terça-feira, 29 de setembro de 2015

Solo de violoncelo

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto, 28/9/15
 
A questão é que não basta escrever. É preciso se sentir vivo em cada momento. Por isso ando dando mais atenção aos passarinhos e plantas do meu quintal.

A criação, em qualquer de suas manifestações, é uma tentativa de reinvenção da vida, de extrair-lhe sentidos, cores, formas e perfumes insuspeitados. Exploração e revelação de mistérios. Ó mistérios.
 
A vida cotidiana é injusta, escassa, sórdida, repleta de percalços, dura, seca, gris. A arte é o voo sobre o abismo, a fuga possível do real. A caminhada em direção ao amanhecer.
 
O que sabemos da existência e de nós mesmos é muito pouco, porque vivemos às voltas com a batalha desumana da sobrevivência. Batalha aqui no sentido literal, nada figurado, exata expressão da luta que se trava ao nível da existência.

Quase não há tempo nem disponibilidade de espírito para o outro olhar, um outro sentir, outra harmonia.

Habitamos um circo onde os leões devoram a plateia.
 
O coração é infinito, mas o corpo é perecível. O tempo é eterno, contudo dentro dele somos pobres hóspedes temporários. Seres que passam pelo cosmos como um risco de luz no espaço. Um segundo depois, apagamos.

Não consigo imaginar maior danação do que esta: fenecer depois de haver existido. Tirante a fé em Deus, não sei como lidar com isso. O raro leitor sabe?

Viver é morrer de sede diante do mar.

Alguém dirá: o blogueiro está um tanto sorumbático hoje. Sim, talvez um pouco macambúzio. Mas porém sem jamais desistir da esperança. Porque por meio dela se desenharam, pela primeira vez, figuras nas paredes das cavernas; inventaram-se os pergaminhos, as pirâmides, madonas, arlequins e monalisas; livros, barcos de papel e blogs.

Ninguém nunca quis ficar falando sozinho no vasto universo. Toda obra de arte, toda palavra escrita em página de caderno têm uma única e incontornável pergunta: tem alguém aí?
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Um casal no fim da linha

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

Tenho um conhecido que é cerca de 25 anos mais velho do que eu. Não o vejo há bastante tempo. É uma pessoa com quem sempre senti afinidade. Compartilho sua maneira ponderada e humana de olhar o mundo, de tratar situações difíceis. Nosso vínculo nasceu no meio jurídico, em razão da atuação profissional. Ele no Ministério Público, eu na Magistratura.

Afinidades antes espirituais do que propriamente de convivência, pois não nos encontrávamos com muita frequência. Vi-o algumas vezes  com a mulher, inclusive em congressos. Nessas ocasiões, conversávamos, às vezes passeávamos e jantávamos juntos.

Eu achava bonita a maneira como o casal se dava, após um casamento de mais de 40 anos. Uma sintonia fina, linda de se ver. Gostava de encontrá-los assim, andando pela vida juntos, atravessando o tempo, num companheirismo incomum nestes tempos de relacionamentos de ocasião, onde cada um é por si e o resto que se dane.
 
Ontem fiquei sabendo, por um amigo comum, que ele vive sozinho em casa com uma cuidadora contratada, porque não consegue fazer por si as coisas normais da vida. A mulher, companheira da vida inteira, está numa clínica, necessitando de cuidados médicos permanentes.  A doença os separou, já não podem cuidar um do outro com antes. Não conseguem sequer se ver e dizer olá, como passou o dia.
 
Constato mais uma vez - ó besta e vã filosofia - que a vida é mesmo uma coisa torta e absurda. Procuro uma nesga de justiça nesse caso e não encontro. Como podem terminar assim duas pessoas que se amaram, construíram uma família, lutaram, viajaram, se consolaram, se acompanharam nas boas e nas más horas, e agora não podem ao menos se ver? Onde está o sentido?

Tento encontrar, mas não alcanço, a explicação. Nunca mais verei aquele casal de mãos dadas. Será que tem de ser desta maneira? Não haverá outro jeito, menos solitário e doloroso? Peço a Deus humildade e paciência pra suportar o que parece ser a negação do humano.

Pressinto o de sempre: não entendo nada de nada.  Devia mais era ficar quieto no meu canto, dizendo que a vida é assim mesmo. Calado, sem ruminações inúteis. Acontece que não consigo.

Tem dias que a custo me levanto da cama de manhã para enfrentar a vida. Sei - como sei - que viver vale a pena. Mas às vezes dá um bruto cansaço e uma certa melancolia toma conta. Uma espécie de saudade de uma harmonia e de uma felicidade que jamais conhecerei. 
 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O caçador de flores

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto

O CAÇADOR DE FLORES, na sua floral loucura, busca reter a beleza do que, por natureza, é volúvel ao tempo e perecível.

Confesso que sou amador na arte de caçar flores, alguém que se dedica ao ofício por puro prazer estético, sem fazer disso meio de vida ou por espírito de emulação com outros caçadores.

Setembro. Lanço-me mais uma vez na delicada faina, mesmo sabendo que imagens conservam apenas a aparência do que foi belo um dia e depois deixou de ser.

Saio por aí com a Coruja, vetusta máquina fotográfica que me acompanha há séculos, e começo mais um dia de caçada. Esta é a época perfeita. Início da primavera.

E haja corola pra satisfazer a sanha insana.

O gesto é egoísta, reconheço, típico de quem dá valor excessivo ao próprio deleite, numa ânsia predatória de fazer arrepiarem-se os campos, jardins e pomares. Tal é a sina do predador.
 
O caçador satisfaz o cruento instinto ao capturar flores em fotografias, escondendo-as em álbum secreto. Todavia, o segredo não resiste à evidência de que o belo precisa ser compartilhado.

Só a exposição torna completa a alegria da caça.

Um dia as flores secam e morrem, como tudo que é vivo e respira. Alguma coisa delas permanece nas imagens. Será essa, talvez, a possível atenuante para a conduta violenta do caçador, no seu afã de ter consigo todas as flores que puder e mais algumas.

