sexta-feira, 23 de julho de 2010

Camélias brancas

Jorge Adelar Finatto



Caminho numa praça cheia de silêncio e camélias brancas. O som do vento é um remorso percorrendo a cidade. A branca passagem do nevoeiro pelas ruas de Passo dos Ausentes. Sobre a mesa, há  um vaso com flores de inverno. Por isso, quando retorno pra casa, penduro o chapéu e o bornal ao lado da porta.  Porque há dias de procurar flores na neblina.

Seis são as cadeiras em volta da mesa.  Cinco são os fantasmas em volta de mim. O relógio não cessa de fazer seus giros. As horas caem  silenciosas no chão como as camélias na praça. A frágil e fugidia beleza.


Quem salvará das geleiras e dos ventos eternos os nossos corações? O frio excessivo faz ranger as paredes de madeira.  Sob o grosso cobertor da solidão, fecho os olhos na cadeira de balanço. Caminho nos pátios e sótãos do oblívio. Quatro vezes saí de madrugada até a esquina para encontrar os camaradas. Eles tinham partido. Quatro noites sentei perto da janela pra respirar melhor. Quatro noites passei em claro esperando amanhecer.


Onde estão os postais da primavera  para iluminar o inverno? Onde foi que enterraram aquelas manhãs?  Não quero afundar com as coisas que desapareceram.

O vento canta na trompa de nácar do búzio.

Caminho entre as camélias brancas caídas no chão da praça.

Invento claridades.

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Foto: J. Finatto

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A matéria de que somos feitos

Jorge Adelar Finatto

A fragilidade da vida humana é comovente. A biblioteca nos dá a ilusão do infinito. A matéria de que são feitos os livros é mais duradoura do que aquela de que são feitas as pessoas. Tenho na minha pequena biblioteca alguns livros com mais de cem anos. Estão vivos como quando nasceram, já amarelecidos pelo tempo, mas cumprem a função para a qual foram criados. Há livros com vários séculos nas bibliotecas do mundo. Não conheço e nem ouvi falar de gente que tenha vivido 150 anos, com exceção de certos relatos escritos, como na Bíblia. Os livros e suas histórias são, perto de nós, sempiternos. A leitura nos dá um sentimento de participação na eternidade. Raskólnikov viverá para sempre nas páginas de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Fernando Pessoa morreu aos 47 anos em Lisboa, em 1935, mas os poemas que escreveu durarão até o fim (improvável) dos tempos. O gênero humano é eterno, mas o indivíduo é mortal. A doce ilusão dos livros é parecida com aquele olhar através da janela do avião nos minutos que antecedem o pouso no país distante. Quando estamos em movimento, sobrevoando palavras ou cidades, a vida está acontecendo e nada de ruim poderá nos suceder.
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terça-feira, 20 de julho de 2010

Fernando Ribeiro

Jorge Adelar Finatto


Existem artistas que vivem encobertos por uma espessa e injusta nuvem de esquecimento. Isso acontece em todas as artes, da música à literatura. O mercado de arte é regido por valores comerciais e costuma ser perverso com quem não se adapta às suas demandas. A qualidade nem sempre é a referência mais importante. Há exceções, sim. 

Contudo, o criador que fica quieto no seu canto, trabalhando sério, procurando fazer o seu melhor, distante de estratégias de marketing, tem grande chance de permanecer à margem, esquecido. Fico pensando quantos Van Goghs andaram pelo mundo sem ser notados. Quantos Villa-Lobos, quantas Coras Coralinas (essa que deu outra face à poesia em língua portuguesa e continua pouco conhecida).

Me lembro, também, de Fernando Ribeiro, excelente músico e compositor, que alcançou algum reconhecimento na década de 1970 em Porto Alegre. Dono de uma voz cálida e de um violão contido e harmonioso, fez belas parcerias com o letrista Arnaldo Sisson. Está muito esquecido. Seu disco Em Mar Aberto (1976) é uma obra de grande qualidade que precisa ser reeditada. Fernando morreu aos 56 anos, em 2006, ainda jovem para os padrões de hoje.

Penso nos que estão nascendo agora e nos que virão depois. A memória cultural não pode perder-se. É preciso levar adiante essas informações e registros. A isto chamamos tradição: a passagem do bastão pelos que nasceram antes aos que vêm logo adiante.

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Foto: capa do disco Em Mar Aberto, EMI, Fernando Ribeiro, 1976.

Um velho relógio

Jorge Adelar Finatto

Uma amiga olhou o meu relógio de pulso e comentou: lindo esse Cartier. Esclareci logo que não, não era um Cartier. Era apenas o meu velho e bom relógio, comprado por cerca de cem reais, ou cinquenta euros, numa loja aqui mesmo de Porto Alegre, em duas prestações, há alguns anos. Notei que minha declaração causou um certo desalento. O que vou fazer se não frequento o mundo das coisas caras? Não tenho interesse, nem vocação e nem recursos pra isso. Prefiro as coisas raras, como um bom livro, uma boa conversa, uma boa amizade, dessas que não se contam em moeda, mas em afeto, apreço.

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O meu velho relógio atravessou comigo longas noites no deserto. Juntos caminhamos em belas tardes de outono. Já nos perdemos no mar, num pequeno barco a vela. Temos visto coisas duras nesse mundo. Gente boa que não para de morrer e gente ruim que morre de velha. Cinzentas criaturas carregam pedra no lugar da alma. 

Meu relógio e eu temos em comum a urgência de viver  o tempo das pequenas coisas.  As revelações do farelo.

sábado, 17 de julho de 2010

Presença

Jorge Adelar Finatto



Me tens aqui lutando
com secas palavras
para iluminar a treva
que nos reúne
em torno do lume
do poema

me tens aqui solidário
beirando a primavera
beirando os trintanos
com raros bens materiais
e nenhum privilégio
de credo ou classe

às vezes louco
às vezes patético
com poucos seres humanos
pra repartir
alguma coisa

me tens aqui poeta
num país injusto e sofrido
caminhando à beira de um rio

a sujeira flutua nas águas
os pobres equilibram-se
em perigosas palafitas

me tens aqui poeta lírico
cada dia mais lúcido

como a primavera
eu invado de repente
a sala adormecida
o coração desabitado

não tenho uma saída
para os dramas
que andam por aí
sequer possuo soluções
plausíveis
para os atrapalhos
cotidianos

o que posso oferecer
e ora ofereço
é essa canção discreta
para dissipar a sombra

um braçada de flores
no inverno

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Do livro O Fazedor de Auroras, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1990.

