terça-feira, 6 de setembro de 2016

Taça de café, pão com manteiga e cinema

Jorge Finatto

Cartaz do filme
 
Olho a chuva pela janela do café da praça enquanto bebo a inefável taça de café com leite acompanhada de pão com manteiga. Agora chove grosso aqui em Gramado, abriram-se as torneiras do céu. É setembro e isto é sempre assim, fim de inverno.
 
Acabou no sábado o Festival de Cinema de Gramado. Tinha me programado para assistir filmes do Uruguai, Argentina, Chile e Cuba. Comprei os ingressos. (A chuva engrossou mais ainda.) Acabei indo ver o cubano Espejuelos Oscuros (óculos escuros, ou, numa outra acepção, armadilha, chamariz, ardil, trampa obscura), um filme muito interessante.

Escrito e dirigido pela jovem diretora Jessica Rodríguez, a história trata de uma mulher cega que mora numa casa isolada nas cercanias de Havana. Sozinha, ela tem apenas a companhia de um gato. Até o dia em que vê a residência invadida por um criminoso fugitivo do presídio. Para defender-se da indesejada visita, ela passa a contar-lhe histórias.
 
Espécie de Sherazade de As Mil e Uma Noites, distrai seu interlocutor com três casos, três sub-histórias em que os atores são os mesmos da trama principal. O recurso narrativo é bastante criativo, sendo que os três relatos contêm elementos da história cubana contemporânea.
 
Do território da imaginação ela traz histórias que vão tecer a teia deste inusitado encontro. O desfecho disso tudo é surpreendente. Os atores Laura de la Uz e Luis Alberto García são muito bons.
 
O filme não ganhou nenhum prêmio no festival, mas tem substância e mérito. A começar por ser um filme cubano que não fica restrito ao elogio da Revolução de 1959, seus personagens e suas conquistas, transformada numa ditadura que já dura (muito dura!) há 57 anos. Pelo contrário, revela até uma certa impaciência e repulsa com bordões revolucionários. Ou estarei vendo coisas?
 
A película tem mais de uma leitura e pretendo vê-la outra vez quando entrar no circuito das salas de Porto Alegre. Creio que o grande escritor e cinéfilo cubano Guillermo Cabrera Infante (presente no blog) gostaria do filme.

Pois este foi o único longa-metragem que assisti. Tive de viajar logo no segundo dia e não pude acompanhar  mais nada. Os outros ingressos ficaram na gaveta, não deu tempo sequer de oferecê-los a alguém.
 
Escrevo essas linhas na tela do celular, novo brinquedo que me dei. Não utilizei o Word (deverei fazê-lo em breve). Escrevi com a canetinha que vem acoplada no aparelho, servindo a tela do celular como bloco de anotações. Mas não vou aposentar o calepino nem a caneta de tinta. Ainda sou um dinossauro da Era de Gutenberg.

Conversa entre pedras na rua.

- O planeta está lotado?
- Não, existe espaço pra todo mundo. Mas os donos de tudo cobram alugueres cada vez mais impossíveis.

sábado, 3 de setembro de 2016

Ó tu, que vens de longe...

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

O LADO BOM da vida é que estamos sempre redescobrindo o mundo. Quando o coração desiludido pensa que já viu tudo, nada mais havendo que mereça um olhar, eis que algo ressurge da sombra, e é como a chuva fresca sobre a terra no estio.
 
Estava garimpando na estante do escritório quando encontrei o volume de poesias completas do jornalista e poeta Alceu Wamosy, que não lia há muitos anos. Peguei-o.

photo: Alceu Wamosy

Um dos grandes bardos do Rio Grande do Sul, nascido em Uruguaiana (fronteira com a Argentina) em 14 de fevereiro de 1895, deixou-nos um belo legado literário nos seus escassos 28 anos de vida.
 
Morreu em decorrência de um ferimento a bala em 3 de setembro de 1923, na batalha de Poncho verde, em Dom Pedrito, durante a Revolução de 1923. A morte ocorreria poucos dias depois, em Santana do Livramento (fronteira com o Uruguai), em 13 de setembro daquele ano. 
 
Releio agora seus poemas com o mesmo encanto da vez primeira. O Alceu simbolista que colheu, em sua breve e bela obra*, ecos do parnasianismo, construindo poemas de delicada e profunda extração, atento à métrica, ao ritmo, à rima, sem nunca renunciar ao sentimento. Esta disciplina da composição é, como se sabe, muito difícil.
 
Em Alceu Wamosy, jovem e iluminado vate, a emoção nunca sai ferida no embate com a engenharia do verso. Antes, completam-se. Coisa rara.
 
A seguir, o soneto Duas Almas, o mais conhecido de sua lavra, porta de entrada para a poesia lírica e universal de Alceu Wamosy. Entre os admiradores do poeta, podemos lembrar o maestro soberano e também poeta (de lindas letras musicais e outros textos) Antonio Carlos Jobim.
 
Duas Almas
                      A Coelho da Costa
 
Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...
 
A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.
 
E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!
 
Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...
 
___________
 
Poema extraído do livro Alceu Wamosy, Poesia Completa. Edipucrs, Instituto Estadual do Livro, Alves Editores. Coleção Memória, introdução de Cícero Lopes. Porto Alegre, 1994.

*Escreveu três livros: Flâmulas, Na Terra Virgem e Coroa de Sonho.
 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Setembro em prelúdio

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, 30.8.2016
 
É setembro, raro leitor (se é que você está mesmo aí do outro lado. Os tucanos, a julgar pelas caras e bocas, acham que sim).
 
É setembro e o jardim começa a florir e a cheirar seus cheiros de primavera. Eu sempre sonhei ter uma casa com um jardim para cultivar e admirar. Sei bem que toda ideia de propriedade, nesta vida, é uma abstração. Ninguém é dono de nada. Só os tolos.
 
