domingo, 16 de dezembro de 2012

A canção dos bambus

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto

 
Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago
               Matsuo Bashô

A internet perdeu-se entre as nuvens escuras e a chuva desta noite. De modo que não há como trabalhar no blog nem visitar as páginas de costume, nem conhecer novas. Não posso me comunicar com outras estações do cosmos. O mundo, em suma, acabou...

A internet saiu do ar? É preciso recomeçar das cinzas.

Estou fora da rede, estou fora do planeta, isolado no alto da Serra dos Ausentes.

Cheguei de viagem, cheguei tarde, cheguei cansado. Enquanto Porto Alegre ferve perto dos 40ºC, aqui em Passo dos Ausentes faz frio.

Exilado do universo virtual, há que reinventar o tempo.

Volto às páginas impressas do velho e bom Gutenberg. Quem sabe depois vou ligar o vetusto rádio de válvulas coloridas sobre o armário. Por ora, quero ficar quieto nesse distante canto do mundo.

Tempo faz que não vejo os pássaros na varanda do escritório. Sinto falta da silhueta das montanhas, de ouvir o silêncio que vem da profundeza do Vale do Olhar. Estou precisando muito disso. Estive fora, estive longe.

Quero escutar, a essa hora inaugural da solitude, a voz cava e harmoniosa dos sinos de bambu ao redor da casa. A música suave e íntima dos bambus. Com ela percorro caminhos interiores, saio do círculo suicida do relógio e das notícias.

Conheço o rumor das folhas dos plátanos que habita o vento.

Caminho pelo bosque de bambus com os poemas do amigo Matsuo Bashô (1644 - 1694), bardo japonês por quem tenho enorme estima. Diz ele:

Depressa se vai a primavera
Choram os pássaros e há lágrimas
nos olhos dos peixes

É preciso cultivar o nosso jardim espiritual. E nossos peixes, nossos pássaros, nossas primaveras. A vida é este campo de semear, colher e repartir. O pequeno território capaz de produzir bons frutos, belos sentimentos e bons dias.

Preciso de tempo para ouvir a voz imemorial dos bambus no vento.
 
Caminho por uma vereda no meio do bosque. Na margem, o córrego corre entre os seixos, leva dentro de si as folhas e os últimos raios do sol.
 
A noite traz o vento, o vento sopra a canção dos bambus em volta da casa, a chuva chega e molha o coração seco.

Ouçamos Bashô:

Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho
 
Ouvindo a canção dos bambus, experimento a impossível leveza.

Caminho pelo bosque e levo uma rosa na mão.

Vou visitar o amigo Bashô na beira do Lago Biwa, em Otsu, no Japão, em sua cabana atemporal, na qual vive e escreve seus haikais por toda a eternidade.

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Poemas (haikais) do livro O gosto solitário do orvalho, de Matsuo Bashô. Editora Assírio e Alvim, Lisboa, Portugal, fevereiro de 1986. Tradução de Jorge de Sousa Braga.
 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Sangue derramado no asfalto

Jorge Adelar Finatto 

Na viagem de retorno de Porto Alegre, a visão terrível: o corpo de um homem morto, com a cabeça e o tronco para fora do veículo acidentado e o restante preso nas ferragens. A polícia rodoviária com dificuldades para fazer os curiosos saírem do local (sim, tem gente que faz questão de ver o horror).

O trânsito no Brasil está entre os que mais matam no mundo. A principal causa das mortes é o profundo desrespeito à vida. As pessoas se recusam a cumprir a lei. Na concepção deformada de grande parte dos motoristas, as regras foram feitas para os outros, para os trouxas, para os inimigos.

A sociedade brasileira vive dias de intensa submissão à violência, à criminalidade e à falta de apreço pelos valores da convivência. A ausência de limites é um desastre entre nós e o comportamento no trânsito é o retrato dessa situação.

Os outros nada significam, o que conta é eu me dar bem, levar vantagem, chegar na frente, impor-me pela agressividade, mostrar quem está em primeiro lugar. O resto não importa, o bem comum é conversa para babacas.

Impressiona como se aceita a morte violenta. A morte desnecessária, a morte trágica, não causa espanto. Faz parte do cotidiano.

Uma das providências adotadas, logo após acidentes com vítimas fatais, é a lavagem do sangue do local. Há um mal-estar diante da mancha vermelha no asfalto.

É desconfortável ver o sangue derramado no chão. É preciso lavar rápido para rápido esquecer. E não se fala mais nisso.

Faltam agentes de trânsito em número suficiente, faltam meios técnicos adequados para enfrentar o problema.

Mas falta, acima de tudo, educação por parte de quem conduz veículos. E falta, essencialmente, respeito humano.

Se cada motorista resolvesse rever sua atitude, a realidade mudaria em 24h.

Enquanto isso, medidas do governo incentivam a compra de veículos que invadem as vias públicas e aumentam o caos instalado. Não há ruas e estradas suficientes para tantos carros. O transporte coletivo de qualidade é negligenciado. O sistema de saúde - que atua além do limite - é pressionado por doenças resultantes dos acidentes.

Acidentes de trânsito que, na verdade, de acidental muito pouco têm, já que previsíveis e, na maioria dos casos, provocados por pessoas que, a rigor, não poderiam estar dirigindo.