Foto: J. Finatto

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Não escrevemos o primeiro verso

Jorge Adelar Finatto


Não escrevemos o primeiro verso
há tudo por ser dito
mas sou teimoso
insisto no jogo

quando desanimares pensa em mim
que não abandonei as ferramentas
que não dei um verso para a eternidade

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Poema do livro Claridade. Edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento. Porto Alegre, 1983.

Foto: J. Finatto

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Adeus a Harvey Pekar, anti-herói americano

Jorge Adelar Finatto

Morreu nesta segunda-feira, 12 de julho, o escritor e quadrinista americano Harvey Pekar, aos 70 anos. Ele foi encontrado morto em sua casa, em Cleveland, Estados Unidos, onde vivia. Sofria de câncer, pressão alta e depressão, mas a causa precisa da morte ainda depende de exame para ser conhecida.

O quadrinista tornou-se famoso com a publicação da série de revistas American Splendor, autobiográfica, na qual aborda o cotidiano de um homem comum, seus sentimentos, família, amigos, pensamentos, perplexidades. A série teve vários ilustradores, entre eles Robert Crumb.

A capacidade de extrair vida, sentido e emoção da realidade é uma das marcas do trabalho deste lúcido criador.

A seguir, reproduzo o texto que publiquei em 11 de junho último sobre Harvey Pekar.

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Esplendor Americano

Harvey Pekar ama o jazz e histórias em quadrinhos. Mora em Cleveland, Ohio, nos Estados Unidos. Trabalha como arquivista no hospital da cidade. Abandonou os estudos por falta de paciência e vocação. Leva uma vida monótona e muito solitária, após dois casamentos desfeitos. O apartamento onde vive só não é mais caótico por falta de espaço. Por todo lado, discos, livros e revistas que coleciona.

Tem um amigo que desenha quadrinhos muito bem, Robert Crumb, o mesmo que, anos mais tarde, se tornará uma celebridade internacional no universo dos gibis. Um belo dia, Harvey resolve começar a escrever para quadrinhos. Com uma particularidade: contará as histórias de sua própria existência, falará da vida real. Pessoas de suas relações, família, amigos e colegas de hospital serão personagens, assim como ele. Robert Crumb, já então famoso, gosta dos textos e faz os primeiros desenhos. Daí nasce a série de revistas American Splendor (Esplendor americano), em 1976, que vira sucesso e se transforma numa publicação cult. O êxito o leva a participar várias vezes do talk show de David Letterman , com o qual  trava diálogos ríspidos em pleno ar.

Pekar, no entanto, diz que, apesar do sucesso, não chega a ganhar o suficiente para largar o emprego de arquivista. Na verdade, não abandonará essa profissão, não apenas pela questão financeira, mas porque aquele ambiente lhe dá sustentação emocional, é uma espécie de âncora. No hospital, estão seus principais amigos.

O filme American Splendor (2003), que no Brasil foi lançado com o título de Anti-herói americano, conta essa história (pode ser encontrado em dvd). Além dos atores principais (Paul Giamatti, no papel de Pekar, e Hope Davis, interpretando sua mulher, Joyce Brabner, com quem, enfim, faz um bom casamento), o próprio Harvey Pekar aparece em várias cenas intercaladas, contando detalhes de sua trajetória, além de figurar como narrador. O filme, escrito e dirigido por Shari Springer Berman e Robert Pulcini, recebeu o Prêmio do Grande Júri do Festival de Filmes Sundance e o Prêmio dos Críticos do Festival de Cannes, ambos em 2003.

Esplendor americano é a visão irônica, às vezes amarga, às vezes perplexa, sempre humana, do homem comum que luta para sobreviver enquanto procura sentidos para a vida, no centro da realidade. Nada tem a ver com o herói clássico, com a imagem idealizada, com o elogio da civilização tecnológica e vencedora. Nos textos de Pekar, os perdedores (losers) - assim considerados dentro de critérios estreitamente vinculados a dinheiro e posição social -, têm voz e vez.

Pekar é um sujeito introspectivo, tímido, deprimido, obsessivo, desses que ruminam os detalhes do dia-a-dia, buscando compreender um pouco as coisas dentro e fora de si. No seu entender, "a vida comum é bastante complexa". Não faltam humor e esperança, ainda que a realidade seja dura.

Pratica uma espécie de investigação filosófica à flor da pele , dentro do único cenário possível: a vida real. Lá pelas tantas, se vê diante de um câncer, que o leva inicialmente ao desespero, depois ao tratamento e, por fim, à cura, com a inestimável ajuda da mulher. Eles formam uma família com a filha adotiva.

Trata-se de um filme brilhante, muito bem construído. Revela os caminhos de pessoas como nós, que querem encontrar razões para viver, formar uma família, ter amigos e um trabalho, que acreditam que a vida vale a pena, apesar de todas as dificuldades.

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Clareza deve ser compromisso de todos no processo*

Do juiz de direito Jorge Adelar Finatto, do Rio Grande do Sul, sobre o projeto** que prevê a exigência de linguagem mais acessível nas sentenças judiciais:

A clareza da decisão judicial é pressuposto de eficácia da prestação jurisdicional.

A sentença judicial pode e deve ser acessível ao entendimento do cidadão comum. As partes, em sentido estrito, e a sociedade, em sentido mais amplo, têm o direito de compreender o que está sendo dito e decidido na sentença. O dispositivo sentencial, a conclusão final da decisão, o resumo do pensamento do julgador, precisa ser claro.

A linguagem judicial barroca, mergulhada no juridiquês, ornamentada com desnecessárias expressões em latim – às vezes mau latim -, fechada em si mesma, não combina com esses tempos de pleno exercício da cidadania em que vivemos após a Constituição Federal de 1988.

Existem expressões técnicas que são inerentes à ciência do Direito e que são utilizadas pelos profissionais do ramo no seu trabalho, como o são na medicina, na engenharia e em outras áreas especializadas. A utilização desses termos, contudo, não justifica a decisão incompreensível.

A linguagem forense faz parte de uma cultura que não é construída unicamente pelos juízes, mas por todos os profissionais que atuam no processo. A tradição do juridiquês ainda é muito forte entre nós e está relacionada com uma sociedade de alta concentração de poder e pouca participação social.

De modo que a busca desta tão necessária claridade deve ser um compromisso comum dos profissionais do Direito.

Nesse sentido, embora ainda não tenha lido a redação final, penso que o projeto, na forma em que aprovado pela CCJ, conforme noticiado neste blog, pode contribuir, embora, a rigor, acho que não precisaríamos introduzir no CPC um dispositivo legal para dizer isso que é ou deveria ser o óbvio. Mas nem sempre o óbvio é encarado como tal.