Na cidade grande quase não há flores ao ar livre. Por isso, e por não gostar de viver distante delas, quando estou longe de Passo dos Ausentes, levo comigo as photos floridas. Um jardim de emergência em meio ao deserto de concreto. Para suavizar o feio e o triste.

Nos Campos de Cima do Esquecimento, de onde escrevo essas frágeis linhas de primavera, não faltam flores, graças a Deus. Elas crescem generosamente em todo lugar e a caça é abundante.

O retrato floral é, talvez, um modo patético de aprisionar o efêmero, alguém dirá. Pode ser. Mas o que não é patético nessa vida, não é mesmo, raro leitor? 
___________
 
Texto revisto, publicado antes em 26, nov., 2013. 

sábado, 19 de setembro de 2015

Cais

Jorge Adelar Finatto
 
photo: j.finatto
 
Tem dias que saímos
com o corpo nu
para alojá-lo na primeira copa de árvore
e chorar longe dos homens

dias em que os desejos
até os mais secretos
sucumbem apagados
na penumbra

tempo de total privação
da carne e do sonho
tardes em silêncio reveladas
intervalo entre dois mundos

olhamos o céu
no quadrado da janela
esperando ver a face de Deus
procuramos Deus
no íntimo da alma e das coisas
precisamos repousar no colo de Deus
sentir suas mãos nos olhos
para amparar a lágrima quente
que por ali verte

tem dias que estranhamos
o próprio olhar
que amanheceu mais seco
não reconhecemos a rua
onde tantas vezes inventamos o amor
na sombra dos cinamomos

as melhores viagens
ficaram sonhando no cais
enquanto navios partiam
repletos de homens decididos
em busca de cidades felizes

onde andará o menino
que nos visitava nos dias
em que tudo em volta
parecia desabar?

em que gare deserta
se perdeu o guarda-chuva melancólico
com que meu avô ia à cidade
buscar a porção diária de pão
esperança
e jornal?

tem manhãs em que apesar do sol
não habitamos o claro sentido
de existir
mal percebemos a luz
acalentando o corpo

manhãs em que o carteiro
extravia a carta que irá nos salvar
a notícia tão esperada
que nos revelará
um mundo desconhecido
onde pandorgas falam
e o arco-íris é uma escada
que nos retira do poço

não compreendemos
as mãos cansadas
a boca amarga
com que damos bom-dia aos vizinhos
cumprimentamos os superiores

tem dias em que o isolamento
é tão assombroso
que sentimos tristeza em tudo
principalmente na alegria ingênua
das velhas fotografias
uma dor inevitável
diante dos sonhos da infância

dormimos em quartos de aluguel
projetamos ataúdes de aluguel
as dívidas invadem a porta
os poros

o amanhã ficou torto
na cordilheira dos dias
sem luz

a cidade parou no escuro
sufocou nossos melhores anos
inundou o rio
com seus maus óleos
seu excremento

não merece um verso
sequer uma notícia fugidia
em página de jornal

talvez careça uma bomba
um terremoto
talvez uma flor
povoando o asfalto

estamos um pouco mais tristes
e calados
(um pouso só)

trazemos um gosto de sol
entre os dentes
um resíduo de primavera
na palma da mão
uma promessa de encontro
nos olhos

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Do livro O Fazedor de Auroras, Jorge A. Finatto, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.
photo: Cais de Porto Alegre

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Luz no breu

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
Cada palavra escrita é um pequeno fósforo que se acende em meio ao breu profundo da condição humana.
 
Ler e escrever são maneiras de resistir, de dizer não à indiferença, à barbárie, à morte, ao esquecimento.
 
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Texto revisto, publicado antes em 18 de março, 2011.
 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Sob os telhados de Paris

Jorge Adelar Finatto

 
Um dos bons livros que chegaram às minhas mãos neste ano é Minha Paris, Minha Memória,¹ do filósofo, historiador, economista e sociólogo francês Edgar Morin (94 anos). A obra foi escrita entre 2012 e 2013 (ano do lançamento na França). Originou-se do discurso de agradecimento que o próprio Morin proferiu ao ser homenageado como cidadão de Paris, na prefeitura da cidade, em 5 de junho de 2012.
 
Já manifestei minha admiração pelo pensador aqui no blog.² Um homem corajoso que nunca deixou de assumir posições em favor dos direitos humanos contra as forças da escuridão, inclusive com risco pessoal. Foi, por isso, em algumas ocasiões, chamado de traidor. O desdobramento dos acontecimentos sempre lhe deu razão contra as investidas do fascismo, na França e em qualquer parte. Um homem que, apesar do que passou, não perde a alegria de viver e conviver.
 
A história do indivíduo Morin perpassa a maior parte da história da França e de Paris no século XX. Foi contemporâneo dos principais eventos e personalidades. Por isso, o seu livro de memórias é tão rico e faz jus à sua amada Paris. Em suas páginas percorremos bairros, ruas, praças, parques, cemitérios, metrô, museus, o Sena, conversas, situações graves e outras alegres, tudo temperado pela vivência e pela humanidade do escritor. Alguém que espera da vida nada menos do que liberdade, igualdade e fraternidade entre as pessoas. 
 
Dizer que ele é um pensador judeu é muito pouco. Ele é, sobretudo, um ser humano sensível aos dramas, sofrimentos, mesquinharias e grandezas dos indivíduos de todas as origens. Um pensador universal, sem sectarismos. É crítico, por exemplo, do Estado de Israel na sua política opressiva em relação aos palestinos.
 
Não espere o leitor memórias açucaradas ou forjadas em irreparável melancolia. O autor nos remete a coisas do passado, mas não perde de vista o presente. Em muitas de suas observações é o presente que pulsa iluminado por sua rara percepção. É um livro lúcido e realista, sem perder a poesia.
 