Infelizmente, cada um de nós é uma possível vítima, um número na estatística da violência no trânsito. Resta saber apenas o dia e a hora em que vamos cair.

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jfinatto@terra.com.br

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Giorgio Morandi em Porto Alegre

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Reprodução do estúdio de Morandi na FIC.

Uma luz silenciosa, calma e vertical verte das naturezas-mortas, flores e paisagens do pintor italiano Giorgio Morandi (1890 - 1964). Visitei a exposição do artista na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, que começou em 29 de novembro passado e irá até 24 de fevereiro de 2013.

photo: j.finatto. Vaso di fiori, 1951.

Além da exposição das obras (cerca de 40 pinturas e 15 gravuras), há um espaço reservado à reprodução, em tamanho natural, do estúdio do artista em Bolonha, cidade onde nasceu, viveu, trabalhou, amou e morreu. A estrutura utiliza painéis sobre os quais foram aplicadas as fotografias do ateliê feitas pelo fotógrafo italiano Luigi Ghirri, logo após a morte de Morandi. Há também um documentário do diretor Mario Chemelo sobre o pintor numa das salas.

O universo do artista - um dos principais nomes da pintura italiana do século XX - é habitado por coisas pequenas - vasos, garrafas, copos, flores, açucareiros, algumas casas, uma estrada branca, umas árvores, um pouco de mato. E é através da apreensão do que nessas coisas lhe interessa que a beleza dos objetos e suas cores se revelam aos olhos do observador.

photo: j.finatto. Paesaggio con strada bianca, 1941.

A grandeza da simplicidade dos temas assume relevo na construção do artista.

Só é digno de menção aquilo que participa da vida, parece nos dizer Morandi. Vale a singularidade de cada coisa apropriada pelo olhar humano do criador, não há padrões de importância plástica predeterminados.

No mínimo, no restrito, pode-se encontrar a grata revelação.

O que anima, dá vigor e brilho à vida é o modo de estar no mundo de cada ser e cada coisa na sua existência única e particular.

photo: j.finatto. Natura morta, 1945.

A figura humana não aparece na obra do artista. Isso não significa falta de interesse pelo humano. Uma ausência que terá explicação na alma profunda do criador. É sua maneira pessoal de olhar o mundo.

Giorgio Morandi gosta mesmo das naturezas-mortas e de um pouco de paisagem. Através delas ele consegue tocar a emoção das pessoas.

Aqui se encontra a travessia do invisível, a manifestação do sentimento na transcendência do olhar. É o que interessa.

Não há frieza no seu trabalho, senão uma cálida aproximação do objeto pelo silêncio, pela economia de recursos, pelo afastamento de qualquer excesso. Uma lente poderosa se apropria do objeto a partir do seu interior, deixando de lado o que não é essencial.

O calor das coisas simples. É a imagem que me vem da observação do traço deste artista paciencioso e obstinado. Em arte, chegar ao simples é o supremo desafio, a mais alta esfera, o horizonte sempre buscado que só a poucos se entrega.

Giorgio Morandi consegue penetrar na alma daquilo que pinta e traz à tona a sua intimidade. O artista extrai espírito do inanimado.

photo: Giorgio Morandi, 1960. *
Autor: Antonio Masotti
Acervo: Museu Morandi 

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A exposição Morandi no Brasil tem curadoria de Alessia Masi e Lorenza Selleri.
Museu Morandi, Bolonha, Itália:
http://www.mambo-bologna.org/en/museomorandi/
Fundação Iberê Camargo:
http://www.iberecamargo.org.br/site/default.aspx
* A foto está em forma de painel num corredor da mostra. photo: j.finatto
 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Não escrevemos o primeiro verso

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto


Não escrevemos o primeiro verso
há tudo por ser dito
mas sou teimoso
insisto no jogo

quando desanimares pensa em mim
que não abandonei as ferramentas
que não dei um verso para a eternidade

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Do livro Claridade, Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.

jfinatto@terra.com.br

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O calepino de Dante

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Ponte de Rialto, Veneza.
 

O vento geme como um bicho malferido nas esquinas, sacode placas na rua, portas e janelas, enlouquece os ponteiros do relógio da estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes.

Um lento lamento emana do interior do sino da igreja da praça.

Um cenário de filme de assombração. Aqui acontecem coisas do outro mundo. Os fantasmas somos nós, habitantes dessas terras frias e invisíveis situadas nos Campos de Cima do Esquecimento.

Lá fora, a chuva molha a solidão da rua.  Somos peixes no aquário, nadando de um lado para outro dentro de casa, tentando enxergar, sentir alguma coisa nesse enorme vazio. Peixes à procura de qualquer coisa mais que silêncio e oblívio. Agora que o inverno chegou.

Vivemos nessas remotas e íngremes alturas, no sul do continente, entre inóspitas nuvens.

Este lugar é a última estação antes do fim do mundo.

Os poetas sabem bem o que é isto que eu digo, não falo coisas inaugurais (quem me dera). Digo o trivial da humana vida e não mais do que isso.

Nesse território pequenininho existem coisas de espantar.