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* Esta matéria foi veiculada no Blog do Fred (Frederico Vasconcelos, Repórter Especial da Folha de São Paulo), no dia 02 de julho último. Trata-se de espaço muito importante, relacionado ao mundo do sistema judicial brasileiro e seus operadores. Recomendo-o vivamente a todos.
Endereço: http://blogdofred.folha.blog.uol.com.br

** Na Câmara, um projeto para reduzir uso de juridiquês.
     Objetivo é exigir linguagem acessível em sentença

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania aprovou nesta quarta-feira (30/6) proposta que exige o uso de linguagem acessível nas sentenças judiciais. O objetivo é permitir que o cidadão compreenda o teor das decisões.

Segundo informa a Agência Câmara de Notícias, o projeto (*) de autoria da deputada Maria do Rosário (PT-RS) foi aprovado em caráter conclusivo (**). O projeto precisará ser votado pelo Plenário e seguirá para o Senado, a menos que haja recurso para que seja votado pelo Plenário da Câmara.

A CCJ aprovou o projeto na forma de substitutivo do relator, deputado José Genoíno (PT-SP). O substitutivo aprovado torna a linguagem acessível como um dos requisitos essenciais da sentença, mas dispensa a exigência de uma outra versão dessa sentença em linguagem coloquial e de seu envio à parte interessada.

Segundo Genoíno, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) vem promovendo ações para simplificar a linguagem jurídica, e uma tradução obrigatória poderia minar os esforços para que esse objetivo seja alcançado. Ainda mais, segundo Genoíno, porque a determinação só valeria para processos em que pelo menos uma das partes seja pessoa física.

“A necessidade de se reproduzir o dispositivo da sentença em linguagem coloquial aumentaria o trabalhos dos juízes, tornando ainda mais burocrática a distribuição da Justiça, o que seria agravado pela necessidade do envio da referida reprodução para o endereço pessoal da parte interessada”, defendeu.

(*) PL-7448/2006

http://www.camara.gov.br/sileg/integras/416293.pdf

(**) Rito de tramitação pelo qual o projeto não precisa ser votado pelo Plenário, apenas pelas comissões designadas para analisá-lo. O projeto perderá esse caráter em duas situações: - se houver parecer divergente entre as comissões (rejeição por uma, aprovação por outra); - se, depois de aprovado pelas comissões, houver recurso contra esse rito assinado por 51 deputados (10% do total). Nos dois casos, precisará ser votado pelo Plenário.

domingo, 11 de julho de 2010

Pão*

José Saramago

Terá o digníssimo fiscal de Badalona lido Os Miseráveis de Victor Hugo, ou pertence àquela parte da humanidade que crê que a vida se aprende nos códigos? A pergunta é obviamente retórica e, se a faço, é só para facilitar-me a entrada na matéria. Assim, o leitor ilustrado já ficou a saber que o dito fiscal poderia ser, com inteira justiça, uma das figuras que Victor Hugo plantou no seu livro, a de acusador público. O protagonista da história, Jean Valjean (soa-lhe este nome, senhor fiscal?), foi acusado de ter roubado (e roubou mesmo) um pão, crime que lhe custou quase uma vida de reclusão por via de sucessivas condenações motivadas por repetidas tentativas de fuga, mais logradas umas que outras. Jean Valjean sofria de uma enfermidade que ataca muito a população dos cárceres, a ânsia de liberdade. O livro é enorme, daqueles de que hoje se diz terem páginas a mais, e certamente não interessará ao senhor fiscal que provavelmente já não está em idade de o ler: Os Miseráveis são para ler na juventude, depois disso vem o cinismo e já são poucos os adultos que tenham paciência para interessar-se pela miséria e pelas desventuras de Jean Valjean. Com tudo isto, também pode suceder que eu esteja equivocado: talvez o senhor fiscal tenha lido mesmo Os Miseráveis… Se assim é, permita-me uma pergunta: como foi que ousou (se o verbo lhe parecer demasiado forte use qualquer dos equivalentes) pedir um ano e meio de prisão para o mendigo que em Badalona tentou roubar uma “baguette”, e digo tentou porque só conseguiu levar metade? Como foi? Será porque, em vez de um cérebro, tem no seu crânio, como único mobiliário, um código? Aclare-me, por favor, para que eu comece já a preparar a minha defesa se alguma vez vier a ter pela frente um exemplar da sua espécie.

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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Publicado originalmente em 1º de fevereiro, 2009.
A grafia é a de Portugal. 

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A invasão dos balões misteriosos

Jorge Adelar Finatto
 
 

 
Um balão vermelho singrou os ares de Passo dos Ausentes em junho de 2010. O fato provocou um alegre alvoroço na cidade. Não estamos acostumados com coisas voando por cima das nossas cabeças. Abordei o assunto no texto do dia 25 de junho daquele ano.

Porém, o que antes foi motivo de emoção e espanto, agora é razão de preocupação.

Outros balões, de cores variadas, cruzam nos últimos tempos nosso espaço aéreo, vindos sabe Deus de onde. Demoram-se em voos circulares, sem a menor cerimônia, e depois desaparecem atrás do Contraforte dos Capuchinhos.
 
A aparição misteriosa dos aerostatos começa a causar apreensão, principalmente entre os voláteis, que transitam livremente pelas ruas, habitam as copas de árvores, sótãos, armários e telhados. Eles vivem aqui há trezentos anos sem ser incomodados.  Se descobertos por olhos indiscretos, seus dias entre nós estarão contados.

Palomar Boavista, astrônomo-mor, e Claudionor, o Anacoreta, foram convocados para explicar as possíveis razões das incômodas visitas, em reunião extraordinária da Sociedade Histórica, Geográfica, Filosófica, Literária, Geológica, Astronômica, Teatral e Antropofágica de Passo dos Ausentes, que tem na presidência Don Sigofredo de Alcantis, o filósofo guardião da nossa memória.

Somos uma cidade invisível a 1800 metros de altitude.  Condições atmosféricas intratáveis nos isolam do resto do mundo, desde que por aqui chegaram nossos antepassados, um grupo de índios guaranis e jesuítas que conseguiu fugir e sobreviver à destruição dos Sete Povos das Missões, levada a cabo por espanhóis e portugueses no século XVIII. Aquelas pessoas fundaram Passo dos Ausentes em 1759.

Lugar íngreme, difícil de sair e mais ainda de chegar, está situado no topo de imemoriais montanhas de rude basalto na Serra da Ausência.

O açoite implacável dos ventos nos fustiga o ano inteiro.