Ouçamos uma passagem:
 
Um dia, num táxi, o motorista africano me disse, falando não me lembro mais de quem: "Pois eu quero mais é que esse sujeito se...!" E eu pensei, encantado: "Aí está, ele já é dos nossos!" O bar do bistrô parisiense continua firme, e esses lugares onde se brinda e se conversa são autênticos microfóruns da cultura parisiense. (pág. 220)
 
O que se sobressai nesta obra, além do conteúdo notável, é a mão do escritor. Ele sabe como dizer as coisas, e tem um jeito todo particular e encantador de fazê-lo. Ah, sim, Sob os telhados de Paris³ é o título do primeiro capítulo e de uma das canções antigas e inesquecíveis que Morin leva em seu largo e profundo coração.
 
__________
 
¹ Minha Paris, Minha Memória. Edgar Morin. Tradução de Clóvis Marques. Editora Bertrand Brasil. Rio de Janeiro, 2015.
² Edgar Morin. Post de 7 de outubro, 2010:
³ Letra de René Nazelles, música de Raoul Moretti, 1930.
 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Passos para o abismo

Jorge Adelar Finatto

photo: reprodução. fonte: g1.globo.com*
 
O bairro Menino Deus, em Porto Alegre, é um dos mais tradicionais e bonitos da cidade. Um lugar de ruas antigas, onde havia um belo casario, que aos poucos foi sendo derrubado e substituído por edifícios. Um bairro de vizinhos, de pessoas que se conhecem e convivem.
 
O escritor Caio Fernando Abreu viveu num desses sobrados em seus últimos anos de vida junto da família. Costumava dizer que morava no Menino Deus e não em Porto Alegre. Porto Alegre era apenas o que estava no entorno. Caetano Veloso fez uma música para o Menino Deus. Além das ruas arborizadas e interioranas, há o Guaíba que navega perto. 
 
Tenho uma ligação afetiva com o bairro. Morei lá alguns anos na juventude. Foi lá que conheci a namorada com quem me casei. Dois de meus filhos nasceram quando morávamos no Menino Deus. Perdi a conta das vezes em que os levei a passear por suas praças e ruas. No Menino Deus eles aprenderam a andar de bicicleta e descortinaram, pela primeira vez, as águas, os barcos e as gaivotas do rio. Infelizmente, esse tempo ficou para trás, em todos os sentidos.
 
Em meio ao colapso da segurança pública que assola o Rio Grande do Sul, este bairro querido já não é e nem poderia ser uma ilha. Muitos de seus habitantes estão entre as incontáveis vítimas da violência crua e cotidiana, que invade as ruas e as casas, na forma de furtos, roubos e homicídios, entre outros crimes.
 
Um triste exemplo foi a morte do comerciante Elvino Nunes Adamczuk (49 anos), atingido por uma bala perdida na sexta-feira passada (4/9), enquanto passeava com seus dois cães.  Por volta das 22h, sua mulher ouviu um tiroteio e saiu da padaria Santo Antônio, na Av. Getúlio Vargas, que pertencia ao casal, na qual ela, o marido e os três filhos trabalhavam.  Queria se certificar de que Elvino estava bem.

Um dos cães correu até ela, solto da coleira, e o outro estava ao lado do dono, atingido com um tiro no abdômen. O pequeno empresário foi levado ao Hospital de Pronto Socorro e operado, mas não resistiu e morreu na terça-feira (8/9).
 
Conforme registra o jornal Zero Hora, edição desta quarta-feira (9/9), teria havido na ocasião uma troca de tiros entre policiais e assaltantes.

A reportagem dos jornalistas Adriana Irion e José Luís Costa esclarece que o comerciante costumava acordar às 4h e abria seu estabelecimento às 7h. Tinha uma clientela fiel e era estimado por todos na vizinhança.
 
Moradores de rua escreveram uma carta destinada à família, testemunhando que Elvino Adamczuk era uma pessoa "que sempre esteve junto a nós" (foto acima). Vários deles eram clientes da padaria Santo Antônio. Ele costumava ajudá-los, inclusive dando comida. Também auxiliava entidades assistenciais. Um homem bom, exemplar.
 
Os salários em atraso do funcionalismo público estadual, atingindo integrantes da área da segurança pública, geram paralisações e precariedade no atendimento da população. Os atrasos agravam uma realidade que, muito antes disso, já estava no limite. A criminalidade fugiu do controle.

Os salários pagos aos policiais civis e militares não estão à altura de sua difícil missão, com risco da própria vida.  Além de tudo, esses profissionais enfrentam dificuldades de toda ordem, entre elas a falta de pessoal e a deficiência de equipamentos. Do lado oposto, os criminosos agem em toda parte e a qualquer hora. Com os atrasos, a situação torna-se desumana.
 
Este foi apenas mais um caso, mais uma vítima fatal, num Estado e num país que estão se deteriorando assustadoramente. A falta de segurança é apenas um dos sintomas.

Nunca vi antes o Brasil e o Rio Grande numa situação como essa. Vivemos um momento de densa escuridão, estando o Brasil entre os países mais violentos do planeta. Já escrevi aqui sobre corrupção, desgoverno, violência, indiferença, gastos bilionários com copa do mundo e olimpíadas,  e não vou cansar os poucos leitores voltando a esses assuntos. Ninguém suporta mais tamanha incompetência e insensibilidade dos governantes.
 
Só quero dizer que a perda de pessoas como Elvino Adamczuk é uma barbaridade que nos remete a um imenso vazio de sentidos e a incertezas sobre se ainda estaremos vivos no dia de amanhã. Uma certeza, contudo, existe: sair de casa, nos dias que correm, é um passo em direção ao abismo.

Quando os nossos vizinhos são mortos gratuitamente, como estamos habituados a ver, é sinal de que não existem mais ilhas e de que há muito habitamos o território do medo, da injustiça e da barbárie.