Um dia comprei uma casa. Com grande sacrifício, como acontece com as pessoas que têm a ventura de ter um trabalho e a garantia do salário no fim do mês (uma graça divina, neste tempo em que 12 milhões de brasileiros estão tragicamente desempregados).
 
A casa tinha um jardim. Um sonho realizado. Os sonhos sempre precisam de outras pessoas que nos ajudam a torná-los realidade.

O mais bonito foi a forma como o casal proprietário do imóvel nos fez a transmissão. Na verdade, mais que a casa, nos entregaram o sentimento que nela viveram ao longo de anos.
 
Numa carta dentro da pasta com os documentos, contaram o quanto tinham sido felizes ali. Num anexo, relacionaram todas as plantas e flores que haviam cultivado, com os nomes de cada uma e informações sobre como mantê-las. Disseram esperar, sinceramente, que fôssemos tão felizes quanto eles naquele ambiente.
 
Não foi uma simples compra e venda. Foi uma relação espiritualizada entre pessoas que sabem que tudo é transitório. Um dia transmitiremos nossos bens a outros, nos desfazendo de tudo.

Sairemos da vida tão nus como quando nela entramos. Despidos de toda matéria e vaidade. Levaremos talvez a recordação de um jardim e de uma casa que, por certo tempo, cultivamos e amamos.
 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Deve ser primavera

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, 25.8.2016

DEVE SER a chegada da primavera. E com ela os ares de um novo país.
 
Devem ser os primeiros sinais, quase uma promessa, de um setembro em flor com sua luz à flor da pele e da alma. Renasceremos do fundo das trevas.

Deve ser o avesso do ódio e do sectarismo.
 
Deve ser a urgente necessidade de transformação da vida ante o insuportável asco provocado pela podridão dos últimos anos.
 
Deve ser o cansaço absoluto diante do cinismo e da hipocrisia postos em palanque, todos os palanques, da nação.
 
Deve ser a réstia de esperança que insiste em brotar no coração. A teimosia do sentimento sobre a indiferença, da sinceridade sobre a mentira, da vida sobre o sofrimento.
 
Deve ser porque os pássaros voltaram a cantar e a comer bananas na sacada do escritório, entre eles os plumiluminosos tucanos. Regressaram após sentida ausência para reafirmar o milagre da existência.

Devem ser essas passagens secretas que atravessam o invisível para um bosque de silêncio e paz.

Deve ser essa luz amiga a magoar a escuridão.
 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Por quem choras, Maria Filipa?

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto. Amsterdam
 

Por quem choras, Maria Filipa?

Quem mastigou teu coração e depois cuspiu no fundo das águas?

Estás sentada ainda à beira do canal, na tarde de outono, em Amsterdam?

Me olhaste com os olhos mais tristes do mundo. Passageiro efêmero no barco casual, numa cidade distante e povoada de ausência, eu nada fiz naquela hora.

Eu estava de passagem entre um cais e outro, um canal e outro, um deserto e outro.
 
Devia ter me jogado nas águas turvas da tarde de domingo. Nada era mais importante do que ir ao teu encontro.

photo: j.finatto.

Devia ter ficado o resto do dia contigo, em silêncio, ali naquele banco, sem nada esperar. Exceto talvez dizer e receber um pouco de consolo.

A cara de anjo, o capuz azul da solidão, os olhos mais tristes do mundo, me olhaste.
 
Da minha solidão eu te acenei.
 
Foi tudo que fiz, um gesto na garoa fina. Por um instante tuas lágrimas diminuíram e pude perceber que teus olhos me seguiram. Depois tua cabeça caiu sobre o colo outra vez, onde as mãos pálidas repousavam.

O barco sumiu sob as pontes atravessadas pelos ventos de novembro. Eu dentro dele.
 
Entre dois cais, entre dois nadas.
 
photo: j.finatto
 
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Texto revisto, publicado antes em 16 de outubro, 2012.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A música espiritual de Myriam Alter

Jorge Finatto
 
Myriam Alter*

FAZ ALGUNS ANOS  encontrei o disco Where is there (2007) da compositora e pianista belga Myriam Alter. Desde então está entre meus álbuns favoritos. Não me canso de ouvir. Parece que as músicas nunca são as mesmas.

Trata-se de artista de talento original e brilhante. Há algo de espiritual e misterioso em sua obra. As melodias dialogam com a interioridade de quem as ouve.
 
As músicas de Myriam são refinadas, líricas e sedutoras ao mesmo tempo. Com elas viajamos por desconhecidas esferas e para dentro de nós mesmos. O jazz se faz presente em sua arte, mas existem outras influências.

Há uma aura de estranhamento nessas adoráveis e por vezes hipnóticas composições. Piano, contrabaixo acústico, sax, acordeom, flauta, bateria, entre outros, criam uma  infinita dança de notas que se entrelaçam no ar.
 
A artista não produz em grande quantidade, no que faz muito bem. Ao contrário, prima pela qualidade. No site oficial encontrei seis discos. No youtube há peças de tirar o fôlego, como as dos discos If (2002) e CrossWays (2015). A inspiração e a construção altamente elaborada andam juntas em seu trabalho.

Não sei onde Myriam Alter vai buscar seus sons de diamantes e galáxias distantes. É um segredo. Mas o que importa é que, no retorno, ela nos entrega o melhor e mais profundo de sua viagem às estrelas e ao fundo do coração.

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Myriam Alter, site oficial:
http://www.myriamalter.com/
Myriam Alter, "If":
https://www.youtube.com/watch?v=-s5HNoooXEA 
*Myriam Alter: Cross Ways
http://jazzdagama.com/cds/myriam-alter-cross-ways/ 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O calepino de Dante

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto. Venezia


O mundo é muito pequeno, o mundo é um suspiro.
 