Vivemos nos Campos de Cima do Esquecimento. Não estamos no mapa do Rio Grande do Sul. Não existimos oficialmente. Tramita um processo desde o ano de 1805 junto aos órgãos da administração do Estado, no qual pedimos  o reconhecimento da nossa comunidade, com sua história e cultura, e  a inclusão nos mapas.

As respostas sempre foram evasivas. Dizem que não há provas concretas da existência desse lugar e, menos ainda, de que aqui vivem pessoas. Não fosse patético, seria cômico.

Nos tomam por seres imaginários. As duas expedições que vieram nos procurar, em 1936 e 1989, a mando do governo, perderam-se no caminho, desistiram e foram embora. O lugar é quase inacessível devido à acidentada topografia que envolve os paredões. Além das névoas eternas, as chuvas recorrentes e o frio intenso nos separam do mundo.


Claudionor e Palomar, após longa reunião, expuseram à assistência as duas prováveis explicações para os dirigíveis. Com voz grave e pausada, Palomar disse que a primeira hipótese é de que estamos sendo visitados por seres de outro planeta, que consideram Passo dos Ausentes a melhor porta de entrada na Terra, sem chamar atenção.

- A segunda, menos plausível, é que se trata de observadores aéreos do governo para nos localizar. Diante do fracasso das expedições terrestres no século passado, estariam enviando nova equipe para investigar.

Don Sigofredo de Alcantis pediu a palavra. Para ele, a primeira hipótese seria a menos perigosa.

- Se forem seres de outra esfera cósmica, não haverá  dificuldade, porque alguns esquisitos a mais por aqui não vão fazer diferença. Estamos habituados a toda sorte de estranhamento. Mas se for gente do governo querendo nos espionar, aí tudo de ruim pode acontecer. No dia em que o asfalto e a política chegarem a Passo dos Ausentes, será o nosso fim. A invisibilidade ainda é o melhor para nós.


O silêncio que se seguiu fez com que se ouvisse o forte rumor do vento nas folhas das altas palmeiras da Praça da Ausência.  Para espantar o frio e arrepios interiores, Mocita de la Vega serviu aos presentes seu licor de leite com noz-moscada. 

Não nos veem e não nos sentem. Juan Niebla, o músico cego que toca bandoneom na estação de trem abandonada da cidade, executou Adios Nonino, de Astor Piazzolla. Com tanto sentimento que até mesmo Claudionor, o Anacoreta, não pôde evitar o brilho de uma lágrima.

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Texto publicado em 9 de julho, 2010.
Fotos: J. Finatto

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Mãos que tecem o amanhecer

Jorge Adelar Finatto


A porta de entrada na vida é sempre uma luminosa travessia. A primeira respiração de alguém é a respiração do primeiro homem e da primeira mulher.

A saída da existência é sempre a coisa mais triste.

Existem pessoas que, sendo o que são e vivendo como vivem, nos inspiram e nos dão força para continuar no caminho. É gente que com um gesto de compreensão nos diz que a vida vale a pena. 

Passam o sentimento de que cada ser humano é importante para humanizar o giro das engrenagens dessa obscura geringonça na qual estamos metidos desde a hora em que abrimos os olhos de manhã até o instante em que adormecemos.

O mínimo que deveríamos fazer, nessa escuridão, é dar a mão uns aos outros. Não é isso que acontece. Mas há pessoas que têm o dom de nos mostrar que uma vida assim é possível. Ainda bem que elas existem.

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Foto: J.Finatto

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Poesia de Vinicius de Moraes na internet

Jorge Adelar Finatto


Para os que admiram a obra de Vinicius de Moraes (1913 - 1980) - e não somos poucos neste vasto mundo -, eis que surge uma bela notícia: a sua poesia completa agora está disponível na internet para leitura e o acesso é livre.  O mérito da iniciativa é da Universidade de São Paulo, através da Brasiliana  Digital , e das pessoas que detêm os direitos autorais sobre a obra do poeta, que autorizaram a publicação no meio virtual.

Os quinze livros que tiveram textos e imagens digitalizados reúnem a produção poética do autor e são provenientes da biblioteca do bibliófilo José Mindlin.

A Brasiliana Digital integra o projeto Brasiliana USP, que reúne notável coleção de livros e documentos de e sobre o Brasil . O trabalho, de imenso valor cultural e social, está em permanente construção. A Brasiliana Digital parte da digitalização do acervo de José Mindlin, que ele construiu ao longo de 80 anos e doou, juntamente com sua família, à universidade , e se estende a outros acervos da USP. É uma documentação preciosa que começa a ser colocada na rede mundial de computadores, já contando com vários títulos. O endereço é: www.brasiliana.usp.br.

No dia 09 de julho completam-se 30 anos da morte de Vinicius, um dos grandes poetas da língua portuguesa. Também por isso, vem em boa hora a edição digital de tão importante obra.
 
Cumprimentos à USP e a todas as pessoas envolvidas nessa extraordinária iniciativa.

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Foto: Vinicius de Moraes. Divulgação. Fonte: O Estado de S. Paulo (www.estadao.com.br), edição de 23/6/2010.

sábado, 3 de julho de 2010

Cresce interesse pela poesia de Henrique do Valle

Jorge Adelar Finatto


Tenho recebido mensagens de pessoas interessadas em conhecer a vida e a obra do poeta Henrique do Valle. Na busca de informações, acabam encontrando o post que publiquei sobre Henrique, em 1º de fevereiro passado.

Recomendo a todos a leitura dos livros que ele publicou, editados pela Editora Movimento, de Porto Alegre.

Esse crescente interesse pela obra do Henrique é algo que me deixa muito feliz. Acredito que essa luz crescerá cada vez mais, ocupando o espaço que lhe cabe pela qualidade dos versos que deixou.

Falar da poesia do Henrique é também recordar um ser humano muito especial, que vivia numa outra dimensão, à margem da sociedade materialista. Não sei como explicar. A obra que ele escreveu até os 21 ou 22 anos, idade em que morreu, é mesmo impressionante. 

Guardo os textos que ele  deixou comigo no envelope antes de partir, no qual creio existem diversos inéditos. Tínhamos quase a mesma idade.   Atravessamos juntos a chuva e o frio do inverno de Porto Alegre. Às vezes acabamos em algum barzinho perdido, bebendo alguma coisa e conversando. Mas era talvez no silêncio onde mais nos encontrávamos.
 
O Henrique esteve no mundo por breve tempo, e o que deixou escrito veio de uma experiência que não cabia no curto tempo que ele viveu.
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Foto: Henrique do Valle. Fonte: contracapa do livro Do Lado de Fora, Editora Movimento, Porto Alegre, 1981.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

De mal en peor

Jorge Adelar Finatto

"Cuando Dios hizo la luz, 
 yo ya debía
 tres meses."