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g1.globo.com
http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/09/moradores-de-rua-entregam-carta-familia-de-comerciante-morto-no-rs.html
 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Buscar água do poço

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

Os voláteis estão em toda parte. Dormem o sono profundo dos ausentes. Sombras silenciosas, eles se arrastam na biblioteca, povoam os livros, os retratos, as recordações. Altas horas da madrugada e o sono não vem.

O escritório é o território da insônia em progresso. O negócio é cochilar nos interstícios, esticado no sofá, até que o livro caia da mão. Depois o dia vai nascer.

A vida são uns sonhos doidos que inventamos e depois vão caindo como camélias no jardim. Mas continuamos colhendo a estrela da manhã na copa dos dias.

Os pássaros habitam a solidão da ilha. Ilha povoada de silêncio, ilha cheia de móbiles da memória.
 
Um barco rasga o nevoeiro, traz a vela branca esticada, o sal do desconhecido, para no meio do escritório, pingando distância. O que veio fazer aqui tão tarde?

Mas são vivas as presenças que, invisíveis, povoam este lugar. 

- Ó menino, vai buscar água no poço.

Lá me vou, correndo porta afora, atrás do balde. Vou trazer água boa, fresca, espelho do céu e da nossa face.

Não importa se as vidas e suas histórias são rascunhos, traços incompletos que se riscam no ar, rostos que um dia desaparecem da face da água. Histórias mal ensaiadas, toscas, frágeis. Mas de qualquer modo, nossas vidas.

O vento tece a dança das corolas, bailados inocentes à flor do mundo sem solução.

Palavras são coisas que se juntam pra suportar. Uma alegria singela.

O pássaro voa rente aos penhascos. Canta a canção da iminente despedida.
 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Exposição Fanicos & Farfalhas

Jorge Adelar Finatto

photo do pássaro numa das salas do Josephina

Inicia, nesta sexta-feira, a exposição fotográfica Fanicos e Farfalhas com imagens que captei nos últimos tempos em Gramado, Canela, São Francisco de Paula, Cambará do Sul e Passo dos Ausentes.
 
Ali estão os pássaros, céus, flores, vales, montanhas, pinheiros, nuvens, lagos, plátanos, guarda-chuvas, estradas de terra e mais o que habita o invisível. Tudo isso colhido com esmero e silêncio. Se algum mérito há no trabalho, não é por certo do fotógrafo, mero intermediário. O grande artista é quem criou tudo isto: Deus.

 
A mostra tem lugar no belo Josephina Café*, uma casa espaçosa e acolhedora, no coração de Gramado, na rua Pedro Benetti, nº 22, ao lado da Igreja Matriz.

photo: Josephina Café
 
No Josephina, uma cálida lareira aquece o corpo e a alma nesses últimos dias de inverno. A cozinha oferece pratos de tirar o chapéu. Entre tantos cafés, o meu preferido é o Emílio. E há sempre uma flor da estação sobre a mesa.
 
A exposição permanece durante o mês de setembro. Estão todos convidados.
__________

*Josephina Café:
http://www.josephinacafe.com.br/
 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Retrato de um tempo morto

Jorge Adelar Finatto
 
Foto: Nilufer Demir/REUTERS/DHA. soldado turco encontra o corpo

O corpo do menino Aylan Kurdi, de três anos, encontrado morto na areia da praia de Bodrum, na Turquia, ontem, após mais um naufrágio de embarcação carregada de pessoas que buscam refúgio na Europa, é o retrato de um tempo terrível.

O doloroso, trágico e intolerável destino de Aylan mostra a face escancarada de uma humanidade que perdeu qualquer noção de dignidade da vida humana.

Não é só o pobre menino que está morto com o rosto enterrado na areia. Todos nós morremos ali com ele.
 
Ao ver a imagem, senti uma profunda vergonha e uma enorme revolta. Vergonha e revolta, sim, por pertencer a uma espécie de seres capazes de criar uma realidade com essa força de destruição e falta de amor ao próximo. A indiferença, o egoísmo abissal e a maldade são o móvel que permite que crianças e adultos sejam jogados ao fundo do mar e depois acabem depositados pelas águas numa praia qualquer.
 
No caso do menininho, acabou-se ali uma vida que mal começava e sobre a qual recaiu tamanho ódio. Ódio irracional que fustiga seres como ele nos países de origem (Oriente Médio e África) e em parte das populações de países europeus que não querem dar-lhes abrigo. 
 
Consta que Galip, de cinco anos, irmão de Aylan, também perdeu a vida na travessia. Ambos morreram afogados quando sua família fugia da Síria em direção à ilha grega de Kos, num percurso rumo à Europa ocidental. A guerra na Síria já dura quatro anos.
 
 
Dados da ONU revelam que mais de 2600 pessoas morreram afogadas no Mediterrâneo, neste ano, em fuga da violência em seus países. Viajam em precários barcos, nas mãos de traficantes de gente, que cobram cerca de 1800 euros por pessoa pelo "serviço" macabro.
 
A maioria está buscando a Alemanha, cuja economia é a mais desenvolvida da Europa. Angela Merkel, chanceler federal alemã, tem adotado um postura de acolhimento, opondo-se à ultradireita e aos neonazistas alemães. Alguns gritam o nome de Hitler e jogam pedras nos imigrantes. Merkel e o presidente francês François Hollande defendem um sistema de cotas, a fim de que todos os países europeu recebam refugiados.
 
Alguns cientistas opinam que a Alemanha e outras nações europeias podem beneficiar-se com a chegada desses imigrantes. Uma vez integrados pelo estudo, pela participação e pelo trabalho, podem trazer riqueza e um amanhã melhor a esses países, repondo a população naqueles de baixa natalidade.
 
Penso que a Alemanha, em especial, tem a grande oportunidade histórica de recuperar-se, em parte, dos crimes cometidos pelo nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. Ao dar guarida e um futuro a essas pessoas, a Alemanha poderá escrever uma nova página sobre os anos de barbárie. Demonstrará, assim, ao mundo, que é possível mudar e redimir-se do passado sangrento, salvando vidas.
 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

No tempo das pandorgas

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto

 
Na rua São João, a pandorga simbolizava nossa sede de infinito. Carregava nossa imaginação, nossos sonhos, nosso gosto pela liberdade, o desejo de ir além. 

