sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O padeiro feliz

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, Rio Guaíba, Porto Alegre


NUM TEMPO difícil, por volta dos vinte e seis anos, com excesso de trabalho, escassez de salário e pouco prazer na vida, encontrei uma maneira curiosa de me acalmar e tocar o barco em frente: comecei a fazer pão em casa nas horas livres. Ao invés de me amofinar, vestia o avental e me enfiava na cozinha.

Produzia pães doces e salgados, com variadas especiarias e frutas, numa média de dez por semana. Inventava sabores e formas (uns lembravam um submarino, outros, uma estrela, um peixe, uma borboleta, um avião, um tijolo, etc).
 
Uma padaria artesanal e austera, feita no diminuto forno do fogão a gás. Buscava naqueles pães um pouco de inspiração, de fertilidade em meio à grande secura das coisas. Sentia-me feliz com o ofício de fazedor de pães, deliciava-me com o cheiro que impregnava o apartamento. Embrulhava-os com todo cuidado. Dava para pessoas da família e amigos.

A faina padeira durou cerca de um ano. Sublimei sofrimentos, recalques, frustrações e impotências, que assavam no forno junto com a massa. Cada pão era um ato de resistência. Quanto mais bonito e saboroso, melhor eu me sentia. De onde veio tudo isso? Sei lá. Mas funcionou.
 
Não fui um boulanger de mão cheia, longe disso. Mas também não fui um completo impostor na arte de fazer pães. Vi que servia para alguma coisa além de manusear códigos e livros de direito. Constatei que não morreria de fome se não passasse no concurso para juiz. O pão caseiro, ao menos, estava garantido...
 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Meu encontro com Walt Whitman

Jorge Finatto

photo: Walt Whitman, em 1887 . Autor: George C. Cox.
Fonte: Wikipédia.


 
Faz muitos anos morei numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. O lugar se resumia a uma igreja católica e outra protestante, duas escolas, um hospital, algumas ruas e casas e pouca coisa mais. Em volta, a natureza. Em certas tardes, eu saía a andar por estradas de terra, solitárias e com aroma silvestre.
 
Caminhar assim é como andar dentro de si mesmo.

Num dia de sol e frio, eu percorria um desses caminhos. Um córrego prateado corria na margem. Numa curva em frente, entre os altos plátanos que se erguiam nos dois lados da estrada, apareceu um homem. Quando nos cruzamos, ele me cumprimentou, em silêncio, fazendo um aceno de cabeça, que eu retribuí.

Ele tinha uma barba branca abundante, uns olhos pequenos muito azuis, o cabelo na altura dos ombros. Usava um chapéu escuro com largas abas, a face um tanto rosada. Vestia um velho casaco, a camisa abotoada até o pescoço. Trazia um livro na mão esquerda.

Eu tive certeza de que se tratava do poeta norte-americano Walt Whitman (1819 – 1892).

Fiquei orgulhoso e feliz de estar ali, pisando o mesmo chão que o grande Walt.

Seria o espectro do poeta aquele homem que eu vira? Seria alguém muito parecido?

Encontrei-o em outras duas caminhadas. Como da primeira vez, éramos só nós, a estrada verde, a brisa e o rumor do córrego. Fiquei observando o poeta. Ele entrou num desvio lateral da estrada, subiu uns cinquenta metros em direção a uma pequena casa de madeira.

A casa era muito branca e delicada. Sozinha, lá no alto, mostrava cortinas azuis nas janelas abertas, e flores, muitas flores da estação no breve jardim em volta.

Walt entrou pela porta dos fundos e desapareceu.

Uma chaminé de alumínio saía pelo telhado, soltando minúsculos círculos de fumaça.

Pensei em conversar com o poeta da última vez em que o encontrei. Talvez ele parasse um momento num remanso, conversasse um pouco comigo e até dissesse alguns versos de Folhas da Relva, sua obra-prima. Mas não. Achei melhor não incomodar. Afinal, os poetas trabalham enquanto caminham em silêncio por estradas de chão.

Um dia chegou a minha hora de ir embora da cidade pequena.