Um dia, não me lembro quando se passou o caso, encontrei o calepino de Dante numa rua remota e esquecida de Veneza. Caminhava do meu jeito naquela cidade, olhando as coisas de perto por causa da visão (os óculos fundo de garrafa).

Naquela cidade veneziana tudo é insondável e úmido labirinto e eu, quase cego, gosto de me perder em labirintos.

As janelas das casas daquela fondamenta - rua na beira de um canal - onde cheguei não sei como, tinham flores e cordas com roupas secando, mas não havia ninguém morando nelas. Uma doideira. O vento percorria o canal assobiando uma canção terna e delicada, sem começo nem fim.

O calepino estava sobre a velha mesa de uma livraria abandonada. A livraria ficava mais ou menos perto da Ponte de Rialto, no Grande Canal. Entrei lá abrindo uma porta escura e pesada, muito difícil de abrir.

Sentei numa cadeira de couro marrom diante da mesa, ao lado um pequeno vitral amarelo que deixava penetrar um sopro de sol.

Abri o calepino, quase encostando os olhos nele. Na terceira página estava escrito: Dante Alighieri, 1319. Li sem fôlego as primeiras anotações do mestre florentino.

Só então percebi do que se tratava e do tesouro que tinha em mãos: eram esboços de poemas misturados a notas de diário, rascunhos de cartas e pequenos desenhos.

A música que o vento tocava lá fora, me dei conta, era a Valsa dos Ausentes, de Pixinguinha.

O mundo é muito pequeno, o mundo é um suspiro.

Antes de sair da estranha livraria, guardei o calepino de Dante no fundo do meu alforje. Desde aquele difícil evento nunca mais nos separamos. Nunca antes contei essa história. (Às vezes me pergunto se de fato aconteceu ou terá sido um sonho meu, aturdido por esses ventos do fim do mundo.)

O calepino de Dante é o consolo que trago. Quando o leio, como nessa hora longínqua, sentado na cadeira de palha da mesa da cozinha, tomando café preto com biscoitos de polvilho, esqueço tudo de ruim.
 
O medo de morrer não encontra lugar nessa hora solene.

Nem tudo são solitudes, então me dou conta. Passagens luminosas habitam o breu.

Tem orquídeas e magnólias povoando os jardins em junho. Os ramos brotam entre os secos galhos da memória.

É um tempo de busca-vida, esse.

Um texto, notícia do invisível.
 

sábado, 8 de dezembro de 2012

A arte das ruas

Jorge Adelar Finatto
 

Grafite do artista britânico Banksy
 
 
A arte do grafite tem sido injustamente atacada por gente que nada entende do riscado, literalmente. Primeiro, é preciso desarmar o espírito e querer ver, antes de botar tudo no mesmo saco e jogar no lixo.
 
Não gosto da riscalhada gratuita e grosseira que enfeia, quando não danifica, monumentos, muros e paredes da cidade. Esse tipo de coisa gera um enorme vazio. Parece vir de pessoas que não têm o que dizer e que nunca se ocuparam em aprender a desenhar sequer um ovo.
 
Quer dizer, poluem visualmente o espaço urbano da mesma forma que os milhares e milhares de letreiros e placas publicitárias espalhados por todo lugar. Um desastre para os olhos e o coração.

O grafite como manifestação artística é outra coisa. São imagens e textos que embelezam a paisagem adversa da cidade, nos animam, nos fazem pensar, emocionam.

A arte do grafite é transitória e perecível por natureza. A constante exposição ao tempo, sol, vento, chuva, se encarrega de desgastar as obras até apagá-las. Não raro o desaparecimento das imagens se dá pelas mãos de quem não aprova essas intervenções.
 
Já escrevi sobre como descobri o trabalho de Basquiat* e como passei a admirá-lo. Os traços de seus grafites ganharam museus e galerias, em outros suportes. Se estivesse vivo, provavelmente continuaria fazendo pinturas nas ruas de Nova York, onde construiu-se como artista.
 
Grafite de Banksy
 
Com o tempo passei a conhecer artistas do grafite também no Brasil, que iluminam o cenário áspero e sombrio das ruas com suas criações.

Alguns desses artistas são hoje requisitados no mundo todo para imprimir seus trabalhos em ruas e prédios públicos e privados.
 
É preciso discernir o que é riscalhada do que é a arte do grafite. O grafite artístico compreende intervenções através da pintura, literatura, humor, filosofia, política e outras. Não desfigura o ambiente, pelo contrário, humaniza-o.
 
Trata-se de uma resposta à insuportável solidão dessas babilônias de concreto, vidro, asfalto, veículos, perigo e medo que nos cercam. Um grito contra a indiferença.
 
Os administradores devem continuar destinando espaços a esses artistas, como se faz atualmente em algumas cidades do Brasil e em diversos países. É uma maneira de abrir janelas nos muros, paredes e paredões opressivos para que através delas entre um pouco de luz, beleza, cor e sentido.