Um dos encantos na vida de quem sai a caminhar pelas ruas das cidades que visita é descobrir a maneira de ver  o mundo dos habitantes do lugar através de coisas como as inscrições feitas nos muros e paredes. Os famosos grafites. Em Porto Alegre, no mais das vezes, nada mais são do que poluição visual lançada no cenário urbano, agressivos, grotescos, sem sentido. Nem sempre é assim. Em Montevidéu, por exemplo, é diferente. É comum encontrarmos na capital do Uruguai inscrições com algum teor de filosofia, política, crítica social, poesia e até humor, como a que se vê acima.

Fundação José Saramago propõe Baltasar Garzón para Prêmio Nobel da Paz

 


Por estar envolvido na defesa dos Direitos Humanos e por nunca ter baixado a cabeça diante de nenhum estratagema e de nenhum poder, porque acreditou na justiça universal para as vítimas, em qualquer continente e em qualquer país.

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Notícia publicada ontem, 1º de julho, pela Fundação José Saramago em seu site:

http://www.josesaramago.org/

Foto: Baltasar Garzón e José Saramago, Lisboa, dezembro de 2008. Arquivo da FJS.

Baltasar Garzón*

 José Saramago

O juiz Baltasar Garzón deixou em Lisboa uma lição do que é ou deve ser o Direito. A verdade é que, em sentido estrito, do que se falou no acto organizado pela Fundação foi de Justiça. E de sentido comum: dos delitos que não podem ficar impunes, das vítimas a quem tem de ser dada satisfação, dos tribunais que têm de levantar alcatifas para ver o que há por baixo do horror. Porque muitas vezes, por baixo do horror, há interesses económicos, delitos claramente identificados perpetrados por pessoas e grupos concretos que não podem ser ignorados em Estados que se proclaman de direito. Quem sabe se os responsáveis dos crimes contra a humanidade, que de outra forma não posso chamar a esta crise financeira e económica internacional, não acabarão processados, como o foram Pinochet ou Videla ou outros ditadores terríveis que tanta dor espalharam? Quem sabe?

O juiz Baltasar Garzón fez-nos compreender a importância de não cair na vileza uma vez para não ficar para sempre vil. Quem conculca uma vez os direitos humanos, em Guantánamo, por exemplo, atira pela borda fora anos de direito e de legalidade. Não se pode ser cúmplice do caos internacional com que a administração Bush infectou meio mundo. Nem os governos, nem os cidadãos.

Um auditório multitudinário e atento seguiu as intervenções do juiz com respeito e consideração. E aplaudiu como quem ouve não verdades reveladas, mas sim a voz efectiva de que o mundo necessita para não cair em na permissividade da abjecção.

A Fundação está contente: fizemos o que pudemos para recordar que há uma Declaração de Direitos Humanos, que estes não são respeitados e que os cidadãos têm de exigir que não se tornem em letra morta. Baltasar Garzón cumpriu a sua parte e tê-lo posto a claro esta tarde em Lisboa só pode fazer com que nos felicitemos.

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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Publicado originalmente em 12 de dezembro, 2008.
A grafia é a de Portugal.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Depois de tudo

Jorge Adelar Finatto


Depois de tudo ele quer só um banho. Não o tagarela e desajeitado das enfermeiras. Anseia um banho demorado, com direito de ficar só, recolhido, senhor de seus domínios. Durante o tempo em que esteve longe do mundo e do próprio corpo, viajando na nuvem de morfina, sonhava em sentar debaixo de uma cachoeira e ali ficar um dia inteiro sentindo a água cair.

Havia muitas árvores nesse lugar, camélias brancas, pássaros, um ar carregado de fragrância de mato, bom de respirar. Havia também uma mesa larga e comprida, onde gente da família e amigos se encontravam para o café da tarde. Até  os desaparecidos se chegavam na mesa para conversar com ele. Até mesmo o pai, imemorial ausência, surgiu no sonho e o abraçou calidamente, como nunca antes fizera.

Reencontrou o córrego da infância, entre os pinheiros. Caminhou sobre os seixos, olhou o movimento ligeiro e colorido dos peixes na água. Recordou o jeito da  saíra entrar e sair do ninho. A suave luz de maio a tudo envolvia.

Agora está de novo em seus domínios,  o hospital ficou pra trás. Embaixo do chuveiro, a água morna escorrendo na cabeça, no corpo, ninguém pra segurá-lo, virá-lo dum  lado pra outro feito joão-bobo. Sob a água, sentindo os seixos nos pés, o vento leve na face, os peixes no córrego, conversas na mesa larga dos afetos, ele celebra a dádiva de estar vivo.

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Foto: J. Finatto

terça-feira, 29 de junho de 2010

Queremos bem a Goethe

Jorge Adelar Finatto


Não tenho tempo nem a necessária disposição para, a essa altura, aprender alemão gótico. O muito pouco que sei do idioma de Goethe aprendi com Púbi Mann, o maior germanófilo vivo de Passo dos Ausentes. O Púbi esteve ontem aqui em casa, bastante preocupado com uma notícia publicada na Folha de São Paulo, edição de 26 de junho passado, de autoria de Lucas Ferraz. Diz  a matéria que um acervo com mais de seis mil volumes, reunindo obras de autoria de Johann Wolfgang  von Goethe (1749-1832) e outras a seu respeito, está guardado sem o devido cuidado na biblioteca do Ministério da Justiça, em Brasília.

Trata-se, conforme o adido cultural da Alemanha, Holger Klitzing, de uma coleção impressionante. Talvez seja o mais importante conjunto de livros sobre o grande escritor alemão na América latina. Há obras do final do século 17, entre elas algumas artesanais e ilustradas a ouro. A maior parte foi editada entre 1780 e 1860 e está escrita em alemão gótico seiscentista. Outras foram escritas em alemão contemporâneo, inglês, francês, italiano, espanhol e português.

Os livros foram comprados pelo governo brasileiro há cerca de 40 anos, quando era Ministro da Justiça Alfredo Buzaid, que gostou muito da coleção, à venda na livraria Kosmus, do Rio de Janeiro. Segundo livreiros, o preço pago então, Cr$ 80.000,00 - equivalente hoje a quase R$ 70.000,00 - estaria muito abaixo do valor real.

Conforme noticiado, o governo diz que irá restaurar a rara coleção até 2011.

Púbi Mann está inconformado, porque os livros apresentam  mofo, estão em estado sofrível, desorganizados e sem possibilidade de consulta pelo público.

- Os livros estariam melhor cuidados aqui em Passo dos Ausentes - , disse Púbi, que é o guardião da nossa pequena biblioteca.