A vida seguiu, muitos caminhos eu percorri depois. Mas nunca esqueci que, em certas tardes, numa cidadezinha do interior, eu caminhei na mesma estrada por onde andava Walt Whitman.

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Transbordante de Vida
                                                      Walt Whitman

Agora, transbordante de vida, sólido, visível,
No ano quarenta de minha existência, no ano oitenta e três dos Estados,
A alguém que viverá dentro de um século, ou em qualquer número de séculos,
A vós, que ainda não haveis nascido, dedico estes cantos, esforço-me por
alcançar-vos.
Quando lerdes, eu que sou agora visível, hei-de ter-me tornado invisível; então sereis vós, denso e visível, quem lerá os meus poemas, quem se esforçará por compreendê-los,
A imaginar quão felizes seríeis se me fora dado estar ao vosso lado e converter-me em vosso camarada;
Que seja, pois, como se eu estivesse. (Não duvideis demasiadamente que não esteja então ao vosso lado).

Poema extraído de O Livro de Ouro da Poesia dos Estados Unidos, coletânea de poemas organizada por Oswaldino Marques, edição bilíngue, Ediouro, tradução de Manuel Ferreira Santos.
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Texto revisto, publicado no blog em 17, abril, 2010.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Notícias do mundo do farelo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, 27/9/2016
 

UM PASSEIO no jardim pode trazer belas revelações. Resolvi levar comigo a Coruja, ex-máquina fotográfica, quase um ser humano, companheira de andanças e descobertas.
 
Setembro é mês deveras frio em Passo dos Ausentes. Apesar disso, as cores e seivas da primavera não se escondem. Rosas vermelhas, bromélias cor-de-rosa, éricas, orquídeas, agapantos azuis, cerejeiras-do-japão, etc., dão o ar da invulgar beleza.

O ipê-amarelo está lindo de ver. Comecei a fazer algumas fotos dele. Lá pelas tantas, percebi a presença, no seu entorno, do verde colibri. Mas assim como vi, desvi, porque os olhos não andam lá essas coisas e o bichinho voa muito depressa. Quando paira no ar, são restos de segundos.

Só mais tarde constatei que tinha conseguido pescá-lo numa imagem. Pura revelação. Nada é mais importante do que o beija-flor em sua conversa com o ipê.

As coisas aparentemente insignificantes encerram as grandezas do universo. O raro mundo do farelo.
 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A guardiã da alma e do tempo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

A máquina de escrever é a verdadeira máquina do tempo.*
Guillermo Cabrera Infante

 
Contigo aprendi a escutar a chuva.

Foi o que fiz, Maria, ontem, na madrugada de insônia. E me lembrei das tardes antigas em que, no inverno, me contavas histórias na velha casa de madeira e eu adormecia ouvindo a tua voz misturada à voz do vento.

No fundo do pátio, entre os plátanos, passava o arroio, levando o céu e as nuvens no seu espelho, fazendo rumor sobre os seixos, conversando com os canteiros da horta.

O arroio rompia desde o interior verde da mata e levava mundo afora meus barcos de papel e as folhas das árvores.

Nas águas claras a nossa vida se refletia, misturada ao azul do infinito e à cor luminosa dos peixes.

O mundo era cálido e suave como ninho de passarinho.

A casa se enchia com aroma de cravo, mel, açúcar queimado e canela. Quando acordava, sobre a mesa da cozinha estavam os doces que tinhas feito.

Nunca houve um mundo mais terno do que aquele que construíste ao meu redor. Nem existiu abraço mais consolador e verdadeiro ao teu menino.

Tecias com tuas mãos delicadas o ofício de guardiã do tempo e da minha alma.