No tempo das pandorgas, andávamos lá no alto, o coração pulsando ao vento. O resto não importava.

Uma das chateações da minha meninice era não conseguir construir e soltar pandorgas. Os meninos do bairro eram bons engenheiros e pilotos dessas coisas que voam. A época ideal de soltar pandorgas devia ser o início da primavera, mas não estou certo.
 
Eu pilotava as pandorgas dos amigos, quando emprestavam. Passei pelo vexame de derrubar várias delas. Mas o primo Rogério me consolava: - Quem nunca emborcou uma pandorga?
 
Em compensação, soltei muitos guarda-chuvas em dias de ventania nos Campos de Cima do Esquecimento. Nunca soube onde foram parar. Sempre fui amigo dos pássaros, esses seres que, como os chapéus de chuva e as pandorgas, também voam. Nem pensar em gaiolas. Observando-os, tornei-me cativo de seu canto, suas cores, seus voos. 
 
Caminhei hoje pelo córrego, pisando seixos, à procura de peixinhos coloridos pra fotografar e restos de estrelas cadentes. Uma mochila nas costas, a estrada de terra, os perfumes da primavera que se acerca em setembro. Quem resistir pode?
 

domingo, 30 de agosto de 2015

Visão

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto, 29/8/2015

Eu olho as velas brancas
dos barcos que cruzam
as águas escuras do rio

Sentado no banco do parque
eu observo o indescritível
declínio da tarde
sobre o Guaíba

Aqui embaixo do eucalipto
o sangue escorrendo nas veias
os pés firmes na terra
eu acompanho o lento movimento
das águas e do planeta

Estou condenado ao continente
ao monótono traçado das ruas
à intromissão do tédio e do medo

Mas o rio é um caminho
onde a emoção navega
 
_________
 
Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Noites do hospital

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 
 
O câncer colocou-o pra  flutuar numa nuvem de morfina.

O corredor pareceu-lhe imenso até a sala de cirurgia. Gente vestida de branco, teto alto, máscaras, álgida luz sobre seu corpo.  Uma vaga claridade entrava pela janela fechada. Um sono longo e induzido. O corte, o sangue, aparelhos. A urgente luta pela sobrevivência.

Tinha passado muitos anos ilhado em gabinetes, mergulhado em processos, decifrando histórias e conflitos, decidindo destinos. Enquanto habitava a ilha, o Guaíba fluía sonoro do outro lado da vidraça.

O rio e seus navios. O rio e seus peixes. O rio e os admiradores do pôr do sol, sentados à margem. O rio e a promessa de viagens nunca feitas.

Os sonhos há muito tinham batido em retirada diante das durezas do mundo real. Quando foi a última vez que teve tempo para si, para a família e amigos? Não lembrava mais.

Pensava nessas coisas nas noites do hospital, deitado na cama, quando a dor dava um folga. Voava na nuvem gris, entre brancos aventais e a parafernália eletrônica pelo corpo.

Depois ficou tudo para depois.

Caminhou muitos dias e noites numa estrada de espessa névoa. Começou a olhar o mundo com outros olhos. Nada valia mais do que estar vivo, vivo simplesmente.

O risco de desaparecer fez com que se voltasse, sem mais demora, para o que havia de mais precioso na Via Láctea: o pequeno planeta dos seus afetos. 
 
Somos um sopro de Deus - pensou - habitantes de um tempo que se esfuma e não nos pertence. Sentia-se por um fio como um astronauta fora da nave-mãe.
 
Lembrou-se dos tempos da infância, das bolinhas de gude, do pião, das pandorgas no infinito azul, dos banhos no córrego, dos encontros de família. Apesar dos problemas, diferenças e brigas, a família ainda era o melhor lugar do universo.
 
Pensou nas coisas que podia ter feito, nos projetos que deixara pra trás, nas noites que podia ter passado, em claro, a olhar o céu estrelado. Agora era como se os anjos estivessem ali, ao redor da cama, invisíveis.

Precisava de uma chance pra refazer laços perdidos, dar abraços, partilhar a vida, agradecer, pedir desculpas.

Precisava sobreviver e chegar ao outro lado daquele rio sem margens.
 
Uma nova chance foi tudo que pediu a Deus. Naquela noite não dormiu até ver o sol clareando a janela do quarto de hospital. Era o primeiro dia da nova vida. Não ia desperdiçar um segundo sequer.
 

sábado, 22 de agosto de 2015

O amor é um invento

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

Os motivos de ser feliz são simples. Um vaso de flor sobre a mesa, o sorriso de alguém, o quarto em sossego nos fundos da casa.

O som das gotas da chuva sobre um balde no quintal. Os passarinhos livres, cantando  seus fados.

Un recuerdo del corazón...
 
Um dia ele foi feliz sentado num banco de praça, a Praça dos Açorianos, em Porto Alegre, a poucos metros do Guaíba. Ela estava ali junto com ele. Em torno do banco, os galhos de um salgueiro-chorão vinham até o chão, formando uma redoma de fios verdes sobre o casal.
 
As águas do lago passam lentamente sob os arcos da vetusta Ponte de Pedra. Era inverno, tarde de sábado, ele emprestou seu casaco a ela.

Uma nesga azul aparecia entre as nuvens.

Por que, na ampulheta de ser feliz, o tempo escorre feito cachoeira?

Estar sentado com ela, no silêncio verde da redoma de um salgueiro, na Praça dos Açorianos, fazia dele um homem feliz. Perigosamente feliz.
 
A memória daquelas tardes ficou impregnada na sua alma. Não como uma ferida: como celebração. Essa é uma das razões que o fazem pensar, nessas longas noites sem sono, que não passou pela existência em vão.