O VENTO geme como um bicho malferido nas esquinas, sacode as placas na rua, portas, janelas, enlouquece os ponteiros do relógio da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes.

Um lamento emana do interior do sino da igreja da praça.

Um cenário de filme de assombração. Aqui acontecem coisas do outro mundo.
 
Os fantasmas somos nós, habitantes dessas terras frias e invisíveis situadas nos Campos de Cima do Esquecimento.

Lá fora, a chuva molha a solidão da rua. Somos peixes no aquário, nadando de um lado para outro dentro de casa, tentando enxergar, sentir alguma coisa nesse enorme vazio. Peixes à procura de qualquer coisa mais que silêncio e oblívio. Agora que o inverno chegou.
 
Vivemos nessas remotas e íngremes alturas, no sul do continente, entre inóspitas nuvens.

Este lugar é a última estação antes do fim do mundo.

photo: jfinatto. Venezia

Os poetas sabem do que eu falo, não digo coisas inaugurais (quem me dera). Digo o trivial da humana condição e não mais do que isso: quireras.

Neste território pequenino existem coisas de espantar.

Um dia, não me lembro quando, andava eu numa fondamenta (caminho que vai à beira de um canal) distante e perdida de Veneza. Caminhava do meu jeito naquela cidade, isto é, olhando as coisas de perto por causa da difícil visão (óculos fundo de garrafa).

Naquela cidade tudo é insondável, úmido labirinto, e eu, quase cego, gosto de me perder em labirintos.

As janelas das casas daquela fondamenta, onde cheguei não sei como, tinham flores e cordas com roupas estendidas secando, mas não havia ninguém morando nelas. Uma doideira. O vento percorria o canal assobiando uma canção terna e delicada, sem começo nem fim.

Descobri, então, o vetusto casarão de uma livraria abandonada. A livraria ficava mais ou menos perto da Ponte de Rialto, no Grande Canal. Entrei lá abrindo uma porta escura e muito pesada, difícil de empurrar.

Canal veneziano. photo: j.finatto

Sentei numa cadeira de couro marrom diante de uma mesa. Ao lado um pequeno vitral amarelo e azul deixava penetrar um sopro de luz solar. Estantes repletas de livros se projetavam para o interior.

Descobri sobre a mesa um calepino de capa lilás.

Abri o caderno, quase encostando os olhos nele. Na terceira página estava escrito: Dante Alighieri, 1319. Li sem fôlego as primeiras anotações do mestre florentino.

Só então percebi do que se tratava, o tesouro que tinha em mãos: eram esboços de poemas misturados a notas de diário, rascunhos de cartas e pequenos desenhos.

A música que o vento tocava lá fora, me dei conta quase sem poder acreditar, era a Valsa dos Ausentes, de Pixinguinha.

O mundo é muito pequeno, o mundo é um suspiro.

Antes de sair da estranha livraria, guardei o calepino de Dante no fundo do meu alforje. Desde aquele insólito evento nunca mais nos separamos. Nunca antes contei esta história.

(Às vezes me pergunto se isso de fato aconteceu ou terá sido um sonho, o espírito aturdido por esses ventos andarilhos de Passo dos Ausentes, nas longas e inóspitas madrugadas.)

O calepino de Dante é o consolo que trago na vida. Quando o leio, como nessa hora longínqua, sentado na cadeira de palha diante da mesa do escritório, tomando café preto com biscoitos de polvilho, esqueço tudo de ruim.

O medo de morrer não encontra asilo nessa hora quase solene.
 
Nem tudo é solitude nesses caminhos.

Passagens luminosas habitam o breu.

Tem orquídeas e magnólias povoando o jardim lá fora. Ramos novos brotam entre as folhas secas.

Um tempo de busca-vida, este.

Esta página, notícia do invisível.
 
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Texto revisto, publicado anteriormente em 10/12/12.
 

domingo, 14 de agosto de 2016

A sombra da esfinge

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, 14.8.2016
 

COMO ELE NUNCA teve pai para amar, sempre lhe pareceu que a coisa mais em falta no mundo não é dinheiro, nem ouro, nem diamante, nem qualquer outra, mas um abraço de pai.

Quando menino, era difícil explicar aquela ausência para os outros de sua idade. Na rua e na escola, as pessoas faziam perguntas, cara de admiração. Não ter pai era mesmo que não ter um braço, uma perna.

A sombra da esfinge o perseguiu pela vida. No dia dos pais, aniversários, natais, páscoas, reuniões da escola, fins de semana, noites e dias sem fim. A falta projetou-se nos seus sonhos e pesadelos.

Um dia descobriu que muitas outras casas também não tinham a figura misteriosa. Só que muita gente escondia isso. Estranho: escondiam um ser que, na realidade, não existia. Ocultavam o mito. Alguns possuíam apenas uma deprimente figura paterna, que mais atrapalha que ajuda.

Os sem pai já não eram exceção. Talvez fossem maioria.

Ficou nele a idéia de que as mulheres, e não os homens, fazem o mundo funcionar. São pais e mães de seus filhos.

Na verdade não chegava a ser um consolo, mas a consciência de uma espécie de mutilação social. Sim, falta o pai afetivo em grande parte das famílias brasileiras. Às vezes, havendo pai, é como se não existisse, por falta de aptidão para o papel.

Por causa disso, muita gente é seqüelada, inclusive eu - ele pensa enquanto caminha com o filho pela mão, na praça do bairro, na tarde de domingo.
 
Pra ele, agora, todo dia é dia dos pais.
 
