam a existência tão distantes do amor que mais vegetam do que vivem. Vivem, por assim dizer, a cappella.
 
Em algum momento algo desmoronou dentro da nossa personagem. O mundo em volta foi perdendo a cor, o sabor e o sentimento. O calor humano começou a rarear.

Na ilha solitária onde foi habitar, Maria Eulália não tinha a quem oferecer e nem de quem receber uma rosa vermelha.
 
Pensou que não podia procurar alguém que não via há muitos anos para oferecer a rosa. Seria vista talvez como louca ou supercarente. Detestava a ideia de demonstrar que estava afogada em solidão.
 
Naquele dia de fim de maio, descobriu que, para algumas pessoas, o único jeito de receber uma rosa vermelha é a morte. Aí percebeu a terrível verdade escondida na frase de Wilde. E soube então, com lágrimas no coração, que ela fora escrita para gente como ela.

Nesse momento teve a certeza de que não estava disposta a pagar o preço. Secou os olhos, arrumou-se e foi até a floricultura onde comprou um buquê com doze rosas vermelhas que colocou no centro da mesa da sala de jantar.

Depois, como era sábado, prendeu o cabelo e foi limpar o apartamento. 
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¹Oscar Wilde. Contos Completos. Edição bilíngue. Editora Landmark, São Paulo, 2013.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A barbárie nossa de cada dia

Jorge Adelar Finatto

Estação Hidráulica Moinhos de Vento. P.Alegre.  photo: jfinatto
 

A barbárie invadiu nossas vidas. A sociedade brasileira se habituou ao sangue derramado.

As agressões e assassinatos acontecem a toda hora nas ruas do país. A tragédia virou rotina nas páginas dos jornais, já não causa espanto. Virou fato normal e nada se faz para dar um basta na situação.

As desculpas são sempre as mesmas: faltam recursos para o combate ao crime, para construir prisões decentes, para a saúde, para a educação, para a moradia, para as creches, para o transporte, para o saneamento, para a alimentação, para o emprego, para a cultura, para os espaços de lazer e convivência. Mas curiosamente sobram - e como sobram! - recursos para a corrupção e a gestão temerária.

Ninguém se importa verdadeiramente, enquanto não acontece com alguém próximo. Acredita-se - ou finge-se acreditar - que a desgraça deve ser enfrentada como sendo algo pessoal. Não é.
 
A nossa capacidade de indiferença ultrapassou todos os limites. Vivemos uma realidade doentiamente individualista, escondidos atrás de grades e sistemas de segurança que nada resolvem.

Cada um recolhido no seu casulo de silêncio e medo, pouco se importando com o que acontece ao vizinho. É melhor nem saber.
 
O espaço público virou território de bandidos. À solta e agindo livremente, eles são os donos das nossas cidades. São eles que, de fato, governam dentro de suas leis próprias e de seus códigos perversos.
 
Os maus exemplos de conduta, que induzem todo o processo, vêm desde os mais altos escalões da vida nacional. A inexistência de um projeto de nação responsável, humano e solidário está levando o país à autofagia. O Brasil está se destruindo assustadoramente.

Enquanto isso, vende-se a ideia de que a vida vai melhorar com ajustes na economia, o que é uma visão distorcida das coisas. A vida do brasileiro só irá melhorar com educação que permita a construção de valores. Não é só uma questão de melhorar os números da economia, mas, antes e acima de tudo, de formar consciências.

Os bilhões e bilhões manejados pela corrupção demonstram que o problema primacial do Brasil está longe de ser a crise econômica, esta simples consequência dos desmandos. É, isto sim, a falta de competência, respeito e honestidade na administração do patrimônio público.

Reduzir os impasses do país, como se está tentando fazer, à mera questão econômica é, no mínimo, subestimar o poder de percepção, a inteligência e o sofrimento do povo.

A ausência de responsabilidade social e a indiferença pelo bem comum abriram as portas à selvageria e explodiram qualquer ideia de vida em sociedade em nosso país.

Teoricamente, vivemos todas as liberdades democráticas. Na prática, porém, nunca a vida foi tão agredida e desprezada.

Esta é a terrível herança que estamos construindo.
 

sábado, 23 de maio de 2015

Eu ia tomar o bonde amarelo

Jorge Adelar Finatto
 
photo: Museu Virtual Memória Carris. Prefeitura Municipal de Porto Alegre.
Imagem de José Luís Kieling Franco

 
Eu ia tomar o bonde amarelo
e dar um giro pela cidade
mas não existe mais o bonde amarelo
nem eu tenho dez anos

me engano ou essa cidade
mudou de endereço
se não, como explicar tanta gente
desconhecida nas ruas
e os amigos perdidos nas esquinas
do tempo do bonde?


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Do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Conversa na estação

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Sou como os trilhos cobertos de hera da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes. Vive em mim o sentimento das chegadas e partidas dos trens, o vai-vem humano, o sentido da transitoriedade das coisas.

Digo sempre às magnólias do meu jardim: nunca esqueçam de mim. Me chamo Juan Niebla, músico de profissão. Meu instrumento é o bandoneón. Tenho 89 anos, sou cego desde os 16. Ditei essas linhas fugidias ao poeta Heitor dos Crepúsculos.