Dom Sigofredo de Alcantis, nosso filósofo, inteirou-se de tudo o que estava se passando. Ele e Púbi são os únicos da cidade que entendem alemão gótico. Em certas tardes, reúnem-se para ler, em voz alta, textos de Goethe na Praça da Ausência, na presença de estudantes, para os quais, em seguida, fazem a tradução , transmitindo noções do idioma alemão.

Depois de planejar uma ida a Brasília para tentar influir no destino e na salvação do importante acervo, Púbi Mann e Dom Sigofredo desistiram da ideia, devido às peculiares condições atmosféricas reinantes aqui nos Campos de Cima do Esquecimento. 

A chuva, a neblina, a geada, o vento e o frio não nos dão trégua  o ano inteiro. Vivemos, a duras penas, a 1.800 metros de altitude, nem sequer estamos no mapa do Rio Grande do Sul. Somos poucos e invisíveis. Ninguém chega, ninguém sai.  A única estrada que nos liga ao mundo está, como sempre, intransitável. Em suma, não há nada de novo sob as névoas eternas de Passo dos Ausentes. Mas queremos bem a Goethe.

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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Postais do portal do inverno

Jorge Adelar Finatto


Agora é o tempo da longa espera do sol.

O outono passou com seus pássaros tristes,  suas árvores desabitadas.




O inverno é  um filme de cinema mudo.









 



Agora, espessas nuvens povoam o céu.



As sementes sonham com a claridade. 
 


A primavera é a promessa que amadurece em silêncio no  secreto movimento das seivas.

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Fotos: J. Finatto

sábado, 26 de junho de 2010

À sombra de uma oliveira


"Mas não subiu para as estrelas,
 se à terra pertencia". 

 Memorial do Convento



José Saramago repousará no Campo das Cebolas, após remodelação no local, em frente à Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, à sombra de uma oliveira centenária que será transplantada da sua aldeia natal, Azinhaga, para Lisboa.


A frase do "Memorial do Convento" estará inscrita em pedra de Pero Pinheiro. 
 
Um banco de jardim possibilitará que os seus amigos leiam fragmentos da sua obra ou observem a paisagem que o Escritor teria da sua janela.

José Saramago está em Lisboa, nos seus livros, mas, sobretudo, nos nossos corações.

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Notícia extraída do site da Fundação José Saramago.
http://www.josesaramago.org/
 
Imagem: Casa dos Bicos, Lisboa. FJS

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A viagem do balão vermelho

Jorge Adelar Finatto



O balão é vermelho e tem forma de coração.

A tarde cai vertical e fria em Passo dos Ausentes. O solitário voo do balão é um convite à evasão da realidade. Não sei como ele apareceu aqui nos Campos de Cima do Esquecimento.  Talvez tenha se perdido no itinerário do vento. O fato é que sua breve aparição no céu da cidade foi um grande acontecimento. Os habitantes saíram para as ruas em alvoroço, apontando para o objeto que passava lentamente sobre os telhados. Os meninos correram pela estrada afora atrás dele.


Quem sai a voar num balão vermelho, numa segunda-feira de junho, início de inverno? Quem  será o destemido navegante que decidiu entrar no cesto do aerostato e ir pelo  espaço sem pressa, deixando embaixo os medos, a falta de tempo e de ternura, as angústias e tragédias da vida? De onde virá a força que o faz navegar entre as nuvens, fugindo dos mil nadas que aprisionam a existência?

Desliza no ar gelado, entre o azul e o branco . A bagagem do viajante são as palavras e a memória. Lá em cima, está livre da violência, do tédio e da mesquinharia. O navegante rasga o azul e vai para um lugar onde ninguém poderá encontrá-lo. A viagem de balão é um modo de postergar o absurdo cotidiano, um jeito de  não enlouquecer.

Enquanto o viajante flutua no cesto, a frágil nave se distancia para além das montanhas. Deriva em direção à noite.  Perco-a de vista.  Os meninos voltam para suas casas. A cidade aos poucos volta ao normal. Lá longe desaparece o balão vermelho, levando com ele os delicados fios de que são tecidos nossos sonhos .

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Foto: J.Finatto

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Saramago, Caras e Pessoas

Marcelo Buainain


Para muitos, ao longo dos últimos 10 anos essa imagem do escritor José Saramago se tornou  conhecida, porém poucos sabem da sua história e autoria. O autor não é desconhecido...

O ponto de partida é Lisboa, cidade onde vivi praticamente toda a década de 90. Foi nessa ocasião que tive oportunidade de formar uma parceria com a jornalista Cristina Duran que pautava os entrevistados e eu os fotografava. Momentos especiais foram vividos e compartilhados nas tascas e em nossas residências situadas no bairro de Alfama, quase  à beira do rio Tejo. Deste elo profissional e amizade tivemos o privilégio de fotografar várias celebridades, entre elas Wim Wender, Pedro Almodóvar, Bernardo Bertolucci, Irène Jacob, entre tantas outras.

Tomado por uma certa insatisfação com os clichês fotográficos, concebi o projeto "CARAS E PESSOAS", cuja proposta era apresentar uma personalidade portuguesa sob duas óticas: uma face que espelhasse o normal e a outra, a exemplo da famosa fotografia de Albert Einstein, o insólito, o inusitado. 

Já em campo, empunhando uma Hasselblad e um estúdio ambulante, retratei o então presidente Mário Soares, a atriz Eunice Munhoz, o ator Joaquim de Almeida, o amigo e escritor Pedro Paixão, o pianista Bernardo Sassetti, o cineasta João Botelho, a cantora de fado Amália Rodrigues e, entre tantos outros, João Fiadeiro, Sérgio Godinho, Rui Chafes, Pedro Cabrita, Ana Salazar, Jorge Molder e Júlio Pomar. 

Sensibilizado com o drama humano narrado no livro Ensaio sobre a Cegueira, idealizei para o projeto Caras e Pessoas um retrato do escritor Saramago, enfatizando os olhos, a cegueira, a visão.

Em 25 de fevereiro de 1996, no bairro de Alfama em Lisboa, na residência da jornalista Cristina Duran, tive a oportunidade de focar os olhos e a alma de José Saramago, expressos nesse retrato.

Saramago, a nossa gratidão por acreditar na possibilidade e realização desta imagem.

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Agradeço a Marcelo Buainain a preciosa  e generosa colaboração. J.Finatto

terça-feira, 22 de junho de 2010

Maratona de leitura de «O ano da morte de Ricardo Reis» na Casa Fernando Pessoa

Amigos,
Porque acreditamos que a voz dos grandes escritores só morre quando a nossa voz os deixa morrer, convidamos-vos a ler em voz alta O Ano da Morte de Ricardo Reis, na próxima sexta-feira, dia 25, na Casa Fernando Pessoa. Faremos a leitura integral desta obra, numa maratona que terá início às 12 horas.