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Texto revisto, publicado em 16 de maio, 2013. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Livro da solidão (parte I)

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Solidão
não é
uma ilha

solidão
são muitas
ilhas

solidão
amarela
do girassol

solidão
verde
da couve-flor

solidão
indecente
do corpo

solidão
unânime
dos juízes

solidão
na fila
do amor

solidão
na fila
do pão

solidão
na fila
do emprego

solidão
na fila
da justiça

solidão
na fila
da fila

solidão
decomposta
do morto

solidão
batom vermelho
da garota de programa

solidão
manta de lã
na mansarda

solidão
mais real
do presídio

solidão
do radinho
de pilha

solidão
atrás
da porta

solidão
atrás
da janela

solidão
atrás
do óculos

solidão
em ascensão
no elevador

solidão
no fundo
do espelho

solidão
na tarde
de inverno

solidão
de quem ficou
na estação

solidão
do avião
sobre o mar

solidão
todas as cores
do domingo

solidão
do espanto
de existir

solidão
de quem diz
tchau

solidão
de quem ouve
adeus
 

domingo, 7 de agosto de 2016

A festa e a realidade

Jorge Finatto

Abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016. foto: Lucy Nicholson, Reuters.¹
A festa de abertura da Olimpíada Rio 2016 encheu os olhos e o coração. Me emocionei várias vezes, como a maioria dos brasileiros. Uma bela síntese do Brasil multirracial e multicultural, criativo, inspirador. O espetáculo mostrou um país rico em sua humanidade, capaz de notáveis realizações.
Ao mesmo tempo, é duro saber que o custo da festa, somado à de encerramento, será de R$ 270 milhões (cerca de 90 milhões de dólares), suportado pelos governos federal e municipal do Rio de Janeiro, conforme divulgado nos órgãos de imprensa.²
A rigor, o Brasil não poderia gastar com a realização dos Jogos Olímpicos neste momento. Poderia, talvez, se não tivesse afundado numa enorme crise provocada por péssima gestão e imensos desvios de dinheiro público com corrupção avassaladora dos últimos anos.

Em nenhuma hipótese, deveria ter assumido dois megaeventos, Copa do Mundo e Olimpíada, em curtíssimo espaço de tempo (2014-2016). Enquanto isso, "faltam recursos" para coisas essenciais. Grande parte dos brasileiros padece sofrimentos intoleráveis. 

As populações do Rio e do Brasil (somos 205 milhões de habitantes) trocariam de bom grado as cores e o brilho dos Jogos Olímpicos por mais saúde, segurança, educação, bem-estar social, emprego, saneamento (a poluição assustadora da Baía de Guanabara é nosso cartão de visitas). A realidade brasileira é desumana.

Evidente que a Olimpíada não é culpada de nada. É apenas um passo errado no momento errado, que encerra um custo altíssimo e espelha uma nação sem rumo.
  
De modo que, junto com lágrimas de emoção, correm lágrimas de tristeza por constatar, mais uma vez, que, depois da festa, a casa voltará à sombra.
 _________ 

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O palhaço fugiu do circo

Jorge Finatto

cena veneziana. Itália. photo: jfinatto
 
O pequeno circo Il sorriso della vita passa por momentos difíceis. Motivo: o palhaço Gilles resolveu abandonar a companhia. 2º Motivo: foi atrás da mulher que o abandonou, a trapezista Lara.

Don Sigofredo de Alcantis noticiou o fato na semana passada, durante reunião da Sociedade Literária, Filosófica, Histórica, Geográfica, Artística, Astronômica, Geológica e Antropofágica de Passo dos Ausentes. Todos ficaram surpresos e abalados com a notícia. A aldeia não será a mesma sem o circo mambembe de lona vermelha, que se aquerenciou por aqui faz cinco anos. As crianças, os velhos, todo mundo ia lá para ver as momices de Gilles, os saltos e a graça de Lara.

A assembleia deliberou enviar pombos-correio às três cidades mais próximas (São Francisco de Paula, Canela e Gramado), solicitando que procurem o palhaço e a trapezista nas ruas, praças e telhados. Se alguém os encontrar, peça que voltem logo a Passo dos Ausentes.

A estrada de chão que nos liga ao resto do mundo está intransitável depois das últimas chuvas de julho. Ninguém pode descer a serra, serpenteando pelas encostas das montanhas do Contraforte dos Capuchinhos, pena de cair em algum dos inúmeros abismos.

Gilles é um palhaço triste. Levou a tristeza para dentro do casamento, deixou a alegria no picadeiro. Lara é leve como o vento e quer alegria na vida. Quer um homem que saiba rir. Como era Gilles quando o conheceu. A tristeza sem nome que ele trouxe da infância tomou conta de seu coração de menino que não cresceu. Tornou-se calado e distante. Lara quer o Gilles que conheceu outrora de volta. Ele não vem. Ela vai embora. O mundo do palhaço desaba. Ele parte à procura da mulher. O circo desce a lona.

Como um abandono leva a outro, a maior atração cultural da nossa aldeia está à beira de nos abandonar. O que será uma tristeza nesse cenário de frio, neblina e ausência.

Volta, Gilles! Volta, Lara! Tragam outra vez o sorriso da vida para nossas vidas!
 

sábado, 30 de julho de 2016

Nara Leão, opinião e arte

Jorge Finatto
 
Nara Leão. fonte: site oficial da artista*

Há muito tempo quero escrever alguma coisa sobre Nara Leão (1942-1989), a quem acompanho desde sempre ouvindo seus discos. Tenho grande estima pela obra que construiu, pela grande arte que legou ao Brasil e ao mundo.