No fundo do espelho das águas do lago, a imagem do jovem casal ficou para sempre guardada. 
 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O senhor do tempo e seu labirinto

Jorge Adelar Finatto
 
o crédito da foto será dado quando conhecido o seu autor


De antigo senhor das horas, o meu velho relógio tornou-se vítima do tempo e hoje sofre com longos intervalos de ausência.

É um relógio que me acompanha desde o século passado. É um objeto austero e simples. Não existem outros como ele à venda. É um dos últimos exemplares vivos de sua geração, se não for o último.
 
Registrou com precisão a passagem do tempo durante muitos e muitos anos. Esse mesmo tempo agora volta-se contra ele.
 
O calendário numérico funciona às vezes, e o escrito perdeu-se na bruma das horas. Esquece em que dia da semana estamos, não sabe bem se é segunda, sábado ou domingo, não distingue passado e presente e o futuro simplesmente não existe.

A passagem das horas confunde-lhe o mecanismo e, por vezes, ele pára sem saber o que fazer, como alguém que perdeu a memória, de repente, na esquina de uma cidade estrangeira.
 
Em suma, o relógio que sempre me guiou, na mata sombria dos dias, precisa agora ser guiado. Já não é mais quem era. Mas eu também não sou mais quem fui e nem por isso vou me atirar no lixo.
 
Não tenho coragem de separar-me dele. Jamais o faria e me recuso a falar sequer no assunto. Contudo, sem que ele soubesse, tive outros relógios, mais funcionais e modernos. Nenhum, porém, conseguiu substituí-lo no meu afeto. 
 
Toda vez que abria a gaveta, encontrava-o calado, sem nada reclamar, olhando as paredes internas do cubículo de madeira. Ao perceber minha presença, olhava-me nos olhos como quem se coloca à disposição para o trabalho e a luta. Um companheiro valente e digno.

Resgatei-o do labirinto em que foi viver.
 
Se ele é hoje apenas a lembrança do relógio que foi um dia, por outro lado não posso negar-lhe reconhecimento pelos serviços prestados. Além disso, atravessamos momentos difíceis juntos, vivemos muitas situações complicadas e dolorosas nessa vida, coisas que atormentam o pensamento e queimam o coração. E, às vezes, fomos felizes também.
  
Carregar o tempo nas entranhas, sem medo, como ele sempre fez, segundo a segundo, ano após ano, de forma incansável, num giro interminável e monótono, é ofício dos piores.
 
Mandei-o à oficina algumas vezes, mas não resolveu o problema. Decidi poupá-lo das internações inúteis no hospital dos relógios, pois observei que esse tipo de ambiente o magoa, pelo ar de tristeza com que retorna a casa.
 
Não sou mais escravo do tempo. Eu faço o que quero do meu tempo. (Por favor, raro leitor, não se iluda: essa disponibilidade é tão sedutora quanto terrível.) 
 
Trago o velho relógio no pulso outra vez. Faço-lhe ajustes manuais com esmero e delicadeza. Quando é necessário, em razão de compromissos e viagens longas, levo um outro, no bolso ou na mala, sem que ele perceba. E assim tocamos a nossa vida.
  
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Texto revisto, publicado antes em 21 de abril, 2013.
 

domingo, 16 de agosto de 2015

Aprendendo com pássaros

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto

 
Passei a tarde observando os pássaros. Eles aparecem na varanda do escritório, onde vêm comer as frutas que lhes sirvo todos os dias. Têm um especial apetite por bananas maduras, embora um mamão lhes caia muito bem ao paladar.

Voam desde as árvores e pegam o naco de fruta com o bico. Alguns comem ali mesmo, mas a maioria prefere levar pra casa. Muitos têm família e filhotes pra sustentar. A luta de sempre.
 
Uns agradecem o alimento fazendo um belo concerto a céu aberto.
 
Assim levamos nossa amizade. Às vezes, quando me canso de ser gente, viro pássaro. Fecho os olhos na escrivaninha e me lanço, abrindo as invisíveis asas. Misturo-me então a eles, fazendo parte dessa bela família.

Aprendo com os pássaros a renovar a fé na vida. Viver vale o voo. Viver vale o canto. Passeio entre as árvores e flores, respiro o azul do céu, descanso sobre velhos muros de pedra. Não quero saber de notícias. Como faz bem à alma e à saúde ignorar as notícias do mundo, os passarinhos me ensinam.
 
Nunca vi um pássaro roubar, nem mentir, nem matar, nem humilhar, nem falar mal dos outros.
 
As pessoas são boas por natureza, mas, por via das dúvidas, é sempre bom lembrar que ninguém é decente e digno por acaso. Por decente e digno entendo, antes de qualquer coisa, cultivar limites e não avançar feito fera sobre o semelhante.

Precisamos aprender com os passarinhos.

Tem de haver esforço, respeito, paciência, superação todos os dias. Senão, bem, o resultado é isto que vemos no Brasil.

Com a imagem, procuro o olhar do primeiro homem na aurora primitiva. A visão de um pássaro recém saído do ninho.

Sentir o mundo como da primeira vez.
 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Fanicos e farfalhas

Jorge Adelar Finatto
 
photo de joaninha: Wikipédia. Autor: Jon Sullivan (PD-PDphoto.org]

Quem viu alguma vez uma joaninha caminhando na página de um livro ou sobre uma folha verde sabe do que estou falando.

É o acontecimento mais importante do universo. 

Nenhuma literatura, nenhum cinema, nenhuma filosofia do mundo valem os passos da joaninha. Só que pouca gente percebe o engenho e a arte por trás da construção e da vida da frágil joaninha. 

Existem muitos outros assuntos importantes para se tratar, está bem. Um escritor-fotógrafo a sério não devia ignorar isso. Tudo bem. O fato, contudo, é que me encanto com os farelos do mundo, com a coisa pouca ou nenhuma que somos. Com um raio de sol na parede ou caído dentro de um copo dágua sobre a mesa. 