As sombras espalham suas sedas sobre mim. O pior cego, digo eu, é o que não consegue mais sonhar. Realidade sobeja desfaz a alma, empareda o coração.

À noite todas as coisas se dispersam. É quando o peso de existir se concentra em tons de solidão. Sozinho no escuro, altas horas, recordo minha mãe e o menino que eu fui. Eu mesmo acendo o fogo no fogão a lenha e preparo o café, que bebo fumegante com os biscoitos comprados na padaria de Mocita de La Vega.

Ligo o rádio elétrico na mesa da cozinha e fico escutando estações do Uruguai e Argentina. Nesse momento toca o Noturno nº 2 de Chopin, que eu amo. Nesses enquantos, convoco seres que povoam o território do oblívio: pais, irmãos, primos, primas, tios, tias, amigos, certa mulher, um perfume, pessoas que não estão mais aqui, mas é como se estivessem. Não quero deslembrar. Sou formado por essas criaturas.

Muitas vozes falam através de mim e do bandoneón, a voz dos ausentes. Sim.

Habito o interior de uma pintura, dentro de um lago profundo e silencioso. Ali me sento e lembro. E sonho também. E rezo nesses confins.

Vivo tão ausente que, às vezes, passo por mim e não me reconheço. Quando estou há muitos dias desaparecido, saio a me procurar, saber o que houve, por onde andei, o que fiz, com quem falei. As ausências.

Amanhece. Estou na velha estação de trem, sentado no banco de madeira, de peroba rósea, com o bandoneón ao colo. Espero o próximo comboio. Dizem que nunca mais virá. Eu tenho fé que sim, sim, um dia chegará, e quando isto acontecer estarei aqui para receber os passageiros com música.
 
Sou o músico da estação, fui contratado por concurso público em 1940, quando tinha 15 anos. Trabalho desde então na estação do trem de ferro. Atuo também na Banda Municipal e na Orquestra de Câmara de Passo dos Ausentes. Deus e os amigos sabem.
 
Sou cego e minha luz vem da música. A música é a minha claridade. O ambiente à minha volta começou a perder o foco. Um dia as formas e os contornos do mundo me abandonaram. Passei a ver borrões de luz. Até que veio a escuridão completa.

Trago recordações felizes de quando enxergava. A nossa casa entre as árvores na margem do Lago da Ausência. A face da minha mãe me olhando e rindo enquanto estendia roupa no varal.

Os pássaros e os peixes, mil cores. Lembro com clareza o azul e o branco.

O frio nesta época é excessivo. Recolho-me cedo da tarde ao Café dos Ausentes, que fica na estação. Passo horas conversando com o dono do estabelecimento, Nefelindo Acquaviva. Danado inventor de aparelhos voadores, seguidamente se espatifa no chão com seus inventos. É um milagre que ainda esteja vivo. Coisas voam sem parar na cabeça do meu amigo.

Ultimamente, Nefelindo anda mais contemplativo que de costume. Eu conheço esse silêncio. Nesse estado de espírito, limita-se a navegar pelos céus de Passo dos Ausentes no seu dirigível que pode carregar até três pessoas. Eu sou um dos costumeiros e raros passageiros.

Ninguém quer pôr a vida em risco numa geringonça voadora qualquer. Eu não ligo. Embarco no pássaro-invenção do amigo. Gosto de sentir o vento batendo na cara quando sobrevoamos o Vale do Olhar em direção ao Contraforte dos Capuchinhos. Um dia ainda vamos atravessar o oceano, ele promete. Eu acredito.

Converso muito, também, com o fantasma de Heitor dos Crepúsculos, suicida arrependido que perambula pela ruas e praças de Passo dos Ausentes. Um bom sujeito, uma das tantas almas perdidas que vagam pelos Campos de Cima do Esquecimento.

No cair da noite, volto pra casa com meu capote de lã azul-marinho, meu chapéu de aba, os óculo escuros, o bandoneón que levo nas costas como mochila e a bengala de bambu cor de açúcar queimado, construída especialmente para mim pelo honorável Akira Munefusa, sensível artista e poeta que vive numa cabana na beira do Lago da Ausência.

Anoiteço outra vez.

Vou tomar café com meus fantasmas.
 
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Do livro Histórias de Passo dos Ausentes. Registro na Biblioteca Nacional, Escritório de Direitos Autorais, nº 663.190, livro 1.277, f.. 316.

domingo, 17 de maio de 2015

Viajar entre as estrelas

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Solidão é quando cada um se encontra com seu cada qual. No ermo de si mesmo.

Uma travessia sobre o vazio sem rede de proteção.
 
A noite gira a esfera cheia de coisas em movimento, salpicando o espaço com pontos luminosos.
 
Há sempre um trem atravessando a escuridão com um passageiro insone dentro.

O trem divaga sobre montanhas arranhando as alturas. Seu destino é a pequena estação de Passo dos Ausentes.
 
O passageiro levou a solidão pra viajar no cosmos. Anseia por voltar e abrir as janelas da casa da infância outra vez. O sonho.
 
Estes são dias de grande silêncio, exceto pelo ruído espesso do trem cortando o vento.
 
Às vezes o céu noturno está tão perto, claro e límpido, que parece que o trem navega entre as estrelas.
 
Nessas horas dá para ouvir a respiração de Deus.