Por alguma razão que não sei bem, toda vez que ponho um disco de Nara para tocar, vivo um instante de emoção e elevação espiritual. A voz linda e a interpretação personalíssima nos dizem que viver vale a pena, que a existência é muito mais bonita do que isto que se vê nos noticiários todos os dias.
 
Toda vez que cantou uma canção, Nara Leão criou uma obra de arte. Na sua voz única e delicada, algo sempre nasce, diferente e melhor. Porque ela fazia um trabalho de recriação quando cantava e tocava seu violão. Uma coisa é a música na voz de outros. Outra, diversa e extremamente refinada, é a que ela nos transmite com seu dom, sua alma e seu sentimento.
 
Da bossa nova ao samba do morro, tudo que cantou foi com absoluta verdade e sensibilidade. Mulher de opinião, corajosa na oposição ao autoritarismo, não deixou de se posicionar contra a ditadura e contra a pequenez das mentes e dos gestos. Talentosa e discreta, avessa a frivolidades, sua presença qualificou e arejou nosso ambiente social e cultural.
 
Nara Leão faz parte de um Brasil em que a arte, a dignidade e a justiça devem ser partilhadas entre todos. Um país que ainda não existe, por certo, mas com o qual sonhamos e pelo qual lutamos inspirados no seu exemplo.
 
___________ 
 
*Nara Leão:
 

terça-feira, 26 de julho de 2016

A arte de Custodio Coimbra

Jorge Finatto
 
foto: Custodio Coimbra. barcos coloridos separados por píer, maré baixa,
São Gonçalo, Rio de Janeiro. Agência O Globo
 
Dizer que Custodio Coimbra é só um fotógrafo comum de imagens do cotidiano seria equívoco. Algo como afirmar que Chopin é apenas um tocador de piano, ignorando que, na verdade, é um gênio do instrumento e da composição.
 
Custodio é um artista que vai além do prosaico. O trabalho que produz tem força estética, conteúdo social, valor documental e, além de tudo, está carregado de poesia.
 
Ele transita numa esfera de delicadas composições visuais, que destacam as verdades imanentes que cada objeto encerra. Quando fotografa, sempre ou quase sempre nasce uma obra de arte.
 
Esta obra concilia, com maestria, denúncia e beleza. Isto ocorre, por exemplo, quando aborda a degradação do meio ambiente. A sua fotografia não nos diz que tudo está perdido, mas recorda que há muito a pensar e fazer para salvar a natureza. 

A alma dos seres e das coisas transparece nas imagens de Custodio Coimbra, aproxima e comove o leitor, retirando-o da indiferença.

foto: Custodio Coimbra. golfinho com lixo na cauda. Agência O Globo
 
Falo estas coisas após ler, na Revista O Globo, encartada na edição dominical (24/7/2016) do jornal, uma matéria sobre o trabalho do grande fotógrafo. Na capa uma bela imagem captada por ele: barcos separados por píer durante maré baixa em São Gonçalo. São dezenas de barquinhos coloridos num fundo escuro. Uma beleza rara.
 
A reportagem (escrita pela jornalista Joana Dale) traz outras fotos e dá conta da produção do artista. Ele trabalha nO Globo desde 1989. Anuncia-se para hoje (26/7), o lançamento de seu livro Guanabara, Espelho do Rio, FGV Editora, com 170 imagens da Baía de Guanabara, abarcando 20 anos de fotografias. Aves, cavalos-marinhos, pescadores, rios, botos-cinza, matas, barcos, poluição, lixo, etc., compõem o belo e inquietante mosaico.

O livro traz textos da jornalista Cristina Chacel, enfocando aspectos históricos, ambientais e culturais. O evento ocorrerá na Folha Seca, centro do Rio
 
A publicação deve chegar às livrarias em agosto. Antes que algum aventureiro lance mão do meu exemplar, já mandei e-mail a minha livraria, solicitando encomenda urgente. 

imagem: Custodio Coimbra. foto aérea de pedras próximas à Ilha do Sol.
divulgação
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Livro reúne 20 anos de imagens:

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Caderno de Abrantes

Jorge Finatto

desenho de Abrantes. Eduardo Salavisa
 
Tratei aqui no blog dos diários gráficos ao abordar trabalhos de Mário Linhares¹ e Eduardo Salavisa², ambos portugueses. Aprecio esses desenhos que captam instantâneos do cotidiano, em pequenos cadernos que os desenhadores levam na mão, no bolso, na bolsa, na mochila, na bicicleta, dentro do chapéu, etc.

Há qualquer coisa de frescura, de fruto recém colhido do pomar cuja imagem surge leve na página e logo conquista a intimidade do leitor.

Para esses desenhadores, desenhar é uma forma de entrar em contato com o mundo, desvelar um momento que, de outro modo, se perderia no relâmpago do instante. São traços que nascem da observação distraidamente atenta do entorno.  Há desenhadores em diversos países, mas no Brasil creio que o gênero ainda é pouco cultivado.

A arte - o desenho é uma de suas faces - responde a um apelo de registrar o efêmero. Os desenhos assim concebidos não têm a objetividade como alvo. Trata-se, antes, de uma visão bastante pessoal e livre do observador. É muito mais um sentimento do que um retrato. Neste olhar particular estão a riqueza e a surpresa das imagens.

O itinerário através do cotidiano é algo que diz muito. Revela uma capacidade de se deixar tocar pela realidade dos lugares e das pessoas que neles habitam. Isto não é pouca coisa, considerando o momento extremamente duro e violento que vivemos, em nível global, com grandes tragédias invadindo as ruas e cerceando nossos passos.

desenho de Abrantes. Eduardo Salavisa

Acabo de receber pelo correio - ainda com cheiro de Portugal - o livro Caderno de Abrantes³, de Eduardo Salavisa. Natural de Lisboa, onde vive e trabalha, Eduardo costuma desenhar em qualquer lugar e circunstância. É autor e organizador de vários livros do gênero, além de participar de exposições, conferências, cursos e encontros enfocando esse tipo de trabalho.