As coisas pequenas me atraem, me cativam, me elevam. As outras me enfadam, quando não revoltam. Encontro beleza e claridade nos fanicos da existência.

Tudo que é breve e pequeno se parece com ser humano e com estar vivo e ser transitório, e isso me interessa sobretudo.

Os verdadeiros e últimos sentidos habitam muito além das aparências, é assim que eu vejo. E o que eu mais enxergo, quando penso profundamente na vida, é a pequenina joaninha.
 

O mundo silencioso das migalhas me é, por isso, muito caro e diz muito mais sobre o que nós somos - ou o que sou eu, ao menos - do que um tratado ontológico. Quando perdemos a capacidade de expressar o que sentimos, é como se perdêssemos a vida.

Deus nos livre e guarde. 

Na arte, ao menos, podemos voar, sonhar, levitar acima dos mausoléus e crematórios existenciais. Mas sei também que ninguém pode viver entre nuvens.
Deve haver um caminho de passagem entre as farfalhas da vida e a copa das estrelas; entre a imensidão da Via Láctea e os passos humildes e comoventes da joaninha.
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Texto revisto, publicado antes em 25/11/2012.

domingo, 9 de agosto de 2015

A sombra da esfinge

Jorge Adelar Finatto
 
photo: jfinatto
 

Como ele nunca teve pai para amar, sempre lhe pareceu que a coisa mais em falta no mundo não é dinheiro, nem ouro, nem diamante, nem qualquer outra coisa, mas um abraço de pai.

Quando menino, era difícil explicar aquela ausência para os outros de sua idade. Na rua e na escola, as pessoas faziam perguntas, cara de admiração. Não ter pai era mesmo que não ter um braço ou uma perna.

A sombra da esfinge o perseguiu pela vida. No dia dos pais, aniversários, natais, páscoas, reuniões da escola, fins de semana, noites e dias sem fim. A falta projetou-se nos seus sonhos e pesadelos.

Um dia descobriu, admirado, que muitas outras casas não tinham também a figura ausente. Só que muita gente escondia isso. Estranho: escondiam um ser que na realidade não existia. Ocultavam o mito. Alguns possuíam apenas uma deprimente figura paterna, que mais atrapalha que ajuda.

Os sem pai já não eram exceção. Talvez fossem até maioria.

Ficou nele a idéia de que as mulheres, e não os homens, fazem o mundo funcionar. São pais e mães de seus filhos.

Na verdade não chegava a ser um consolo, mas a consciência de uma espécie de mutilação social. Sim, falta o pai afetivo em grande parte das famílias brasileiras. Às vezes, ele existe, mas é como se não existisse.

Por essas e por outras, uma parte da humanidade é toda seqüelada, ele pensava enquanto caminhava com o filho pela mão, na praça do bairro, na tarde de domingo.
 
Pra ele, agora, todo dia é dia dos pais.
 
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Texto revisto, publicado em 16 de maio, 2013. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Aquário

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto


No teu rosto
habitam peixes
de todas as cores

às vezes um sonho cruza
as tuas pestanas

mas é só um reflexo
foges rápido pro outro lado

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Poema do livro Viveiro. Jorge A. Finatto. Edições Sanguinovo, São Paulo, 1981.

domingo, 2 de agosto de 2015

Viver no Bom Fim

Jorge Adelar Finatto

Amantes sobre a cidade (Vitebsk), 1918. Marc Chagall.
 
Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê a minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta.
                           Marc Chagall*

Um dia eu vou viver no Bom Fim. Deixarei tudo pra trás e vou viver a vida real dos filmes, músicas, livros, pinturas, histórias e memórias do velho judeu bairro porto-alegrense.

O fim do mundo está batendo na porta todos os dias, proclamam os jornais. Está mais do que na hora de voar feliz outra vez sobre aqueles telhados, como fazia na adolescência, à semelhança dos amantes e violinistas dos quadros de Chagall.

No sábado passado, quando o céu veio abaixo, percebi que era o certo a fazer. O fim do mundo era uma questão de horas. Tomei o banho de chuva enquanto visitava sebos atrás de um livro.

Choveu tanto que lá pelas tantas comecei a retirar peixinhos que nadavam nos bolsos do meu casaco. Soltei-os na correnteza junto à calçada entre os barcos de papel que navegavam velozmente.

Vi pessoas andando e conversando sob os guarda-chuvas. Vi aqueles pequenos edifícios através das lentes ensopadas, uns grudados nos outros, parecendo jogos de armar de tijolinhos de madeira.

Em meio ao dilúvio que caía, tomei a decisão de ir viver nos cafés, livrarias, teatros, bares, fruteiras, esquinas e cinemas do Bom Fim (se é que ainda existem cinemas de rua no bairro, como os extintos Baltimore e o Bristol).

Levarei os dias a olhar as altas palmeiras da Oswaldo Aranha. Nas noites de inverno, quando a solidão bate mais fundo, sairei a caminhar com os camaradas pelas ruas do bairro.

Como no tempo da Esquina Maldita, da qual fui frequentador eventual, entre 1976 e 1980. Nenhum outro lugar da cidade tinha aquele clima de resistência à ditadura e à desesperança.

Assim era a Esquina: meio Sartre, meio Castor, meio Fernando Ribeiro, meio Scola, meio Caio Fernando Abreu, meio Cantos de Maldoror. Bar Alaska, Isaac, Revolução Cubana, rodas de violão, conversas, namoros. Meio fim de noite, meio começo de alguma coisa. 

Nos telhados das poucas casas que restam, talvez se possam ouvir ainda os violinistas. Casais talvez flutuem da mãos dadas pelo espaço. Personagens saídos das pinturas de Chagall habitavam os ares do Bom Fim.
 
Uma carroça carregada de flores costumava estacionar, nas noites de julho, na esquina das ruas Fernandes Vieira e Vasco da Gama. O florista - um velho judeu remanescente dos judeus que fundaram o bairro - alimentava o cavalo tirando capim de um saco. Depois saía a distribuir cestos de flores na porta das casas e no portão dos edifícios.

Antes de amanhecer, ele subia na carroça e sumia na névoa. Só se ouvia o tóc-tóc das patas do cavalo sobre as pedras em direção ao Parque da Redenção. Por causa dele uma suave fragrância se espalhava pelas ruas.

Um dia vou viver no Bom Fim. É lá que habitam, nos cinemas, bibliotecas, sótãos e calçadas, amigos espirituais como Carlitos, Ingmar Bergman, Kafka, Chagall, Samuel Rawet, Scholem Aleikhem, Fellini e muitos outros, que nos ajudam a não desistir diante do temporal.
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Um poema de Chagall (fragmento). Tradução de Manuel Bandeira. Antologia poética, 7ª ed., Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1974.
 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A fala de Arlequim

Jorge Adelar Finatto
 
Veneza, Itália. photo: jfinatto

Querer eu quero, e o querer é tudo. Cumpro os regulamentos do invisível.

De silêncio em silêncio, as difíceis passagens. Eu sinto no calado.

Os comedimentos. A pessoa sonhada tem certos jeitos. De não se deixar ver, nem tocar, nem sentir, nem sonhar. Os caprichos do ser amado.

As magnólias me doem no inverno de tão belas. Eu lírico. Os tormentos do amador. A musa é do tipo nem aí. Não sabe de mim.

Arlequim ao relento eu sou. Os rigores da lira me dilaceram. Vivo no austero das horas. Sinto no meu segredo.

Ela não me vê. Eu a vejo. Amador.
 
A musa é só o motivo. Eu sou o seu adamastor.

O que dorme no banco da praça. O que mora dentro do casaco e da manta. O do chapéu ridículo. O que fala algaravias no café. O que não suporta gritos. O que senta no cais a olhar as faluas e gaivotas.

Caminho à beira dos penhascos.
 
Ruínas são coisas que habitam no íntimo da pessoa. O que se fala e o outro não entende. Um diz aurora, a musa entende anoitecer. As palavras, tonterias.

Sentimento é o ora-veja da vida. Cultivo distância, alimento paciência. A musa e seu mistério e seu desdém.

O ser sonhado tem certos olhares. A musa vive num jardim secreto que eu mesmo inventei. A trança de linho desce pelo muro escarpado do castelo. Eu romântico.
 
A vida gira no esconso das horas cinzas.

Os trapos coloridos do meu coração ao vento.

Amador, amador. 
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Texto revisto, publicado em 30 de outubro, 2010.

domingo, 26 de julho de 2015

A porta misteriosa

Jorge Adelar Finatto
 
fotos: jfinatto

 
Um leitor observa que as fotografias aqui publicadas não mostram pessoas. Diz sentir muita solidão nas minhas imagens. O textos, bem. Dia sim, dia não, se aproveita alguma coisa, segundo ele.
 
Olhando bem, raro leitor, verá que existem pessoas, sim, nas fotos. Mas o que eu posso fazer se elas se escondem atrás de árvores, deitam-se no algodão branco das nuvens, viram pássaros, flores, estátuas, peixes? Ou simplesmente desaparecem na neblina?
 
Algumas valem-se de sutil artimanha e afundam-se em repentinos penhascos, embrenham-se em densas ramagens. Outras, talvez mais tímidas, tornam-se invisíveis sob côncavas umbelas, capelos e guarda-chuvas.
 
De qualquer forma, as pessoas estão lá quando fotografo. Só que, depois, por alguma misteriosa porta, saem de cena sem avisar, passando incômoda sensação de ausência.

Os textos, bem. Não sei dizer quanto valem, se é que valem. Mas me apraz saber que, dia sim, dia não, o perspicaz e exigente leitor passa por aqui para julgá-los e, quem sabe até, de vez em quando, os absolve.
 
O importante é não perder o sentimento da coisa.
 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A vida invisível

Jorge Adelar Finatto

photo: jfinatto
 

O texto sobre fantasmas causou estranhamento.

Leitores questionam o fato de o autor tratar como natural a existência de assombrações em Passo dos Ausentes.

Mais que isso, não entendem como eles transitam livremente, e à luz do dia, pelas ruas, praças, telhados e calçadas da nossa pequena cidade.
 
Eu também muitas vezes me pergunto a que se deve a presença dos voláteis entre nós. Eles não se fazem de invisíveis por aqui. E isso não causa perplexidade entre os vivos. São tênues os limites entre o real e o imaginário nestas bandas dos Campos de Cima do Esquecimento. 
 
O que se vê: os fantasmas em nada interferem no dia a dia da aldeia. Vivem com discrição sua espessa solidão, sem fazer alvoroço nem assustar  ninguém. Habitam recantos de ausência e silêncio.

Segundo Heitor dos Crepúsculos, o mais conhecido volátil desse território perdido, nossa aldeia é o único lugar do mundo onde fantasmas podem viver em paz, sem causar estrépito nem escândalo. A população não lhes faz caso.

A fantasmagoria pertence à história da cidade.

Não disseram que o passado está vivo no presente? Que os mortos cada vez mais governam os vivos? Não sei se isto é assim. Acredito que a responsabilidade pelo presente é sempre, a um só tempo, individual e coletiva. E é hoje, não ontem.

Não existem roteiros pré-escritos. Tampouco abismos e perdas intransponíveis. Havemos de escrever novas e belas histórias.
 
O pouco que sei - se é que sei - é que, para além dos fantasmas, há vida silenciosa pulsando entre nós em todos os lugares do mundo.

Gente que não é notada. Gente invisível e solitária, que vive de cabeça baixa, longe de tudo e de todos. É preciso estar atento aos fantasmas-vivos que nos cercam, dar-lhes abrigo e afeto antes que morram de frio.

Nem tudo que parece invisível está, de fato, fora da realidade.