Contamos convosco,
Inês Pedrosa
Directora

Leitores confirmados: Pilar del Rio, Leonor Xavier, José Luís Peixoto, António Mega Ferreira, José Mário Silva, Luísa Costa Gomes, Gonçalo M. Tavares, Fernando Pinto do Amaral, Clara Pinto Correia e Patrícia Reis.

Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt
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Imagem e texto: Casa Fernando Pessoa, Lisboa.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Segredos do implúvio

Jorge Adelar Finatto



I

Dizem
que escrever
        poemas
é ofício
   de pouco valimento
mas pouco se revelou
sobre a memória da sombra
as paredes úmidas
da velha casa de madeira
o esquálido corredor
onde se morria
um dia todos os dias
              sem notícia
sem amanhã

II

alguém precisava
recordar
os soturnos habitantes
             da rua humilde
na cidade serrana

lembrar o cheiro
de suas vestes
as pedras soltas
na porta das casas
os casacos pretos
nas manhãs de geada

III

nada ou muito pouco
se disse
dos segredos do implúvio

eu me pergunto por que
esse vazio em torno

estaria no silêncio
acre das caves
o destino de partir?

trabalho lento
nas escarpas
     do coração

IV

não fossem
os trilhos
do trem
o barulho santo
do trem
atravessando
a madrugada
criando ao menos
em tese
a possibilidade
da fuga
muitos teriam
desistido de tudo
ali mesmo
como fez Chico
o Esquecido

V

o coração não é
assim mero

cresce em segredo
na dura colheita

não se esvazia
o coração
como se esgotam
as cisternas

VI

alguém precisava contar
a náusea persistente
a longa e tortuosa estrada
que desce na Capital

melhor não inventar
                   histórias
de castelos e linhagens
que nunca existiram

e se houve
federam
como podem feder
as escadarias
dessas obscuras passagens
perdidas no planeta
que recolhem
seres rastejantes

VII

o que se registra
no tombo do tempo
é que há um menino
imóvel
à beira da jovem defunta

naquele lugar
a despedida
com alguma flor
sussurros abafados

ele pergunta
onde ela foi habitar

o que vê
é a morte
e seu absurdo trabalho
convertendo em pó
a luz dos olhos

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Poema do livro O habitante da bruma, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.
Fotos: J.Finatto

sábado, 19 de junho de 2010

Adeus, José

Jorge Adelar Finatto


Cada um de nós é por enquanto a vida. 
Isso nos baste.

A morte de José Saramago ontem, 18 de junho, significa a perda de um notável ser humano e o ponto final na trajetória de um escritor essencial do nosso tempo. Neste mundo em que a média de lucidez e sensibilidade é muito baixa , um homem dessa natureza fará muita falta.

O desaparecimento do escritor português, aos 87 anos , na ilha de Lanzarote, situada no arquipélago espanhol das Canárias, onde vivia desde que o governo de Portugal censurou seu livro O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), representa uma dor pessoal para seus muitos leitores espalhados pelo mundo. Todos faziam parte da família espiritual que Saramago construiu através de seus livros, suas posições corajosas contra a injustiça, sua fé na razão  humanista e na solidariedade como instrumentos de luta diante das trevas que inundam o planeta. Foi o primeiro e, até agora, único escritor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998.

Numa época em que se misturam os conceitos de escritor e publicitário, em que o marketing pessoal muitas vezes vem antes do trabalho literário e da consciência do que este representa, José Saramago foi uma notória exceção. Antimarqueteiro por excelência, não se preocupava em atender as demandas e caprichos do mercado. Nele o cidadão andava junto com o criador de páginas belas, densas, simples e memoráveis. Dizia o que pensava e o que sentia . Não tolerava a opressão e a coisificação da vida. Não fugia dos temas polêmicos, a indiferença jamais fez parte de seu modo de ser e escrever. Queria denunciar a iniquidade e a desumanização, e o fazia com  destemor, acendendo e partilhando a boa luz que emanava de seu espírito. 

Esse homem de origem muito humilde, nascido na pequena povoação de Azinhaga, província do Ribatejo, em 16 de novembro de 1922, apontou a irracionalidade de religiões que investem contra a dignidade das pessoas. Criticou Israel na luta desigual, violenta e injusta contra os palestinos, acusou a perseguição movida ao juiz espanhol Baltasar Garzón por querer apurar os crimes cometidos pela ditadura franquista, e insurgiu-se diante de muitos outros atos  de violência.

Terá cometido erros como todos, do contrário não seria gente. Mas o legado literário, ético e humano que deixa para as pessoas de todas as nações é digno de atenção e profundo respeito.

Em sua importante produção, encontramos livros como Levantado do chão (1980), O ano da morte de Ricardo Reis (1988), Ensaio sobre a cegueira (1995), O conto da ilha desconhecida (1998), As pequenas memórias (2006).

O blog que manteve a partir de 2008, intitulado O Caderno de Saramago, na página da Fundação José Saramago na internet, foi mais uma manifestação concreta de grande generosidade e  capacidade de intervenção na realidade.

Tenho um irmão siamês
(Minha morte antecipada,
Já deitada
À espera da minha vez.)

O homem silenciou.

A obra continuará viva entre nós.

Por isso, lhe seremos sempre gratos.

Adeus, José.

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Foto: José Saramago, janeiro de 2009. Arquivo da Fundação José Saramago.
Textos do escritor, em itálico vermelho, extraídos do livro  de poemas Provavelmente Alegria, Editorial Caminho, Lisboa, 1985.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O processo

Jorge Adelar Finatto


Sou habitante
da beira do rio
condenado
a não ver o rio

afundado em seco
decifro papéis
que nada me dizem

a página em branco
espera o verso
que não escreverei

o que encontro
no gabinete
a essa hora
da manhã
é não ter tempo
pra mais nada

enfrento a trama
invencível
a dor sem abrigo

a grande trituração
das almas
no processo

resta apenas
o duro ofício
que não pode
ser adiado

impossível fugir

o carteiro
envelhece
enquanto aguarda
as cartas
que não enviarei

observo por um momento
o voo branco
da gaivota
sobre o Guaíba

nesse instante
invade-me a tristeza
do prisioneiro
(a essa hora da manhã)

desapareço
na névoa

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Poema do livro Memorial da vida breve, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.