O Caderno de Abrantes resulta de uma residência artística que ele fez naquela cidade em  2015, durante 11 dias. Nesse período perambulou pelas ruas, praças e diversos ambientes, vendo e convivendo com as pessoas naquele universo.

Diz o autor na apresentação: "Quando me convidaram para desenhar Abrantes, cidade onde nunca tinha estado mais que umas horas, pensei: Será que conhecem os meus desenhos? Que sabem que tipo de desenho faço? Saberão que os meus registos não são completamente fidedignos ao observado?... Sabiam e a liberdade era total".

A obra de Eduardo é reveladora não só de recantos de Abrantes como de momentos da vida de seus habitantes. Em formato de livro de bolso, desperta no leitor o desejo de conhecer aqueles cenários. A variedade das cores e das formas é um regalo para os olhos.

Difícil imaginar maneira mais delicada de mostrar uma cidade.

desenho de Abrantes. Eduardo Salavisa
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¹Fernando Pessoa viajando no elétrico em Lisboa:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2016/02/fernando-pessoa-viajando-no-eletrico-em.html  

²Eduardo Salavisa e a viagem no cotidiano:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/11/eduardo-salavisa-e-viagem-no-quotidiano.html

³Caderno de Abrantes. Eduardo Salavisa. Edição da Câmara Municipal de Abrantes. Portugal, 2016.
 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Un lugar llamado Alcalá


 
 
photo: Guillermo Gumiel. Espanha

El Museo Casa Natal de Cervantes, en el marco de la conmemoración del IV Centenario del fallecimiento de Cervantes, os invita a un paseo por Alcalá de Henares basado en las andanzas de Don Quijote de la Mancha.

Todos los sábados hasta el 27 de agosto de 2016, a las 11.00 y 12.30 horas, los asistentes a la ruta recorrerán algunos de los lugares más emblemáticos de Alcalá de Henares vinculados a Miguel de Cervantes, en compañía del protagonista de la novela inmortal del escritor y su fiel escudero.

Don Quijote y Sancho han viajado a través de los tiempos, de aventura en aventura, para llegar finalmente a la ciudad que vio nacer a Cervantes, para descubrir qué es, qué fue y qué será en el futuro, guiando al grupo y contando sus propias andanzas y anécdotas.

FECHAS: sábados hasta el 27 de agosto de 2016 a las 11.00 y 12.30 h. (60 min. duración)

DIRIGIDO A: todos los públicos (los menores deberán ir acompañados por un adulto)

COMPAÑÍA: AlmaViva Teatro (dramaturgia y dirección: César Barló; interpretación: Iria Márquez, Fernando Mercé y Javi Rodenas)

Las entradas a la ruta teatralizada se distribuirán, por riguroso orden de llegada, el mismo día de la actividad desde las 10.30 h. hasta agotar existencias (máximo 2 entradas por persona).

Actividad gratuita. España


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Museo Casa Natal de Cervantes:
http://www.museocasanataldecervantes.org/

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Andante cantabile

Jorge Finatto

photo: jfinatto


Deus me deu muitos vazios para me entreter nessa vida.

Muita gente se queixa do vazio. Eu, pelo contrário, celebro o vazio, as minhas faltas, os meus vagos, hiatos, intervalos, lacunas, pois, graças a eles, estou sempre ocupado na ingente busca de me completar (nunca alcançada).

Se não fossem os vazios, as longas caminhadas pela dúvida e pelos nadas, os dias seriam todos iguais, a realidade seria insuportável mais do que é. Todo artista vive pra tapar buracos na alma.  

O vivente sente um vazio no coração, uma insatisfação de existir. Queria sentir-se pleno. Vai atrás de respostas, vai observar, escutar, interrogar, criar. Nunca encontrará a plenitude. Mas o fato de procurar já o torna alguém neste mundo.
 
Passei uma parte da vida no bosque das estantes. Que é um lugar de auroras, propício a altos voos, território de vidas e histórias inventadas.

Ler é trilhar caminhos a passos de silêncio. Há dias em que monto em meu cavalo invisível e saio a galope ao lado de Sancho e Dom Quixote por estradas de pedra, sombra, luz e sonho.

Pensando bem, só nos livros andamos a salvo por estranhas realidades. Mas não é capricho viver encerrado entre as quatro paredes de um livro, a salvo da vida. Há que sair, construir pontes, encontrar outros viajantes.

Cavalgar pelo oco do mundo em busca de sentidos.
 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O espantalho no milharal

Jorge Finatto
 
photo: j.finatto
 
Se parar de escrever na casa do labirinto, se o silêncio e o medo crescerem ao meu redor como um vasto milharal habitado por estranho espantalho vestido de negro, com grossas lentes nos óculos (que já não ampliam a progressiva e asfixiante pequenez das coisas), esse tal que desistiu do ofício de espantar, sendo ele próprio o contumaz espantado no oblíquo território do viver, se os amigos esquecerem de me visitar nas noites de inverno, se um pássaro soltar o canto no galho da araucária diante da minha janela, se as palavras que escrevi servirem, ao menos, pra distrair o leitor (?) do medonho problema da morte e da irrecusável falta de sentido das coisas, eu sentirei que valeu a pena.

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Araucária vista da janela, Passo dos Ausentes.
Texto revisto, publicado em 13 de abril, 2011.

sábado, 9 de julho de 2016

Arte e transformação

Jorge Finatto

fragmento de Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch (1450-1516).
imagem: Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa¹

As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. Só o amor as pode compreender e manter e mostrar-se justo com elas.²
Rainer Maria Rilke

A arte é uma maneira de suportar e reinventar a nossa passagem pela vida. Através dela temos a oportunidade de ver a recriação do mundo pelos olhos do artista. Chamo de arte todo fazer humano dotado de esforço criativo, senso estético e originalidade.