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* A Ninfa Inconstante, Guillermo Cabrera Infante, p. 16. Coleção Literatura Ibero-Americana, Folha de São Paulo, 2012.
  Texto revisto, publicado no blog, pela primeira vez, em 25 de agosto, 2012.

sábado, 24 de setembro de 2016

A palavra viva de Carlinhos Oliveira

Jorge Finatto

caricatura de José Carlos Oliveira, por Amarildo Lima¹
 
Artistas e intelectuais: é justamente a minha família. Somos uma raça que se destaca em qualquer parte do mundo pela pobreza sem drama, pelo desleixo e pelas pupilas ardentes de curiosidade. Em solidão somos sombrios, sempre ruminando um ódio qualquer ou uma insatisfação que é quase um alimento, mas reunidos somos alegres, informais, carentes de afeto e generosos. (trecho da crônica O lar dos artistas)²                                                     
                                                            José Carlos Oliveira


TENHO COMPRADO livros em sebos (alfarrabistas como se diz em Portugal). Livros que, em geral, estão fora de catálogo ou são de difícil acesso. O que me chama atenção é o bom estado dos volumes que adquiri. Em nenhum deles encontrei uma assinatura, um risco, uma sublinha ou garafunha. As páginas estão limpas como se tivessem saído ontem da gráfica.

Tão diferente dos meus livros, nos quais faço notas a caneta nas páginas, sublinho, coloco a data e o local onde os comprei, se estava chovendo, o meu sentimento naquele quando. Os meus são livros cheios de rastros.

Quero falar de um em especial, dos vários bons livros que encontrei nos sebos. Trata-se de Flanando em Paris, do escritor José Carlos Oliveira (1934-1986). Natural de Vitória, Estado do Espírito Santo, publicou suas crônicas durante muitos anos na imprensa e foi um dos grandes do gênero no Brasil. Pois este livro tem sido um dos meus melhores companheiros ultimamente.

Impressiona como o autor está vivo nestas linhas. A intimidade que estabelece com o leitor, nunca forçada, é admirável. É um diálogo espiritual entre pessoas que estão à vontade numa mesa de café, olhando a vida em volta, com tempo para sentir e conversar.

Vejo, engulo, assimilo, transformo: quando a digestão se completa, estou mais rico. Mas a digestão é lenta, são necessários anos de ruminação. (trecho da crônica O artista sem fome - 1)³

O texto encantador de Carlinhos Oliveira é cálido, cúmplice, convivente. Acompanha o leitor em sua árdua jornada pelo dia, na dura faina de viver. Instiga-o a olhar o mundo e refletir, sem perder a poesia do cotidiano.

Flanando não é um livro de impressões de um turista qualquer pelas ruas de Paris, cidade que amava e onde esteve algumas vezes. São cartões-postais da alma de um artista da palavra de profunda e abrangente sensibilidade.

Pequeno na estatura, vespertino e notívago, escasso em recursos financeiros, mas com enorme poder de observação e registro do humano, escreveu estas páginas memoráveis.

São crônicas solidárias com as pessoas, seus conflitos, alegrias e sofrimentos. O escritor não se conforma com a desumanização e não se dá por vencido, apesar da dureza da existência.

Os textos espelham o olhar de um poeta, filósofo, jornalista, arqueólogo do espírito, antropólogo das esquinas e cafés parisienses. Um observador profundamente brasileiro e ao mesmo tempo universal.

Só posso dizer que é uma leitura venturosa. Flanando em Paris é um coração pulsante e belo no corpo da língua portuguesa.


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¹Blog do Amarildo:
https://amarildocharge.wordpress.com/2011/07/30/jose-carlos-oliveira-caricatura/ 
²Flanando em Paris. José Carlos Oliveira. Seleção, organização e notas por Jason Tércio. Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2005.
³idem.
 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Noites austrais

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
 
O planeta girava em lentos círculos. Aquela rua de chão batido era um grão à deriva no universo. Em certas noites geladas de junho, a conversa avançava pela madrugada. Na cozinha, em volta do fogão a lenha que ardia, cada um contava uma história, um caso real ou inventado. As notícias eram poucas. O rádio, quando pegava alguma estação, fazia  zumbido de mil abelhas. A luz elétrica de tão fraca era uma claridade escura. O menino tinha  vindo ao mundo há cinco, seis anos. Estava vivo contra todas as expectativas devido à saúde frágil. Era bom adormecer no colo da avó ouvindo vozes na velha casa de madeira de pinheiro. Era bom fazer parte daquele retrato perdido no tempo.  Era uma dádiva estar vivo no labirinto. Riscos de estrelas atravessavam o céu, caíam num lugar misterioso ali perto. Sobreviventes na longa noite austral, as pessoas observavam a geada encobrindo a escuridão lá fora. Águas subterrâneas corriam limpas debaixo das casas, afloravam nos poços, encanamentos, regavam secos sentimentos, derrubavam muros de ódio, lavavam a sujeira dos corpos, das almas. Para onde foram aquelas vozes? - pergunta o coração do menino - para onde correram aquelas águas?
 
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Texto revisto, publicado antes em 26 out. 2010.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A primeira manhã

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

Porque há hibiscos
                                 na rua
e a primavera
quase sempre
é sentimento
te ofereço esta manhã

como fantasma
não faço mais
que transitar
nessa obscura rota
do adeus

como se fossem meus
colho teus segredos
que o vento carrega
para onde eu não sei

te ofereço esta manhã
a primeira manhã do mundo
para não esqueceres
o bem que te quero

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Do livro Memorial da vida breve, Jorge Finatto. Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Veneza, la bella signora

Jorge Finatto

photo: jfinatto. Veneza
 
Exposição fotográfica sobre Veneza, no Café Josephina, em Gramado, a partir de 19 de outubro
 
VENEZA é uma mulher madura e encantadora. Não esconde a idade, pelo contrário. O tempo é seu amigo e com ele troca confidências à beira dos canais e do casario antiquíssimo.

 Os anos não lhe roubaram a beleza nem o poder de sedução. Os seus traços inesquecíveis, a sua luz de brilhantes multicoloridos que caem do céu e cobrem as águas. É impossível imaginar o mundo sem ela.

Olhando a vetusta cidade com olhos do coração, o visitante conhecerá um pouco de sua alma luminosa. 
 
Veneza é um das cidades mais visitadas e fotografadas do planeta. Uma cidade de espelhos, segredos e mistérios. Perambular sem pressa e sem itinerário certo por seus tortuosos caminhos (as fondamenta),  à margem dos canais, é essencial para descobrir seu corpo cheio de cálidas surpresas.
 
A pé, numa gôndola ou num vaporetto¹, o passeio é sempre revelador. Não nos cansamos de admirar a arquitetura, as pontes, as paredes de tijolos à vista, as janelas com flores, os telhados, as roupas a secar ao vento, as praças com pessoas de todos os lugares (talvez você dê sorte e encontre um veneziano em meio à multidão...), os longos e estreitos corredores que se perdem nos séculos.

Veneza, Ponte de Rialto (1591). photo: jfinatto
 
Veneza se deixa visitar, olhar, fotografar. Mas não se iluda o viajante: poucos terão acesso a seus aposentos interiores, à sua alma. Estes lugares não são para olhos estrangeiros.
 
Recatada, a bela senhora nunca se deixa desvelar por completo. É preciso saber tocá-la com o olhar, delicadamente. Com a ponta dos dedos da sensibilidade. Como quem toca uma estrela muito frágil fadada a desaparecer (o aumento do nível das águas, embora lento, estaria levando ao afundamento da cidade).

Reuni fotos que fiz em Veneza e organizei uma exposição com o objetivo de compartilhar minhas impressões sobre a querida República Sereníssima. São 17 painéis que estarão à mostra no aconchegante Josephina Café², no coração da cidade de Gramado, a partir do dia 19 de outubro (quarta-feira). Estão todos convidados.


Josephina Café, Gramado

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¹Embarcação típica de Veneza, usada como meio de transporte pelos canais, com motor a diesel, e não mais a vapor como antigamente.
²Josephina Café:
http://www.josephinacafe.com.br/
 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Da fugaz eternidade

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

Antigamente, 
tudo conspirava
a favor da eternidade.

Agora, não tiro
os olhos do prazo
de validade...
 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Taça de café, pão com manteiga e cinema

Jorge Finatto

Cartaz do filme
 
Olho a chuva pela janela do café da praça enquanto bebo a inefável taça de café com leite acompanhada de pão com manteiga. Agora chove grosso aqui em Gramado, abriram-se as torneiras do céu. É setembro e isto é sempre assim, fim de inverno.
 
Acabou no sábado o Festival de Cinema de Gramado. Tinha me programado para assistir filmes do Uruguai, Argentina, Chile e Cuba. Comprei os ingressos. (A chuva engrossou mais ainda.) Acabei indo ver o cubano Espejuelos Oscuros (óculos escuros, ou, numa outra acepção, armadilha, chamariz, ardil, trampa obscura), um filme muito interessante.

Escrito e dirigido pela jovem diretora Jessica Rodríguez, a história trata de uma mulher cega que mora numa casa isolada nas cercanias de Havana. Sozinha, ela tem apenas a companhia de um gato. Até o dia em que vê a residência invadida por um criminoso fugitivo do presídio. Para defender-se da indesejada visita, ela passa a contar-lhe histórias.
 
Espécie de Sherazade de As Mil e Uma Noites, distrai seu interlocutor com três casos, três sub-histórias em que os atores são os mesmos da trama principal. O recurso narrativo é bastante criativo, sendo que os três relatos contêm elementos da história cubana contemporânea.
 
Do território da imaginação ela traz histórias que vão tecer a teia deste inusitado encontro. O desfecho disso tudo é surpreendente. Os atores Laura de la Uz e Luis Alberto García são muito bons.
 
O filme não ganhou nenhum prêmio no festival, mas tem substância e mérito. A começar por ser um filme cubano que não fica restrito ao elogio da Revolução de 1959, seus personagens e suas conquistas, transformada numa ditadura que já dura (muito dura!) há 57 anos. Pelo contrário, revela até uma certa impaciência e repulsa com bordões revolucionários. Ou estarei vendo coisas?
 
A película tem mais de uma leitura e pretendo vê-la outra vez quando entrar no circuito das salas de Porto Alegre. Creio que o grande escritor e cinéfilo cubano Guillermo Cabrera Infante (presente no blog) gostaria do filme.

Pois este foi o único longa-metragem que assisti. Tive de viajar logo no segundo dia e não pude acompanhar  mais nada. Os outros ingressos ficaram na gaveta, não deu tempo sequer de oferecê-los a alguém.
 
Escrevo essas linhas na tela do celular, novo brinquedo que me dei. Não utilizei o Word (deverei fazê-lo em breve). Escrevi com a canetinha que vem acoplada no aparelho, servindo a tela do celular como bloco de anotações. Mas não vou aposentar o calepino nem a caneta de tinta. Ainda sou um dinossauro da Era de Gutenberg.

Conversa entre pedras na rua.

- O planeta está lotado?
- Não, existe espaço pra todo mundo. Mas os donos de tudo cobram alugueres cada vez mais impossíveis.

sábado, 3 de setembro de 2016

Ó tu, que vens de longe...

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

O LADO BOM da vida é que estamos sempre redescobrindo o mundo. Quando o coração desiludido pensa que já viu tudo, nada mais havendo que mereça um olhar, eis que algo ressurge da sombra, e é como a chuva fresca sobre a terra no estio.
 
Estava garimpando na estante do escritório quando encontrei o volume de poesias completas do jornalista e poeta Alceu Wamosy, que não lia há muitos anos. Peguei-o.

photo: Alceu Wamosy

Um dos grandes bardos do Rio Grande do Sul, nascido em Uruguaiana (fronteira com a Argentina) em 14 de fevereiro de 1895, deixou-nos um belo legado literário nos seus escassos 28 anos de vida.
 
Morreu em decorrência de um ferimento a bala em 3 de setembro de 1923, na batalha de Poncho verde, em Dom Pedrito, durante a Revolução de 1923. A morte ocorreria poucos dias depois, em Santana do Livramento (fronteira com o Uruguai), em 13 de setembro daquele ano. 
 