Foto: J.Finatto

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Breve notícia de um domingo

Jorge Adelar Finatto


A moça do casaco de lã azul tem cabelos encaracolados. Os dentes da moça do casaco azul são muito brancos. A cidade fica iluminada quando a moça sorri. Essa moça de cabelos encaracolados não sabe que espalha encanto e dor na tarde fria e triste do domingo de junho. Por isso, enquanto conversa fazendo gestos suaves, na moldura branca do banco da praça, o riso da moça apaga e acende como farol no meio da melancolia que insiste  no coração. Dá vontade de caminhar na estrada ensolarada que a moça inaugura toda vez que sorri dentro do casaco azul.

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Foto: J.Finatto

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Camisola*

 José Saramago


Quando hoje saí do hospital, fresco como uma rosa, trazia comigo duas satisfações. Uma, a de me ter visto livre, finalmente, de uma impertinente bronquite que há meses, com altos e baixos, parecia não querer largar-me, mas que desta vez teve de resignar-se a ir à procura doutro hospedeiro. Oxalá não o encontre. A segunda satisfação era de diferente natureza. Sucede que neste pequeno hospital de Lanzarote, certamente com surpresa de quem me leia, trabalham nada mais, nada menos que 17 ou 18 enfermeiros vindos de Portugal, da província do Minho na sua maior parte. Sucede também que, antes de sair, tive de fazer uma radiografia ao tórax para que ficasse devidamente documentado que o paciente, como costuma dizer-se, está bem e recomenda-se. Eu levava posto o que hoje chamamos um “jersey”, portanto foi um “jersey” que despi e deixei em cima de uma cadeira. O enfermeiro, português de Felgueiras, devia verificar se as chapas haviam resultado tecnicamente satisfatórias e, para isso, teve de passar para um compartimento ao lado. Disse: “São só dois minutos, depois dou-lhe a camisola”. Creio que estremeci. Não tornara a ouvir a palavra desde há uns trinta anos, talvez mais, e aqui, em Lanzarote, a dois mil quilómetros da pátria, um jovem enfermeiro de Felgueiras, sem o imaginar, dizia-me que a língua portuguesa ainda existia. Abençoada bronquite.

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*Publicado com autorização da Fundação José Saramago
http://www.josesaramago.org/
Texto extraído do blog O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/.
Publicado originalmente em 21/abril/2009.
A grafia é a de Portugal.

Foto: José Saramago escrevendo Caim. Arquivo da Fundação.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Alberta de Montecalvino

Jorge Adelar Finatto


Veneza é o sonho de toda Colombina. Eu passei a vida em Passo dos Ausentes. O que é esse lugar? Um território perdido no vento. A neblina, o frio e a chuva povoam a cidade o ano inteiro. Habito com amargura e ironia esta estação de fim de mundo.

Casei-me aos 16 anos com Dom Alberto de Montecalvino, o Solitário da Biblioteca. Na época ele contava 69 anos. Desde aquele quando, passei a viver neste austero castelo de basalto e vidro. Hoje tenho 70 anos, sou deveras viúva e, às vezes, me perco nos salões da memória. As intermitências.

Daqui de cima, na larga janela da biblioteca, avisto o Contraforte dos Capuchinhos. Gosto muito dessa visão porque por ali é que se vai embora de Passo dos Ausentes. Mas nunca passei naquela estrada. Dom Alberto me pediu que jamais o fizesse. Os medos. Atendi o bom homem. Passaram-se os anos.

O muito amado do meu coração é Pedrolino. Dom Alberto sempre soube, suportou, era como um pai pra mim. O meigo Pedrolino. Amoroso e fiel. Seu amor é casto e resignado. Tem as delicadezas.

Arlequim é o senhor das labaredas. Inconstante e fútil. Nunca vem ao meu coração. Tem meu corpo, jamais minha alma. Com ele muito me rio, é engraçado, leviano. Incapaz de amar alguém além de si mesmo. Não tem sentimento.

O corpo tem fome e a fome seus apetites. Arlequim é malicioso, egoísta, por isso sabe agradar quando quer. Pedrolino é terno, quase um menino, vai direto ao assunto. Não conhece as sutilezas.

Quem pudera reunir, na mesma pessoa, as gratas virtudes. O mundo humano foi bordado imperfeito, eu sei. Tal felicidade ninguém merece.

Ambos os dois, Arlequim, o devasso, e Pedrolino, o amado, são a minha devoção. Cada qual no seu momento. Sou a Senhora da Biblioteca. Viúva mui constante em negras vestes de luto. Os respeitos a Dom Alberto. Tenho a minha idade. Cultivo as devoções, no discreto.

Não me julguem tão depressa. Poupem-me da vossa moral de almanaque. De metafísica e solidão o cemitério está cheio. Conheço os reveses. Eu vivo os enquantos.

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Foto: J.Finatto
Alberta, Colombina

domingo, 13 de junho de 2010

O escultor sem memória e sem nome

Jorge Adelar Finatto


Aqui em Passo dos Ausentes existe um homem que vive na rua, perdeu a memória, não sabe quem é.  Atende por Antônio. Desconhece o lugar onde nasceu, quem eram seus pais, ignora se tem parentes ou amigos. Ele faz esculturas de madeira. As mãos são trêmulas. As roupas, muito velhas, mas vê-se que é caprichoso.

A madeira ele procura em restos de construções, praças e terrenos baldios. Nesse fim de semana de Dia dos Namorados, ele fez algumas imagens de Santo Antônio. O que mais admira no santo? A humildade. O escultor considera essa qualidade a mais importante.

Observando suas obras expostas na calçada, percebe-se que tem inventividade e talento. Seus dedos tecem delicadas formas sobre o pobre material. Eis que, no ar, vão aparecendo os contornos, os volumes, as cavidades. O que antes era lixo agora ganha expressão, sentido, beleza.

O escultor sem nome e sem memória é, em si, um mistério. Um olhar que se abre para uma janela solta no espaço. Ele não tem plano de saúde, casa, salário, família. Seus amigos mais próximos são os pardais nas árvores.

Esse artista não deixa de ser alguém que, apesar de tudo, carrega uma espécie de felicidade. Penso nos fantasmas que, muitas vezes, entram pela nossa casa e tomam assento na nossa vida. Penso no quanto a lucidez pode ser dura e triste. Penso nas vezes em que queremos apenas esquecer. Porque há um peso insuportável nisso tudo, principalmente quando lembramos que somos só um sopro, um descuido, um até breve. Um fragmento na memória desmemoriada do tempo.

Por um momento tive inveja do escultor sem memória e sem nome.

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Foto: J. Finatto.
Da série: visite Passo dos Ausentes antes que acabe.