Um cesto de vime, um tecido rendado, um prato de comida, uma pandorga colorida, um pão caseiro, dependendo do esmero e capricho de seu fazedor, podem ser arte. A arte não é só aquilo que encontramos em museus, galerias, livros e monumentos. Está na vida, está no dia a dia.

Do mais delirante quadro de Hieronymus Bosch ao mais tocante poema de Rilke, o que vemos é o espírito humano se desvelando, mostrando seus interiores, anseios, medos, profundidades, alturas, indo em busca de transcendência e sentido.
 
Estou entre aqueles que acreditam que as grandes obras nascem do sofrimento, e da necessidade de superá-lo. Do confronto da consciência com a finitude. O contraste entre o estar vivo e o estar morto, entre o que é e o que deixa de ser. E o que virá depois de tudo.
 
Aí estão a música, a literatura, o teatro, o cinema, a pintura, a internet, os blogs e todas as manifestações do pensamento e da sensibilidade nos convidando a imaginar, pensar, sentir, mudar.

A arte é uma visão transformadora da vida e do real. A vida é escassa ante nossa sede de plenitude. É necessário mais. Mais silêncio, mais tempo, mais contemplação, mais estar em si, menos performance.

Viver é tudo que temos, e dura um instante. É preciso encontrar um pouco de felicidade naquilo que somos e fazemos. E encontrar outras pessoas nesse caminho.
 
E que a obsessão de perfeição não nos sufoque na hora de criar qualquer coisa, nem nos tolha o olhar na hora de admirar a criação dos outros.
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¹Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal
http://www.museudearteantiga.pt/colecoes/pintura-europeia/tentacoes-de-santo-antao
²Cartas a um jovem poeta. Rainer Maria Rilke. p. 32. Tradução de Paulo Rónai. Editora Globo, 9ª edição, Porto Alegre, 1978.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Mulher preparando café

Jorge Finatto
 
Coral. photo by: Linda Wade. Wikipédia

 
A parede é espessa e fria. O tempo é circular e monótono como um carrossel. Ela escreve  no computador e faz desenhos na caverna moderna onde vive. Em volta do fogo, ela espera. 
 
Às vezes, penetra um vazio na alma, dá vertigem. Então ela bate com o nó dos dedos na parede, como se houvesse uma porta, alguma secreta passagem, como se existisse alguém do outro lado. Precisa acreditar que existe vida. Vida humana, vivente e cálida.
 
Um coração, uma pessoa como ela entre quatro paredes, quatro décadas, um coração partido em fatias igual o dela, como o bolo caseiro sobre a mesa. O silêncio caseiro. 
 
Nuvens de signos saem do teclado pelo espaço, um grito abafado pela solidão. Talvez exista alguém do outro lado, que também espere como ela, e sinta frio, e queira ir embora com ela dessa cidade trágica e deserta, fugir disso tudo, abandonar o mar morto das cavernas urbanas. Pobres corais sofrendo sozinhos e calados.

Enquanto pensa essas coisas, ela prepara o café da noite.
 
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Texto revisto, publicado antes em 25.11.2010
 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Violência na praça

Jorge Finatto
 
porto de Porto Alegre, vista parcial. photo: jfinatto

No sábado (25 de junho), fui ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul, na Praça da Alfândega, para o lançamento de um livro. Não costumo freqüentar o Casco Velho da cidade, perto do porto, por uma razão bastante triste: tenho medo de ser assaltado (o que seria de menos) e levar um tiro de bandidos que atuam na região.

A Praça da Alfândega e suas cercanias constituem cartão-postal da capital do Rio Grande do Sul, lugar histórico, berço social e cultural da cidade. Não por acaso ali estão órgãos importantes como o Margs e a Casa de Cultura Mario Quintana.

Naquelas ruas e passeios vi gente como Mario Quintana, Dyonélio Machado, Caio Fernando Abreu, Rubem Braga, Carlos Reverbel, Paulo Hecker Filho, Jorge Amado, José Cardoso Pires, entre tantos. Na praça se realiza, anualmente, na primavera, a Feira do Livro de Porto Alegre.

No entanto, nos últimos 30 anos o lugar vem se degradando, transformando-se na coisa lamentável que é hoje: uma área desumanizada e muito perigosa.
 
A motorista de táxi que me levou recomendou cuidado na travessia da praça até o museu. Disse que naquele trecho ocorrem diversos assaltos a cada dia, e que isto não espanta mais ninguém.
 
Fiquei uns 50 minutos no Margs, comprei o livro e fui embora. Com receio fiz o percurso de volta até encontrar um táxi numa rua próxima. Policiamento não vi nenhum. Encontrar policiais nas ruas é coisa raríssima em Porto Alegre.

O problema nem é ser despojado dos poucos bens materiais, mas perder a vida, como infelizmente tem acontecido diariamente nas ruas. Porque aqui os bandidos não se contentam mais em subtrair o patrimônio das vítimas, querem também a sua vida.

O mais perverso é que internalizamos o medo e perdemos a liberdade e a alegria de andar pela cidade. Difícil manter a saúde mental num ambiente assim. E desta forma vamos vivendo (?) no Brasil.
 

domingo, 26 de junho de 2016

Só, pero no mucho

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Eu caminhava pela rua na noite de verão. Era numa praia do sul*, soprava uma leve brisa do mar. Muita gente nas ruas, casais de mãos dadas, casas com amplas varandas, pessoas conversando em cadeiras preguiçosas. Eu ia só, dando uma volta no quarteirão. De repente senti um solidão danada em meio a toda aquela beleza. Me deu um nó na garganta. Não sabia o motivo, afinal tudo estava bem.
 