Releio agora seus poemas com o mesmo encanto da vez primeira. O Alceu simbolista que colheu, em sua breve e bela obra*, ecos do parnasianismo, construindo poemas de delicada e profunda extração, atento à métrica, ao ritmo, à rima, sem nunca renunciar ao sentimento. Esta disciplina da composição é, como se sabe, muito difícil.
 
Em Alceu Wamosy, jovem e iluminado vate, a emoção nunca sai ferida no embate com a engenharia do verso. Antes, completam-se. Coisa rara.
 
A seguir, o soneto Duas Almas, o mais conhecido de sua lavra, porta de entrada para a poesia lírica e universal de Alceu Wamosy. Entre os admiradores do poeta, podemos lembrar o maestro soberano e também poeta (de lindas letras musicais e outros textos) Antonio Carlos Jobim.
 
Duas Almas
                      A Coelho da Costa
 
Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...
 
A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.
 
E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!
 
Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...
 
___________
 
Poema extraído do livro Alceu Wamosy, Poesia Completa. Edipucrs, Instituto Estadual do Livro, Alves Editores. Coleção Memória, introdução de Cícero Lopes. Porto Alegre, 1994.

*Escreveu três livros: Flâmulas, Na Terra Virgem e Coroa de Sonho.
 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Setembro em prelúdio

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, 30.8.2016
 
É setembro, raro leitor (se é que você está mesmo aí do outro lado. Os tucanos, a julgar pelas caras e bocas, acham que sim).
 
É setembro e o jardim começa a florir e a cheirar seus cheiros de primavera. Eu sempre sonhei ter uma casa com um jardim para cultivar e admirar. Sei bem que toda ideia de propriedade, nesta vida, é uma abstração. Ninguém é dono de nada. Só os tolos.
 
Um dia comprei uma casa. Com grande sacrifício, como acontece com as pessoas que têm a ventura de ter um trabalho e a garantia do salário no fim do mês (uma graça divina, neste tempo em que 12 milhões de brasileiros estão tragicamente desempregados).
 
A casa tinha um jardim. Um sonho realizado. Os sonhos sempre precisam de outras pessoas que nos ajudam a torná-los realidade.

O mais bonito foi a forma como o casal proprietário do imóvel nos fez a transmissão. Na verdade, mais que a casa, nos entregaram o sentimento que nela viveram ao longo de anos.
 
Numa carta dentro da pasta com os documentos, contaram o quanto tinham sido felizes ali. Num anexo, relacionaram todas as plantas e flores que haviam cultivado, com os nomes de cada uma e informações sobre como mantê-las. Disseram esperar, sinceramente, que fôssemos tão felizes quanto eles naquele ambiente.
 
Não foi uma simples compra e venda. Foi uma relação espiritualizada entre pessoas que sabem que tudo é transitório. Um dia transmitiremos nossos bens a outros, nos desfazendo de tudo.

Sairemos da vida tão nus como quando nela entramos. Despidos de toda matéria e vaidade. Levaremos talvez a recordação de um jardim e de uma casa que, por certo tempo, cultivamos e amamos.
 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Deve ser primavera

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto, 25.8.2016

DEVE SER a chegada da primavera. E com ela os ares de um novo país.
 
Devem ser os primeiros sinais, quase uma promessa, de um setembro em flor com sua luz à flor da pele e da alma. Renasceremos do fundo das trevas.

Deve ser o avesso do ódio e do sectarismo.
 
Deve ser a urgente necessidade de transformação da vida ante o insuportável asco provocado pela podridão dos últimos anos.
 
Deve ser o cansaço absoluto diante do cinismo e da hipocrisia postos em palanque, todos os palanques, da nação.
 
Deve ser a réstia de esperança que insiste em brotar no coração. A teimosia do sentimento sobre a indiferença, da sinceridade sobre a mentira, da vida sobre o sofrimento.
 
Deve ser porque os pássaros voltaram a cantar e a comer bananas na sacada do escritório, entre eles os plumiluminosos tucanos. Regressaram após sentida ausência para reafirmar o milagre da existência.

Devem ser essas passagens secretas que atravessam o invisível para um bosque de silêncio e paz.

Deve ser essa luz amiga a magoar a escuridão.