Banksy
 
 
Grafite de Banksy**
 

Estou lendo o livro Banksy, Guerra e Spray, que acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Intrínseca. É uma leitura interessante sobre a experiência deste artista de rua inglês. Ele expõe sua visão acerca da arte do grafite, dos percalços, da afirmação. O seu trabalho reúne imagens poéticas, crítica social, política e costumes e traz um olhar atento à desumanização em que vivemos. Ao mesmo tempo, tem humor, ironia, lirismo e delicadeza, como demonstram as obras aqui reproduzidas.
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Fora do poema tudo é caos

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto
 
 
Esta frase - fora do poema tudo é caos - me saiu numa entrevista* ao jornal Zero Hora, de 1984, tendo como entrevistador o jornalista Danilo Ucha. Naquela época  ainda se entrevistavam poetas da aldeia na imprensa local.

Os meios de comunicação se expandiram, mas os espaços para divulgação de arte e literatura, fora do interesse estritamente comercial, diminuíram tanto que tenho dúvida se existem hoje entre nós.

A entrevista versava sobre o lançamento do meu livro Claridade, de poemas, selecionado para publicação dentro do Plano Editorial de 1983, da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Porto Alegre.

Consta, na abertura da matéria, que o autor era um jovem jornalista e poeta de 27 anos. Custo acreditar que já tive essa idade.

O tempo passa, a gente fica mais perdido, mas certas verdades permanecem. Está escrito que o poeta (aquele jovem poeta de 27) estava angustiado e perplexo "diante de uma realidade maluca, atrasada e violenta como a brasileira".

Também está dito que os poemas falavam de uma pessoa que "experimentou na consciência e na pele a dolorosa sensação de viver uma realidade sem perspectivas. Onde o indivíduo se sente arrastado pela opressão e sonhar é quase proibido. Onde viver se tornou a maior transgressão".

Nos poemas, apesar disso, "constata-se a convivência mais harmoniosa entre linguagem e vida. O mundo silencioso onde o real e o imaginário caminham juntos. Há uma integração profunda com a aventura humana. A palavra não salvará o homem, mas será sua projeção e seu espelho. Uma espécie de testemunha de seu próprio destino".

O poeta "trabalha com o poema numa região de luz, sem concessões ao desespero e à morte, acredita na força das coisas belas, na energia positiva das pessoas capaz de gerar zonas de intensa verdade e esperança.

"A fé na existência e no amor sobressai-se como o caminho destinado a vencer o escuro e a dor. O poder transcendente da vida sobre a morte, através da dimensão do amor, transforma e eleva".

Conclui o bardo de 27: "Nunca fiz literatura pelo simples prazer de escrever, ela surgiu na minha vida como uma necessidade inarredável, quase tão vital como respirar. Eu até preferiria viver sem escrever. O grande Manuel Bandeira disse certa vez que só se sentia seguro no chão da poesia. Eu sinto isso. Fora do poema o mundo é algo incompreensível e muitas vezes insuportável. É preciso criar tudo de novo, começar a vida das cinzas, renascer. Fora do poema tudo é caos".

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*Entrevista publicada no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 13.4.1984. A matéria foi feita pelo jornalista Danilo Ucha. 
 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Cuando Dios hizo la luz

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto. Colonia del Sacramento, Uruguai.
 
Cuando Dios hizo la luz, yo ya debía tres meses
(Quando Deus fez a luz, eu já devia três meses)
 
 
A maneira espirituosa e bem-humorada de ver a vida é o que distingue a calma do desespero. Ante uma situação difícil (e elas acabam surgindo), o melhor é manter a serenidade e buscar as possíveis saídas (que sempre existem).

O desespero é um mau conselheiro, timoneiro de um navio enferrujado, carregado de tristeza e melancolia, que navega torto pelo mar afora rumo ao inevitável abismo.
 
O bom humor ajuda a manter a alegria (essa coisa que começamos a perder ao nascer) e, com ela, a saúde.

O espírito leve é um poderoso amigo na luta contra os tombos da condição humana (que, como todos sabemos, nem sempre é fácil).

A frase sobre Deus e a luz (uma pérola) é mais um dos grafites montevideanos que recolhi na minha última viagem ao Uruguai.

Grafites como esse levam a rir e a pensar. Promovem uma reflexão qualificada e irônica (sem ser amarga) sobre a existência. Não querem vender coisa alguma, apenas comunicam algo que acaba influenciando positivamente o nosso estado de espírito.

Comprovam que, mesmo diante do horror e da náusea, sempre podemos encontrar algum encanto, alguma graça, no ato de viver. 

Fiquei olhando o grafite e pensei: é bom estar vivo, andando por essas ruas, sem desesperar em relação ao que vem por aí. Ninguém tem controle sobre isso.

Depois fui até o café da esquina. Abri o livro que tinha comprado do poeta uruguaio Mario Benedetti e nele anotei a frase.

A tarde estava quase completa, agora misturada à garoa que começou a cair (ficou completa com a chegada da taça de café com leite com pão e manteiga e com o início da leitura dos poemas).

Sim, é bom ir vivendo dia a dia, hora a hora, café a café, livro a livro, cada instante a seu modo, como se tivéssemos essa sabedoria, como se nos tocasse viver  a eternidade toda pela frente. Como se não houvesse essa dor.
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O tecido da tua ausência

Jorge Adelar Finatto


photo: j.finatto

 Na estação de trem abandonada de Passo dos Ausentes, ouvi de Juan Niebla, o músico cego, o seguinte depoimento, enquanto bebíamos uma taça de café preto com pão torrado. Pediu-me que tomasse por escrito suas palavras.*

Faz tempo que partiste e não escreveste uma carta sequer (um amigo sempre procura no correio pra mim).

Nem cartão postal, nem telefonema, nem e-mail. Nada. Silêncio absoluto.
 
Eu me prometi que não sentiria mais. Não iria mais até a janela escutar teus passos no vento. Nem te encontraria nos sonhos outra vez. 
 
O trem fantasma chega no meio da madrugada na estação de Passo dos Ausentes. Eu ouço o barulho ritmado das rodas nos trilhos. Às vezes pego o capote, o chapéu e a bengala e vou até lá. Volto sempre de mãos vazias.

photo: j.finatto. Estação da Ausência
 
A tua face vai sumindo da memória dos meus dedos (queria mesmo que fosse assim, como desligar uma lâmpada).

O desespero que sinto não é tanto pela tua ausência: é pelo espectro que hoje eu sou. Perambulo pela casa conversando com minha sombra. O aroma das madressilvas entra através das janelas em novembro como a dizer que vale a pena esperar.

Eu seguro o bandoneom e começo a tocar o Concierto Andaluz de Joaquín Rodrigo, que é um modo de me iluminar e suportar.
 
Faz tempo de ti. Não gosto do silêncio imemorial dessas noites (a falta da tua voz no breu).

O ruído do movimento do ponteiro do relógio em meu pulso é seco e aflitivo.

Ando tanta escuridão, tanta. Às vezes me pego acendendo todas as luzes da casa.
 
Ofereço-te este ensaio no escuro sobre o tecido da ausência.

Ei-lo.  Eis-me.

Um farelo de tua ausência apenas. O mais é o que não se diz. Desmesurado sentimento. Não cabe na folha de papel, na página volátil de um blog.

Viver é maior que qualquer literatura.

Sinto cheiro de terra molhada. Em algum lugar está chovendo agora.

Talvez caminhes sozinha na chuva.

O resto é relâmpago. Conjuro da solidão.

Um raio de luz no ventre da nuvem.

 
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*Juan Niebla é músico em Passo dos Ausentes. Admitido por concurso público em 1943, ocupa o cargo de músico municipal na estação de trem abandonada da cidade, transformada em centro cultural. Toca bandoneom nas terças, quintas, sábados e quando lhe dá na telha. Tem 85 anos, é cego desde os 16 e não aceita a aposentadoria compulsória. Texto ditado por Niebla em 24 de novembro, 2012, na Estação dos Ausentes.

A claridade do coração:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/04/claridade-do-coracao.html
 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Palavra viva

Jorge Adelar Finatto
 

photo: j.finatto. Passo dos Ausentes. Vale do Olhar


Nem todo livro se escreve só por vaidade.

Numa certa medida, a vaidade, sem exageros, faz bem. Como quando nos leva a cuidar melhor de nós e dos outros. É benigna se se traduz em maior zelo pelo modo como fazemos as coisas.

A vaidade, por exemplo, do trabalho bem feito é justa. 

Os melhores textos, creio, surgem a partir de motivações internas profundas, que se impõem movidas pela necessidade de expressar e comunicar.

Escrevemos para entender melhor o mundo e a nós, para sermos ouvidos e, se possível, amados. 
 
Como o músico, o escritor dedilha seu instrumento. Um toco de lápis sobre a folha de papel.

Escrever é um concerto solitário num teatro vazio.

Quem escreve espera que haja alguém do outro lado. Nem sempre há.
 
Meu primeiro contato com a palavra foi através do jornal que o avô lia, ao lado da janela por onde o dia entrava. E também através das cartas que ele escrevia, com a caneta de tinta azul, e daquelas que recebia.

Amar os livros e gostar de escrever é uma coisa. Viver de literatura é outra. No início, achei que como jornalista estaria mais perto da literatura do que em outras profissões. Não era verdade.

A grande carga de trabalho do jornalismo, a intensidade e as preocupações da profissão não permitem maior elaboração do texto. A disponibilidade de espírito para criar fica muito prejudicada. O estresse é constante.

Não consegui em outras profissões o que não alcancei no jornalismo: conciliar trabalho e criação. Descobri que escrever literatura não combina com sobrevivência. Contam-se nos dedos os que conseguem ganhar a vida escrevendo. 

Escrever é uma atividade clandestina, exercida nas horas mortas (na verdade, as mais vivas).  Pelo menos pra mim tem sido assim, falta-me talvez engenho e arte para reunir as coisas.

O ato de escrever é o que traduz melhor a procura de transcendência na minha passagem pela condição humana.

Escrevo com gosto e entusiasmo e nunca fiz disso meio de vida. Sou amador na inteira extensão do termo: amo o que faço e o faço de forma não profissional.
 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Carlos Pena Filho

Jorge Adelar Finatto

 
Os mascarados. Autor: Passarinho. Fonte: site da Prefeitura de Olinda:
www.olinda.pe.gov.br
 
 
Pernambuco tem dado ao Brasil artistas e pensadores da mais alta expressão. O poeta Carlos Pena Filho (1929 - 1960) está entre eles. Trata-se de um senhor artesão do verbo. 
 
Poeta daqueles que devemos ter sempre por perto, com um livro à mão, principalmente nos dias de hoje em que a beleza e a força da palavra estão tão diluídas.
 
Nascido no Recife,  onde morreu muito jovem num desastre de automóvel, Carlos Pena Filho faz parte da linhagem de gente como João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, entre outros pernambucanos que traduzem com requintada arte o modo de ser, sentir, fazer e sonhar do nosso povo.

Um poeta de fina extração. Como todo bom bardo, diz coisas a que o comum dos mortais, por si só, dificilmente tem acesso.
 
As mãos do poeta tornam sensível o invisível, aproximam o remoto, iluminam o sombrio.
 
 A seguir, para despertar o interesse do leitor, um poema da obra Melhores Poemas de Carlos Pena Filho, Global Editora, 4ª edição, São Paulo, 2000.


A mesma rosa amarela

Você tem quase tudo dela,
o mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela,
só não tem o meu amor.

Mas nestes dias de carnaval
para mim, você vai ser ela.
O mesmo perfume, a mesma cor,
a mesma rosa amarela.
Mas não sei o que será
quando chegar a lembrança dela
e de você apenas restar
a mesma rosa amarela,
a mesma rosa amarela.*

E esta perfeita tradução de uma cidade, nos versos do poema Olinda:

Olinda é só para os olhos,
não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

_____________

*Este poema, com música de Capiba, tornou-se conhecido em todo o país, fazendo muito sucesso nas vozes de Maysa, Nélson Gonçalves, Tito Madi e Vanja Orico, entre outros. Informação colhida na obra citada Melhores Poemas.

Olinda, a epifania do olhar:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2010/08/olinda-epifania-do-olhar.html
 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Hay vida antes de la muerte?

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto

 
Em Montevidéu, até os grafites têm espírito. As inscrições públicas nas ruas montevideanas não perdoam a superficialidade. Uma vez lidas, não deixam o caminhante em paz.
 
Pressentindo que seria um absurdo virar simplesmente as costas e ir embora, resolvi fotografar e trazer comigo a inquietante frase.

Hay vida antes de la muerte?

Não bastassem as perplexidades e angústias de cada dia, acrescentei agora mais esta ao meu baú de assombros.

Afinal, haverá mesmo vida antes da morte ou seremos apenas tristes fantoches com a boca de pano rasgada e olhos opacos, às voltas com o anonimato, o desamparo, a solidão?

O que sei é que há dias em que me sinto muito vivo. Parece que a morte ainda não foi inventada. Em outros, contudo, viver não vale um caco colorido de vaso quebrado.

Hay vida antes de la muerte? Si, pero...
 
_________________
 
Texto publicado em 14 de junho, 2011.

domingo, 25 de novembro de 2012

Fanicos e farfalhas

Jorge Adelar Finatto


photo: Wikipédia. Autor: Jon Sullivan
  


Quem viu alguma vez uma joaninha caminhando na página de um livro ou sobre uma folha verde sabe do que estou falando. É talvez o acontecimento mais importante do universo.

Nenhuma literatura e nenhuma filosofia do mundo valem os passos da joaninha.

Só que pouca gente percebe o engenho e a arte por trás da  construção da frágil joaninha.

Existem muitos outros assuntos importantes para se tratar. Um blog não deve ignorar isso.
 
O fato, contudo, é que me encanto com os farelos do mundo. As coisas pequenas me atraem, as outras me enfadam, quando não revoltam.

Encontro claridade nos fanicos da existência.

Tudo que é breve e pequeno se parece com estar vivo e me interessam sobretudo.

Os verdadeiros e últimos sentidos habitam além das aparências da assim chamada realidade.
 
O mundo silencioso das migalhas me é, por isso, muito caro e diz mais que um tratado ontológico.
 
Quando se perde a palavra, é como se perdêssemos a vida.
 
Na arte, ao menos, podemos sonhar um pouco, levitar acima dos mausoléus e crematórios existenciais. Mas sei também que não podemos viver entre as nuvens.

Deve haver um caminho de passagem entre o porão e a copa das estrelas, entre a imensidão da Via Láctea e os passos humildes da joaninha.

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 Foto de joaninha. Fonte: Wikipédia. Autor: Jon Sullivan (PD-PDphoto.org]
  

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Bibliotecas

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto



Tantos livros me assustam
trago uma ignorância milenar
guardada num lugar
claro do meu ser
uma ignorância - ou a sabedoria -
do sol às 7 da manhã


 
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Poema do livro Claridade, co-edição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, Porto Alegre, 1983. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Viver um pássaro

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto. Tucano
 

A ventura de viver na montanha é conviver com as aves. A casa vive cercada desses seres delicados e cantantes. Belas criaturas, habitam os ninhos que constroem nas árvores ou nos buracos dos troncos (como os tucanos). Cantam durante o dia (espantando os males) e, como se não bastasse, podem voar para onde lhes dá na veneta.
 
Deus, quando inventou as aves, estava num dia muito inspirado. A começar pelas cores vivas e contrastantes com que as pintou. O canto nem se fala.

Tem gente que gostaria de ser super-homem, dono da rua, grão-vizir do bairro,  rei do mundo. Eu queria ser pássaro.
 
Tenho grande admiração por essa família que oferece seu canto e sua plumagem sem nada pedir ou esperar em troca. Dão de bom coração o que de graça receberam. 

Das espécies que me visitam na varanda do escritório (onde deixo frutas escolhidas para eles), o tucano é um dos mais coloridos e grandes. Faz sombra e afugenta os pequenos. Não tem um cantar bonito como os outros. É uma voz cava, rascante, amadeirada e sem graça (sem querer ofender o meu amigo).

Costuma pousar no galho diante da janela que dá para o Vale do Olhar. Fica olhando o escritório de perfil, uma figura egípcia.

- O que esse sujeito com óculos de fundo de garrafa está assim me olhando, no meio de pilhas de livros, estantes, quadros e relógios, quando podia estar voando aqui fora? - é a pergunta que leio nos olhos do irmão tucano.

Ora, é essa justamente a indagação que também me faço.

O improvável voo adunco do tucano atravessa o ar colorindo a tarde, percurso entre duas árvores, dois galhos, duas visões de mundo, duas referências no universo.

O rumor de um milagre batendo asas na luz da primavera.

photo: j.finatto
 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Graciliano Ramos, o texto artesanal

Jorge Adelar Finatto
 

Graciliano Ramos


O texto artesanal se constrói palavra por palavra, no tempo certo, sem pressa. Uma vez construído, ele invade as portas e janelas do sentimento. Com ele o leitor degusta cada vocábulo, cada sentido, com prazer e descoberta.
 
A palavra tem sabor e o bom texto desperta a gula do leitor.
 
Isso é o que nos oferecem os bons poetas, os escritores criativos. Não ficamos indiferentes diante de suas delicadas iguarias. Só de olhá-las na vitrine das livrarias sentimos vontade de levá-las conosco.

O texto industrial, produzido para atender determinada demanda de mercado (como um jornal diário), raramente atinge o nível de arte da escrita. É compreensível que assim seja, pela urgência com que é elaborado. É impossível ser brilhante publicando todos os dias.

Escrever de modo artesanal é um exercício de humildade e paciência diante da vida e da sintaxe. Uma luta permanente de superação das prisões que se erguem fora e dentro de nós.

Um exemplo do que considero um texto artesanal de encher os olhos? Qualquer página do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892 - 1953). Conciso, despojado de ornamentos, econômico nos adjetivos, isento de gordura, tudo isso sem ser insosso, capaz de cativar e emocionar o leitor.

A limpeza da expressão, em Graciliano, corresponde a uma ética do fazer literário. O autor se recusa embromar a atenção do leitor. Sabe que cada palavra lida significa tempo raro na vida de quem lê. Um tempo escasso que não volta mais, um tempo de vida vivida que não pode ser desperdiçado.

A palavra, no texto, tem de ser necessária como um pedaço de pão pra matar a fome. A vida é curta, não podemos gastá-la no que é vazio.
 
Vejamos esse pequeno trecho do mestre Graciliano:

"Ave de arribação, não podia arranjar direito as suas histórias, lavá-las, esfregá-las, vesti-las convenientemente, cortar-lhes as unhas, os cabelos e os calos. E talvez julgasse inúteis limpezas excessivas. É possível até que não tivesse conhecimento dessas exigências. Criatura simples e direta, organizava os seus livros com o favor de Deus, evitando as embromações dos escritores comuns, lorotas que só servem para estirar e encarecer o trabalho. Realmente, se ele conseguia narrar um caso em trinta páginas e vendê-lo por dez tostões, por que haveria de espichá-lo em trezentas páginas e explorar o comprador? Domingos Barbosa, novelista consciencioso, só dizia as coisas absolutamente necessárias."*

Graciliano Ramos foi um homem e um escritor inconformado com as injustiças e maldades do mundo. Seus livros nos dão notícia dessa coragem de olhar nos olhos da realidade brasileira e denunciá-la, sem nunca esquecer o indivíduo no meio do redemoinho.

Existem muitas maneiras de escrever. O estilo marcadamente sóbrio de Graciliano, seco segundo alguns, é uma entre tantas possibilidades. É um belo modo de escrever. Não será o único.

Não percebo secura nas linhas do escritor, tão moderno quanto modernos são os bons autores de todas as épocas. A economia no dizer não se confunde com frieza, sequidão, dureza. A palavra flui certa, a página navega segura, nos leva com humanidade e enlevo.

Transparência, clareza, elegância, texto enxuto, no romance, na crônica, nas memórias, nos contos.  Sem derramamentos, sem excessos, um escrever de acordo com o sentido da beleza e da graça, com grande poder de comunicação.

Graciliano, sem jamais pretender ser professoral, é uma aula de como escrever bem e uma das melhores fontes de leitura da língua portuguesa.

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* Viventes das Alagoas. Crônicas. Graciliano Ramos. Rio de Janeiro. Record. 1984. Excerto do texto Um homem de letras.
Entre outras grandes obras do escritor, podemos mencionar São Bernardo (romance), Angústia (romance), Vidas secas (romance), Memórias do cárcere (memórias) e Linhas tortas (crônicas).
Foto: Graciliano Ramos. Fonte: site oficial do escritor:
http://www.graciliano.com.br/
 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A solidão do planeta errante

Jorge Adelar Finatto
 
 
Arte que ilustra como é o planeta errante. Fonte: Observatório Europeu do Sul.

  
Um jovem planeta errante vagueia pelo universo sem ser cativo de nenhuma estrela. Anda por aí sozinho, sem rumo certo, navegando pelas solidões cósmicas.

Normalmente os planetas giram em torno de um astro maior, com grande quantidade de matéria, como o nosso sol, ao qual ficam ligados pela enorme força de atração. 
 
O nome dele é CFBDSIR2149. Foi assim batizado por cientistas franceses e canadenses do Observatório Europeu do Sul. Eles acabam de descobri-lo com o uso de poderosos telescópios situados um no deserto do Atacama, no Chile, e outro no topo do vulcão adormecido Mauna Kea, do Havaí.

Como não está ligado a nenhuma estrela, ele não brilha com luz refletida, sendo identificado somente por telescópios de raios infravermelhos.

Esse tipo de corpo celeste era conhecido apenas na teoria.  Agora, pela primeira vez, foi observado pelos cientistas, que o localizaram a 100 anos-luz da Terra.

Fico pensando na gênese de sua viagem. Talvez, num dia longínquo, resolveu escapar da força descomunal da estrela-mãe, que o aprisionava nos braços superprotetores. Revoltou-se e decidiu fugir pelas estradas do universo. 

- Nem sempre uma estrela sabe ser boa mãe para o seu menino - , ele deve ter pensado. 

Algumas estrelas, digo eu, apegam-se em excesso a seus filhotes. Não os deixam crescer. Não admitem sequer que saiam um pouco fora do quintal estelar para brincar com outros planetinhas. Quer dizer, a vida dos meninos fica difícil. 

Como em toda escolha crucial, essa não deve ter sido nada fácil para o jovem planeta. Se por um lado ele desfruta da indizível alegria de traçar o próprio caminho, por outro não tem mais a mãe e os irmãos pra partilhar a vida. E lá fora, na rua, faz muito frio, é solitário e perigoso.

Certas línguas invejosas (entre os astros também há maledicência) acusam-no de ser não um planeta de verdade, mas uma estrela falhada, ou anã-castanha, isto é, objeto celeste que, por não ter tamanho nem massa suficientes, não consegue deflagrar as explosões termonucleares que fazem brilhar as estrelas bem sucedidas.

Dizem outros que, na melhor das hipóteses, o planetinha não passa de um andarilho, reles vagabundo do universo a navegar sem eira nem beira.
 
Bom mesmo, penso eu, seria vê-lo e respeitá-lo na sua dura verdade de ser em construção. 

Viajar sozinho pelo espaço, sem ligação com uma estrela, pode ser um ato libertário e uma grande aventura. Mas deve ser triste também. Na vida as escolhas não costumam ser fáceis.

Enfim, cada um sabe o doce e o amargo que traz na alma. 
 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Cálido

Jorge Adelar Finatto
 
 
photo: j.finatto
 
 
 
Preciso escrever
o poema
que vai salvar
esse dia

o poema cálido
para atravessar
o tempo difícil
que ainda tenho
pela frente

o poema que vai
expulsar
a vontade
de morrer
que chega
aos poucos
como um felino


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Do livro Memorial da vida breve, Jorge Finatto, Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Tarde de primavera, a luz, os peixes

Jorge Adelar Finatto

photo: j.finatto
 
 
Contarei esta estória suspirando,
Daqui a séculos e séculos em algum outro lugar:
Duas estradas, num bosque, divergiam; e eu
Tomei a que era menos frequentada;
E foi isso a razão de toda a diferença!
                                                             Robert Frost*

O sábado estava com sol amarelo e céu azul, as estradas de chão batido querendo ser caminhadas. Andarilho do fim do mundo, parti na caminhada polifônica** em meio às árvores, perto do riacho. Me misturei na paisagem, longe da cidade, longe dos gritos da realidade.

Foi quando, na beira do córrego, encontrei esses peixes entre pedras e aguapés, numa luz de primavera.
 
A arte da fotografia é uma forma de fazer cessar o tempo. Um modo calado e atento de preservar o momento e adiar o oblívio.

photo: j.finatto

A foto é, de fato, um território revelado que se bate contra a morte.
 
Sou fotógrafo amador e trago comigo o entusiasmo dos velhos fotógrafos em missão de desvelar o oculto que súbito se ilumina.

photo: j.finatto
 
Na linguagem dos peixes, pedi licença e colhi algumas imagens. Valeu a pena. A tarde de sábado foi salva do esquecimento com  esses coloridos habitantes.

photo: j.finatto

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*Poema A estrada que não tomei, do livro Poemas Escolhidos do poeta americano Robert Frost (1874 - 1963). Tradução de Marisa Murray. Editora Lidador Ltda., Rio de Janeiro, 1969.
 ** A caminhada polifônica:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2012/08/o-peixe-da-boca-vermelha.html