Tive a viva impressão de estar só no universo, mesmo estando cercado de pessoas, num lugar de descanso e convivência. Havia uma paz sólida diante do mar. E eu numa solidão cósmica. Mas não era uma solidão triste. A vontade de chorar que eu sentia não era por estar sozinho. Mas por participar, de alguma maneira, da vida. Simplesmente isso.

Eu pertencia àquele grão de pólen chamado Terra, perdido na bruma de estrelas, com seus seres, suas histórias, seus destinos. Aí pensei nos poetas, músicos e em todos esses que fazem de sua solidão um hino de amor à vida para que outros dela possam participar com mais encanto e verdade. Sim, eu estava vivo.
 
A sensação de pertencer à raça humana me enchia de felicidade. As pessoas com suas diferenças, seus dramas, seus sonhos, seus defeitos, suas culpas, seus mortos, suas incríveis qualidades, suas mãos dadas, sua incontornável solidão.

Então segui caminhando pela rua e depois outra e mais outra e outra. Até que desapareci na paisagem. Feliz, sufocando de felicidade, cheio de gratidão por ser um a mais no cenário, andando numa noite de verão.
 
Infinitamente só e acompanhado, irmão das estrelas, dos que conversam nas varandas, dos que andam de mãos dadas, dos que caminham sozinhos pelas ruas, irmão de todos os seres que respiram no mundo. Parte de tudo isso, membro da grande família das coisas criadas. 
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quinta-feira, 23 de junho de 2016

A felicidade do outro

Jorge Finatto

photo: jfinatto

É impossível ser feliz sozinho.
                                        Antonio Carlos Jobim, na canção Wave 
 
Num café li a seguinte frase, numa placa pendurada na parede (transcrevo de memória): "Torço muito pela felicidade dos outros, porque gente feliz não enche o saco". Não havia menção do nome do autor. De qualquer maneira, vale a pena pensar nisso.

Estou inteiramente de acordo. Sempre quero ver gente feliz por perto. É a melhor coisa. O Maestro Tom Jobim disse tudo no seu verso: É impossível ser feliz sozinho.
 
Quanto mais gente feliz está ao nosso redor, melhor é a vida. A felicidade é um negócio que se espalha, como corrente elétrica pelas lâmpadas da casa escura. A pior coisa é viver perto de pessoas infelizes, sem esperança, negativas e sem alegria. Uma nuvem negra as acompanha. É um fardo difícil de suportar.

Mas quem não tem seu dia infeliz ou seus momentos de tristeza e preocupação? O importante é não deixar que esses sentimentos sejam predominantes. Sentir um pouco de inveja da felicidade alheia é até normal, quando não é demais. Mas não leva a lugar nenhum. A chance de realizar coisas, e ser mais, vivendo perto de pessoas batalhadoras e otimistas é muito maior.

Felicidade pra todos já. Esse é o grande lema. Sem  esquecer as lições de dois filósofos do cotidiano brasileiros. O cantor e compositor Odair José ensinou: "Felicidade não existe; o que existe na vida são momentos felizes". E a atriz Tônia Carrero declarou, quando perguntada se era feliz: "Sou feliz algumas vezes durante o dia". Isto que é sabedoria, não é mesmo?

Fazer algo pela felicidade do outro, no dia a dia, é condição essencial para viver melhor e para um planeta mais feliz. Isso poder ser feito de várias maneiras, a começar por executar com esmero e dedicação o nosso trabalho. É o que faz rodarem para frente as rodas dessa velha carroça a que chamamos mundo.
 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Caderno de inéditos de Van Gogh

Jorge Finatto

A casa amarela (Arles), Van Gogh, Museu Van Gogh, Amsterdam

A grande notícia da última semana foi a descoberta de um caderno com desenhos inéditos do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853 - 1890). O anúncio foi feito há poucos dias pela editora francesa Éditions du Seuil.
 
Encontrado recentemente, a editora não precisou o número de desenhos existente no carnet. Assegurou, no entanto, que sua autenticidade foi verificada por especialistas.

O  conteúdo será publicado em novembro, em vários países, com o título de Vincent Van Gogh, Le brouillard d’Arles, carnet retrouvé (Vincent Van Gogh, A névoa de Arles, caderno reencontrado).
 
Bernard Comment, responsável pela publicação, asseverou que ninguém, além do proprietário, da editora e dele próprio, tinha conhecimento da existência desse material. "É espantoso, fulgurante", declarou à AFP.
 
Morto na miséria aos 37 anos, em Auvers-sur-Oise (França), em 1890, Van Gogh é um dos pintores mais importantes de todos os tempos.  Portrait du Dr. Gachet (1890) atingiu 82,5 milhões de dólares num leilão da Christie’s de Nova Iorque em 1990; em maio do ano passado, L’Allée des Alyscamps foi adquirida por 66 milhões de dólares num outro leilão.

Van Gogh criou uma obra original e maravilhosa, oposto de sua existência repleta de crises psíquicas, afetivas e materiais. A solidão foi o pano de fundo da vida deste artista genial e incompreendido, que legou à humanidade um patrimônio espiritual sem igual na história da pintura.

Sabe-se lá as maravilhas que haverá neste caderno, não só em desenhos como em anotações. Van Gogh escrevia com raro talento e profundidade, conforme se vê de suas numerosas cartas ao irmão Theo.

Para os que amam sua pintura e admiram o ser humano que foi, como eu, a descoberta do caderno tem valor inestimável e é motivo de grande emoção.

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Post com base em informação publicada pelo jornal Público de Portugal: